7.1.19

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Foto: Woman - Gerd Altmann

 

Trabalhar para ontem e não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje é um lema de vida que me tem acompanhado. Embora não me tenha ainda dado mal com ele, por vezes sofro com isso. Parece que o tempo me aperta e até me estrangula. Quero dar resposta logo ao solicitado, porque me dizem que é urgente. Faço logo que posso, apenas porque me dizem que é urgente. As solicitações são muitas e são todas para ontem e, assim, eu penso que é urgente e faço desvalorizando o cansaço, desvalorizando os sinais que o corpo me vai dando. Tenho dias assim. Tenho dias que, quando tenho solicitações que me dizem que são urgentes, faço sem parar. Reparo mais tarde que, afinal, não precisava de tanta urgência. Sim, já aconteceu várias vezes. Pessoas com as mesmas solicitações vivem a situação com mais calma. Afinal, poderia responder ao solicitado com uma urgência relativa. Mas, já está. Tenho vozes que me vão dizendo para relativizar a urgência das coisas e dormir sobre os assuntos. Vou fazendo um esforço para me comportar assim. Mas quando dou conta, lá estou eu a responder com a urgência que me é solicitada. Talvez um dia venha a conseguir. Seria bom, porque, de facto, às vezes a urgência é mesmo relativa e o stresse talvez diminuísse. Vou tentar!

 

Ermelinda Macedo

 

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4.1.19

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Foto: African - Lihle Lynne

 

“É urgente estar atento

Ver para onde corre a maré

Ver de onde sopra o vento

Não vás tu perder o pé”

 

Excerto da canção “Impele a tua própria canoa”, do Corpo Nacional de Escutas

 

Quem foi, ou é escuteiro, certamente já ouviu esta canção. Se assim é, já sentiu a sensação de parar para pensar no que é urgente para si e para a sua vida. Conduzir a nossa própria vida é o mais prioritário, se pretendermos deixar de estar num estado de urgência permanente sobre “coisas a fazer”. Quando dou por mim a pensar “Tenho que...!” significa que me encontro no tal estado de espírito que não me permite priorizar com clareza. Nos dias em que, com calma, vou fazendo as mil e uma coisas que há a fazer, percebo que me encontro realmente preparada para o que, de facto, é urgente, pois irei fazê-lo com mais clareza e sem pressas.

Parece ambíguo, mas para mim torna-se cada vez mais claro.

Se fosse a minha avó diria para “não colocar a carroça à frente dos bois”, ou seja, não vale a pena fazer o que se cataloga de urgente se não for feito na sequência certa. No caso da carroça, não andaria, pois os bois não iriam conseguir puxá-la. Empurrá-la, talvez, mas essa não é a ordem natural.

 

Na vida é assim, é prioritário o que nós escolhermos como mais importante. Se há um problema de saúde, é sem dúvida essa a prioridade pois nada do resto funcionará. Se há falhas financeiras, há obrigatoriamente pausas para repensar o que se está a fazer e melhorar a situação. Se há mal-estar diário no local de trabalho, priorizamos o que nos faz sentir bem, pois o dia-a-dia torna-se impossível.

Parece simples? Não é! De todos os lados surgem sempre informações e pedidos urgentes e extremamente importantes.

O ideal seria manter o estado de espírito e de consciência que nos garante e dá o conforto de termos as prioridades bem definidas e confiar em nós mesmos. Aí, o urgente acontece quando tem que acontecer, e o que deve ficar para depois aguarda pacientemente a sua vez.

 

Sónia Abrantes

 

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28.12.18

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Foto: Flame - Rudy and Peter Skitterians

 

O ano 2017 marca tragicamente a história do nosso país. O drama dos incêndios, não só mudou, como ceifou demasiadas vidas. Demasiadas casas. Demasiados campos. Demasiados sonhos.

 

Maria foi uma das pessoas que, naquela noite, naquela pequena aldeia do interior, viu o inferno a aproximar-se a galope. Quando procurou abrigar-se, já sentia o calor do inferno queimar a sua roupa, e a sua pele. Não percebeu no momento, mas sabe hoje que a sua alma foi a parte do corpo que sofreu as feridas mais profundas.

