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Pegava numa folha branca e escrevia. Na folha apareciam frases que ela não sabia de onde vinham, mas, para sua admiração, providas de sentido. Não sabia se escrevia para ela mesma ou para aquele homem misterioso e distante. Tudo ficava confuso, como que alienado. Talvez entrasse num estado que se podia confundir com um sonho. Talvez fosse uma forma de encontrar consolo.
Recorda-o. Aproximou-se com cautela. As primeiras conversas, como se estivessem sentados face a face. Apresentou-se com o seu eu de agora: falou sobre o que fazia profissionalmente, onde trabalhava, contou-lhe sobre os seus tempos da universidade, os seus interesses atuais e confidenciou-lhe a idade, correndo o risco de ela nunca mais lhe falar. Ela perguntara-lhe mais pela sua vida e ele abrira-lhe o seu “pequeno mundo”. Contara-lhe que tinha um filho e desabafara sobre o casamento falhado e sobre os desafios que agora enfrentava. Assim… a uma total desconhecida. Ele apenas dizia que gostava de conhecer pessoas, como aliás sempre gostou, frisara, e que ali, naquele “mundo” onde quase se sentiam lado a lado, não havia tantos preconceitos e julgamentos.
As coisas sucedem e a todo o momento alteram-nos, matando-nos o eu interior, criando um outro eu ligeiramente diferente, ou então muito diferente. A vida não é como deveria ser, as coisas não acontecem como previsto. E há um corpo que se fecha e que é só a defesa e uma forma de proteção do que vai sucedendo. Como se reconheceria ela a si mesma? Saudade de quem nunca foi.
O mesmo sucedera com aquele homem misterioso. Reconhecera-se ele a si mesmo? Sentira ele saudades de quem nunca foi ou do que já tinha sido? Nunca entendera as confissões do homem misterioso, o motivo pelo qual o corpo fechado se abrira para ela. A ela, apenas, suscitara-lhe alguma desconfiança e sentido de confusão o desprendimento com que ele lhe falara sobre coisas da sua intimidade.
Depois, ele desapareceu. Antes, deixou de aparecer. E o homem misterioso começou, aos poucos, a tornar-se o homem sombra. Não que fosse má pessoa: algures na vida que não é como deveria ser e nas coisas que não acontecem como previsto, ele perdera-se no que lhe tinha acontecido e perdera a capacidade de se deixar levar, de interagir, de dar e receber ou até, em último caso, de sentir o outro e de amar. Ela descobrira, então, a sua exímia capacidade de manipulação: primeiro, envolvera-a com a sua astúcia e inteligência, realçando sempre o lugar que tinha conquistado profissionalmente e todos os conhecimentos que adquirira, sem deixar de frisar o muito que ainda tinha que aprender. Envolvera-a no seu jogo e conseguira o que queria: a atenção, o carinho, a devoção, a curiosidade e a admiração dela. Depois desligara e voltara a refugiar-se no corpo fechado em que habitava, sem deixar de a alimentar com pequenas migalhas de atenção. Achara que assim conseguia mantê-la por perto. As coisas não aconteceram como ele previra. Mistério resolvido.
Sandra Sousa