17.6.19

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Foto: People - StockSnap

 

Gostava de poder dizer tudo o que sinto, tudo o que penso, sem filtros. Não sobre os outros, sei ser desumano sequer pensá-lo, mas sobre mim. Gostava de poder falar sobre o que me vai cá dentro sem ter de me preocupar com o impacto que isso pode ter nos outros, ou ter de esmiuçar cada uma das minhas emoções para que lhes “faça sentido” – jamais fará. Aos poucos, e ao longo de demasiado tempo, fui ficando mais em mim, num espaço onde não há respostas, mas existem mil perguntas que me afastam da presença física dos outros. É um caminho perigoso e sedutor, traz armadilhas que invalidam tudo o resto daquilo a que chamamos vida. Sobretudo, vida com.

Pensava que a idade e a experiência me dotariam da capacidade de entender melhor este e outros fenómenos que têm que ver com a nossa relação com os outros, com as emoções e os sentimentos, mas, na verdade, a coisa agudizou-se: algumas caraterísticas tornaram-se intoleráveis, percebi que há gente com quem nunca me vou cruzar, que há situações que jamais poderei resolver, que não estou mais serena ou mais confiante. Parte de mim insiste em acreditar na raça humana, outra parte desconhece o seu próprio lugar num universo de gente com a qual não me identifico nem um bocadinho…

A honestidade não faz parte do cardápio de um grande número de pessoas. Atualmente, parece que todos têm apenas um valor utilitário, desprovidos de sentimentos e afetos que nos levem a respeitar os demais. Deixa-me triste perceber que a mediocridade parece ser a medida de todas as coisas. Não sei existir num mundo onde todos têm um preço, num mundo onde um carro é venerado e as pessoas dispensáveis, onde nos sentamos a jantar com amigos que passam o tempo agarrados ao telemóvel em vez de nos olharem nos olhos. Não sei caminhar num tempo feito de mentiras, violência e ausência de respeito. Ao fim de tantos anos, percebo que a única coisa que sempre pedi a quem comigo vive é, afinal, a mais rara das condições. A honestidade tem um preço elevadíssimo e poucos são os que a conseguem exibir.

 

Gostava muito de não perder a capacidade de acreditar, mas temo não ser capaz de o fazer muito mais tempo. Na verdade, as pessoas dizem todas a mesma coisa: umas, porque o sentem genuinamente; outras, porque aprenderam que parte do jogo é mentir, dizendo o que parece mais correto, sem sentir coisa nenhuma daquilo que deitam pela boca fora. É preciso tempo para perceber a diferença e poucos são os que conseguem esperar. Lançam-se de cabeça, mas com reservas no coração e depois esperam que tudo corra bem.

Quando é que desaprendemos a honestidade? Quando é que decidimos ser carrascos dos outros e os nomeamos responsáveis pela nossa felicidade, pelo nosso equilíbrio, pela nossa existência? Quando é que o comum mortal decidiu passar pela vida, hipotecando tudo aquilo que é importante e que valida a condição humana? Em face de tudo isto, vou-me calando, vou-me isolando. Cada vez falo menos de mim ou do que sinto, cada vez me dou menos aos outros. Já não tenho a capacidade de estar com quem é mesquinho, cruel ou oportunista.

No trabalho, infelizmente, temos de lidar com todo o género de gente, mas, na minha vida privada, não há espaço para a toxicidade dos outros. Considero que têm tanto direito a existir quanto eu, mas não lhes permito gravitar ao meu redor. Devo essa honestidade a mim própria. Na realidade, estou cansada de tanta desilusão, de tanta maldade no mundo que não tenho como explicar. Deixei de ter expetativas, não espero nada dos outros e por isso vou-me poupando ao sofrimento que já senti na pele, intensamente. Aquilo que mais me feriu até hoje, foi esperar a reciprocidade dos meus. Precisei de todo este tempo para aceitar que quem vive em torno do seu umbigo, jamais conhecerá essa reciprocidade. Não é possível ser-se empático, humano, compassivo e egoísta ao mesmo tempo. Não há fórmula matemática ou teoria científica que o valide. Não desisto das pessoas, mas abdico da esperança que sempre me moveu na vida. As pessoas são o que são e, por melhor que as tratemos, jamais mudarão. É preciso aceitar aquilo que não podemos mudar.

Hoje baixo os braços e ostento a minha bandeira. Talvez tenha de caminhar sozinha, no tempo que me resta, talvez esta bandeira acabe no pico de uma montanha que ninguém conhece e por ali fique, a lembrar a existência de alguém que não queria desistir da raça humana, mas trocou isso pela paz de espírito.

 

Alexandra Vaz

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

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