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Hand-GerdAltmann (1).jpg

Foto: Hand – Gerd Altmann

 

Por vezes acontece um bloqueio face ao tema que é proposto e desta vez tal sucedeu. O significado de pesadelo é para mim demasiado lato para que tivesse conseguido, assim repentinamente, descortinar uma linha de orientação para o que fosse escrever. Assaltaram-me várias ideias, todas elas com um cariz negativo e, algumas, com uma nota vincadamente trágica.

Perder um filho. Pesadelo.

Perder a casa. Pesadelo.

Perder o emprego. Pesadelo.

Perder, perder, perder. De repente temos que o pesadelo já não toca no domínio do sonho. Dos monstros que nos perseguiam à noite e que nos obrigavam a esconder a cabeça debaixo dos lençóis e por vezes gritar pela mãe ou pelo pai.

Agora, para nós, outrora crianças, os pesadelos tornaram-se sérios. Demasiado sérios para passarem com o embalo carinhoso e um “Chiu, dorme bem meu amor. Foi só um sonho mau”.

 

Agora, que somos grandes, os pesadelos escaparam da noite. Quando surgem atacam indiscriminadamente e não olham a horas. Nem onde estamos, nem com quem estamos. Os monstros de outrora podem agora ser um chefe. Ou um colega de trabalho, um vizinho ou um familiar. Os monstros nunca foram O pesadelo, mas sim o instrumento do mesmo. Agora não é diferente.

O chefe que nos persegue. Pesadelo.

O vizinho que não nos dá descanso. Pesadelo.

O irmão que nos quer mal. Pesadelo.

Contudo, acredito que o instrumento mais recorrente do pesadelo tem o nosso rosto. Os rostos que chegam às consultas. Os rostos que anseiam por respostas a questões que, por vezes são mal colocadas. O pesadelo do descontrolo emocional. O pesadelo do abandono daquilo que já foram. O pesadelo do que outrora foi e que amanhã talvez possa já não existir. O pesadelo da culpabilidade. O pesadelo de não haver um rumo. O pesadelo de “não saber o que se passa comigo”.

Filhos, casas, empregos, chefes, vizinhos e familiares. Tudo são elementos externos. Não são o nosso núcleo, a nossa identidade, a verdadeira raiz da existência individual. Muitas das vezes perdem-se e perdem-se sem termos controlo sobre o acontecimento. Acontece o luto, a dor, o questionar, a revolta. Contra Deus, o chefe, o irmão ou o universo.

 

E quando nos viramos contra nós? E quando já não nos reconhecemos como somos? E quando já não gostamos do que vemos ao espelho? Enfim, quando somos nós o instrumento do nosso pesadelo?

 

Rui Duarte

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

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