O teto da sua casa ardeu e desabou, deitando por terra o trabalho de 10 anos em França e muitos mais dedicados à lavoura, ali mesmo, nos campos ao redor da aldeia onde nasceu – e para onde sempre quis voltar.

As primeiras paredes daquela casa tinham sido erguidas pelo seu tio-avô, que lha deixou como herança. Quando Maria decidiu fazer obras de ampliação, fez questão de mantê-las intactas e assim honrar a memória e o esforço dos seus antepassados. “Para quê?… se agora andou aqui o diabo à solta e deitou tudo abaixo?”.

Maria vive agora na casa que foi dos seus pais e que se encontrava fechada há muitos anos, por não haver gente na terra que a quisesse arrendar. São cada vez menos os jovens que ali se instalam, e são cada vez mais os idosos que são obrigados a procurar cuidados fora da pequena aldeia, tornando cada vez mais próxima e real a ameaça da desertificação que, também Maria, já ouviu referir nos telejornais.

Não se cansa de dizer que “felizmente, e com a graça de Deus nosso Senhor, ninguém morreu por aqui”. Não se cansa, mas cansa-a a memória daquela noite em que do céu chovia o fogo. Aquela noite em que temeu por si e pelos seus. Aquela noite que não quer recordar, mas que não a larga a cada passo que dá nos terrenos despidos, onde a medo começam finalmente a surgir pontos verdes aqui e ali.

 

Maria viveu na primeira pessoa o que é isso de precisar da solidariedade. E sentiu-se incomodada com a vinda de estranhos à sua porta, que lhe entregavam leite, massa e enlatados, em troca de pormenores trágicos da noite que queria e precisava de esquecer por instantes.

Foi com a chegada do Vítor e dos voluntários que a ele se juntaram, organizados e respeitadores da privacidade de cada um, que Maria entendeu a verdadeira solidariedade: a que respeita a dignidade de quem, no momento, está numa situação mais frágil.

Impressionou-a como tanta gente chegou àquele cantinho da serra, com luvas nas mãos e botas nos pés, e uma força de vontade tão grande para limpar a destruição “que o diabo ali semeou”. E tocou-a o abraço que recebeu, daquela criança que quis vir ajudar, com o pai, durante as férias de Natal.

Também ela se juntou algumas vezes aos forasteiros. Também ela abriu as portas da sua “nova” casa para servir um lanche, naquela tarde de dezembro em que “fizeram o favor de ir ali abaixo limpar os escombros que ainda estavam caídos para a rua”.

Já passou mais de um ano e já muitas vidas cruzaram a vida de Maria, naquela pequena aldeia onde nem o merceeiro já passava. Mas à noite, quando fecha a janela do quarto e se senta na cama, a rezar a Nossa Senhora de Fátima, faz questão de agradecer a vida de cada um dos que a ajudaram a reerguer a sua. Até mesmo a vida daqueles que invadiram o seu espaço cedo demais, só para ficarem bem nas fotografias. “Cada um dá o que pode, daquilo que tem”, desabafa ela muitas vezes na sua oração.

 

* Este texto reúne retalhos de vidas atingidas pelos incêndios de 2017, mas não retrata a história de nenhuma pessoa concreta.

 

HTR

 

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24.12.18

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Foto: Homeless - Brigitte Werner

 

Sou solidária. Todos somos! Seremos? Quero acreditar nisso, que em algum momento da vida, cada um de nós foi capaz de estender a mão ao próximo. Mas aquilo que sei é que o mais solidário é aquele que, no seu íntimo, sabe exatamente o que é necessitar de algo, mas algo vital. Seja uma refeição, um abrigo, um agasalho ou mesmo um abraço caloroso naquele momento em que nos sentimos em queda livre e com dúvidas se o paraquedas irá abrir-se.

