30.8.10

 

Cada um de nós é governado pela sua própria vida. E cada um de nós governa a sua própria vida. Se é verdade que há acontecimentos que nos marcam e nos enfraquecem e sobre os quais não temos qualquer controlo, é também verdade que há momentos decisivos nos quais somos confrontados com diferentes opções e fazemos escolhas. Acontece a mim, acontece a ti, acontece a todas as pessoas. Somos todos, simultaneamente, autores, actores e espectadores da nossa história de vida.

 

Usando as cores como analogia, percebo agora que a minha vida começou por ser cor-de-rosa. Durante a minha infância, as paredes do meu viver eram cobertas de diferentes tons de rosa, agradáveis, reconfortantes e enternecedores. Nessa fase, tudo corria bem (pelo menos assim parecia) e havia calma e paz, mas eu era apenas actriz da minha vida, os autores e os espectadores eram outras pessoas.

Doze anos passados o rosa deu lugar ao cinzento que, lentamente, deu lugar ao preto. O mundo transformou-se num lugar confuso, estranho e desconfortável, promotor de solidão, ansiedade, desconfiança, medo e desesperança. Os ventos eram bravos e as tempestades constantes. Cada ano que passava parecia uma década e a turbulência parecia não querer desaparecer. Eu era espectadora da minha vida, os autores e os actores eram outras pessoas.

 

Um dia cheguei à conclusão que não queria continuar a viver no meio de tanta escuridão. Tinha de mudar, fazer alguma coisa. Foi então que reparei que a paleta de cores e o pincel estavam na minha mão, assim como o guião em branco do meu futuro. Não sei há quanto tempo tinha estas ferramentas comigo, mas tinha, e como não queria perder mais tempo comecei a experimentá-las. Colori tudo ao meu redor com um pouco de todas as cores e comecei a escrever o meu futuro. Mandei o meu passado para o passado e trouxe o meu futuro para o presente.

Sou condicionada pelas circunstâncias, como qualquer um de nós, mas não me deixo derrotar. Sou autora, actriz e espectadora da minha história. Dedico-me a ela a cem por cento. Faço-o por mim, mas principalmente, faço-o pelo meu EU futuro. Não quero arrepender-me, quero conquistar. Um dia, quero olhar para trás com satisfação e orgulho, e observar o arco-íris que foi a minha vida.

 

Ana Gomes

 

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10.11.09


 





Provavelmente já tiveram daqueles momentos em que sentiram que vos faltava alguma coisa, sem saber muito bem o quê, ou como apareceram... uma espécie de desconsolo e desalento.

Muitas são as vezes em que procuramos preencher essa "falta" com algo que nos dê prazer ao palato. Infeliz e normalmente o que conseguimos é ingerir uma quantidade extra de açúcar, tendo apenas como consequência o aumento do nosso volume e a inevitabilidade de continuarmos com a mesma sensação de insipidez.

 

O cartão de crédito, nestes momentos, consegue assumir o papel de melhor amigo, enquanto procuramos aquela peça, ou objecto, que nos faça sentir finalmente completos, consolados, satisfeitos e mais tranquilos. E “pumba”… o que conseguimos é diminuir o seu plafond e aumentar as nossas contas. O que fazemos, na realidade, é trazer para casa uma peça de roupa que escondemos no fundo do armário para nunca, mas nunca mais a voltarmos a ver, para evitar sentir a vergonha de termos cedido à tentação de comprar um vestido típico de uma jovem de 18 anos, ainda não afectada pela lei da gravidade, ou da maternidade.

 

De tentativa em tentativa, diligenciamos soluções e resoluções do problema que parece não querer abandonar-nos e se vai tornando mais e mais doloroso, assemelhando-se a um buraco negro.

Esperançados que desta vez - sim desta vez, iremos sossegar a nossa inquietação e desalento, entramos no cabeleireiro com a convicção de que o que necessitamos é uma mudança de visual. E sem saber muito bem o que pretendemos, colocamo-nos nas mãos experientes daquele, ou daquela, que nos vai milagrosamente metamorfosear. Prometem o tal milagre e quietinhos permanecemos até ver o resultado final. De lágrimas nos olhos e um nó na garganta, concluímos que o novo aspecto de caniche tresloucado não nos vai sossegar nem acabar com o infindável desalento.

 

Nada, mas mesmo nada, parece trazer de volta a tranquilidade, o sossego, e apagar a malfadada sensação de desconsolo e de vazio. Mas o quê? O que é que nos pode faltar? Parece que quanto mais pensamos e tentamos contrariar o desalento, mais nos sepultamos e perdidos quedamos.

Sentimo-nos tristinhos e arriscamos uma derradeira tentativa para eliminar os sintomas de uma doença que desconhecemos. E, sem pensar duas vezes, atravessamos a cidade para nos encontrar com aquela pessoa que sempre nos fazia sorrir, de uma maneira ou de outra conseguia preencher espaços vazios e fazer-nos sentir especiais. Mas a insipidez da conversa de nada resulta e mais uma vez a frustração instala-se, o desconforto e o desânimo reinam.

Somos invadidos pela tentação de desistir de procurar, de entender ou de obter uma resposta e começamos a mentalizar-nos que o melhor a fazer é conformar-nos e seguir em frente, mesmo que isso se manifeste na coexistência com o incessante e desconfortável desconsolo.

 

Não! Nem pensar! Não se pode baixar os braços e viver resignado? Não!!! Temos de reclamar o direito a uma vida completa e preenchida com todos os sabores e sensações.

A resposta, a cura, provavelmente estará apenas em descobrir e aceitar o valor que temos, reconhecer as nossas qualidades e admitir os nossos defeitos. Não deixar que a opinião alheia tenha o poder de desanimar, derrubar, desorientar e criar vazios sobre os quais nunca teremos explicações ou soluções.

Não é, com certeza, nas calorias de um bolo, num vestido mais ousado e ridículo, num cabelo semelhante ao pêlo de cão, que encontraremos a segurança e a confiança de que necessitamos para sermos mais firmes e vivermos segundo as nossas convicções.

O facto de aceitarmos que somos como somos e deixarmos de procurar ser outra pessoa, ou encaixar no perfil que os outros nos projectaram, fará com que o tal desconsolo, desalento e desânimo não dêem lugar a impressões incómodas que nos fazem viver desunidos daquilo que verdadeiramente somos.

 

Susana Cabral

 



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