4.2.19

Man - Silvia & Frank.jpg

Foto: Man - Silvia & Frank

 

… “Chamem as tropas aquarteladas na província

Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva

Todos. Decrete-se a lei marcial com todas as suas consequências

O perigo justifica-o” …

 

Terá sido a esta altura que fiquei presa ao ecrã da televisão. O apelo, com carácter de urgência, despertou-me curiosidade, mas também inquietação.

As imagens, a preto e branco, mostravam um homem e uma mulher que corriam assustados, perdidos por ruas estreitas e vazias. Não percebia porque fugiam e de quem se escondiam, na verdade, eu nada percebia do que via na televisão, mas sentia-me arrebatada. Era a hora do jantar, o bulício do restaurante e o ruído inarmónico de talheres e pratos abafavam a voz que lia o comunicado de carácter urgente.

Inesperadamente, a sala silenciou-se. Não foi combinado e tão pouco intencional, foi um daqueles momentos em que ninguém tem nada para dizer e o silêncio cai. Pareceram uma eternidade, no entanto, quão breves e curtos foram esses segundos que nem chegaram para ouvir a razão da urgência na captura daquele casal em fuga! Mas o caso devia ser muito grave porque ainda pude ouvir na caixinha mágica:

 

 … “Por decisão governamental estão suspensas as liberdades individuais

a inviolabilidade do domicílio a habeas corpus o sigilo da

correspondência” …

 

O silêncio incomoda e é urgente preenchê-lo. Recomeçaram as conversas ao estilo rococó que é o mesmo que dizer, conversas superficiais e desorientadas, sem importância. E risos. Muitos risos, indiferentes ao drama do País e à desgraça do casal em fuga.

A dada altura, a televisão emudeceu e a imagem era um granulado nervoso e acinzentado.  Esteve assim até que, como era comum na época, apareceu o aviso:

“Pedimos desculpa por esta interrupção, o programa segue dentro de momentos.”.

A emissão retomou com anúncios publicitários. Sobre o homem e a mulher não deram mais notícias.

Lamentei o imprevisto e enfureci-me contra os desconhecidos que me impediram de seguir a história apaixonada do casal em fuga.

Não estabeleci como urgência descobrir o desenlace dos dois fugitivos, mas por vezes assaltava-me a curiosidade de saber que rumo tomaram. Seriam reais ou ficcionados? Ainda tentei descobrir que programa era aquele e recolher informações sobre a história, mas não encontrei ninguém que soubesse do que eu falava.

Por essa altura, aconteceu o 25 de Abril. Refiro-o, porque com este acontecimento chegaram novidades expressas livremente. A nível das artes então, foi um desabrochar lindo de acompanhar. As livrarias encheram-se de novos autores, as rádios passavam músicas até então desconhecidas, a televisão repunha programas anteriormente censurados. E, foi assim que numa noite, revejo novamente na televisão a história do casal em fuga. As imagens eram de outro ponto da história, mas reconheci-as de imediato. O Mário Viegas lia o comunicado que denunciava porque era tão urgente capturá-los.

 

… “beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade noturna

É preciso encontrá-los. É indispensável descobri-los

Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater

É possível que cantem

Mas defendam-se de entender a sua voz. Alguém que os escutou

deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de

lágrimas” …

 

Só consegui entregar-me à paixão das palavras ditas quando venci a surpresa e o espanto do reencontro. Não ouvi desde o início, mas tinha decorrido tanto tempo desde a primeira vez que tomei conhecimento daquela história, que não podiam estar a falar de um facto real, mas dum belíssimo texto ficcionado. Precisava de anotar o nome do autor e o título da obra, era imperioso adquirir o livro, tinha urgência em saber como começava e acabava a história dos dois amantes. Mas quê, a ficha técnica deve ter passado no início, que eu não vi, e o poema não foi dito até ao fim. Mais uma vez a história me escapou. Seria exagero afirmar que isso condicionou os meus dias seguintes, mas sim, empenhei-me na procura com a única informação que dispunha – um texto lido, na televisão, pelo Mário Viegas, sobre um homem e uma mulher que se amavam. Sem êxito.

Um dia entrei na redação do extinto jornal “O Diário” e vi colado na parede, em papel amarelecido, o extrato de um poema. Reconheci-o, era a “minha” história. Começava com o título e terminava com o nome do autor. Finalmente! Conhecer os personagens que anos antes tanto me intrigaram já não era uma urgência, mas uma emergência. Saí direta a uma livraria. O que encontrei, desconcertou-me, naquela como em todas as outras, nos escaparates destacava-se a “Invenção do Amor” do Daniel Filipe. Ainda hoje, passados tantos anos, mantenho por perto esse pequeno livrinho.

 

… “Prevê-se para breve a captura do casal fugitivo (Mas um grito de esperança inconsequente vem do fundo da noite envolver a cidade au bout du chagrin une fenêtre ouverte une fenêtre eclairée)” …

“Invenção do Amor”; Daniel Filipe

 

Cidália Carvalho

 

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1.2.19

People - StockSnap.jpg

Foto: People - StockSnap

 

Faz hoje vinte e quatro anos que o meu pai morreu. Não consigo passar este dia sem me lembrar deste facto, mesmo que o tempo avance e se preencha com tantas outras datas e memórias. Faz hoje anos que perdi alguém que me amou, que mo disse, que me fez sentir especial, ainda que por um curto espaço de tempo. Para quem nos conhece e acompanhou a nossa história de vida, esta minha afirmação poderá parecer insana. Em abono da verdade, não posso enaltecer as qualidades paternas ou conjugais do meu pai que, escravizado pelo álcool, quase nos destruiu. Durante muitos anos, a seguir a cenas dantescas, fugíamos e refugiávamo-nos em casa de algum parente (chegámos a mudar de país), mas regressávamos a casa para o infernal habitual, depois das lágrimas do meu pai e a promessa velada de que “agora ia ser tudo diferente”. Não foi um bom pai, não foi um bom marido. Quando a minha mãe teve coragem de o deixar definitivamente, passei três anos sem sequer lhe falar. Fugia dele quando ele aparecia na escola ou na rua, vivia com medo até da minha própria sombra. Aos 16 anos senti que tinha de o enfrentar e perceber o que sentia por ele, para além daquele terror tão absoluto. Sabia que não podia crescer naquele espaço, dentro de mim, de tanta raiva, em permanente estado de vigília, dominada pelo medo.

 

Um belo dia, comprei, com a ajuda de braços de um amigo, uma grade inteira de cerveja. Ajudou-me a carregá-la até à porta da casa do meu pai e fugiu antes que ele tivesse tempo de a abrir, depois de me dizer que eu devia ser maluca ou masoquista para o procurar. As minhas pernas tremiam, as mãos suavam, tinha vontade de fugir também, mas não arredei pé. Quando abriu a porta, ficou surpreso pela minha presença. Saudou-me com o sarcasmo que lhe conhecia e proferiu um disparate qualquer que ignorei. Apontei para a grade de cerveja (bebida de eleição do meu pai e que ele consumia em doses industriais, bem como os bagaços) e disse-lhe:

- Esta noite, eu e o pai, vamos beber isto tudo. Pode ser que eu hoje perceba como é que esta porcaria foi mais importante do que a mãe, eu e o meu irmão na sua vida.

Surpreso, deixou-me entrar. Enquanto caminhava para a sala, ainda com as pernas trémulas, pensava no quão difícil era estar ali, naquele cenário onde, durante mais de uma década, fomos espancados quase até à morte. Aquela casa trazia-me o terror de outrora, os gritos, o sangue, a violência física e psicológica que, para nós, foi a normalidade do quotidiano, durante demasiado tempo.