Hoje em dia todos necessitam da solidariedade alheia. Ontem, hoje, amanhã e depois de amanhã tal como num futuro próximo, fui, sou e serei “convidada” a ser solidária. E nalgum desses momentos encontrei a causa para a qual quererei dar de mim. Mas será que se pode chamar solidariedade, nestes casos? Porque a sensação que tenho é que a maioria de nós está apenas a ceder, seja a algo chamado “pressão social” ou algo chamado “peso na consciência” porque no meio de tantas solicitações “não me vou sentir bem se não ajudar pelo menos uma”. E assim a minha missão fica cumprida. Não me parece genuíno, principalmente quando oiço no supermercado “todos os anos, nesta altura, é a mesma coisa, pedem para isto e para aquilo e pensam que podemos ajudar toda a gente!”. E aí é a pressão a falar alto. Mas provavelmente, ou muito certamente, são esses que, ao longo de todo o ano, nunca se “lembraram” de ser solidários!

 

É mais solidário aquele que, espontaneamente, despende do seu tempo para dedicar ao outro, naquele momento mais inesperado e de verdadeira necessidade. É mais solidário aquele que recebe solidariedade e sabe partilhá-la com aquele que também necessita. Comove-me sempre ver aquele sem-abrigo com o seu amigo de quatro patas, com quem partilha a sua refeição, o seu desconforto, as suas mágoas, mas principalmente o seu amor. É mais solidário aquele que dá pouco, porque é aquilo que tem, mas que dá de coração, sem se queixar ou sem necessidade de se exibir. É mais solidário aquele que se dedica a uma causa em que acredita, que a cria ou que a encontra, se identifica e se envolve de corpo e alma.

Mas ainda acredito que todos somos solidários! Todos nos comovemos verdadeiramente em algum momento da nossa vida e, espontaneamente, sem esperar retorno, damos com coração.

 

Marisa Fernandes

 

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21.12.18

Hands together - Gladis Abril.jpg

Foto: Hands together - Gladis Abril

 

Ser solidário é?

- Comprar “massa, arroz e salsichas” para entregar numa campanha alimentar

- Comprar postais de Natal de uma organização

- Comprar bonecos ou canetas à porta do supermercado ou da bomba de gasolina

- Colocar umas moedas numa lata e receber um autocolante

- Comprar um miniboneco, de cor diferente do ano anterior

- Comprar um barrete de Natal, de cor diferente do ano anterior

- Comprar um isqueiro ou lenços de papel enquanto estamos parados num semáforo

- Fazer uma transferência bancária para uma conta solidária

- Patrocinar uma criança em África, por débito direto

- Fazer um donativo na declaração do IRS

- Comprar produtos mais baratos numa feira social

- Fazer voluntariado

- Fazer greve de zelo por apoio a colegas de profissão

- Doar sangue / medula óssea

- Todas as anteriores

- Algumas das anteriores

- Todas as anteriores, mas não chega

- Algumas das anteriores, mas não chega

- Todas as anteriores, mas não é bem isso

- Algumas das anteriores, mas não é bem isso

- Algumas das respostas anteriores, mais a opinião do Rui (A “boa” solidariedade – ia escrever verdadeira, mas pareceu-me talvez excessivo – não tem tempos nem períodos específicos. Não é feita de campanhas e de épocas festivas. Não se faz às portas de estabelecimentos, nem aos magotes. Certamente não se faz a troco de benefícios (in)diretos para “quartos”, se considerarmos que os “terceiros” é que deveriam ser os recetores do gesto solidário.

 

A pergunta não é minha e muito menos nova: quanto ganham os supermercados e o governo com as campanhas alimentares? Quanto ganham os bancos com as transferências solidárias? A solidariedade “massificada” ajuda pessoas? Certamente. Mas também “ajuda” pessoas (entenda-se por organizações e algumas figuras de gestão) mais do que deveria? Certamente. A “boa” solidariedade não tem forçosamente de ser voluntariado. A “boa” solidariedade pode (e nalguns casos deve!) ser remunerada. Se é para “fazer o bem”, mas fazê-lo mesmo, péssimo é ter um incompetente de borla a gerir as coisas. A responsabilidade, social neste caso, pode ser voluntariosa ou profissional. Não é isso que está em causa. Em causa está a consequência (social, politica, jurídica) da irresponsabilidade dos atos praticados. Para liderar ou gerir o ato solidário, prefiro ter um profissional solidário que um voluntário solidário. Quer se goste ou não, o comprometimento com a lei é superior ao comprometimento com a consciência. A “boa” solidariedade é individualizada. É o comprometimento com as pessoas e, em segundo lugar, com as causas. É o estar lá mesmo, compreender mesmo, ajudar mesmo, sentir (quase) o mesmo. Sem lamechices ou dramas. Com respeito (e porque não, admiração) pelo outro. Com os Direitos Humanos bem presentes em cada ação, porque sem a sua observância não existe solidariedade.)

