5.4.19

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Foto: Fitness - Sabine Mondestin

 

Era uma vez uma menina, como tantas outras há 30 anos atrás, que via o Popeye e a Olívia Palito na televisão. Todas aquelas histórias contribuíram, de alguma forma, para moldar o seu ser e a sua personalidade. A distinção entre o bom e o mau, a vida enfatizada e sem filtros, as traquinices do Brutus, a resolução de problemas do Popeye, o encantamento da Olívia... Tudo isto lhe deu o conhecimento, visto agora como ferramentas para levar a vida de determinada maneira, sem que esta lhe roube toda a energia que teima em querer fugir.

Até sobre os espinafres e o seu poder ela aprendeu. Lembrou-se deles quando, num certo momento da sua vida, foi diagnosticada como tendo princípios de anemia, o que quer que isso signifique, já que o princípio quer dizer que já começou, quando na realidade ainda não tem. A verdade é que o pai se lembrou, e bem, que se o Popeye ganhava tanta força com os espinafres, a sua menina, agora já não tão pequena, também o conseguiria. Claro está que não devemos acreditar em tudo o que os desenhos animados nos dizem e, após consultar o médico, este confirmou que a alimentação com bastantes legumes verdes escuros ajudam a combater a anemia. E assim foi, até hoje a anemia não passa disso, de principio e não uma doença que veio para ficar.

A delicadeza da Olívia também lhe transmite, sempre o fez, uma força incrível pois, com aquele jeito feminino e aparentemente sensível, consegue ser educada, fazer o que acha melhor e sem agredir os outros, sem ser preciso ser mal-educada nem indelicada.

Até Brutus consegue provar que o tipo de força que utiliza não o leva onde ele pretende chegar, pois inclui sempre a maldade para a situação e para os outros.

 

Estas forças, como tantas outras, parecem ser dadas a todos como adquiridas, mas não o são. Temos que saber exponenciá-las, saber geri-las, escolher onde e quando aplicá-las. E, por vezes, se as gastarmos mal, quando precisamos realmente delas, elas falham...

Para a menina desta história, que continua a comer espinafres, a força mantém-se, mas até quando? Ela sabe que não a pode dar como adquirida.

 

Sónia Abrantes

 

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1.4.19

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Foto: Man - Patrick Neufelder

 

É o que nos prende e nos mantém, ou o que nos impele. A ação invisível que nos soergue ou derruba. A incógnita entre o estático e o movimento, entre a pressão e a reação, concretizada no enlace da física com a realidade, pendendo sempre entre a conjetura e a realização.

Tanto marca a sua existência como a sua ausência, perdida e achada em diversas dimensões do ser, onde não há verdades absolutas. É tudo o que nos sustem e nos faz ver um pouco mais além.

É a força. É a garra. É o que ou nos liberta ou nos amarra.

 

Sara Silva

 

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29.3.19

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Foto: Man - Photosforyou

 

Começo a escrita sob a nuvem de uma semana profissional complicada. Com certeza um arranque auspicioso quando o tema proposto é a simplicidade. Confesso que o deadline para a entrega do texto já foi largamente ultrapassado, mas com toda a honestidade, apenas ontem me apercebi de tal facto. Simplesmente resta-me pedir desculpa.

Desde ontem à noite, assaltado pela culpabilidade de quem não cumpriu, revi os ângulos possíveis de abordagem ao tema, tendo-me rapidamente apercebido que as hipóteses seriam:

a) de caráter pessoal, que incidisse na vivência da última semana;

b) de caráter geral, até mesmo ficcionado, que incidisse em quê ???

Pois… nada simples…

 

A hipótese a) rapidamente ficou fora do horizonte descritivo atendendo que a primeira frase que se colou imediatamente à ideia foi: “se não tens nada de bom para dizer, mais vale estares calado”. Podia, claro, simplesmente borrifar-me para as consequências das palavras escritas e utilizar este texto como um veículo de catarse, mas todos sabemos que na suposta era da Liberdade Individual nunca antes estivemos tão escrutinados. É complicado… Aproveito aqui a oportunidade para agradecer à minha esposa a solidariedade e compreensão demonstradas na escuta ativa do que levei para casa. E, já agora, perdoa-me os palavrões utilizados que ilustraram e deram cor à minha revolta e frustração. Podem ser artifícios linguísticos básicos, mas na verdade simplificam com crueza a categorização de certas coisas. E assim, dessa forma, todos nos entendemos.

 

Restava-me a hipótese b) e aqui apresentou-se a segunda dificuldade. “Keep it simple” e partir daí. Mas, sinceramente, quantos textos de treta existem vangloriando uma existência mais “despegada”, “em contacto com o interior”, com menos “pegada ecológica” e blá-blá-blá?

Invariavelmente, o quadro profissional invadiu o pensamento, alicerçando-se numa dicotomia eu vs. outro. Nas simplicidades e dificuldades da minha vida, comparativamente às simplicidades e dificuldades da vida de terceiros. Mas, muito honestamente, não irei por essa via, principalmente por duas ordens de razão: já demasiadas vezes escrevi acerca da deficiência / incapacidade e ninguém aprecia um tipo chato e repetitivo. E, mais importante ainda, devido à convivência recente com pessoas que têm tido o condão de me fazer pensar acerca da diversidade funcional, não sinto segurança (ou justiça) na minha opinião acerca de tal juízo comparativo.  Ficou registada a frase “nada sobre nós, sem nós”. Fica a promessa: se algum dia escrever sobre tal tema, será com coautor.

 

E assim, analisadas as hipóteses que tinha, cheguei a conclusão que serve o imediato. Face ao tema que propuseram, simplesmente decidi não escrever.

 

Rui Duarte

 

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25.3.19

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Foto: Daisies - Manfred Richter

 

Vem aí a primavera. É fácil perceber isso, mesmo sem ter descoberto a serventia dos calendários, mesmo não sabendo a dinâmica das rotações, mesmo não conhecendo o poder das sementes, ou a necessidade da chuva, ou a importância do sol. Tudo o que nos é revelado de forma simples é fácil de entender: e o que há de mais simples do que o nascimento de uma margaridinha miúda, no relvado semisselvagem em frente da minha casa? Depois outra, e outra, e um ou outro dente-de-leão.  Ao mesmo tempo, as árvores, que passaram a época mais fria despidas e tristes, começam a espreguiçar-se ao sol mais demorado dos novos dias, e dos seus ramos brotam flores magníficas. Nascem de noite, talvez, silenciosamente, para não acordar quem dorme – e é tão natural a sua chegada que os nossos olhos nem estranham as cores novas, antes se agradam e dulcificam, aceitando a simples idade das coisas.

 

É como nós. É como a vida. A gente nasce e pronto, nascemos, é tão simples. Está tudo previsto, o colo da mãe, a alegria do pai, o berço, o amor, o mundo.  E mesmo quando falta, ou a mãe, ou o pai, ou a alegria, ou o amor, ou o berço – ou isso tudo junto – é certo que um colo haverá sempre, seja de quem for. Ainda certo, por enquanto, é também o mundo (até porque sem o mundo, não seria nada simples alguém nascer...).  E a ele chegamos nus, puros, inocentes, ignorantes – e nunca, em outra qualquer idade da vida, seremos tão cobertos de simplicidade, tão naturalmente confiantes e espontâneos. O instinto, de imediato, é o que nos serve – e, dali em diante, a Natureza harmonizará as forças para que as primaveras façam connosco o que fazem com as flores: mel, feitiço, esperança; e os estios, o que fazem com os frutos: maturidade, alimento, colheita; e os outonos, o que fazem com as folhas: júbilo, ouro, sangue; e os invernos, o que fazem com as sementes: milagre, criação, sobrevivência.

