4.4.11

 

Entrei e sentei-me no último banco. Esperava ver a igreja vazia mas fiquei surpreendida pela quantidade de pessoas que já lá estava. Claro, que tonta, estavam a chegar para a homilia da manhã. Fiquei contrariada, não queria ver gente na igreja, queria entrar nela vazia. Respirei lenta e profundamente e olhei à minha volta.

 

Reparei que todas as cabeças que estavam à minha frente eram brancas ou cinzentas. Deviam estar umas quinze pessoas e todas elas já com idade avançada. Eu tinha entrado naquela igreja por impulso mas pareceu-me que todos os que lá estavam cumpriam uma rotina quotidiana. O esforço que faziam nos seus movimentos lentos e silenciosos deu-me ideia que este era um momento solene no dia deles. Numa fase já cansada da sua vida, estes velhinhos levantavam-se cedo de manhã para orar, conversar com Deus, quem sabe, encará-lo. Tive vontade de ir ter com eles, questioná-los, ter uma resposta imediata sobre tudo o que já sabiam, a que conclusões tinham chegado. Já tinham sido jovens, já tinham corrido, pulado, esperneado, já se tinham sentido fortes, poderosos, já tinham festejado as suas conquistas e inevitavelmente tinham tido desgostos. Queria perceber como é que depois disso tudo conseguiam estar ali tão serenos. Senti que teria tanto para aprender com eles, certamente já tinham atravessado experiências como a minha naquele momento. E depois? Quando tudo passa? Como se fica? Talvez nos riamos das nossas tontices, dos nossos dramas apocalípticos que em suma, resumem-se a experiências de vida, com o passar dos anos até podem parecer anedotas. Certamente estas pessoas não tinham entrado na igreja pelo mesmo motivo que eu. Eu estava perdida, prestes a lançar um ultimato, à procura de uma luz, de uma inspiração, de um milagre, de preferência repentino! Estes velhinhos não me pareciam estar perdidos. Eram frágeis e fortes ao mesmo tempo, andavam curvados mas com um olhar pausado, de quem já sabe muito e também sabe a dimensão do desconhecido. A sua debilidade física dissolvia-se no sussurrar das suas orações, na serenidade que transmitiam. Estes cabelos brancos e prateados que me enfrentavam eram como um desafio. Tinham tido toda a vida para acreditar, questionar, duvidar e até negar. Por fim, todas as equações resultavam em crer, mais do que tudo naquilo que é inexplicável. Contas feitas, depois de ter vivido momentos tão intensos e tão urgentes, tudo passa, com o tempo as importâncias desvanecem e permanece a consciência da condição humana, frágil e irreversível. A vida resume-se ao essencial porque já não se tem tempo para desperdiçar com urgências e precipitações.

 

Saí da igreja mais tranquila. Tinha bebido da sabedoria de quem estava bem mais à minha frente. Os meus problemas permaneciam idênticos mas eu já me posicionava de forma diferente em relação a eles. Aqueles fios prateados com quem tinha partilhado aquela paz tinham-me apontado a fórmula para continuar: paciência. Difícil era pô-la em prática. Percebi que devia aprender com o tempo e dar tempo ao tempo para que me ensinasse a viver. As respostas não são forçadas, elas vêm ter connosco apenas quando estamos preparados para as receber e quando lhes damos espaço para chegar a nós, hoje, amanhã, daqui a quarenta ou sessenta anos.

Desde esse dia, sempre que entro numa igreja reparo inevitavelmente nos cabelos brancos e prateados, silenciosos fios de sabedoria que me mostram o quanto tenho para caminhar.

 

Estefânia Sousa

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 22:05  Comentar


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