Em janeiro perfazem-se 18 anos de trabalho numa IPSS. Sou feliz por observar atos de solidariedade diária há tanto tempo. Permitam-me uma palavra de apreço e agradecimento sentido a todas as pessoas que ali trabalham e, evidentemente, às pessoas para quem e com quem nós estamos.

 

Rui Duarte

 

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17.12.18

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Foto: Alms - Vannino

 

Facebook e quejandos despejam constantemente no correio eletrónico, murais e páginas de Internet, frases sucintas e assertivas carregadas de ensinamentos e moralidade sobre como devemos ser e fazer para praticarmos solidariedade. Empacotam também a recompensa. Em alguns casos vem como uma promessa de felicidade, noutros, como ameaça – se não formos solidários o mais certo é que, quando precisarmos, os outros não sejam solidários connosco. Está tudo lá nessas frases de poucas palavras; o que aqui possa escrever nada acrescenta de diferente.

E quem de nós nunca deu uma moedinha, participou em campanhas de solidariedade, visitou doentes e pessoas solitárias, ouviu com compreensão quem se lhe quis confiar, pondo assim em prática os ensinamentos que recebemos em casa, no grupo de amigos, na escola, no dia-a-dia em convivência com os outros seres da sociedade? No final, vem o proveito da contabilização de mais um crédito na conta corrente do dar e receber. Em certas circunstâncias o gozo de dar é tal que o difícil é distinguir quem recebe de quem?

 

Naturalmente valorizo a solidariedade e as ações de sensibilização. E, como não valorizar e atribuir-lhe importância se são exemplos de boa conduta, consciencialização da miséria e das diferenças sociais, resolvidas tantas vezes com a solidariedade alheia?! Num quadro de desumanização para onde parece que caminhamos, a sensibilização tem, sem dúvida, um papel importante na inversão das forças desumanizantes.

Mas quantos de nós já reconhecemos e colocamos esperança no silêncio dos desistentes? Vimos e acudimos ao olhar suplicante dos desesperados? Compreendemos a fraqueza e ajudamos a reforçar os que, de tanto lutarem, se esgotaram, aceitaram e aprenderam a viver com outras verdades que não a sua? Muitos pensarão que nunca se cruzaram com alguém assim tão desesperado, atormentado, e eu sinto-me tentada a concordar.

 

Vale a pena refletir sobre o solidário. Socorro-me de um dos casos que nos chegam nas redes sociais e que, conforme já referi, abundam. Por uma vez ponhamos de lado a mensagem final e fixemo-nos apenas no facto. Um menino com ar abandonado, a quem não conseguimos colar-lhe uma família, uma mãe que zele pela sua higiene, saúde e bem-estar, recebe de alguém um agrado, uma esmola ou algo que o faz sentir-se melhor. Já vi várias versões: num caso apagam-lhe a fome, noutro dão-lhe umas moedas, e ainda noutro sentam-se ao seu lado e colocam-lhe um braço por cima do ombro num afeto que, claramente o menino não conhece, mas que o faz sentir-se muito bem. Passados 20 anos tem oportunidade de retribuir o que recebeu porque a vida se revelou mãe para ele e madrasta para quem o ajudou. Tenho para mim, e quero manter esta crença porque é aí que reside o verdadeiro valor da solidariedade, que quem deu ao menino a atenção que todo o ser humano precisa e merece não o fez a pensar que no futuro também poderia precisar desse gesto solidário; fê-lo porque sim, porque dar é uma caraterística voluntária de quem é gente. A solidariedade faz-se sem querer vender ou trocar, não é um ato que fica suspenso a aguardar retribuição futura. O solidário não tem em conta nem faz contas ao que dá, também não sofre com a falta de reconhecimento, muitas vezes a pessoa solidária nem sabe que o é – é-o porque se identifica com o sofrimento alheio. Se o solidário é o desesperado, o fraco, o esgotado, o injustiçado e o incompreendido, esconde o seu estado de alma para poupar os outros ao sofrimento – é por isso que não o vemos e não o reconhecemos quando nos cruzamos com ele. Para esses, viver é muitas vezes um ato de enorme solidariedade. Não vivem agarrados à vida, mas vivem porque seria profundamente amoral não esperarem a sua hora, ultrapassarem etapas, abreviarem o fim provocando a dor alheia. A solidariedade comove-me, mas o solidário é um ser tão especial que me move.