 

Mas, entretanto, há todo um processo de complicação, nesse simples decorrer das estações. Crescemos e vamos aprendendo coisas: que às vezes chove, que às vezes está frio, que às vezes dói, que às vezes magoamos.  Descobrimos, num processo tão natural quanto simples foi o nosso nascimento, que a vida é confusa, que, não sendo nós seres solitários, nos é impossível manter, tantas vezes, a simplicidade.  Ou a liberdade – de o ser e de Ser, simplesmente. O estudo desperta, a experiência ensina: há fios por todo o lado, tropeçamos, caímos, aprendemos, reaprendemos; há, à nossa volta, cotovelos em riste, criamos estratégias de sobrevivência e defesa, mentimos, caímos, fingimos estar bem, rebuscamos em nós o princípio da verticalidade, cedemos outra vez ao vento, inclinando a cabeça a interesses mais altos, a solicitações mais aguerridas, a sofisticações mais apuradas. E lá se vai a simplicidade por completo.

Mesmo com essa consciência, repetimos a frase chave para entrar nos círculos dos jubilados da vida: “A simplicidade é uma arte, atinge-se por refinada estratégia e apurada e experiente habilidade”. Ora! Eu fico na simples idade das coisas – talvez porque ainda reste em mim um bocado de inocência e uma espécie de talento natural para esbardalhar a Vida com que nasci.

 

Teresa Teixeira

 

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22.3.19

Bread - Pexels.jpg

Foto: Bread - Pexels

 

– Por favor, meia-de-leite e um croissant. – pedi, certa de que não haveria complexidade na satisfação do meu pedido.

– Vai tomar ao balcão ou quer sentar-se numa mesinha?

Não estranhei a pergunta, pareceu-me até razoável, a intenção não seria outra que não fosse a de me sentir bem servida. Mas, vi-me assim, a ter de escolher um cenário, comprometendo a simplicidade do ato de morder um croissant e tomar uma meia-de-leite.

– Descomplica e escolhe lá uma mesa. – pensei.

Olhei à volta na esperança de lobrigar o lugar ideal para tão simples ocasião. A mesa junto à janela proporcionar-me-ia um ambiente agradável; separada por um vidro, testemunharia com recato a azáfama e o borburinho da rua. Por norma sou ativa e participativa, mas há momentos – aquele era um deles –, em que me deixo arrastar para uma letargia, de tudo deixar correr e sentir simplesmente a vida a passar.

– Posso sentar-me naquela mesa?

– Sim Senhora, nesse caso pode fazer o pedido à menina que serve às mesas. Ela passa por lá.

Solícita, a empregada anotou num bloquinho o meu pedido. Com a cabeça, fez um sinal de assentimento e pareceu dar a tarefa por concluída. Não, ainda não, faltava um pequeno pormenor.

– O croissant é simples?

Sempre gostei de croissants e, para mim, eles valem por si só, nunca senti necessidade de os misturar.

– Sim, simples.

– Gosta deles mais para o tostado ou para o clarinho?

Entendi por clarinho, malcozido; como não aprecio massas cruas, optei pelo tostado.

– Muito bem. A meia-de-leite é quente ou morna?

– Com o frio que está, quentinha confortar-me-á bastante mais.

Parece ser desta. A empregada acabou as anotações, meteu o lápis e o bloquinho no bolso da bata e ensaiou dirigir-se ao balcão, mas de repente:

– A meia-de-leite é clara ou escura?

Que raio, eu só queria lanchar. Pensei que fosse coisa simples de fazer, mas vejo-me submetida a um prolongado interrogatório. Nesta altura, as papilas gustativas já não preveem um croissant adocicado – este transformou-se num pedaço de farinha cozida, amarelada e deslavada de sabor. A meia-de-leite amargou. Sou tomada de uma indecisão, ficar ou admitir que me enganei e ir embora. Mas, de novo pensei para mim:

– Descomplica e decide-te, clara ou escura?

Com sinais evidentes de impaciência e desagrado, referi a minha opção.

– Peço desculpa, disse a empregada, só mais uma coisinha, quer açúcar ou adoçante?

Já me decidi, pego no saco e vou-me mesmo embora sem saborear os tão afamados croissants. Mas a contenção e o controle comportamental deram-me fome, a satisfação da necessidade básica de me alimentar obrigou-me a repensar a minha decisão. Vencida, respondo:

– Olhe, faça como se fosse para si.

– Ok! Nesse caso vou trazer-lhe açúcar amarelo e a meia-de-leite bem batidinha, com a espuma a vir ao de cima.

Afinal ainda se podia complicar mais um bocadinho.

 

Cidália Carvalho

 

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18.3.19

Barefoot - Free-Photos.jpg

Foto: Barefoot - Free-Photos

 

A água parece tão calma. Sentada na relva, em frente ao rio, fecho os olhos e deixo-me embalar pela harmonia que me rodeia. Dentro de mim, o burburinho serena, lentamente. Oiço os pássaros, as águas, o som do vento, das folhas que se agitam no meu regaço. Fundo-me no tempo como se pudesse, eu própria, ser onda, gaivota ou raiz. O sol devolve-me a preguiça e estendo-me ao comprido. Sinto o cheiro da relva, ainda molhada, e algo se me agita no sangue: esta felicidade toda dá-me vontade de chorar. O meu corpo estremece, silencioso, sucumbe num pranto sem fim, mas não consigo parar de sorrir. Abraço a Mãe Terra e encosto o ouvido no solo, oiço o bater de um coração; pensei ser o meu, jurei ser o dela, despedi-me sem saber em que momento nos alternamos nesta história. Quer dizer, eu e ela, sentir e ser, simplesmente. Não importa. Aqui, nada importa. Apenas respirar, ser, sem pressa, com lágrimas, sorrisos e estes raios luminosos sobre nós. Dentro de nós.

 

Quando o sol, majestoso e sereno, boceja no horizonte, levanto-me sem vontade de regressar. Obrigo um pé a caminhar atrás do outro, digo ao coração que não tenha medo. Há um equilíbrio, muito nosso, que mantém as coisas no seu lugar. Há sítios para descansar, há sítios onde morar. Há pessoas com quem se está, há pessoas com quem se é. Sei as que não me dizem nada, as que me fazem sentido e as que, sem aparente sentido, sempre me encontrarão. Haja o que houver, caminho sabendo que voltarei aqui, que levo o som do rio, dos seus habitantes, da sua dança, das árvores, debaixo da minha pele. Que somos Um sendo únicos. Sei que estou em casa em momentos e lugares onde o barulho do sangue se confunde com o som da terra, com a musicalidade das águas, com a gargalhada cristalina de uma criança. Quanto mais me afasto, mais pertenço. E encontro, sempre, o caminho de volta.

