5.4.10
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Aos dez anos já Eduardo sabia o que queria ser quando fosse grande. Queria ser médico e a sua escolha estava fundamentada. O médico, por um lado tinha um conhecimento vasto e científico, o que o atraía e fascinava, e por outro lado utilizava o seu conhecimento para ajudar pessoas, para salvar vidas, o que lhe dava a perspectiva de plena satisfação pessoal.


Aos onze anos já Eduardo entendera que ser médico significaria ser escravo da sua profissão, pois não seria capaz de se negar a ninguém que dele necessitasse. Escolheu então um outro caminho: ser engenheiro. Esperou que tivesse um nível equivalente de conhecimento científico. Já sabia que não teria o envolvimento humano do médico, não ajudaria directamente ninguém, não salvaria vidas. Mas poderia ter uma vida mais sua, mais livre.


E como seria se não conseguisse? E se os seus pais não tivessem como pagar-lhe o curso? Que escolhas lhe restariam?


Conseguiu. E começou a trabalhar. Ao fim de alguns anos tinha já um bom estatuto, com um bom rendimento.


 


Aos trinta e poucos anos começou a sentir a falta do lado humano, de mexer com pessoas, de tentar minorar sofrimentos. Desejou aprender coisas novas, criar, inovar, mas para aliviar as angústias e os medos dos outros.


Com mais alguns anos vividos entendeu que as pessoas eram a matéria que queria, de facto, trabalhar. Porque não percebeu isso mais cedo? Há um tempo para tudo e tudo necessita de ser amadurecido. Queria abandonar os números, as máquinas, os loucos objectivos, o efémero comercial, a falsidade dos sucessos, a mentira das excelências, o artificial do espectáculo encenado para vender um pouco mais, a qualquer preço. Queria dedicar-se às pessoas, às suas necessidades básicas: emoções, afectos, sentimentos, saúde, dignidade, relacionamento, integração.


Mas, como fazer para mudar de vida? Como perder estatuto, como perder rendimento? Como pagar as contas? Como cuidar da família? Como assegurar o futuro dos filhos?


Foi então que Eduardo percebeu que não tinha escolha. O passado definira e condicionara o seu futuro. Eduardo percebeu que se tornara, voluntariamente, num refém. Num refém em busca de liberdade.


 


FCC


 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 22:05  Ver comentários (1) Comentar

9.5.09


 


Reflectido na margem de um riacho é possível ver o céu…

Enquanto as nuvens se movem para Oeste, o riacho corre para Este; conseguimos assistir a um desencontro harmonioso.

 

Fechemos um olho, espreitamos para dentro de um tubo redondo e conseguimos ver o deformar e formar de formas de todas as cores: quadrados verdes dentro de triângulos azuis, hexágonos que contornam uma circunferência vermelha a qual, de repente, se transforma numa pinta rosa e assistimos a uma impossibilidade colorida.

 

Fitando um espelho procuramos o lado direito de um rosto e afagamos o lado esquerdo de uma imagem reflectida num pedaço de vidro, e verificamos que com facilidade se troca o evidente.

 

O que não deveria acontecer… acontece, o impossível torna-se no possível e a facilidade numa constante.

As experiências de vida vão-se sucedendo e formando vivências que fazem parte de um percurso que se iniciou com o primeiro berro, mas que apenas ganham consistência no momento em que é possível armazená-las em forma de memória.

A vida flui como a água de uma nascente, seguindo um sentido, mas os sonhos e os desejos não se prevêem e podem, muitas vezes, percorrer o sentido inverso e acontece o que não deveria acontecer, viver uma vida que não faz sentido.

 

A vontade apenas existe, sem haver regras ou normas para a definir. A vontade faz com que se cometam actos irreflectidos e o impossível tornar-se o possível.

Não! Sim! O que parece mais fácil é evitar o confronto com aquilo com que não se concorda, com o que não se planeia, com o que não se enquadra…

Mesmo que aconteça o que não deveria acontecer, quando nos vemos a viver uma possibilidade que sempre foi impossível, deveremos ter a coragem de esquecer a facilidade e escolher apenas o queremos.

Mesmo que essa escolha se traduza num adeus permanente e num afastamento definitivo.

 

Susana Cabral

 

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Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 15:31  Ver comentários (5) Comentar


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