Nessa noite, estivemos sentados na varanda, bebemos, falámos. Pude, pela primeira vez, ver o meu pai com outros olhos. Descobri que, por baixo de tanta raiva, de tanta frustração, estava um homem assustado, frágil, vulnerável. Não falámos diretamente do passado, mas a dada altura, o meu pai perguntou-me se era possível perdoar coisas já idas, se eu era capaz de perdoar. Disse-lhe que não era Juíza, Deus ou qualquer outra entidade com tal poder, para criticar, julgar, absolver ou condenar. Disse-lhe que gostava dele, apesar de todos os pesares, que percebia agora que tinha o melhor dele em mim (o amor pelas palavras, pela leitura e pela escrita, o humor mordaz, a rapidez de pensamento) e que lamentava que a vida lhe tivesse, precocemente, ceifado o caminho. Perguntei quem o tinha magoado tanto para ele nos ferir com tanta violência. Chorou como um menino, mas não me respondeu… Não consegui abraçá-lo, não sabia como fazê-lo, mas permaneci ao seu lado, em silêncio, e partilhei as suas lágrimas.

 

Naquele momento, constatei que eu, a minha mãe e o meu irmão teríamos de viver com aquelas memórias aterradoras, sim, mas o meu pai tinha o pior dos castigos: viver com o que nos tinha feito, até ao último dos seus dias. Não podia imaginar nada mais triste do que ser quem ele era, nada podia ser mais punitivo do que carregar aquela mágoa: ser, simultaneamente, a sua maior vítima e o seu próprio carrasco. E, naquela varanda pequena, de madrugada, com aquele homem ao meu lado, subjugado pelo peso da culpa, do remorso e da vergonha, soube que nem o meu pai conseguiria odiar.

Essa noite salvou-nos. Nunca mais pude apreciar uma cerveja, é um facto, mas o balanço final era claramente positivo. Durante os (quase) quatro anos seguintes, apesar do alcoolismo crónico, tive o pai que nunca havia tido: doce, carinhoso, orgulhoso de mim. Nunca mais foi violento, física ou psicologicamente. No único dia em que ousou levantar-me a voz, berrei mais alto do que ele e ele calou-se. Disse-lhe:

- Afinal o pai é um covarde como os outros. Só ostraciza quem treme de medo. Pois eu não tenho medo, já não. Acabou!

Olho no olho. Firmeza na minha voz. A primeira e última vez que precisei de o fazer.

Desse dia em diante, substituímos os gritos por gargalhadas e os anos passaram demasiado rápido. Na verdade, não podemos parar o tempo ou dizer-lhe que é urgente viver devagar, que precisamos de tempo para sentir devidamente, para absorver e digerir as páginas da vida e as mazelas debaixo da pele. Gostava de ter crescido mais um pouco, mais depressa, de poder vir a ser adulta a sério para o conseguir ajudar. Na minha cabeça, assim que tivesse um emprego “como devia ser”, estabilidade e maturidade, iria ajudá-lo a deixar o álcool. Iria ser capaz de o amar o suficiente para que ele não fosse atormentado pelos seus demónios; imaginá-lo torturado pelos remorsos não era uma imagem que me agradasse. Durante esses anos, fui feliz ao lado do meu pai. Vivi com ele momentos muito bons que, aos poucos, foram varrendo as memórias tempestuosas para um canto esquecido em mim e dando lugar apenas ao amor, ao carinho, ao respeito que sempre havia esperado. O meu pai esteve presente, sobretudo, emocionalmente, em momentos marcantes e decisivos da minha entrada na vida adulta. Sou muito grata por este tempo que nos resgatou e que me permite, ainda hoje, lembrá-lo sem dor e com verdadeira saudade.

 

No dia em que o meu pai faleceu, corri para a sua casa, para lhe dar a notícia da neta que vinha a caminho. Queria tanto que ele conhecesse a bebé que trazia dentro de mim, talvez esta menina o ajudasse a escrever uma nova história, uma sem violência, dor e culpa. Uma que lhe permitisse uma velhice feliz e sanada. Afinal, os seus 52 anos faziam-me crer que tínhamos tempo. Estava tão feliz por saber que seria avô em breve! Faltavam quatro meses para a minha filha nascer quando sepultei o meu pai. Faltava tempo para todos os meus planos, faltava o meu pai na minha vida e, pela primeira vez, senti-me verdadeiramente só. Órfã de amor e de pertença. Tudo me havia sido tomado precocemente. Na urgência dos dias, questionava-me se seria essa a cadência do meu percurso vital. Estava mais perdida do que um caramelo esquecido no bolso de um casaco, na mudança de estação. Assim que me foi possível, coloquei aqueles quatro anos no regaço, para que jamais me escapassem (tudo o resto deixei ir no caixão do meu pai), abracei a dor e a incompreensão e aceitei a inevitabilidade da existência. Um dia atrás do outro.

 

Vinte e quatro anos depois, não sou vítima de coisa nenhuma, continuo profundamente grata. Estou em paz com este passado e deixo que a saudade mais apertada, que hoje sinto, me lembre o bom que pude viver – é aqui que me alicerço, nos dias frágeis, em que a memória me trai… Mas hoje, só hoje, gostava de poder olhar o meu pai nos olhos, apresentar-lhe os três netos lindos que ele tem e, estou certa, vê-lo sorrir, inchado de orgulho e de alegria. Gostava de sentir as suas mãos nas minhas, dizer-lhe que o amo, que sou feliz e dar-lhe o abraço que lhe faltou quando ele era pequenino. Afinal, sei-o agora, precisou de mais amor do que nós.

 

Alexandra Vaz

 

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28.1.19

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Foto: Millennial - Quinn Kampschroer

 

É sexta feira à noite, trabalhei até tarde, todo o dia. Toda a santa semana. Acabei um jantar de restos, em casa. Estou cansado, o corpo pesa-me, cai-me, quase desvalido, no sofá. Não tenho programa para o início de fim de semana, nem procuro ter. Não me apetece.

Mecanicamente, sonolentamente, automaticamente pressiono a tecla do comando e deslizo a vista, sem ver, pelos vários canais da televisão. O mesmo pelos aplicativos e redes sociais do telemóvel sempre na mão. Encosto a cabeça para trás...

 

Toca o telefone, o toque do cartão profissional.

Grande surpresa, das antigas! É um grande parceiro e amigo de Coimbra, que já não vejo e de quem já não tenho notícias há anos, por mais que as tivesse procurado ter. Está no Porto. Conseguiu o número de telefone na minha página profissional. Não preciso de mais nada, basta-me a sua voz, um pouco mais grave e rouca, para, sobressaltado, melhor, entusiasmado, o reconhecer. Grande, saudoso amigo, finalmente! Como estás tu, como me descobriste? Claro que vou, imediatamente. Apanho-te no hotel, vamos conversar, beber um copo. Pôr a conversa, as nossas vidas, em dia!

Já percebestes, o sono, a canseira, esfumaram-se. O que tenho é entusiasmo. Despertei. Até parece que tenho menos 30 e tal anos. Maravilha de surpresa, é bom ter alegrias assim.

 

A situação pode ser esta, similar, semelhante. Acredito que não é difícil assimilar o que se passou. Já todos passámos por isto, basta fazer as devidas adaptações pessoais. Fácil de compreender, não é?

Convirá é ir buscar estas vivências, por que todos já passámos e observámos nos outros, quando precisamos delas. Quando estamos cansados, ou descrentes, ou desmotivados. Quando não nos apetece e… talvez amanhã ou depois.

 

Urgência, emergência, importância. Muitas vezes confundimos conceitos, situações. Deixamos andar. Por algum motivo estamos cansados. Só a sirene, o final do prazo nos espicaça e nos dá a vontade, a força que estava escondida, adormecida.

É hoje em dia evidente como verdadeira a tese de Ortega y Gasset de que o Homem é ele próprio e a sua circunstância.

Sabido e aceite isto, falta, convirá, aplicar. Fazer. Não deixar para o acaso ou iniciativa de outros o que nós podemos também fazer, nos nossos termos. Construir, erguer mecanismos interiores que nos ajudem a assumir que o que é importante é como se fosse urgente. Não o contrário.

Ser reativo pode ser bom. Desenrasca. Ser proativo é melhor.

 

Jorge Saraiva

 

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25.1.19

Time - Myriam.jpg

Foto: Time - Myriam

 

“Não tenho pressa. Pressa de quê?

Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.

Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,

Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.

Não; não sei ter pressa.

...

Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,

E vivemos vadios da nossa realidade.

E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.”