 

No regresso ao ritmo urbano, diluo-me na multidão. Caminho, anónima, ainda com o cheiro da relva molhada em mim, alheia às conversas e aos pensamentos do mundo. A lua, por cima da minha cabeça, lembra-me que me espera, para a nossa conversa noturna. Nas noites em que ela ilumina a minha casa, a minha pele não é minha, é dela; ou me sento e resolvo a coisa a bem, ou ela vai comigo para a cama e arruma comigo. E ela sabe-o, ó se sabe. Hoje, conversamos, despimos o que calamos e deitamos, sem dolo. Dançamos, se tiver de ser, abraçamos o que restar e respiramos. A pele inteira. Mas, antes disso, é preciso chegar a casa, abraçar os filhos, os patudos, orientar a vida, falar em Morse, fazer mil e umas coisas antes do tempo (parecer) abrandar e a lua se instalar, imponente e zangada – sabe que me havia esquecido dela – na minha varanda. Pois aqui me tens, inteira, de braços abertos, sem qualquer resistência.

 

Uma avalanche de coisas boas percorre o meu corpo, sacudindo os meus medos. Lembra-me que viver é maravilhoso, também nos dias em que dói existir e nada parece lógico, nos momentos em que cada passo parece um salto no escuro… As coisas simples e pequeninas são as que sustentam esses dias de indecisão e de medo, são as que permitem manter a cabeça à tona e os olhos no horizonte, enquanto as águas se agitam com violência. As coisas pequeninas são extraordinariamente importantes e, sem elas, não há pertença, não há chão, não há tempestade que se derrote. Sem elas, nem a lua escuta nem o sol sorri. Sem elas, eu estaria perdida num mundo onde sentir e pensar, intensamente, é quase uma perversão.

Hoje, aqui e agora, abraçada pela lua, respiro, grata, na simplicidade que torna o (meu) mundo mais belo e com sentido. E, amanhã, se acordar, saúdo o sol e a vida, como se os sentisse pela primeira vez, e continuo. Um pé atrás do outro.

 

Alexandra Vaz

 

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15.3.19

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Foto: Classical-music - Pexels

 

Não...

(pois, sei, estamos a começar mal; num texto, uma apresentação, uma ideia a começar pela negativa, é fraco sinal, pouco cativante, se cativar...)

 

O que eu quero dizer é que o simples, a simplicidade, não é um começo, deverá ser um fim, um objetivo a atingir. Dizer, pensar, fazer as coisas simples, de uma forma o mais simples possível. Sem facilitismos, sem complicações que, se calhar, serão tão só um meio de impressionar, mesmo distanciar.

Fixemos então, já aqui e agora uma conclusão parcelar. Ser, fazer, dizer simples não é o mesmo que ser fácil. Redutor, simplista, imediatista. Atingir a simplicidade é um processo, bem trabalhoso porventura. É preciso desbastar muito, depurar, retirar gorduras supérfluas, pouco saudáveis.

Para se ser simples no resultado é precisa muita complexidade, muito conhecimento, muita técnica e muita arte.

 

Fácil de perceber e de ouvir: para onde nos leva a simplicidade aparente dos primeiros acordes da Quinta Sinfonia de Beethoven - tan, tan,tan, taaam? Que emoções profundas, arrebatadoras, nos envolvem ao ouvir as primeiras notas da Lacrimosa, do Requiem de Mozart?

“Amor é um fogo que arde sem se ver”, de Luís de Camões, para onde nos leva este primeiro verso do soneto, para que memórias, pessoas, circunstâncias?

Aliás a poesia será o cúmulo da forma da escrita, o processo em que com menos se consegue mais. Emoção, sentimento, ideias.

Não somos todos geniais, evidentemente, não podemos, a generalidade das pessoas, ambicionar produzir obras primas.

Podemos e devemos, todos, ambicionar atingir a simplicidade, questionarmo-nos sobre isso. Sem facilitismos, sem complicações desnecessárias, com dádiva e entrega.

Como um serviço. Humilde.

 

Jorge Saraiva

 

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11.3.19

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Foto: Girl - Hulki Okan Tabak

 

A simplicidade rima com complexidade e caio na tentação de pensar na antologia entre ambos os conceitos. Não quero, porque simplicidade também combina com felicidade e, isso sim, vale a pena explorar.

Começo por um cliché: “A felicidade está nas coisas mais simples”.

 

Um sorriso. Tem o poder de contagiar o outro e é quase impossível não sorrir de volta a alguém que o mostra sinceramente. É uma arma que deita o outro por terra por mais defesas que ele demonstre. Contagia e desarma, é assim que o defino em parte.

O cenário que vivemos pode ser feio e negro e gigante e confuso, mas ao recebermos um sorriso toda a perspetiva se altera, nem que seja por um curto momento. Sorrir de volta é igualmente compensador porque nos dá uma sensação de alívio, há algo que se dissolve naquele momento.

 

Um bom dia. Há dias em que carregamos o mundo nas costas. O caminho avista-se longo, sinuoso, doloroso até. É difícil comandar o corpo porque o peso nos impede os movimentos. Mas há aquela pessoa que nos dá um bom dia com esperança no olhar e alegria na voz e o peso torna-se mais leve. São apenas duas palavrinhas e têm esse poder.

 

Um abraço. Às vezes existe um vazio. Suspiramos e aquele aperto no peito não nos deixa, olhamos em volta e sentimo-nos perdidos. Às vezes precisamos apenas de um carinho e o abraço, no meu ponto de vista, é o melhor que existe. O toque é uma terapia sobejamente comprovada cientificamente, o calor e o aconchego têm a capacidade de nos dar conforto, a pressão dos braços em nosso redor é relaxante, como é relaxante a pressão de uns dedos durante uma massagem. E é apenas um abraço.

 

O sol. Desde os primeiros raios do dia até ao seu desaparecimento artístico em pôr-se. O sol gosta de protagonismo. Com a luz do sol tudo se transforma. As paisagens ganham beleza, as cores evidenciam-se, há maior nitidez no que observamos porque a claridade assim o permite.

Todos apreciamos um bonito dia de sol. Todos temos mais energia quando o vemos e é quase inevitável sair à rua para senti-lo.  Todos ansiamos por ele pelos mais diversos motivos e deixo à imaginação de cada um.

O calor do sol na pele que a tonifica, o calor que nos traz satisfação, o calor que nos faz despir camadas de roupa mostrando a beleza dos corpos, o calor que tem um efeito terapêutico no nosso estado de humor.

 

Pequenas coisas que nos trazem alegria. Pequenos momentos de satisfação, e a vida é feita desses mesmos.

Dançar descontraidamente. Ouvir música, aquela música que mexe cá dentro. Um mergulho no mar. Uma refeição caseira na companhia certa. Beber um copo de água quando a sede aperta. Sentir uma brisa na cara. Andar descalço na areia. Um jantar entre amigos. Ouvir aquela palavra que nos acelera o coração. Dormir uma noite de sono tranquila. Ver um filme que nos traz emoções. Assistir a algo que nos faça arrepiar. Caminhar com um objetivo ou mesmo sem destino. Saltar, só porque sim. Fazer algo de diferente do habitual. Arriscar e sentir o friozinho na barriga. Dialogar sobre a vida. Comprar aquela peça que namorámos durante meses. Chegar a casa ao final de um dia de trabalho. Relaxar no sofá. O silêncio. Namorar. Um banho quente. A sensação de liberdade ao viajar. Ouvir uma “boa noite, dorme bem” daquela pessoa. Oferecer um presente. Receber algo que gostamos. Realizar um desejo. Ouvir um obrigado.

