21.1.19

Wristwatch - Steve Buissinne.jpg

Foto: Wristwatch - Steve Buissinne

 

Urgente! Temos que viver este instante. O dia deixou de ter 24 h, resume-se a minutos e ouve-se o tiquetaque do relógio, ensurdecedor. O tempo encolheu, é insuficiente. Incontáveis são as solicitações que recebo e quero responder a todas, preciso disso. Ou será que não? Há uma pressão constante e cedo. Quero ter o controlo, mas tudo é incontrolável. Corro, perco o fôlego, mas contínuo, não posso parar. Ou não me deixam? Fico ansiosa porque amanhã já nasce um novo dia.

Quero viver, mas o tempo é tão rápido que nem dou conta. Não quero perder um segundo da vida, mas não consigo senti-la. Também quero tempo para olhar para mim, para fechar os olhos e inspirar profundamente, também quero ter tempo para não pensar em nada, mas não consigo encontrá-lo. A cada segundo sou bombardeada com milhares de informações, não consigo escapar. Sinto-me cansada e farta de ser levada no meio da multidão. Mas não temos que ser todos iguais, apesar de ser difícil de controlar, é possível.

Ligo a televisão e sei, no mesmo instante, que o mundo continua a girar. Fico a saber o que interessa e aquilo que não me traz benefício algum. Desligo-a e torno-me uma ignorante.

Ligo a Internet no meu smartphone, quase imposto, e há um dilúvio de informação. Estamos em permanente contacto com o mundo e com as pessoas. Haverá necessidade? Tudo é uma escolha. Desligo a Internet e o telefone não toca durante dias. A vida acontece por detrás de um ecrã e isso entristece-me. Sou culpada, aceito a sentença.

 

Os álbuns de fotografias, daquelas que temos na casa dos nossos pais com a história da nossa infância, encontram-se em vias de extinção. O rolo da câmara nunca acaba. Esteja onde estiver eu sou a fotógrafa, por completo. Escolho e enquadro o cenário, ajusto a luz, pressiono o botão e olho, repito o processo as vezes que entender. Depois volto a escolher, eu mando no arco-íris. Revelo-a, mas não me encontro numa sala escura, encontro-me no palco principal do espetáculo. E quase no imediato, sem sequer se moverem do local onde estão, todos assistem. Gosto. Sim, e nem sei bem porquê. Preciso disso para ser feliz? É óbvio que não.

Os conhecidos são mais “amigos” do que os amigos que conheço. A lista de “amigos” cresce exponencialmente. O livro permanece aberto e em permanente construção, a sua história nunca terá um ponto final. Mas se sou eu a autora, porque não? Porque há histórias que já não se escrevem fora do livro.

Instante. Histórias. Público. Paredes. 24 h. Todos somos iluminados pelas luzes da ribalta, à espera de um aplauso. Quem somos nós? Somos o amigo daquele amigo a quem nunca demos um abraço.

Queremos ser vistos, ouvidos e comentados no agora. É urgente porque o tempo encolheu. Ganho um sorriso vago, mas o meu ritmo cardíaco não se altera. Passam mais 24 h e tudo se repete, provavelmente.

 

Existem vantagens na urgência do dia-a-dia, é claro que as vejo. Mas as desvantagens perturbam-me. Volto a baixar a cabeça, sou culpada também, sim.

A verdade é que o tiquetaque fica gravado na nossa cabeça. Queremos viver o instante porque não sabemos o que o amanhã nos reserva e, muito menos, o que pode acontecer num instante. A vida é para ser vivida, mas temos que a sentir, não nos podemos esquecer disso. Os sentimentos aquecem-nos a alma, fazem acelerar o coração e trazem-nos sensações inexplicáveis. Gosto de clichés. Simples.

Sozinha, em silêncio e, depois de me ter perdido no tempo, finalizo citando um autor que não é meu “amigo”: “Não tenha pressa, mas não perca tempo.”.

 

Marisa Fernandes

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

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