Alberto Caeiro

 

Um incómodo grande, a falta de barulho. Nem que seja o do rádio ou da televisão. Um aborrecimento ter de nos ouvir, o que por aqui ecoa na tubagem, nas cavernas.

Reparei que fico bastante cheia de mim ao fim de uma viagem de autocarro de 4 horas. Chego ao pé das pessoas e toda eu só quero falar. Expulsar o demónio. Quando não consigo adormecer, ler tem sido um modo de me distrair. Fico pensando se esta parte da canalização interna não range como um cuco à espera de ser notada, se não quer ser ardentemente vista. Mas traz aquele incómodo das paixões, invejas, ciúmes, as fraquezas da gula e do desejo. Traz o ressentimento e o ódio, a competição e a agressividade. A par disso muita fome, várias.

 

Tenho lido “De olhos fixos no sol” do Irvin Yalom, e fala sobre a morte, a construção de significado, o isolamento face ao nosso derradeiro. Conta também o face a face com aquela questão que nos tira o sossego, o do passado já não voltar. Dei conta que ele partilha o momento em que vê o pai ao telefone a receber a notícia que o seu pai morreu. Isso remeteu-me também para a minha história, tal e qual, tirado a papel químico. Vi o meu pai a ir ao telefone, ouvi um som diferente, a mãe passa a correr atrás dele, ambos em direção ao quarto. O som diferente não se altera, agudiza e fica num som permanente.

Eu dirijo-me ainda mais ao meu quarto (se calhar já lá me encontrava), por mais curiosidade que tivesse apercebo-me rapidamente que não ia mesmo querer saber o que causava tamanha desfiguração ao meu pai, tive medo.

Que mais futuro me fará fugir para o meu quarto? O medo maior, penso, é o terror conhecido, não o que há de vir ou o desconhecido, desse não tenho sequer imagem, cores ou sons. Yalom recomenda um exercício, olhar para o passado ano e perguntar-se: estaria disposto a repeti-lo tal e qual? Se notar arrependimentos, algo que não quer que se repita, então, tratar de remover ou mudar isso. Eu gostei deste exercício.

Aconselho o livro, mas com leitura reconfortante, por exemplo, Tolentino Mendonça.

 

Maria João Enes

 

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21.1.19

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Foto: Wristwatch - Steve Buissinne

 

Urgente! Temos que viver este instante. O dia deixou de ter 24 h, resume-se a minutos e ouve-se o tiquetaque do relógio, ensurdecedor. O tempo encolheu, é insuficiente. Incontáveis são as solicitações que recebo e quero responder a todas, preciso disso. Ou será que não? Há uma pressão constante e cedo. Quero ter o controlo, mas tudo é incontrolável. Corro, perco o fôlego, mas contínuo, não posso parar. Ou não me deixam? Fico ansiosa porque amanhã já nasce um novo dia.

Quero viver, mas o tempo é tão rápido que nem dou conta. Não quero perder um segundo da vida, mas não consigo senti-la. Também quero tempo para olhar para mim, para fechar os olhos e inspirar profundamente, também quero ter tempo para não pensar em nada, mas não consigo encontrá-lo. A cada segundo sou bombardeada com milhares de informações, não consigo escapar. Sinto-me cansada e farta de ser levada no meio da multidão. Mas não temos que ser todos iguais, apesar de ser difícil de controlar, é possível.

Ligo a televisão e sei, no mesmo instante, que o mundo continua a girar. Fico a saber o que interessa e aquilo que não me traz benefício algum. Desligo-a e torno-me uma ignorante.

Ligo a Internet no meu smartphone, quase imposto, e há um dilúvio de informação. Estamos em permanente contacto com o mundo e com as pessoas. Haverá necessidade? Tudo é uma escolha. Desligo a Internet e o telefone não toca durante dias. A vida acontece por detrás de um ecrã e isso entristece-me. Sou culpada, aceito a sentença.

 

Os álbuns de fotografias, daquelas que temos na casa dos nossos pais com a história da nossa infância, encontram-se em vias de extinção. O rolo da câmara nunca acaba. Esteja onde estiver eu sou a fotógrafa, por completo. Escolho e enquadro o cenário, ajusto a luz, pressiono o botão e olho, repito o processo as vezes que entender. Depois volto a escolher, eu mando no arco-íris. Revelo-a, mas não me encontro numa sala escura, encontro-me no palco principal do espetáculo. E quase no imediato, sem sequer se moverem do local onde estão, todos assistem. Gosto. Sim, e nem sei bem porquê. Preciso disso para ser feliz? É óbvio que não.

Os conhecidos são mais “amigos” do que os amigos que conheço. A lista de “amigos” cresce exponencialmente. O livro permanece aberto e em permanente construção, a sua história nunca terá um ponto final. Mas se sou eu a autora, porque não? Porque há histórias que já não se escrevem fora do livro.

Instante. Histórias. Público. Paredes. 24 h. Todos somos iluminados pelas luzes da ribalta, à espera de um aplauso. Quem somos nós? Somos o amigo daquele amigo a quem nunca demos um abraço.

Queremos ser vistos, ouvidos e comentados no agora. É urgente porque o tempo encolheu. Ganho um sorriso vago, mas o meu ritmo cardíaco não se altera. Passam mais 24 h e tudo se repete, provavelmente.

 

Existem vantagens na urgência do dia-a-dia, é claro que as vejo. Mas as desvantagens perturbam-me. Volto a baixar a cabeça, sou culpada também, sim.

A verdade é que o tiquetaque fica gravado na nossa cabeça. Queremos viver o instante porque não sabemos o que o amanhã nos reserva e, muito menos, o que pode acontecer num instante. A vida é para ser vivida, mas temos que a sentir, não nos podemos esquecer disso. Os sentimentos aquecem-nos a alma, fazem acelerar o coração e trazem-nos sensações inexplicáveis. Gosto de clichés. Simples.

Sozinha, em silêncio e, depois de me ter perdido no tempo, finalizo citando um autor que não é meu “amigo”: “Não tenha pressa, mas não perca tempo.”.

 

Marisa Fernandes

 

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18.1.19

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Foto: Hourglass - Annca

 

No nosso dia-a-dia, temos por hábito colocar a urgência à frente da prioridade, sacrificando, frequentemente, valores importantes da nossa vida, nomeadamente, a saúde, a segurança e o nosso bem-estar. Pomos de lado as prioridades para atender ao urgente, deixando-nos subjugar pela urgência, o que nos tolhe e nos retira a clareza e o discernimento necessários para poder decidir serenamente.

Quantas vezes, por sermos escravos da urgência, não damos prioridade àquilo que é prioritário, em manifesto detrimento do que é fundamental para um viver saudável. Prioritário é aquilo que é mais importante, aquilo que deve ocupar o primeiro lugar e que deve sobrepor-se, sempre que possível, à urgência. Esta, afinal, apenas traduzirá aquilo que urge, aquilo que é iminente, muitas vezes sem conteúdo significativo, e que não nos permite ir mais além, porque nos sufoca, nos aperta, nos oprime, comportando-se como uma entidade tirânica que controla todos os nossos movimentos e interesses.

 

Nos tempos que correm, a nossa vida é, infelizmente, dominada pela tirania da urgência; esta impera sobre o importante, criando uma autêntica vida de tensão. Como seria bom poder vermo-nos livres dessa tirania!

Atribui-se a Eisenhower a frase “O que é urgente raras vezes é importante, e o que é importante raras vezes é urgente”. Muito significativa esta máxima, dado que muitas tarefas consideradas urgentes não precisariam de ser feitas hoje ou até nos dias próximos, podendo, no lugar delas, ser realizadas outras mais prioritárias, mais úteis, com mais interesse e de maior relevo ou importância social, pois, nem tudo na vida que é urgente é prioritário.

Antes que seja tarde de mais, livremo-nos da tirania da urgência, do seu jugo, saibamos gerir o nosso tempo de acordo com a ordem de prioridades do que é mais profícuo e importante na vida. Afinal, esta é uma só e vale a pena ser vivida, mas sem qualquer tipo de opressão ou constrangimento.

 

José Azevedo

 

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14.1.19

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Foto: Black-and-white - abigail2resident

 

O teu sorriso era diferente – o teu ar, que costumava ser calmo, era hoje agitado.