Podia continuar…

Cada um tem as suas coisas mais simples, as coisas que marcam a diferença e que tornam os momentos especiais e inesquecíveis. Não precisamos de muito, precisamos de saber apreciar a beleza na simplicidade das coisas do dia-a-dia.

 

Marisa Fernandes

 

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8.3.19

Woman - Alexandr Ivanov.jpg

Foto: Woman - Alexandr Ivanov

 

“Queria, queria

Ser igual ao peixe

Que livre nas águas

Se mexe”

Pedro Homem de Mello

 

Um dia, chegando a casa, senti que estava pela primeira vez a entrar num mundo novo. Mesmo que já lá morasse há um ano, aquele espaço não seria pisado por ele e tudo bem, não vinha nenhum mal ao mundo. Como se me encontrasse no agora, com esta nova pessoa que eu sou. Uma paz que assoma por dentro banhando as paredes e enchendo, enchendo e enchendo devagar até transbordar.

Como respirar quando tudo arde e pesa o ar cá fora?

Séneca, na sua ideia de viver de modo desapegado do prazer e sem medo da dor, não seria a chave do mistério. Há um conforto que nos transmite segurança, confiança, pontos de referências no que é familiar e rotineiro como o primeiro café da manhã.

Andamos na vida por vezes mais perdidos do que sei lá o quê, e nisto um dos corrimãos desaparece e caímos. Com poff!! e tudo.

Infinitamente rápido é o movimento do tempo, como se vê mais claramente quando se olha para trás. Pois quando estamos atentos ao presente, não o percebemos, tão suave é a passagem do tempo ao ir pelo dia afora.

A linguagem da verdade é simples. Quando nesse encontro mais silencioso nos deparamos a um espelho que não se parte ou distorce, aí aquietemos para ouvir esse ribeiro que murmura há já muito tempo: gosta muito de ti.

 

Maria João Enes

 

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4.3.19

Couple - Mystic Art Design.png

Foto: Couple - Mystic Art Design

 

A noite cai assombrosamente gelada. Olho pela janela, mas não vejo ninguém. Parece que se silenciaram as horas neste anoitecer. Mas que me interessa isso se hoje tenho o teu beijo.

Hoje vou entregar-me a ti. No teu amor quero perder-me! Os teus olhos que tudo revelam, dizem-me para esperar pois um dia deixarei de sofrer.

Toco-te… Fecho os olhos e vejo as estrelas. Beijo-te… E por um momento voas comigo

até ao infinito, onde encontraremos o nosso amor.

Quero-te! Enfrentarei o mundo pelo teu amor. Sei que nada tenho para te oferecer além de todo este amor, toda esta simplicidade que nos une, que nos toca. Sou apenas um grão de areia no vasto deserto. Mas olha, fecha a janela, está a arrefecer, e vem! Vem consertar comigo os planos de um futuro ainda incerto.

 

Inês Ramos

 

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1.3.19

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Foto: Woman - Foundry

 

É nas coisas simples e na simplicidade dos nossos atos que podemos encontrar o essencial da vida. Todavia, na era em que vivemos, tão materialista e consumista, torna-se cada vez mais difícil encontrar simplicidade nas pessoas e nas coisas que nos rodeiam.

Nos tempos que correm, somos dominados, infelizmente, por uma cultura em que predomina o superficial e o virtual, subjugados muitas vezes por uma autêntica “loucura” de ficção, cujo mundo em que vivemos mais parece irreal face ao total desapego e indiferença do que é natural e genuíno.

Valha-nos, ao menos, a “Mãe Natureza” que, sempre fiel aos seus princípios e pródiga nas suas dádivas, nos vai confortando com as suas lições de simplicidade, suprema virtude de sentimentos. E são essas lições que, como autênticas lições de vida que são, nos ensinam que o poder das coisas simples é o que nos faz sobreviver e nos torna mais felizes.

Com tantas coisas simples e saudáveis ao nosso alcance, para o exercício do corpo e o cultivo da mente, é preciso saber aproveitar essa fonte de recursos naturais e fazer boas escolhas, no dia-a-dia de cada um de nós, que passam necessariamente pela convivência sã e fraterna entre as pessoas, pelo desfrutar da vida ao ar livre, pela rejeição de artificialismos, falando e agindo com simplicidade nos relacionamentos interpessoais.

Em tudo isto é que reside o essencial para uma vida salutar.

 

José Azevedo

 

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25.2.19

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Foto: Woman - Free-Photos

 

Aguardava mais um dia pacato e monótono como todos tinham sido até então. O despertar tornara-se numa obrigatoriedade que se forçava por cumprir todas as manhãs, em pleno contentamento com o que existia no agora, fruto do que construíra no passado. E assim seria esse dia, não fossem aquelas quatro palavras inesperadas a colorir o amanhecer.

“Bom dia. Como estás?”

 

Levantou-se, executou a rotina habitual e deixou que os seus olhos percorressem aquelas letras vezes sem conta até um sorriso se desenhar nos seus lábios.

“Bom dia.”

 

Não estava mais só. Havia alguém no outro lado da linha, entre quatro paredes como ela, quiçá, que dedicara alguns segundos ou minutos do seu tempo a essa partilha, a esse reconhecimento, e só por isso, este já não seria um dia como os demais. Ia ser mesmo um bom dia, independentemente do que se passasse.

“Como estás?”

 

Acostumara-se à solitude propiciada pelas circunstâncias a que não conseguira fugir, às inevitabilidades que fizeram parte do seu caminho, mantendo sempre a cabeça erguida enquanto o seu corpo se movia adiante. E agora recebia o retorno da sua coragem e valentia, do seu inesgotável otimismo que por vezes se quebrava, nunca se extinguindo, disfrutando dessa nova força e energia que se apoderaram do seu espírito, dando um novo fôlego à esperança.

“Bom dia. Como estás?”

 

Leu uma vez mais, espantando-se com o poder de meras palavras e dos pequenos gestos como este. Era inegável a magnitude dos detalhes, capazes de gerar os maiores impactos assim, quase sem querer.

 

“As coisas mais simples da vida são as mais extraordinárias, e só os sábios conseguem vê-las.”

Paulo Coelho; “O Alquimista”

 

Como tinha razão este sábio cujas histórias viajaram e povoaram mundos. As suas palavras evocadas quase por instinto comprovavam as verdades empíricas que lhe eram reveladas nas suas vivências.

Seguiu com as horas ocupadas, sentindo na pele a diferença proporcionada pela simplicidade, sabendo-se, de igual modo, um pouco mais sapiente por ter constatado essa verdade.