São tão poucos os verdadeiramente solidários!

 

Cidália Carvalho

 

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14.12.18

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Foto: Dove - Sirawich Rungsimanop

 

Uma revoada de pombas agitou a tarde parda de inverno e acorreu à atração das migalhas. O velho sacudiu o saco, deixou as pombas à avidez quase mecânica dos instintos, e veio até mim, que o observava, no impasse entre a curiosidade e a intermitência do semáforo, no limiar do adro da igreja.

A luz verde não esperou por mim, porque já o homem me dirigia um sorriso de bonomia. E urgência - de partilhar comigo migalhas da sua vida em troca de uma migalha do meu tempo:

“- Sabe, menina, elas também precisam de comer, coitadinhas. O senhor padre não gosta que se deite pão às pombas, mas eu sei o que é passar fome. Ah, se sei! O que me baleu foi a turia*, aí se baleu! Por quatro tostões, menina, benditos quatro tostões! Eu tinha uns oito anitos, andaba a pedir pão pelas ruas do Porto. Foi numa tasca, lá da ilha, o tendeiro distraiu-se, e eu, pimba! – agarrei nos quatro tostões e fugi... Era uma criença. Bendita casa, a da turia. Comíamos lá bacalhau com batatas, peixe... era um hotel de cinco estrelas, para mim. Benditos quatro tostões! Bibíamos, eu, mais quatro irmão, numa cabe da ilha da (...). Eu chegaba a casa e repartia o pão que me dabam pelos meus irmãozitos, todos mais nobinhos. Era uma festa. A mim dabam-me, às bezes, um caldinho quentinho – já lebaba a barriga cheia, e os bolsos a abarrotar de migalhinhas de pão para os meus irmãos. Eu tinha uns oito anitos, não mais. Bendita a mão que me apanhou e me meteu na turia. A minha mãe também pedia pelas ruas, mas gastaba tudo em binho. O meu pai, o que ganhaba, num daba p’ra nada. Bibíamos todos numa cabe, assim, desta altura, quase nem nos podíamos erguer de pé. Bendita turia! Bendita turia... aquilo foi o céu. Depois, menina, fui pra tropa. Quando bim fui acartar pedra e abrir buracos, para as ruas. Ganhaba binte e cinco tostões. Depois fui para os camiões, p’ra Matosinhos, a ganhar trezentos mil réis por mês. Que fartura! Era bom, muito bom, menina. Mas passei muito. Fiz-me homem, graças a Deus, mas debo tudo àquela santa casa, ali na quinta das Águas Férreas. Bons tempos que lá passei! Parece que só as pombas ainda se lembram, ainda são as mesmas desses tempos – a fome delas é a mesma que eu conheci, é por uma migalhinha de pão que elas lutam.  E só elas ainda sabem que o céu é um lugar onde não se pode ficar parado. Mais tarde ou mais cedo, há que boltar ao chão, ficar á mercê das migalhas dos outros... e esgrabatar a terra. Mais que não seja com os nossos ossos...”.

 

Cinco sinais vermelhos depois, um sinal verde chamou-me ao tempo de ir andando. Um homem, decentemente vestido, com um saco plástico vazio nas mãos de raízes salientes, e os olhos cheios de palavras por dizer, titubeava desculpas, à minha despedida desajeitada.

“- Desculpe, menina, a gente tem tanta bida cá dentro a morrer, que às bezes apetece tentar salbar-lhe as misérias com tagarelices. Desculpe lá, se a atrasei. Sou um belho chato. Tenha uma boua tarde, menina. Obrigado pela paciência. Sou um belho. E chato. Só as pombas me entendem, e sabem da fome que passei.”.