Senti-me preocupada e perguntei-te. Respondeste que estava tudo bem, apenas estavas ligeiramente cansado e abraçaste-me. Um abraço forte, um abraço demasiado forte, como se te despedisses de algo, como se te fosses ausentar. Não questionei o facto de o fazeres. Apenas retribui.

Saíste pela porta e espreitei-te pela janela, olhaste para trás e sorriste-me, acenando.

Sentia-te perto, mas longe ao mesmo tempo. Senti um calafrio, não conseguindo explicar o porquê.

Pedi-te para me mandares uma mensagem ou para me ligares quando chegasses, apesar de não ser longe – apetecia-me pedir-te, algo me dizia para o fazer.

 

Passou uma hora, passaram duas. Achei estranho – não costumavas esquecer-te de ligar. Liguei-te! Chamou, chamou... Ninguém atendeu. Liguei-te uma segunda vez. Atendeste! Pensei eu...

Do outro lado uma voz estranha disse "Olá!". O meu coração gelou, senti-me estremecer. Do outro lado ouvi essa mesma voz dizer-me que tinhas tido um acidente, tinhas ido de urgência para o hospital mais perto.

Corri, corri tanto. Tinha medo, medo de não te conseguir ver mais, medo de te perder. Medo de não conseguir dizer o quanto te amo. Pedia a Deus, pedia muito, para não te levar.

Cheguei. Corri até à primeira pessoa que encontrei e perguntei. Perguntei por ti, perguntei a medo. Mas estavas vivo. O mesmo minuto que foi crucial para sobreviveres, fora também o minuto para te deixar paraplégico. Um minuto que tudo mudou.

 

Inês Ramos

 

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11.1.19

Woman - Engin Akyurt.jpg

Foto: Woman - Engin Akyurt

 

É urgente o amor, é urgente

permanecer.”

 “É urgente o amor”; Eugénio de Andrade

 

Há urgências intemporais, alheias aos costumes e épocas. Há preces por atender, ânsias por viver, abraços por receber. Há tempestades por colher e bonanças por antever. Mas acima de tudo, urge o amor.

O que carrega a paz em si e se expressa por meio da compreensão. O que é parente da empatia e forte amigo da alegria.

E antes que o negrume se instale, gerando o caos e a confusão, há que pensar e refletir devidamente sobre toda esta situação. Porque é urgente o amor. É urgente saber ao que se deverá dar valor.

 

Sara Silva

 

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7.1.19

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Foto: Woman - Gerd Altmann

 

Trabalhar para ontem e não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje é um lema de vida que me tem acompanhado. Embora não me tenha ainda dado mal com ele, por vezes sofro com isso. Parece que o tempo me aperta e até me estrangula. Quero dar resposta logo ao solicitado, porque me dizem que é urgente. Faço logo que posso, apenas porque me dizem que é urgente. As solicitações são muitas e são todas para ontem e, assim, eu penso que é urgente e faço desvalorizando o cansaço, desvalorizando os sinais que o corpo me vai dando. Tenho dias assim. Tenho dias que, quando tenho solicitações que me dizem que são urgentes, faço sem parar. Reparo mais tarde que, afinal, não precisava de tanta urgência. Sim, já aconteceu várias vezes. Pessoas com as mesmas solicitações vivem a situação com mais calma. Afinal, poderia responder ao solicitado com uma urgência relativa. Mas, já está. Tenho vozes que me vão dizendo para relativizar a urgência das coisas e dormir sobre os assuntos. Vou fazendo um esforço para me comportar assim. Mas quando dou conta, lá estou eu a responder com a urgência que me é solicitada. Talvez um dia venha a conseguir. Seria bom, porque, de facto, às vezes a urgência é mesmo relativa e o stresse talvez diminuísse. Vou tentar!

 

Ermelinda Macedo

 

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4.1.19

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Foto: African - Lihle Lynne

 

“É urgente estar atento

Ver para onde corre a maré

Ver de onde sopra o vento

Não vás tu perder o pé”

 

Excerto da canção “Impele a tua própria canoa”, do Corpo Nacional de Escutas

 

Quem foi, ou é escuteiro, certamente já ouviu esta canção. Se assim é, já sentiu a sensação de parar para pensar no que é urgente para si e para a sua vida. Conduzir a nossa própria vida é o mais prioritário, se pretendermos deixar de estar num estado de urgência permanente sobre “coisas a fazer”. Quando dou por mim a pensar “Tenho que...!” significa que me encontro no tal estado de espírito que não me permite priorizar com clareza. Nos dias em que, com calma, vou fazendo as mil e uma coisas que há a fazer, percebo que me encontro realmente preparada para o que, de facto, é urgente, pois irei fazê-lo com mais clareza e sem pressas.

Parece ambíguo, mas para mim torna-se cada vez mais claro.

Se fosse a minha avó diria para “não colocar a carroça à frente dos bois”, ou seja, não vale a pena fazer o que se cataloga de urgente se não for feito na sequência certa. No caso da carroça, não andaria, pois os bois não iriam conseguir puxá-la. Empurrá-la, talvez, mas essa não é a ordem natural.

 

Na vida é assim, é prioritário o que nós escolhermos como mais importante. Se há um problema de saúde, é sem dúvida essa a prioridade pois nada do resto funcionará. Se há falhas financeiras, há obrigatoriamente pausas para repensar o que se está a fazer e melhorar a situação. Se há mal-estar diário no local de trabalho, priorizamos o que nos faz sentir bem, pois o dia-a-dia torna-se impossível.

Parece simples? Não é! De todos os lados surgem sempre informações e pedidos urgentes e extremamente importantes.

O ideal seria manter o estado de espírito e de consciência que nos garante e dá o conforto de termos as prioridades bem definidas e confiar em nós mesmos. Aí, o urgente acontece quando tem que acontecer, e o que deve ficar para depois aguarda pacientemente a sua vez.

 

Sónia Abrantes

 

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28.12.18

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Foto: Flame - Rudy and Peter Skitterians

 

O ano 2017 marca tragicamente a história do nosso país. O drama dos incêndios, não só mudou, como ceifou demasiadas vidas. Demasiadas casas. Demasiados campos. Demasiados sonhos.

 

Maria foi uma das pessoas que, naquela noite, naquela pequena aldeia do interior, viu o inferno a aproximar-se a galope. Quando procurou abrigar-se, já sentia o calor do inferno queimar a sua roupa, e a sua pele. Não percebeu no momento, mas sabe hoje que a sua alma foi a parte do corpo que sofreu as feridas mais profundas.

O teto da sua casa ardeu e desabou, deitando por terra o trabalho de 10 anos em França e muitos mais dedicados à lavoura, ali mesmo, nos campos ao redor da aldeia onde nasceu – e para onde sempre quis voltar.

As primeiras paredes daquela casa tinham sido erguidas pelo seu tio-avô, que lha deixou como herança. Quando Maria decidiu fazer obras de ampliação, fez questão de mantê-las intactas e assim honrar a memória e o esforço dos seus antepassados. “Para quê?… se agora andou aqui o diabo à solta e deitou tudo abaixo?”.

Maria vive agora na casa que foi dos seus pais e que se encontrava fechada há muitos anos, por não haver gente na terra que a quisesse arrendar. São cada vez menos os jovens que ali se instalam, e são cada vez mais os idosos que são obrigados a procurar cuidados fora da pequena aldeia, tornando cada vez mais próxima e real a ameaça da desertificação que, também Maria, já ouviu referir nos telejornais.

Não se cansa de dizer que “felizmente, e com a graça de Deus nosso Senhor, ninguém morreu por aqui”. Não se cansa, mas cansa-a a memória daquela noite em que do céu chovia o fogo. Aquela noite em que temeu por si e pelos seus. Aquela noite que não quer recordar, mas que não a larga a cada passo que dá nos terrenos despidos, onde a medo começam finalmente a surgir pontos verdes aqui e ali.

 

Maria viveu na primeira pessoa o que é isso de precisar da solidariedade. E sentiu-se incomodada com a vinda de estranhos à sua porta, que lhe entregavam leite, massa e enlatados, em troca de pormenores trágicos da noite que queria e precisava de esquecer por instantes.