É que de facto são os detalhes que passam despercebidos na correria quotidiana, aqueles cuja soma se engrandece e se torna percetível no conjunto de dias a que se chama vida. São eles que podem marcar e determinar a maior das diferenças. Por isso, repetindo a intenção, logo se apressou a responder:

“Bom dia. Muito obrigado pela tua mensagem. Agora estou bem, ao lê-la. E tu, como estás?”

 

E esse gesto repetido manteve-se, multiplicando-se, trazendo dia após dia um novo ânimo ao seu despertar.

 

Sara Silva

 

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22.2.19

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Foto: Girl - Free-Photos

 

Estou um bocadinho cansada de pessoas que exibem a sua sabedoria, que exibem o seu trabalho, que exibem só o que de melhor fazem, que exibem o seu exterior. Sinceramente tenho dificuldade em perceber! Não há necessidade.

Perceber a simplicidade é difícil e não é para todos. Na sociedade em que vivemos, a beleza que a simplicidade transporta nem sempre é percebida. Às vezes até é mal interpretada: “Aquela não é formal, não veste como a maioria das pessoas. É estranha”.

A simplicidade não traduz o conhecimento e as capacidades de cada um. É uma forma de estar na vida. A pessoa vê o mundo de forma transparente e vive-o de forma tranquila. Não precisa de ostentar; não precisa de se vangloriar. Ouve-se a si própria e não sabe ser de outra forma.

Pessoas simples são pessoas simples, e o que eu penso é que não sabem mesmo ser de outra forma, mesmo que lhe digam que podem ser prejudicadas e mal interpretadas por isso.  Ainda bem que não conseguem ser de outra forma, com todas as consequências que isso pode trazer, porque a beleza e a sabedoria estão aqui. 

 

Mas como lidar com pessoas que, perante a simplicidade, a discriminam?  Digo que, provavelmente, devem apelar à sensibilidade dos seus olhares e expandir horizontes, e aceitar que pessoas simples são, na sua maioria, pessoas belas, de coração aberto, e muitas vezes muito interessantes sob vários pontos de vista. Só não precisam de o dizer.

Conheço pessoas cuja simplicidade é uma das suas caraterísticas. São tão interessantes e aprendo tanto com elas!

 

Ermelinda Macedo

 

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18.2.19

Drip - Free-Photos.jpg

Foto: Drip - Free-Photos

 

Mais um dia de chuva e uma ventania brutal.

Acordo e penso que o treino será engraçado. Talvez até uma verdadeira aventura!

Mas será bom fazer algo diferente e que apele aos instintos de sobrevivência. Que apele ao simples desejo de chegar ao fim com sucesso e, de preferência ileso.

Talvez seja melhor adiar por umas horas e adiantar trabalho. Treino depois...

 

Ui... A chuva agravou e o vento está a levantar tudo o que pode.

Treinar será ainda mais interessante assim...

Porque razão não fui correr como é habitual? É sempre a primeira coisa que faço... Hoje não porquê?

Esta simplicidade das rotinas diárias é tão eficaz... Lá tive que mudar hoje. Logo hoje que os céus decidiram desabar com tudo o que têm.

Penso agora que, no meu mais íntimo, desejo por algo mais do que um dia simples. Deixei a mente escolher em vez de obedecer à rotina. Esta mesma mente que agora teima em convencer-me que ir correr à chuva e ao vento me vai deixar divertida... Será ela louca? Serei eu dependente dela?

Afinal não é assim tão simples... Essa dita simplicidade.

 

Sónia Abrantes

 

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11.2.19

Little - Barrie Taylor.jpg

Foto: Little - Barrie Taylor

 

“Vou contar até três”.  E a urgência acontece, entrecortada por soluços que agitam pequenas lágrimas e as despenham de uns olhos miúdos, entre rebeldes e apavorados.

 

1...

O dono dos olhos miúdos, uma criança de não mais de cinco anos, sento o peso do ameaçador monossílabo atroar o universo todo. O universo todo é uma coisa enorme, pensa ele. E mesmo assim, não há para onde fugir, no limiar da revolta ou do desespero ou da emergência.  O seu corpo pequeno acusa as réplicas do primeiro trovão, em ondas que se chocam entre si: “luto pelo doce que quero, ou desisto?...”  O tempo parece tomar uma forma estranha, difusa, e, portanto, aos olhos do menino, relativa:  afinal ainda haveria o 2 e o 3, ele sabe, já aprendeu na creche, já é crescido e sábio. Ainda não chegaria já o juízo final – ou se declaravam os vencedores.  Aproveitando um soluço vindo lá das profundezas do seu coraçãozinho cheio de direitos, solta mais um grito de protesto e arrelia, e mobiliza um exército de lagrimazinhas novas: “Eu queeeeeeroooooo!...”. A urgência dele é maior que a da mãe, a julgar pelo arrastar desesperado do verbo “querer”. “Não!”, dizia-lhe, lá de dentro da sua cabeça dorida do choro, a vozinha de um espírito voluntarioso e pérfido, “Tens direito ao doce, já o tinhas pedido quando saíste de casa, a mãe devia ter isso em conta! E portaste-te bem, até ajudaste a empurrar o carrinho de compras! E o doce é barato, e diz na televisão que faz os meninos felizes e tudo!”.

 

2…

Desta vez, até o espiritozinho meio-maligno se assustou, dentro da cabecinha fervente do pequeno. “Bolas, 2, já??... E eu ainda nem sequer dei o segundo berro! Mau, mau, a coisa complica, se o tempo se esgota e eu não uso todas as minhas armas... Olha!, gente a parar à nossa volta!! ...é isso, mais um berro e a coisa toma contornos de crueldade desnecessária contra uma criança inocente, para não falar já em violência!”. E, desta vez, dois gritos estridentes disparam da pequena boca gulosa e voam por todo o hipermercado, assustando até o pó das mais altas prateleiras. Sim, de facto, os olhares que se foram juntando à volta da cena tornam-se um pouco intimidadores para a pobre mãe, até aí exercendo o seu direito de ter razão, sem pressa, nem escândalo.  Um burburinho parece começar a ferver, no caldeirão da gente dona-da-razão. “Oh, coitado do menino, ele está nervoso e a mãe só está a piorar a situação, com aquela atitude de ameaça!”. “Qual quê?, eu dava-lhe era um valente açoite nas nalgas, ia ver se a birra não acabava logo!”. “Credo, a criança é um monstrozinho!”. “Não lhes sabem dar a educação em casa, vêm para aqui dar espetáculos de graça!”. “A mãe é que tem a culpa, com certeza já lhe deu abusos, agora que o ature!”.

