20.1.11

 

Nunca mais vou esquecer o dia em que a polícia veio cá a casa buscar-vos... Faz hoje 20 anos mas lembro-me como se fosse ontem. Eu era tão jovem na altura que aos meus olhos, tudo parecia normal. O entrar e sair constante de pessoas, as filas de caras estranhas à porta de casa, a confusão, o barulho, a fumarada nos quartos, o afastamento dos avós e dos vizinhos, todos os sinais que são agora tão óbvios, tudo isso para mim era perfeitamente normal. Nessa altura eu não sabia o que eram drogas ou o que era um traficante, só fiquei a perceber melhor mais tarde quando a tia me explicou, depois de eu e a mana termos ido viver com ela.

Vocês não pensaram em nós. Não vos passou pela cabeça que o que estavam a fazer poderia comprometer seriamente a vida dos vossos filhos. E comprometeu... Tudo se complicou para mim depois de vocês terem sido presos. A tia trabalhava muitas horas fora de casa e disse-me logo, assim que fomos viver com ela, que só assinou os papéis e assumiu a responsabilidade porque não queria que fossemos para uma instituição. Disse tudo isto para me explicar que teria que ser eu a tomar conta da minha irmã de 4 anos, levá-la ao infantário, dar-lhe banho, dar-lhe de comer e tudo o que ela precisasse. Eu era só um rapaz de 12 anos.

Tive que ir trabalhar. Com a ajuda de amigos, consegui arranjar um trabalho das dez da noite às duas da manhã, o que me permitiu continuar a estudar. Durante 8 anos, acordava às sete da manhã para arranjar a minha irmã, dar-lhe o pequeno-almoço e levá-la ao infantário/escola. Daí seguia para a minha escola. Ao final da tarde, ia buscá-la, fazia os trabalhos de casa com ela, dava-lhe de comer, metia-a na cama e, com a tia já em casa, saía para ir trabalhar. E foi assim que fomos sobrevivendo.

Adoro a minha irmã, mas como devem perceber não estava preparado para ser pai com aquela idade. Hoje percebo que até me safei, pois ela é uma mulher fantástica, mas poderia não ter sido assim e tive muito medo o caminho todo...

 

Quando vocês voltaram, no final daqueles anos todos, recebi-vos com muita saudade e rapidamente voltamos a ser uma família. Mãe é mãe. Pai é pai. Não é? Mas nunca vos cheguei a dizer o quanto fiquei magoado por me terem roubado a minha adolescência, por me terem obrigado a crescer daquela forma tão violenta... Vocês não pensaram em nós. E isso eu não consigo esquecer. Pensei que este sentimento passaria ao passarmos tempo juntos e com o passar dos anos, mas não, não desaparece. Continua exactamente igual. Vocês não pensaram em nós.

Lanço estas palavras de ressentimento nesta carta que não sei se algum dia vos darei a ler, agora que tudo parece pertencer ao passado, que estamos mais próximos e as coisas correm melhor, porque nem tudo é passado para mim e há momentos que estão bem presentes na minha memória.

 

Ana Gomes

 

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30.12.10

 

Sampaio (1991), ao falar da adolescência afirma que esta é “uma fonte inesgotável de criatividade individual e familiar, um cenário de trocas afectivas intensas e onde a vida e a morte surgem constantemente. É neste quadro complexo que tantas vezes surge a tentativa de suicídio”.    

O suicídio é uma questão muito complexa, que desperta uma grande onda de angústia, na medida em que levanta a questão do nosso poder sobre a morte. Quando o suicídio surge na adolescência, a inquietação é ainda maior, levantando a questão de como é possível numa fase de descoberta e de encontro com o mundo, acontecer um tal desencontro, que leve a que a única alternativa perante o sofrimento, seja a procura da morte (Santos e Sampaio, 1997).

Tal como refere Shneidman, coexistem no gesto auto-destrutivo vários factores: uma pressão (interna ou externa) sobre o adolescente; uma dor psicológica insuportável (para a qual urge encontrar uma solução); e uma perturbação que pode assumir diversas formas psicopatológicas. Neste contexto, o gesto suicida surge como uma estratégia desesperada para pôr fim a uma tensão difícil de controlar, num individuo vulnerável devido a factores predisponentes, com dificuldades na evolução biográfica (abandonos, perdas, etc.) e perante o qual surgiram factores precipitantes que desencadearam o gesto suicida (conflitos, rupturas, insucessos, entre outros). A experiência clínica nos jovens mostra-nos que os comportamentos suicidários correspondem não só a momentos de crise individual, uma espécie de falência nas tarefas de desenvolvimento, mas também são uma forma de comunicação poderosa; um processo ambivalente e paradoxal de procurar uma mudança no contexto de vida. Existem inúmeros significados e motivações, e qualquer que seja o grau de intenção, ele exprime sempre dois desejos poderosos: acabar com aquilo que faz sofrer e restaurar a identidade (SPS, 2006).

Para Sampaio (1991), a tentativa de suicídio na adolescência surge então numa perspectiva tripartida, por um lado individual, relacionando-se com as vivências do adolescente; por outro lado familiar, no sentido de uma visão longitudinal da história natural da família, considerada na dimensão mais alargada; mas também numa perspectiva social, referente ao enquadramento social do jovem. A tentativa constitui-se como um triplo fracasso nestas vertentes, na sequência da falência de outras formas de resolução da crise. Para este autor, a tentativa de suicídio adolescente surge “após uma impossibilidade de reorganização estrutural, isto é, o processo de desenvolvimento não avança e há um bloqueio, uma situação de instabilidade a partir da qual se torna necessária a intervenção terapêutica”.

De facto, verifica-se que, de forma geral, as famílias de adolescentes suicidas revelam elevados padrões de rigidez, de hostilidade conflitualidade marcada, bem como de intolerância à crise.

Neste sentido, a intervenção terapêutica deverá passar, não só por uma abordagem individual com o jovem, como também uma intervenção junto da família ou rede de suporte do adolescente em questão. É pertinente salientar o papel da família, pois fornece o suporte afectivo que os adolescentes necessitam, quer para superar este período de tristeza, quer para os incentivar no processo terapêutico necessário.

 

Diana de Morais Ribeiro

(Articulista convidada)

 

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