E sorriu. Um sorriso que entristeceu mais ainda a tarde fria e que me deixou por dentro a vontade de reescrever coisas que ninguém sabe. Ou que sabe, mas que esquece, à intermitência dos sinais. Verdes.

 

*turia (ou tituria, no falar do povo): Tutoria (instituição oficial para proteção de menores).

 

Teresa Teixeira

 

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10.12.18

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Foto: Lemons - Richard John

 

Nunca houve tanta instituição de caridade como agora: empresas, organismos do Estado ou não governamentais, associações e entidades, com siglas quase indecifráveis, com enfoque na solidariedade, na proteção do indivíduo e do seu direito à subsistência, à segurança e a todos os cuidados primários.

Mas também nunca houve tanta solidão apregoada, tanta miséria humana, tanta desigualdade, permitidas (e perpetuadas) por gente com poder, dotadas de conhecimento e de estratégias de intervenção que nada mais são do que um manancial de benefícios em causa própria.

Nunca houve tanta gente alerta para as causas sociais, para o voluntariado, para a partilha do seu tempo, da sua condição humana, mais consciência do mundo, dos outros, na busca da consciência de si próprio, como no tempo presente. E como dói – descobre muita gente, com espanto – dar sem realmente esperar nada em troca (sim… às vezes, nem um obrigado), dar perante os desafios da humanidade, sem sucumbir à crítica, ao julgamento, sobretudo perante a ingratidão ou a ofensa. Na resiliência que se constrói, também a capacidade de enfrentar os desafios de outro ser humano e os próprios demónios, mergulhando na dor para sair dela. Como dói, a consciência. Como cura.

 

Oiço muita gente falar do quanto gostaria de ajudar, de fazer algo, um voluntariado, mas não podem, não têm tempo, têm família, empregos e uma carrada de obstáculos que os impossibilita de concretizar esse desejo. Não me cabe a mim julgar ninguém ou saber de que forma enfrentam os seus próprios desafios. Fico triste, todavia, quando percebo, no cantinho do olho, uma tristeza velada de quem realmente sente esse apelo e se sente frustrado por não o fazer. É para eles que escrevo hoje. Para aqueles que não têm tempo (ou meios) para dedicar umas horas semanais a uma instituição, para aqueles que não sabem como fazê-lo, para aqueles a quem a condição do outro não é alheia à sua própria condição e sentem faltar algo nas suas vidas por não serem solidários. Podem fazer muito, podem fazer a diferença na vida de vários seres humanos. Um que seja, acreditem, será extraordinário.

Comecem com o senhor da mercearia que, todas as manhãs, se cruza convosco e só espera um “Bom dia”, olho no olho; aquele minuto, junto da caixa, acompanhado de um sorriso, pode fazer toda a diferença. Ou comecem com a primeira pessoa que veem de manhã, ao abrir da pestana, e que partilha a vossa vida; fazê-lo antes de olhar para o telemóvel pode significar um chão seguro debaixo dos pés, em cada jornada. Se o vosso vizinho precisa de ajuda e podem ajudar, ajudem. Sem pedir nada em troca. Vale o primo, a mãe, o ilustre desconhecido, a velhinha que vive no 35, a senhora da padaria, o mecânico ou o carteiro, desde que seja genuíno.