Bem, a coisa está feia.  E o menino, de repente, já não se acha dono da eternidade, que o número 3 deve estar a cair-lhe em cima. E o comentário daquela senhora com lábios feitos de linha vermelha muito fina e olhos sem cor, que lha comeram as pestanas postiças, fá-lo parar o soluço propulsor de mais meia dúzia de lágrimas e coloca-o em alerta: “O importante é o amor. E esta mãe não tem amor pelo filho, ela não sabe, mas está a afetar o filho para a vida, expondo-o assim. Estas mães não têm paciência, nem compreensão, só querem saber delas próprias. Se calhar não tem tempo para explicar ao filho porque não lhe dá o doce, depois é esta cena triste... a mães assim, deviam-lhes ser retirados os filhos”... (...) ...Bem.  O espiritozinho dentro da cabeça do menino mexeu-se nervosamente e mandou parar de imediato:  soluços, lágrimas e esperneações. O coração, lá no fundo do seu peito, revolveu-se e reposicionou-se, assim, encolhidinho entre as costelas ainda meio trémulas, ligeiramente virado para a esquerda. Uma dorzinha lá dentro lembrou o menino que a urgência, afinal, não tem nenhuma importância. O importante é o Amor.  E o amor da sua mãe não sabe contar, nem sabe quando acaba o tempo, nem sabe medir o universo, porque ele, mesmo menino pequenino, está sempre entre ela e o universo, muito pertinho, por isso, maior que todo o universo.

A mãe, claro, sabe contar. Mas esquece-se sempre em que número vai, quando os seus olhos se entendem para ela, arrependidos e tímidos. Por isso, o 3 nem aconteceu. Em vez disso, a mãe deu-lhe um doce: um sorriso recheado do melhor amor. E seguiram os dois, empurrando o carrinho de compras, corredor fora, para longe das pessoas que comeram muitos doces em pequeninos e que nunca fizeram birras no supermercado.

 

Teresa Teixeira

 

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8.2.19

Woman - Free-Photos.jpg

Foto: Woman - Free-Photos

 

O despertador ainda não tocou, mas já acordaste. Ao contrário de outros tempos, não são os minutos a menos de sono que te incomodam, nem o vislumbre imaginário da chatice das reuniões que vais ter ao longo do dia. De facto, o que te assalta é uma incapacidade imediata da capacidade de respirar. O peso no peito é insuportável e assim é, também, a incapacidade de suster o choro.

As tuas decisões e indecisões roubam-te o pensamento lúcido e a capacidade de resolução. Cessaram as soluções viáveis, existindo apenas uma montanha inultrapassável e inenarrável, porque sim, por muito que expliques, ninguém te entende, ninguém sabe como sofres, nem quão profundo é o buraco na tua alma. Porque a tua dor já não é tangível e o domínio do corpo e do real há muito foram deixados para trás, assim como a alegria e o prazer. O único consolo que te resta atualmente é quando te abandona a vigília, e o sono toma de assalto as tuas horas, agora maravilhosas. Contudo, adormeces sempre com o medo que a realidade invada o onírico, e então, até esse refugio foi contaminado pela tua dor e desespero. E esse torna-se o teu núcleo, o teu ser. A ansiedade e a angústia são o teu par, tornam-se o teu ser. Não reconheces o teu âmago e anseias a cada momento por uma explicação. Algo que te diga quem és e o que se perdeu. E como podes voltar a trás. Porquê? Que fiz eu para merecer tal sofrimento? Porque sinto o que sinto e porque já não sinto o que outrora sentia? E talvez, numa tentativa lógica de voltar a sentir, cortas-te. Uma e outra vez. Um braço serve, talvez os dois. Mas depressa te apercebes que não é solução. Nunca é solução. São apenas as cicatrizes visíveis da urgência da saída que não encontras.

 

Rui Duarte

 

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4.2.19

Man - Silvia & Frank.jpg

Foto: Man - Silvia & Frank

 

… “Chamem as tropas aquarteladas na província

Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva

Todos. Decrete-se a lei marcial com todas as suas consequências

O perigo justifica-o” …

 

Terá sido a esta altura que fiquei presa ao ecrã da televisão. O apelo, com carácter de urgência, despertou-me curiosidade, mas também inquietação.

As imagens, a preto e branco, mostravam um homem e uma mulher que corriam assustados, perdidos por ruas estreitas e vazias. Não percebia porque fugiam e de quem se escondiam, na verdade, eu nada percebia do que via na televisão, mas sentia-me arrebatada. Era a hora do jantar, o bulício do restaurante e o ruído inarmónico de talheres e pratos abafavam a voz que lia o comunicado de carácter urgente.

Inesperadamente, a sala silenciou-se. Não foi combinado e tão pouco intencional, foi um daqueles momentos em que ninguém tem nada para dizer e o silêncio cai. Pareceram uma eternidade, no entanto, quão breves e curtos foram esses segundos que nem chegaram para ouvir a razão da urgência na captura daquele casal em fuga! Mas o caso devia ser muito grave porque ainda pude ouvir na caixinha mágica:

 

 … “Por decisão governamental estão suspensas as liberdades individuais

a inviolabilidade do domicílio a habeas corpus o sigilo da

correspondência” …

 

O silêncio incomoda e é urgente preenchê-lo. Recomeçaram as conversas ao estilo rococó que é o mesmo que dizer, conversas superficiais e desorientadas, sem importância. E risos. Muitos risos, indiferentes ao drama do País e à desgraça do casal em fuga.

A dada altura, a televisão emudeceu e a imagem era um granulado nervoso e acinzentado.  Esteve assim até que, como era comum na época, apareceu o aviso:

“Pedimos desculpa por esta interrupção, o programa segue dentro de momentos.”.

A emissão retomou com anúncios publicitários. Sobre o homem e a mulher não deram mais notícias.

Lamentei o imprevisto e enfureci-me contra os desconhecidos que me impediram de seguir a história apaixonada do casal em fuga.

Não estabeleci como urgência descobrir o desenlace dos dois fugitivos, mas por vezes assaltava-me a curiosidade de saber que rumo tomaram. Seriam reais ou ficcionados? Ainda tentei descobrir que programa era aquele e recolher informações sobre a história, mas não encontrei ninguém que soubesse do que eu falava.

Por essa altura, aconteceu o 25 de Abril. Refiro-o, porque com este acontecimento chegaram novidades expressas livremente. A nível das artes então, foi um desabrochar lindo de acompanhar. As livrarias encheram-se de novos autores, as rádios passavam músicas até então desconhecidas, a televisão repunha programas anteriormente censurados. E, foi assim que numa noite, revejo novamente na televisão a história do casal em fuga. As imagens eram de outro ponto da história, mas reconheci-as de imediato. O Mário Viegas lia o comunicado que denunciava porque era tão urgente capturá-los.

 

… “beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade noturna

É preciso encontrá-los. É indispensável descobri-los

Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater

É possível que cantem

Mas defendam-se de entender a sua voz. Alguém que os escutou

deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de

lágrimas” …

 

Só consegui entregar-me à paixão das palavras ditas quando venci a surpresa e o espanto do reencontro. Não ouvi desde o início, mas tinha decorrido tanto tempo desde a primeira vez que tomei conhecimento daquela história, que não podiam estar a falar de um facto real, mas dum belíssimo texto ficcionado. Precisava de anotar o nome do autor e o título da obra, era imperioso adquirir o livro, tinha urgência em saber como começava e acabava a história dos dois amantes. Mas quê, a ficha técnica deve ter passado no início, que eu não vi, e o poema não foi dito até ao fim. Mais uma vez a história me escapou. Seria exagero afirmar que isso condicionou os meus dias seguintes, mas sim, empenhei-me na procura com a única informação que dispunha – um texto lido, na televisão, pelo Mário Viegas, sobre um homem e uma mulher que se amavam. Sem êxito.