Foi com a chegada do Vítor e dos voluntários que a ele se juntaram, organizados e respeitadores da privacidade de cada um, que Maria entendeu a verdadeira solidariedade: a que respeita a dignidade de quem, no momento, está numa situação mais frágil.

Impressionou-a como tanta gente chegou àquele cantinho da serra, com luvas nas mãos e botas nos pés, e uma força de vontade tão grande para limpar a destruição “que o diabo ali semeou”. E tocou-a o abraço que recebeu, daquela criança que quis vir ajudar, com o pai, durante as férias de Natal.

Também ela se juntou algumas vezes aos forasteiros. Também ela abriu as portas da sua “nova” casa para servir um lanche, naquela tarde de dezembro em que “fizeram o favor de ir ali abaixo limpar os escombros que ainda estavam caídos para a rua”.

Já passou mais de um ano e já muitas vidas cruzaram a vida de Maria, naquela pequena aldeia onde nem o merceeiro já passava. Mas à noite, quando fecha a janela do quarto e se senta na cama, a rezar a Nossa Senhora de Fátima, faz questão de agradecer a vida de cada um dos que a ajudaram a reerguer a sua. Até mesmo a vida daqueles que invadiram o seu espaço cedo demais, só para ficarem bem nas fotografias. “Cada um dá o que pode, daquilo que tem”, desabafa ela muitas vezes na sua oração.

 

* Este texto reúne retalhos de vidas atingidas pelos incêndios de 2017, mas não retrata a história de nenhuma pessoa concreta.

 

HTR

 

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24.12.18

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Foto: Homeless - Brigitte Werner

 

Sou solidária. Todos somos! Seremos? Quero acreditar nisso, que em algum momento da vida, cada um de nós foi capaz de estender a mão ao próximo. Mas aquilo que sei é que o mais solidário é aquele que, no seu íntimo, sabe exatamente o que é necessitar de algo, mas algo vital. Seja uma refeição, um abrigo, um agasalho ou mesmo um abraço caloroso naquele momento em que nos sentimos em queda livre e com dúvidas se o paraquedas irá abrir-se.

Hoje em dia todos necessitam da solidariedade alheia. Ontem, hoje, amanhã e depois de amanhã tal como num futuro próximo, fui, sou e serei “convidada” a ser solidária. E nalgum desses momentos encontrei a causa para a qual quererei dar de mim. Mas será que se pode chamar solidariedade, nestes casos? Porque a sensação que tenho é que a maioria de nós está apenas a ceder, seja a algo chamado “pressão social” ou algo chamado “peso na consciência” porque no meio de tantas solicitações “não me vou sentir bem se não ajudar pelo menos uma”. E assim a minha missão fica cumprida. Não me parece genuíno, principalmente quando oiço no supermercado “todos os anos, nesta altura, é a mesma coisa, pedem para isto e para aquilo e pensam que podemos ajudar toda a gente!”. E aí é a pressão a falar alto. Mas provavelmente, ou muito certamente, são esses que, ao longo de todo o ano, nunca se “lembraram” de ser solidários!

 

É mais solidário aquele que, espontaneamente, despende do seu tempo para dedicar ao outro, naquele momento mais inesperado e de verdadeira necessidade. É mais solidário aquele que recebe solidariedade e sabe partilhá-la com aquele que também necessita. Comove-me sempre ver aquele sem-abrigo com o seu amigo de quatro patas, com quem partilha a sua refeição, o seu desconforto, as suas mágoas, mas principalmente o seu amor. É mais solidário aquele que dá pouco, porque é aquilo que tem, mas que dá de coração, sem se queixar ou sem necessidade de se exibir. É mais solidário aquele que se dedica a uma causa em que acredita, que a cria ou que a encontra, se identifica e se envolve de corpo e alma.

Mas ainda acredito que todos somos solidários! Todos nos comovemos verdadeiramente em algum momento da nossa vida e, espontaneamente, sem esperar retorno, damos com coração.

 

Marisa Fernandes

 

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21.12.18

Hands together - Gladis Abril.jpg

Foto: Hands together - Gladis Abril

 

Ser solidário é?

- Comprar “massa, arroz e salsichas” para entregar numa campanha alimentar

- Comprar postais de Natal de uma organização

- Comprar bonecos ou canetas à porta do supermercado ou da bomba de gasolina

- Colocar umas moedas numa lata e receber um autocolante

- Comprar um miniboneco, de cor diferente do ano anterior

- Comprar um barrete de Natal, de cor diferente do ano anterior

- Comprar um isqueiro ou lenços de papel enquanto estamos parados num semáforo

- Fazer uma transferência bancária para uma conta solidária

- Patrocinar uma criança em África, por débito direto

- Fazer um donativo na declaração do IRS

- Comprar produtos mais baratos numa feira social

- Fazer voluntariado

- Fazer greve de zelo por apoio a colegas de profissão

- Doar sangue / medula óssea

- Todas as anteriores

- Algumas das anteriores

- Todas as anteriores, mas não chega

- Algumas das anteriores, mas não chega

- Todas as anteriores, mas não é bem isso

- Algumas das anteriores, mas não é bem isso

- Algumas das respostas anteriores, mais a opinião do Rui (A “boa” solidariedade – ia escrever verdadeira, mas pareceu-me talvez excessivo – não tem tempos nem períodos específicos. Não é feita de campanhas e de épocas festivas. Não se faz às portas de estabelecimentos, nem aos magotes. Certamente não se faz a troco de benefícios (in)diretos para “quartos”, se considerarmos que os “terceiros” é que deveriam ser os recetores do gesto solidário.

 

A pergunta não é minha e muito menos nova: quanto ganham os supermercados e o governo com as campanhas alimentares? Quanto ganham os bancos com as transferências solidárias? A solidariedade “massificada” ajuda pessoas? Certamente. Mas também “ajuda” pessoas (entenda-se por organizações e algumas figuras de gestão) mais do que deveria? Certamente. A “boa” solidariedade não tem forçosamente de ser voluntariado. A “boa” solidariedade pode (e nalguns casos deve!) ser remunerada. Se é para “fazer o bem”, mas fazê-lo mesmo, péssimo é ter um incompetente de borla a gerir as coisas. A responsabilidade, social neste caso, pode ser voluntariosa ou profissional. Não é isso que está em causa. Em causa está a consequência (social, politica, jurídica) da irresponsabilidade dos atos praticados. Para liderar ou gerir o ato solidário, prefiro ter um profissional solidário que um voluntário solidário. Quer se goste ou não, o comprometimento com a lei é superior ao comprometimento com a consciência. A “boa” solidariedade é individualizada. É o comprometimento com as pessoas e, em segundo lugar, com as causas. É o estar lá mesmo, compreender mesmo, ajudar mesmo, sentir (quase) o mesmo. Sem lamechices ou dramas. Com respeito (e porque não, admiração) pelo outro. Com os Direitos Humanos bem presentes em cada ação, porque sem a sua observância não existe solidariedade.)

Em janeiro perfazem-se 18 anos de trabalho numa IPSS. Sou feliz por observar atos de solidariedade diária há tanto tempo. Permitam-me uma palavra de apreço e agradecimento sentido a todas as pessoas que ali trabalham e, evidentemente, às pessoas para quem e com quem nós estamos.

 

Rui Duarte

 

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17.12.18

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Foto: Alms - Vannino

 

Facebook e quejandos despejam constantemente no correio eletrónico, murais e páginas de Internet, frases sucintas e assertivas carregadas de ensinamentos e moralidade sobre como devemos ser e fazer para praticarmos solidariedade. Empacotam também a recompensa. Em alguns casos vem como uma promessa de felicidade, noutros, como ameaça – se não formos solidários o mais certo é que, quando precisarmos, os outros não sejam solidários connosco. Está tudo lá nessas frases de poucas palavras; o que aqui possa escrever nada acrescenta de diferente.