Quando eu era catraia tinha um tio que, pelo menos, duas vezes por semana comprava limões, salsa e feijão-verde a uma senhora que vendia, com uma pequena banca, na porta do mercado. Acompanhei-o diversas vezes e interrogava-me sobre a quantidade de coisas que ele comprava e de que forma ele e a minha tia podiam consumir tanta coisa. Num certo dia, vencida pela curiosidade, perguntei como era possível comer tanto limão, tanto feijão… quando o meu tio comentou que pretendia ajudar a senhora, perguntei porque não lhe dava, simplesmente, dinheiro (já que podia), em vez de comprar tanta coisa. Na onda do seu sorriso respondeu à minha ignorância com carinho, dizendo-me que a caridade sem dignidade não existe; e que havia gente que o fazia, sim, mas que aquilo não era realmente caridade, era negócio. Acrescentou que quando queríamos e podíamos ajudar alguém, o devíamos fazer sem diminuir, sem humilhar, sem procurar exposição ou a atribuição de um prémio. Com respeito, humildade e integridade. A senhora Maria vendia os seus legumes e frutos, prestava um serviço, dizia-me ele. Comprar-lhos a um preço justo permitia-lhe valorizar o trabalho, o esforço e o sacrifício daquela doce senhora que, com quase oitenta anos na altura, ainda cuidava da terra, de um filho adulto com diversos problemas e vendia o fruto do seu trabalho, de segunda a sexta, na porta do mercado. Fez-me tudo muito sentido, mas disse-lhe que não havia respondido à minha questão inicial: os legumes, os limões, a tonelada de salsa, que destino lhes havia sido reservado? Depois de uma sonora gargalhada disse-me que teria deixado de comprar à D. Maria se tivesse deixado apodrecer um limão que fosse. Chegou a temer que isso pudesse acontecer, mas, ao longo dos anos, apareceu sempre alguém, na hora certa, com quem partilhar, o que lhe havia poupado esse constrangimento. Disse-me que não eram as palavras que lhe dirigia o que realmente contava, mas o que fazia, com o que ela produzia e vendia, quando lhe virava as costas. Com ele aprendi que a solidariedade não é um casaco que se veste consoante a estação do ano, tão pouco é algo que nos dá (ou deve dar) protagonismo ou “isenção moral”. Visa o genuíno bem de alguém, em primeiríssimo lugar, e o bem da humanidade, de uma forma mais abrangente.

 

Por isso, façam apenas o bem pelo bem. Parece difícil, bem sei, mas é tão fácil dizê-lo quanto fazê-lo. Não precisam de ir para o Quénia fazer voluntariado para se sentirem úteis. Abram os olhos, o coração e olhem em volta. Estendam a mão e façam milagres ao pé da porta. Se calhar não vão aparecer nas revistas ou ganhar um Nobel, mas garanto-vos a mesma sensação de orgulho e alegria do melhor dia da vossa vida. Há tanto sofrimento à nossa volta a que não podemos acudir, comecemos pelo que está ao alcance da nossa mão. Podemos fazer muito, de forma anónima, todos os dias. Não esperem “o momento”, comecem hoje. Pode parecer-vos tarde, mas jamais será em vão.

 

Alexandra Vaz

 

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7.12.18

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Foto: Portrait - Szilárd Szabó

 

Coisas bonitas. Gosto de coisas bonitas.

Gosto de me emocionar – é um dos sinais mais evidentes de que estou vivo, desperto, tenho energia - e a estética, a beleza sensibilizam-me, motivam-me.

 

Portanto, aqui vai: todos iguais, todos diferentes. Falando de pessoas. Iguais em termos de oportunidades, de direitos, de deveres, de acesso. Diferentes na particularidade de cada um, na nossa individualidade, na história que fomos vivendo e que nos foi sendo transmitida. O nosso caminho.

As diferenças podem ser ínfimas, pense-se nos gémeos verdadeiros, quase impercetíveis à vista, como é a primeira. Esse mínimo se não for combatido vai, naturalmente, gerar a prazo diferenças mais ou menos evidentes. Somos pessoas, somo indivíduos, somos diferentes, especializamo-nos, adquirimos diferentes capacidades.

Referi-me à passagem do tempo e de como a mínima diferença, não interditada, irá gerar particularidades que nos individualizam notória e evidentemente.

É bom, é bonito, enriquecedor.

É como, passando para o espaço, duas retas quase, quase paralelas, de tal maneira que se nos fixarmos num segmento de um metro, aparentam ter a mesma distância entre elas nos seus extremos. Agora consideremos as retas sem princípio nem fim, haverá um ponto onde se cruzam, assim como há inúmeros pontos onde a distância entre elas é infinito. Só para visualizar.

 

Convém não esquecer que as diferenças, digamos individualizantes, convivem com as semelhanças, não as apagam. Não anulam uma caraterística do Homem que é a de ser gregário, organizar-se em sociedade, família, vizinhança, nação, cultura...