Um dia entrei na redação do extinto jornal “O Diário” e vi colado na parede, em papel amarelecido, o extrato de um poema. Reconheci-o, era a “minha” história. Começava com o título e terminava com o nome do autor. Finalmente! Conhecer os personagens que anos antes tanto me intrigaram já não era uma urgência, mas uma emergência. Saí direta a uma livraria. O que encontrei, desconcertou-me, naquela como em todas as outras, nos escaparates destacava-se a “Invenção do Amor” do Daniel Filipe. Ainda hoje, passados tantos anos, mantenho por perto esse pequeno livrinho.

 

… “Prevê-se para breve a captura do casal fugitivo (Mas um grito de esperança inconsequente vem do fundo da noite envolver a cidade au bout du chagrin une fenêtre ouverte une fenêtre eclairée)” …

“Invenção do Amor”; Daniel Filipe

 

Cidália Carvalho

 

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1.2.19

People - StockSnap.jpg

Foto: People - StockSnap

 

Faz hoje vinte e quatro anos que o meu pai morreu. Não consigo passar este dia sem me lembrar deste facto, mesmo que o tempo avance e se preencha com tantas outras datas e memórias. Faz hoje anos que perdi alguém que me amou, que mo disse, que me fez sentir especial, ainda que por um curto espaço de tempo. Para quem nos conhece e acompanhou a nossa história de vida, esta minha afirmação poderá parecer insana. Em abono da verdade, não posso enaltecer as qualidades paternas ou conjugais do meu pai que, escravizado pelo álcool, quase nos destruiu. Durante muitos anos, a seguir a cenas dantescas, fugíamos e refugiávamo-nos em casa de algum parente (chegámos a mudar de país), mas regressávamos a casa para o infernal habitual, depois das lágrimas do meu pai e a promessa velada de que “agora ia ser tudo diferente”. Não foi um bom pai, não foi um bom marido. Quando a minha mãe teve coragem de o deixar definitivamente, passei três anos sem sequer lhe falar. Fugia dele quando ele aparecia na escola ou na rua, vivia com medo até da minha própria sombra. Aos 16 anos senti que tinha de o enfrentar e perceber o que sentia por ele, para além daquele terror tão absoluto. Sabia que não podia crescer naquele espaço, dentro de mim, de tanta raiva, em permanente estado de vigília, dominada pelo medo.

 

Um belo dia, comprei, com a ajuda de braços de um amigo, uma grade inteira de cerveja. Ajudou-me a carregá-la até à porta da casa do meu pai e fugiu antes que ele tivesse tempo de a abrir, depois de me dizer que eu devia ser maluca ou masoquista para o procurar. As minhas pernas tremiam, as mãos suavam, tinha vontade de fugir também, mas não arredei pé. Quando abriu a porta, ficou surpreso pela minha presença. Saudou-me com o sarcasmo que lhe conhecia e proferiu um disparate qualquer que ignorei. Apontei para a grade de cerveja (bebida de eleição do meu pai e que ele consumia em doses industriais, bem como os bagaços) e disse-lhe:

- Esta noite, eu e o pai, vamos beber isto tudo. Pode ser que eu hoje perceba como é que esta porcaria foi mais importante do que a mãe, eu e o meu irmão na sua vida.

Surpreso, deixou-me entrar. Enquanto caminhava para a sala, ainda com as pernas trémulas, pensava no quão difícil era estar ali, naquele cenário onde, durante mais de uma década, fomos espancados quase até à morte. Aquela casa trazia-me o terror de outrora, os gritos, o sangue, a violência física e psicológica que, para nós, foi a normalidade do quotidiano, durante demasiado tempo.

Nessa noite, estivemos sentados na varanda, bebemos, falámos. Pude, pela primeira vez, ver o meu pai com outros olhos. Descobri que, por baixo de tanta raiva, de tanta frustração, estava um homem assustado, frágil, vulnerável. Não falámos diretamente do passado, mas a dada altura, o meu pai perguntou-me se era possível perdoar coisas já idas, se eu era capaz de perdoar. Disse-lhe que não era Juíza, Deus ou qualquer outra entidade com tal poder, para criticar, julgar, absolver ou condenar. Disse-lhe que gostava dele, apesar de todos os pesares, que percebia agora que tinha o melhor dele em mim (o amor pelas palavras, pela leitura e pela escrita, o humor mordaz, a rapidez de pensamento) e que lamentava que a vida lhe tivesse, precocemente, ceifado o caminho. Perguntei quem o tinha magoado tanto para ele nos ferir com tanta violência. Chorou como um menino, mas não me respondeu… Não consegui abraçá-lo, não sabia como fazê-lo, mas permaneci ao seu lado, em silêncio, e partilhei as suas lágrimas.

 

Naquele momento, constatei que eu, a minha mãe e o meu irmão teríamos de viver com aquelas memórias aterradoras, sim, mas o meu pai tinha o pior dos castigos: viver com o que nos tinha feito, até ao último dos seus dias. Não podia imaginar nada mais triste do que ser quem ele era, nada podia ser mais punitivo do que carregar aquela mágoa: ser, simultaneamente, a sua maior vítima e o seu próprio carrasco. E, naquela varanda pequena, de madrugada, com aquele homem ao meu lado, subjugado pelo peso da culpa, do remorso e da vergonha, soube que nem o meu pai conseguiria odiar.

Essa noite salvou-nos. Nunca mais pude apreciar uma cerveja, é um facto, mas o balanço final era claramente positivo. Durante os (quase) quatro anos seguintes, apesar do alcoolismo crónico, tive o pai que nunca havia tido: doce, carinhoso, orgulhoso de mim. Nunca mais foi violento, física ou psicologicamente. No único dia em que ousou levantar-me a voz, berrei mais alto do que ele e ele calou-se. Disse-lhe:

- Afinal o pai é um covarde como os outros. Só ostraciza quem treme de medo. Pois eu não tenho medo, já não. Acabou!

Olho no olho. Firmeza na minha voz. A primeira e última vez que precisei de o fazer.

Desse dia em diante, substituímos os gritos por gargalhadas e os anos passaram demasiado rápido. Na verdade, não podemos parar o tempo ou dizer-lhe que é urgente viver devagar, que precisamos de tempo para sentir devidamente, para absorver e digerir as páginas da vida e as mazelas debaixo da pele. Gostava de ter crescido mais um pouco, mais depressa, de poder vir a ser adulta a sério para o conseguir ajudar. Na minha cabeça, assim que tivesse um emprego “como devia ser”, estabilidade e maturidade, iria ajudá-lo a deixar o álcool. Iria ser capaz de o amar o suficiente para que ele não fosse atormentado pelos seus demónios; imaginá-lo torturado pelos remorsos não era uma imagem que me agradasse. Durante esses anos, fui feliz ao lado do meu pai. Vivi com ele momentos muito bons que, aos poucos, foram varrendo as memórias tempestuosas para um canto esquecido em mim e dando lugar apenas ao amor, ao carinho, ao respeito que sempre havia esperado. O meu pai esteve presente, sobretudo, emocionalmente, em momentos marcantes e decisivos da minha entrada na vida adulta. Sou muito grata por este tempo que nos resgatou e que me permite, ainda hoje, lembrá-lo sem dor e com verdadeira saudade.