E quem de nós nunca deu uma moedinha, participou em campanhas de solidariedade, visitou doentes e pessoas solitárias, ouviu com compreensão quem se lhe quis confiar, pondo assim em prática os ensinamentos que recebemos em casa, no grupo de amigos, na escola, no dia-a-dia em convivência com os outros seres da sociedade? No final, vem o proveito da contabilização de mais um crédito na conta corrente do dar e receber. Em certas circunstâncias o gozo de dar é tal que o difícil é distinguir quem recebe de quem?

 

Naturalmente valorizo a solidariedade e as ações de sensibilização. E, como não valorizar e atribuir-lhe importância se são exemplos de boa conduta, consciencialização da miséria e das diferenças sociais, resolvidas tantas vezes com a solidariedade alheia?! Num quadro de desumanização para onde parece que caminhamos, a sensibilização tem, sem dúvida, um papel importante na inversão das forças desumanizantes.

Mas quantos de nós já reconhecemos e colocamos esperança no silêncio dos desistentes? Vimos e acudimos ao olhar suplicante dos desesperados? Compreendemos a fraqueza e ajudamos a reforçar os que, de tanto lutarem, se esgotaram, aceitaram e aprenderam a viver com outras verdades que não a sua? Muitos pensarão que nunca se cruzaram com alguém assim tão desesperado, atormentado, e eu sinto-me tentada a concordar.

 

Vale a pena refletir sobre o solidário. Socorro-me de um dos casos que nos chegam nas redes sociais e que, conforme já referi, abundam. Por uma vez ponhamos de lado a mensagem final e fixemo-nos apenas no facto. Um menino com ar abandonado, a quem não conseguimos colar-lhe uma família, uma mãe que zele pela sua higiene, saúde e bem-estar, recebe de alguém um agrado, uma esmola ou algo que o faz sentir-se melhor. Já vi várias versões: num caso apagam-lhe a fome, noutro dão-lhe umas moedas, e ainda noutro sentam-se ao seu lado e colocam-lhe um braço por cima do ombro num afeto que, claramente o menino não conhece, mas que o faz sentir-se muito bem. Passados 20 anos tem oportunidade de retribuir o que recebeu porque a vida se revelou mãe para ele e madrasta para quem o ajudou. Tenho para mim, e quero manter esta crença porque é aí que reside o verdadeiro valor da solidariedade, que quem deu ao menino a atenção que todo o ser humano precisa e merece não o fez a pensar que no futuro também poderia precisar desse gesto solidário; fê-lo porque sim, porque dar é uma caraterística voluntária de quem é gente. A solidariedade faz-se sem querer vender ou trocar, não é um ato que fica suspenso a aguardar retribuição futura. O solidário não tem em conta nem faz contas ao que dá, também não sofre com a falta de reconhecimento, muitas vezes a pessoa solidária nem sabe que o é – é-o porque se identifica com o sofrimento alheio. Se o solidário é o desesperado, o fraco, o esgotado, o injustiçado e o incompreendido, esconde o seu estado de alma para poupar os outros ao sofrimento – é por isso que não o vemos e não o reconhecemos quando nos cruzamos com ele. Para esses, viver é muitas vezes um ato de enorme solidariedade. Não vivem agarrados à vida, mas vivem porque seria profundamente amoral não esperarem a sua hora, ultrapassarem etapas, abreviarem o fim provocando a dor alheia. A solidariedade comove-me, mas o solidário é um ser tão especial que me move.

São tão poucos os verdadeiramente solidários!

 

Cidália Carvalho

 

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14.12.18

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Foto: Dove - Sirawich Rungsimanop

 

Uma revoada de pombas agitou a tarde parda de inverno e acorreu à atração das migalhas. O velho sacudiu o saco, deixou as pombas à avidez quase mecânica dos instintos, e veio até mim, que o observava, no impasse entre a curiosidade e a intermitência do semáforo, no limiar do adro da igreja.

A luz verde não esperou por mim, porque já o homem me dirigia um sorriso de bonomia. E urgência - de partilhar comigo migalhas da sua vida em troca de uma migalha do meu tempo:

“- Sabe, menina, elas também precisam de comer, coitadinhas. O senhor padre não gosta que se deite pão às pombas, mas eu sei o que é passar fome. Ah, se sei! O que me baleu foi a turia*, aí se baleu! Por quatro tostões, menina, benditos quatro tostões! Eu tinha uns oito anitos, andaba a pedir pão pelas ruas do Porto. Foi numa tasca, lá da ilha, o tendeiro distraiu-se, e eu, pimba! – agarrei nos quatro tostões e fugi... Era uma criença. Bendita casa, a da turia. Comíamos lá bacalhau com batatas, peixe... era um hotel de cinco estrelas, para mim. Benditos quatro tostões! Bibíamos, eu, mais quatro irmão, numa cabe da ilha da (...). Eu chegaba a casa e repartia o pão que me dabam pelos meus irmãozitos, todos mais nobinhos. Era uma festa. A mim dabam-me, às bezes, um caldinho quentinho – já lebaba a barriga cheia, e os bolsos a abarrotar de migalhinhas de pão para os meus irmãos. Eu tinha uns oito anitos, não mais. Bendita a mão que me apanhou e me meteu na turia. A minha mãe também pedia pelas ruas, mas gastaba tudo em binho. O meu pai, o que ganhaba, num daba p’ra nada. Bibíamos todos numa cabe, assim, desta altura, quase nem nos podíamos erguer de pé. Bendita turia! Bendita turia... aquilo foi o céu. Depois, menina, fui pra tropa. Quando bim fui acartar pedra e abrir buracos, para as ruas. Ganhaba binte e cinco tostões. Depois fui para os camiões, p’ra Matosinhos, a ganhar trezentos mil réis por mês. Que fartura! Era bom, muito bom, menina. Mas passei muito. Fiz-me homem, graças a Deus, mas debo tudo àquela santa casa, ali na quinta das Águas Férreas. Bons tempos que lá passei! Parece que só as pombas ainda se lembram, ainda são as mesmas desses tempos – a fome delas é a mesma que eu conheci, é por uma migalhinha de pão que elas lutam.  E só elas ainda sabem que o céu é um lugar onde não se pode ficar parado. Mais tarde ou mais cedo, há que boltar ao chão, ficar á mercê das migalhas dos outros... e esgrabatar a terra. Mais que não seja com os nossos ossos...”.

 

Cinco sinais vermelhos depois, um sinal verde chamou-me ao tempo de ir andando. Um homem, decentemente vestido, com um saco plástico vazio nas mãos de raízes salientes, e os olhos cheios de palavras por dizer, titubeava desculpas, à minha despedida desajeitada.

“- Desculpe, menina, a gente tem tanta bida cá dentro a morrer, que às bezes apetece tentar salbar-lhe as misérias com tagarelices. Desculpe lá, se a atrasei. Sou um belho chato. Tenha uma boua tarde, menina. Obrigado pela paciência. Sou um belho. E chato. Só as pombas me entendem, e sabem da fome que passei.”.

E sorriu. Um sorriso que entristeceu mais ainda a tarde fria e que me deixou por dentro a vontade de reescrever coisas que ninguém sabe. Ou que sabe, mas que esquece, à intermitência dos sinais. Verdes.

 

*turia (ou tituria, no falar do povo): Tutoria (instituição oficial para proteção de menores).

 

Teresa Teixeira

 

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10.12.18

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Foto: Lemons - Richard John

 

Nunca houve tanta instituição de caridade como agora: empresas, organismos do Estado ou não governamentais, associações e entidades, com siglas quase indecifráveis, com enfoque na solidariedade, na proteção do indivíduo e do seu direito à subsistência, à segurança e a todos os cuidados primários.

Mas também nunca houve tanta solidão apregoada, tanta miséria humana, tanta desigualdade, permitidas (e perpetuadas) por gente com poder, dotadas de conhecimento e de estratégias de intervenção que nada mais são do que um manancial de benefícios em causa própria.

Nunca houve tanta gente alerta para as causas sociais, para o voluntariado, para a partilha do seu tempo, da sua condição humana, mais consciência do mundo, dos outros, na busca da consciência de si próprio, como no tempo presente. E como dói – descobre muita gente, com espanto – dar sem realmente esperar nada em troca (sim… às vezes, nem um obrigado), dar perante os desafios da humanidade, sem sucumbir à crítica, ao julgamento, sobretudo perante a ingratidão ou a ofensa. Na resiliência que se constrói, também a capacidade de enfrentar os desafios de outro ser humano e os próprios demónios, mergulhando na dor para sair dela. Como dói, a consciência. Como cura.

