21.5.14

 

 

Dei por mim, hoje, a querer mexer em tudo o que tenho em casa que faz parte do meu passado, mas que continua a pairar no presente, sem qualquer finalidade ou propósito.

Depois de um final de dia de sábado à beira-mar, a ver o pôr-do-sol, a pensar e a partilhar com a minha cara-metade, que tenho saudades das conversas de café com os amigos, em que conseguíamos resolver todos os problemas do mundo, venho para casa e penso como tudo o que vivi é bom, pois fez de mim o que sou hoje, para o bem e para o mal.

Parece nostálgico, e se calhar até é, mas em fins de semana reservados apenas para estar por casa, sem nada fazer, chegam-me sempre as memórias do que fazia quando não tinha a vida que tenho hoje, quando vivia em casa dos meus pais e estava constantemente com os amigos.

Agora, e pensando naqueles que já partiram, vejo que realmente foram momentos significativos que me deixaram viver os momentos mais tristes. Dou comigo a pensar muito mais intensamente nos que já faleceram e na importância que continuam a ter. Será que vivi o luto como deveria ter vivido? A morte, essa personagem que está sempre na sombra das nossas vidas, mesmo em dias sem sol, quando supostamente não deveria haver sombras…

Depois do final do dia de ontem, hoje acordei com uma vontade imensa de reviver tudo pelo qual já tinha feito o luto, tudo o que, pensava eu, já fazia parte do meu passado…

Só agora, depois de 7 anos sem tocar no traje académico, percebi que os emblemas nele cosidos têm toda a lógica, pois resumem na perfeição a minha vida até ao dia em que foram cosidos. “Do sobrinho”, “Da sobrinha”, “Da Irmã”… são ainda presentes mas bem distantes. “Dos avós”, “Do cão”, “Sou da noite”… Por estes já fiz o meu luto… Ou não…

Hoje acordei com vontade de rir por ter a oportunidade de reviver vários detalhes que me trazem saudade, mas agora começo a ter vontade de chorar porque essa saudade começa a doer… Deixam de ser apenas memórias, agora que abri novamente as gavetas e caixas.

Vale a pena guardar objetos ou deveremos ficar apenas com as memórias? Tenho receio que com o tempo, sem objetos, as memórias vão desaparecendo e perca de vez as pessoas. Será, então, que não fiz o luto e não as deixo partir?

Não, nunca irão partir, porque haverá sempre meses sem R que me fazem lembrar que os caracóis estão para chegar, recordando-me assim da caixa de caracóis que o meu avô tinha na cozinha para criação, para depois a minha avó cozinhar como belo petisco que era, sem qualquer objeto para me fazer lembrar disso.

Os dias após a morte são duros, muito duros, mas com o passar dos anos o que fica é bom, pois ficam as memórias que mais marcaram e nos fazem continuar a amar o que nos deixou.

 

Sónia Abrantes

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 06:00  Comentar

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