11.5.18

Farm - Helge Leirdal.jpg

Foto: Farm - Helge Leirdal

 

Do corpo curvado pelo peso dos anos, pendiam memórias de tempos idos. As rugas do rosto eram as marcas visíveis dos dias difíceis, embora não fossem as mais profundas. As mãos trémulas, quase a lembrar os dias frios que conhecera na serra, sempre seguravam quaisquer outras que lhe tocassem, que lhe trouxessem carinho e a aquecessem com dois minutos de atenção.

Amélia – contou-nos – casara cedo. Não suportava as discussões diárias dos pais, nem o som daquele cinto castanho a cortar o ar, segundos antes de atingir as costas da sua mãe. Não suportava o grito mudo que se seguia. E menos ainda o medo e a angústia de calar. Decidiu partir. Casar com o primo afastado, construir uma vida na pacatez do interior e poder assim esquecer tantos gritos calados que trazia em si.

 

Começava o mês de janeiro quando chegou à aldeia. As ruas eram estreitas, as casas em pedra, e não se avistava quem mais fizesse frente ao vento gélido, que vinha dos campos e atravessava até o casaco de fazenda que a mãe lhe oferecera.

Ainda assim, foi o assobio do vento nos ciprestes, geometricamente alinhados, ao portão da casa onde iria viver, que lhe causou um arrepio.

Demorou uma semana a entender que o marido não era a companhia que tinha idealizado. Mas estava fora de questão a possibilidade de abandoná-lo e voltar para junto dos pais e, por outro lado, não tinha meios para subsistir sozinha. Restava-lhe ficar e viver com as consequências da decisão que tomara.

 

Amélia acordava cedo, tinha sob sua responsabilidade um rebanho de cabras que era necessário levar ao monte a cada manhã. E que bem lhe sabiam aquelas horas de liberdade! Apenas as cabras testemunharam as muitas vezes em que, no sopé da montanha, os olhos de Amélia choraram lágrimas saídas diretamente do coração.

No regresso à aldeia trazia um enorme sorriso, uma palavra de consolo para os mais velhos e um “quem me apanhar primeiro come uma moeda de chocolate” para as crianças sentadas no degrau da porta da mercearia. Claro que todas corriam e, fazendo um círculo, cercavam-na, exigindo a moeda.

Amélia nunca deixou de sorrir para a aldeia que a acolheu, e que não fazia ideia daquilo que se passava para lá dos ciprestes, geometricamente alinhados, ao portão de sua casa.

Amélia agradecia todas as noites a Santa Rita de Cássia por ter intercedido no pedido a Deus para que não lhe desse filhos. Não queria que mais ninguém no mundo tivesse de passar por aquilo que ela passara com os seus pais. E todas as manhãs pedia perdão por recusar a bênção de gerar uma vida no seu ventre.

 

Naquela altura do ano em que era Inverno para todos, o inferno da sua vida intensificava-se. O ego inflamado do marido bem-sucedido era inversamente proporcional à sua humanidade. O homem, aclamado nas ruas da aldeia pela capacidade de negociação e altruísmo, era afinal um monstro, depois de passar aquela porta.

Amélia recordava-se do som do cinto castanho a cortar o ar, segundos antes de atingir as costas da sua mãe. Agora eram as suas a ser atingidas. E mais uma vez sem motivo aparente, além dos muitos copos de vinho bebidos a mais pelo marido, antes de chegar a casa.

 

Ao início daquela tarde começou a nevar e teve de regressar mais cedo à aldeia. Notou que não se ouvia o assobio do vento nos ciprestes e pensou que seria pelo peso dos muitos flocos que já começavam a pintar os ramos de branco. Entrou em casa e cumpriu a sua rotina: acendeu o lume, fez um chá de tília e cortou uma fatia de pão que sempre comia com a marmelada que aprendeu a fazer em criança, com a sua tia-avó. Era dezembro e o seu corpo já se contorcia com as dores que sentiria, duas horas mais tarde, quando o homem que escolheu para seu, atravessasse aquela porta.

As duas horas passaram e, ao passarem mais quinze minutos, alguém bateu à porta. O comandante da GNR, amigo da família, vinha de lágrimas nos olhos dar-lhe a notícia da morte abrupta do marido, num acidente com o velho trator que usava no cultivo das terras.

Amélia não pôde manifestá-lo no momento, mas confessou-o na conversa que tivemos: o desaparecimento daquele homem foi para ela um alívio. Sentiu-se tão leve, que chegou a julgar-se genuinamente feliz no final daquele dia. Na aldeia pacata, de ruas estreitas e casas em pedra, era agora unicamente perturbada pelo corredor de ciprestes – que mandou cortar sete dias depois.

 

HTR

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

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