 

Oiço muita gente falar do quanto gostaria de ajudar, de fazer algo, um voluntariado, mas não podem, não têm tempo, têm família, empregos e uma carrada de obstáculos que os impossibilita de concretizar esse desejo. Não me cabe a mim julgar ninguém ou saber de que forma enfrentam os seus próprios desafios. Fico triste, todavia, quando percebo, no cantinho do olho, uma tristeza velada de quem realmente sente esse apelo e se sente frustrado por não o fazer. É para eles que escrevo hoje. Para aqueles que não têm tempo (ou meios) para dedicar umas horas semanais a uma instituição, para aqueles que não sabem como fazê-lo, para aqueles a quem a condição do outro não é alheia à sua própria condição e sentem faltar algo nas suas vidas por não serem solidários. Podem fazer muito, podem fazer a diferença na vida de vários seres humanos. Um que seja, acreditem, será extraordinário.

Comecem com o senhor da mercearia que, todas as manhãs, se cruza convosco e só espera um “Bom dia”, olho no olho; aquele minuto, junto da caixa, acompanhado de um sorriso, pode fazer toda a diferença. Ou comecem com a primeira pessoa que veem de manhã, ao abrir da pestana, e que partilha a vossa vida; fazê-lo antes de olhar para o telemóvel pode significar um chão seguro debaixo dos pés, em cada jornada. Se o vosso vizinho precisa de ajuda e podem ajudar, ajudem. Sem pedir nada em troca. Vale o primo, a mãe, o ilustre desconhecido, a velhinha que vive no 35, a senhora da padaria, o mecânico ou o carteiro, desde que seja genuíno.

Quando eu era catraia tinha um tio que, pelo menos, duas vezes por semana comprava limões, salsa e feijão-verde a uma senhora que vendia, com uma pequena banca, na porta do mercado. Acompanhei-o diversas vezes e interrogava-me sobre a quantidade de coisas que ele comprava e de que forma ele e a minha tia podiam consumir tanta coisa. Num certo dia, vencida pela curiosidade, perguntei como era possível comer tanto limão, tanto feijão… quando o meu tio comentou que pretendia ajudar a senhora, perguntei porque não lhe dava, simplesmente, dinheiro (já que podia), em vez de comprar tanta coisa. Na onda do seu sorriso respondeu à minha ignorância com carinho, dizendo-me que a caridade sem dignidade não existe; e que havia gente que o fazia, sim, mas que aquilo não era realmente caridade, era negócio. Acrescentou que quando queríamos e podíamos ajudar alguém, o devíamos fazer sem diminuir, sem humilhar, sem procurar exposição ou a atribuição de um prémio. Com respeito, humildade e integridade. A senhora Maria vendia os seus legumes e frutos, prestava um serviço, dizia-me ele. Comprar-lhos a um preço justo permitia-lhe valorizar o trabalho, o esforço e o sacrifício daquela doce senhora que, com quase oitenta anos na altura, ainda cuidava da terra, de um filho adulto com diversos problemas e vendia o fruto do seu trabalho, de segunda a sexta, na porta do mercado. Fez-me tudo muito sentido, mas disse-lhe que não havia respondido à minha questão inicial: os legumes, os limões, a tonelada de salsa, que destino lhes havia sido reservado? Depois de uma sonora gargalhada disse-me que teria deixado de comprar à D. Maria se tivesse deixado apodrecer um limão que fosse. Chegou a temer que isso pudesse acontecer, mas, ao longo dos anos, apareceu sempre alguém, na hora certa, com quem partilhar, o que lhe havia poupado esse constrangimento. Disse-me que não eram as palavras que lhe dirigia o que realmente contava, mas o que fazia, com o que ela produzia e vendia, quando lhe virava as costas. Com ele aprendi que a solidariedade não é um casaco que se veste consoante a estação do ano, tão pouco é algo que nos dá (ou deve dar) protagonismo ou “isenção moral”. Visa o genuíno bem de alguém, em primeiríssimo lugar, e o bem da humanidade, de uma forma mais abrangente.

 

Por isso, façam apenas o bem pelo bem. Parece difícil, bem sei, mas é tão fácil dizê-lo quanto fazê-lo. Não precisam de ir para o Quénia fazer voluntariado para se sentirem úteis. Abram os olhos, o coração e olhem em volta. Estendam a mão e façam milagres ao pé da porta. Se calhar não vão aparecer nas revistas ou ganhar um Nobel, mas garanto-vos a mesma sensação de orgulho e alegria do melhor dia da vossa vida. Há tanto sofrimento à nossa volta a que não podemos acudir, comecemos pelo que está ao alcance da nossa mão. Podemos fazer muito, de forma anónima, todos os dias. Não esperem “o momento”, comecem hoje. Pode parecer-vos tarde, mas jamais será em vão.

 

Alexandra Vaz

 

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7.12.18

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Foto: Portrait - Szilárd Szabó

 

Coisas bonitas. Gosto de coisas bonitas.

Gosto de me emocionar – é um dos sinais mais evidentes de que estou vivo, desperto, tenho energia - e a estética, a beleza sensibilizam-me, motivam-me.

 

Portanto, aqui vai: todos iguais, todos diferentes. Falando de pessoas. Iguais em termos de oportunidades, de direitos, de deveres, de acesso. Diferentes na particularidade de cada um, na nossa individualidade, na história que fomos vivendo e que nos foi sendo transmitida. O nosso caminho.

As diferenças podem ser ínfimas, pense-se nos gémeos verdadeiros, quase impercetíveis à vista, como é a primeira. Esse mínimo se não for combatido vai, naturalmente, gerar a prazo diferenças mais ou menos evidentes. Somos pessoas, somo indivíduos, somos diferentes, especializamo-nos, adquirimos diferentes capacidades.

Referi-me à passagem do tempo e de como a mínima diferença, não interditada, irá gerar particularidades que nos individualizam notória e evidentemente.

É bom, é bonito, enriquecedor.

É como, passando para o espaço, duas retas quase, quase paralelas, de tal maneira que se nos fixarmos num segmento de um metro, aparentam ter a mesma distância entre elas nos seus extremos. Agora consideremos as retas sem princípio nem fim, haverá um ponto onde se cruzam, assim como há inúmeros pontos onde a distância entre elas é infinito. Só para visualizar.

 

Convém não esquecer que as diferenças, digamos individualizantes, convivem com as semelhanças, não as apagam. Não anulam uma caraterística do Homem que é a de ser gregário, organizar-se em sociedade, família, vizinhança, nação, cultura...

Diferença convive bem com semelhança. Como indivíduo com família, grupo, sociedade. Não só é compatível, como pode ser enriquecedor. Se se utilizarem as competências, interesses, gostos de cada um – sejam quais forem, técnicas, artísticas, sociais, abstratas, concretas, manuais ou intelectuais – numa perspetiva de troca, de distribuição, com o intuito de acrescentar algo a outro, individualmente ou em conjunto, se ganho com a ajuda de outros para suprir dificuldades próprias, estamos a ser solidários, gregários. A utilizar a individualidade, livremente, voluntariamente, como fator de gregarismo em que outros ganham competências e capacidades para as quais não estavam tão habilitados, circunstancialmente ou não.

 

É solidariedade. Troca de recursos, podem ser ideias, em que somos, todos, interdependentes. Solidarizando mutuamente. A troca não tem de ser imediata, nem é uma igualdade contabilística, mas é suposto acontecer. Assim não desvalorizemos, cada um ou a sociedade, a capacidade de ninguém. Assim reconheçamos o que precisamos, reconheçamos quem tem mais competência e saber, assim queiramos ser ajudados.

Não para criar dependência, não como obrigação, antes e primordialmente para melhorarmos, para sermos mais capazes. É solidariedade.

A solidariedade é bonita.

 

Jorge Saraiva

 

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3.12.18

Ice-candy - Fireflydaily.jpg

Foto: Ice-candy - Fireflydaily

 

“Ognuno sta solo sul cuor della terra

trafitto da un raggio di sole;

ed è subito sera.”