 

No dia em que o meu pai faleceu, corri para a sua casa, para lhe dar a notícia da neta que vinha a caminho. Queria tanto que ele conhecesse a bebé que trazia dentro de mim, talvez esta menina o ajudasse a escrever uma nova história, uma sem violência, dor e culpa. Uma que lhe permitisse uma velhice feliz e sanada. Afinal, os seus 52 anos faziam-me crer que tínhamos tempo. Estava tão feliz por saber que seria avô em breve! Faltavam quatro meses para a minha filha nascer quando sepultei o meu pai. Faltava tempo para todos os meus planos, faltava o meu pai na minha vida e, pela primeira vez, senti-me verdadeiramente só. Órfã de amor e de pertença. Tudo me havia sido tomado precocemente. Na urgência dos dias, questionava-me se seria essa a cadência do meu percurso vital. Estava mais perdida do que um caramelo esquecido no bolso de um casaco, na mudança de estação. Assim que me foi possível, coloquei aqueles quatro anos no regaço, para que jamais me escapassem (tudo o resto deixei ir no caixão do meu pai), abracei a dor e a incompreensão e aceitei a inevitabilidade da existência. Um dia atrás do outro.

 

Vinte e quatro anos depois, não sou vítima de coisa nenhuma, continuo profundamente grata. Estou em paz com este passado e deixo que a saudade mais apertada, que hoje sinto, me lembre o bom que pude viver – é aqui que me alicerço, nos dias frágeis, em que a memória me trai… Mas hoje, só hoje, gostava de poder olhar o meu pai nos olhos, apresentar-lhe os três netos lindos que ele tem e, estou certa, vê-lo sorrir, inchado de orgulho e de alegria. Gostava de sentir as suas mãos nas minhas, dizer-lhe que o amo, que sou feliz e dar-lhe o abraço que lhe faltou quando ele era pequenino. Afinal, sei-o agora, precisou de mais amor do que nós.

 

Alexandra Vaz

 

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28.1.19

Millennial - Quinn Kampschroer.jpg

Foto: Millennial - Quinn Kampschroer

 

É sexta feira à noite, trabalhei até tarde, todo o dia. Toda a santa semana. Acabei um jantar de restos, em casa. Estou cansado, o corpo pesa-me, cai-me, quase desvalido, no sofá. Não tenho programa para o início de fim de semana, nem procuro ter. Não me apetece.

Mecanicamente, sonolentamente, automaticamente pressiono a tecla do comando e deslizo a vista, sem ver, pelos vários canais da televisão. O mesmo pelos aplicativos e redes sociais do telemóvel sempre na mão. Encosto a cabeça para trás...

 

Toca o telefone, o toque do cartão profissional.

Grande surpresa, das antigas! É um grande parceiro e amigo de Coimbra, que já não vejo e de quem já não tenho notícias há anos, por mais que as tivesse procurado ter. Está no Porto. Conseguiu o número de telefone na minha página profissional. Não preciso de mais nada, basta-me a sua voz, um pouco mais grave e rouca, para, sobressaltado, melhor, entusiasmado, o reconhecer. Grande, saudoso amigo, finalmente! Como estás tu, como me descobriste? Claro que vou, imediatamente. Apanho-te no hotel, vamos conversar, beber um copo. Pôr a conversa, as nossas vidas, em dia!

Já percebestes, o sono, a canseira, esfumaram-se. O que tenho é entusiasmo. Despertei. Até parece que tenho menos 30 e tal anos. Maravilha de surpresa, é bom ter alegrias assim.

 

A situação pode ser esta, similar, semelhante. Acredito que não é difícil assimilar o que se passou. Já todos passámos por isto, basta fazer as devidas adaptações pessoais. Fácil de compreender, não é?

Convirá é ir buscar estas vivências, por que todos já passámos e observámos nos outros, quando precisamos delas. Quando estamos cansados, ou descrentes, ou desmotivados. Quando não nos apetece e… talvez amanhã ou depois.

 

Urgência, emergência, importância. Muitas vezes confundimos conceitos, situações. Deixamos andar. Por algum motivo estamos cansados. Só a sirene, o final do prazo nos espicaça e nos dá a vontade, a força que estava escondida, adormecida.

É hoje em dia evidente como verdadeira a tese de Ortega y Gasset de que o Homem é ele próprio e a sua circunstância.

Sabido e aceite isto, falta, convirá, aplicar. Fazer. Não deixar para o acaso ou iniciativa de outros o que nós podemos também fazer, nos nossos termos. Construir, erguer mecanismos interiores que nos ajudem a assumir que o que é importante é como se fosse urgente. Não o contrário.

Ser reativo pode ser bom. Desenrasca. Ser proativo é melhor.

 

Jorge Saraiva

 

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25.1.19

Time - Myriam.jpg

Foto: Time - Myriam

 

“Não tenho pressa. Pressa de quê?

Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.

Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,

Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.

Não; não sei ter pressa.

...

Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,

E vivemos vadios da nossa realidade.

E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.”

Alberto Caeiro

 

Um incómodo grande, a falta de barulho. Nem que seja o do rádio ou da televisão. Um aborrecimento ter de nos ouvir, o que por aqui ecoa na tubagem, nas cavernas.

Reparei que fico bastante cheia de mim ao fim de uma viagem de autocarro de 4 horas. Chego ao pé das pessoas e toda eu só quero falar. Expulsar o demónio. Quando não consigo adormecer, ler tem sido um modo de me distrair. Fico pensando se esta parte da canalização interna não range como um cuco à espera de ser notada, se não quer ser ardentemente vista. Mas traz aquele incómodo das paixões, invejas, ciúmes, as fraquezas da gula e do desejo. Traz o ressentimento e o ódio, a competição e a agressividade. A par disso muita fome, várias.

 

Tenho lido “De olhos fixos no sol” do Irvin Yalom, e fala sobre a morte, a construção de significado, o isolamento face ao nosso derradeiro. Conta também o face a face com aquela questão que nos tira o sossego, o do passado já não voltar. Dei conta que ele partilha o momento em que vê o pai ao telefone a receber a notícia que o seu pai morreu. Isso remeteu-me também para a minha história, tal e qual, tirado a papel químico. Vi o meu pai a ir ao telefone, ouvi um som diferente, a mãe passa a correr atrás dele, ambos em direção ao quarto. O som diferente não se altera, agudiza e fica num som permanente.

Eu dirijo-me ainda mais ao meu quarto (se calhar já lá me encontrava), por mais curiosidade que tivesse apercebo-me rapidamente que não ia mesmo querer saber o que causava tamanha desfiguração ao meu pai, tive medo.

Que mais futuro me fará fugir para o meu quarto? O medo maior, penso, é o terror conhecido, não o que há de vir ou o desconhecido, desse não tenho sequer imagem, cores ou sons. Yalom recomenda um exercício, olhar para o passado ano e perguntar-se: estaria disposto a repeti-lo tal e qual? Se notar arrependimentos, algo que não quer que se repita, então, tratar de remover ou mudar isso. Eu gostei deste exercício.

Aconselho o livro, mas com leitura reconfortante, por exemplo, Tolentino Mendonça.

 

Maria João Enes

 

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