(Todos estamos sós no coração da terra

trespassado por um raio de sol;

e de repente anoitece.)

Salvatore Quasimodo

 

Compaixão pelos oprimidos e vulneráveis pode ser vista por vários ângulos: eu não sei como algumas pessoas se amam a si próprias, mas se forem sadomasoquistas, se calhar, passo à frente.

Durante a recessão económica, a situação de vulnerabilidade de países, famílias e empresas vestia palavras como PIGS, culpabilização das vítimas e da necessidade de empoderar e empreender. Nota-se mesmo que a língua portuguesa tem dificuldades com “empoderar”, tão feia que é a palavra, postiça.

Atualmente, quando penso nesses tempos recentes, cheira-me a cinzas, de ressentimento, de rejeição e de não pertença, falta de confiança e do muito que se perdeu. Da diferença entre os que ficaram, os que partiram e com o que podemos contar agora, olhando pela nossa janela. Erosão de valores, de vidas e de esperança. Ouvimos falar que as sociedades são líquidas e voláteis, do momento. Espero que daquelas que pondo no congelador com um pauzinho, dê para comer como gelado. Gosto muito.

Nussbaum escreveu sobre a inteligência da compaixão. Ela refere os três tipos de julgamento emocional que afetam o nosso modo de pensar perante uma situação de apelo à solidariedade. Refere o julgamento pela dimensão da tragédia, sinto-me mais solidária se a injustiça do outro é séria e não algo trivial; o julgamento por não merecer, ou seja, a pessoa não teve controlo em nada da injustiça em que se encontra; e o tipo de julgamento eudemónico (que vem do grego e significa “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom génio”, traduzido como felicidade ou bem-estar). Neste tipo de julgamento eudemónico, a pessoa a quem se destina o ato de solidariedade é parte integrante do meu esquema de objetivos, projetos e valores pessoais, um fim último pelo qual o Bem existe.

Este último é relevante pois, segundo a autora, vamos estar mais inclinados a ver o outro mais parecido connosco e só nos interessarmos mais por essa razão, pela probabilidade de algo similar nos acontecer.

Quando estamos mais em baixo, cuidar de nós passa por estarmos próximos de pessoas que são como casa para nós e, na ausência delas, sentir o bater do coração e respirar, como se estivéssemos mais próximos do verdadeiro coração do mundo.

Em 20 de Dezembro, a solidariedade tem a sua celebração internacional. Esta preconiza, muitas vezes, a intervenção em situações de urgência e de preservação da paz social.

Por mim, atendendo à lógica de poder subjacente à narrativa da solidariedade, pensando em duas pessoas em diferentes posições de existir num dado contexto, penso que seria interessante um contacto de proximidade e de respeitar o outro na liberdade da sua decisão, como autor da sua própria vida. O contacto com o diferente traz sempre novidade e isso permite evoluir, como indivíduos e como grupo.

 

Referências:

Nussbaum, M. C. (2001). Upheavals of thought: The intelligence of emotions. Cambridge: Cambridge University Press

 

Maria João Enes

 

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30.11.18

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Foto: Holding-hands - Benjamin Balazs

 

“Fazer bem sem olhar a quem”, sem nada esperar em troca, qual aforismo popular ou máxima que não deve significar apenas um simples ato de caridade, mas antes, e muito mais do que isso, a expressão de sentir o prazer de praticar a solidariedade. O prazer de fazer o bem é, ou deve ser, – convenhamos – maior que o de recebê-lo. Necessário se torna, por isso, procurar sentir o que os outros do mesmo modo sentem quando lhes falta algo de importante na vida.

Na prática do dia a dia, fazer o bem deve constituir algo capaz de transformar e melhorar o meio e as pessoas que nos rodeiam. É maravilhoso saber cumprir de forma consciente e despretensiosa o que traz realização e felicidade ao próximo, exercendo a pedagogia de uma boa ação, imbuída esta de uma nobre missão de apologia ao amor. Quando nos colocamos no lugar do outro e tentamos confortá-lo e amenizar o seu sofrimento, isso cria empatia e tolerância, desperta a vontade de ajudar e de agir segundo princípios morais em que se destaca a importância da solidariedade, sentimento tão caro e relevante nas ações sociais.

 

Nesta vida, ninguém avança sozinho, precisamos uns dos outros, se possível, de “mãos dadas” para um mundo mais fraterno e solidário. Pequenos gestos, como um sorriso nos lábios, um olhar de esperança, uma troca de mimos e de carinho, de amizade e de respeito, bem como a indispensável compreensão para com o nosso semelhante, poderão ajudar muito e contribuir para um viver melhor com menos sofrimento. A isto chamamos solidariedade!

 

José Azevedo

 

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26.11.18

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Foto: People - Leroy Skalstad

 

Era um daqueles dias quentes de verão. Mais um ano que ajudava os meus avós na mercearia, penso que esperava quase o ano todo para o fazer.

Como eu gostava de aqui estar. Não só pela companhia dos meus avós, que tanto adorava, como os simples pormenores do campo que traziam o melhor à tona, coisas que não víamos na cidade. O simples cumprimentar do Sr. Manel, aquele sorriso e a importância em vir-me sempre dizer um simples “Olá”, ou a senhora Maria que me pedia sempre se podia levar-lhe as compras a casa e me dava sempre uns trocos, coisa que eu não aceitava, mas ela insistia. Não o fazia pelo dinheiro, mas sim pela doçura daquela senhora, por poder ajudá-la de alguma maneira. E ela ficava tão feliz quando o fazia. Era daquelas senhoras que os filhos pareciam ter-se esquecido dela. Era uma pena e partia-me o coração, dizia-lhe muitas vezes que, para mim, era como mais uma avó; e aquele sorriso? Nada se comparava.

 

Mas nesse verão não fora o amável Sr. Manel, nem a senhora Maria que marcaram tão intensamente aqueles momentos prazerosos que tinha na aldeia do meu avô. Fora outra coisa.

Tal como fazia sempre, o meu avô dizia-me para ver as datas dos produtos, dar uma vista de olhos à fruta e deitar fora o que não estivesse de agrado ao cliente. E assim era, todos os dias o fazia. E todos os dias colocava num saco esse “lixo”, muitas das coisas ainda estavam boas, mas não para se apresentar num supermercado. O meu avô dizia-me sempre para colocar em sacos e deixar junto à porta, nas traseiras da loja. Que uma senhora que vivia em péssimas condições ia mais tarde buscar. Era a maneira do meu avô a poder ajudar de alguma maneira. Por vezes, até colocava mais alguma coisa, mesmo estando em plenas condições. Mas apesar de contribuir para esse ato caridoso que tanto adorava no meu avô, fora algo que despertou a minha atenção. Foi naquele dia quente, em que eu tive de ir às traseiras da loja já depois de ter deixado os saquinhos como de costume, que me deparei com a senhora que prontamente me pediu desculpa e eu disse-lhe logo não ter mal, para estar à vontade. Mas o que me fez escorrer as lágrimas pelo rosto, fora o olhar do pequeno menino que vinha com ela, os olhos brilhantes, emocionados ao olhar para um dos saquinhos e dizer “Mãe!! Hoje temos brócolos, gosto tanto de brócolos mãe!”. Ele estava embriagado de felicidade, apenas por um pedaço de brócolos. E aquele brilho nos olhos, aquele olhar doce e triste apesar da felicidade do momento, fez-me sentir uma tristeza profunda. Fez-me voltar para dentro e trazer o pedaço maior de brócolos que o meu avô tinha na mercearia. Não consigo explicar em palavras a gratidão, nem do menino, nem da mãe. Mas sei que tinha ganho o dia, a semana, todo esse ano. Apenas pelo olhar daquele menino. Quando muitos deitam fora, outros ficam radiantes. Dão importância, por não terem. Por querer e desejar tanto, mas não ter posses.

E foi aí que despertou em mim o desejo de ajudar, de fazer a diferença, de poder receber mais sorrisos como aqueles – genuínos.

E foi assim...

 

Inês Ramos

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar


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