Diferença convive bem com semelhança. Como indivíduo com família, grupo, sociedade. Não só é compatível, como pode ser enriquecedor. Se se utilizarem as competências, interesses, gostos de cada um – sejam quais forem, técnicas, artísticas, sociais, abstratas, concretas, manuais ou intelectuais – numa perspetiva de troca, de distribuição, com o intuito de acrescentar algo a outro, individualmente ou em conjunto, se ganho com a ajuda de outros para suprir dificuldades próprias, estamos a ser solidários, gregários. A utilizar a individualidade, livremente, voluntariamente, como fator de gregarismo em que outros ganham competências e capacidades para as quais não estavam tão habilitados, circunstancialmente ou não.

 

É solidariedade. Troca de recursos, podem ser ideias, em que somos, todos, interdependentes. Solidarizando mutuamente. A troca não tem de ser imediata, nem é uma igualdade contabilística, mas é suposto acontecer. Assim não desvalorizemos, cada um ou a sociedade, a capacidade de ninguém. Assim reconheçamos o que precisamos, reconheçamos quem tem mais competência e saber, assim queiramos ser ajudados.

Não para criar dependência, não como obrigação, antes e primordialmente para melhorarmos, para sermos mais capazes. É solidariedade.

A solidariedade é bonita.

 

Jorge Saraiva

 

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3.12.18

Ice-candy - Fireflydaily.jpg

Foto: Ice-candy - Fireflydaily

 

“Ognuno sta solo sul cuor della terra

trafitto da un raggio di sole;

ed è subito sera.”

(Todos estamos sós no coração da terra

trespassado por um raio de sol;

e de repente anoitece.)

Salvatore Quasimodo

 

Compaixão pelos oprimidos e vulneráveis pode ser vista por vários ângulos: eu não sei como algumas pessoas se amam a si próprias, mas se forem sadomasoquistas, se calhar, passo à frente.

Durante a recessão económica, a situação de vulnerabilidade de países, famílias e empresas vestia palavras como PIGS, culpabilização das vítimas e da necessidade de empoderar e empreender. Nota-se mesmo que a língua portuguesa tem dificuldades com “empoderar”, tão feia que é a palavra, postiça.

Atualmente, quando penso nesses tempos recentes, cheira-me a cinzas, de ressentimento, de rejeição e de não pertença, falta de confiança e do muito que se perdeu. Da diferença entre os que ficaram, os que partiram e com o que podemos contar agora, olhando pela nossa janela. Erosão de valores, de vidas e de esperança. Ouvimos falar que as sociedades são líquidas e voláteis, do momento. Espero que daquelas que pondo no congelador com um pauzinho, dê para comer como gelado. Gosto muito.

Nussbaum escreveu sobre a inteligência da compaixão. Ela refere os três tipos de julgamento emocional que afetam o nosso modo de pensar perante uma situação de apelo à solidariedade. Refere o julgamento pela dimensão da tragédia, sinto-me mais solidária se a injustiça do outro é séria e não algo trivial; o julgamento por não merecer, ou seja, a pessoa não teve controlo em nada da injustiça em que se encontra; e o tipo de julgamento eudemónico (que vem do grego e significa “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom génio”, traduzido como felicidade ou bem-estar). Neste tipo de julgamento eudemónico, a pessoa a quem se destina o ato de solidariedade é parte integrante do meu esquema de objetivos, projetos e valores pessoais, um fim último pelo qual o Bem existe.

Este último é relevante pois, segundo a autora, vamos estar mais inclinados a ver o outro mais parecido connosco e só nos interessarmos mais por essa razão, pela probabilidade de algo similar nos acontecer.

Quando estamos mais em baixo, cuidar de nós passa por estarmos próximos de pessoas que são como casa para nós e, na ausência delas, sentir o bater do coração e respirar, como se estivéssemos mais próximos do verdadeiro coração do mundo.

Em 20 de Dezembro, a solidariedade tem a sua celebração internacional. Esta preconiza, muitas vezes, a intervenção em situações de urgência e de preservação da paz social.

Por mim, atendendo à lógica de poder subjacente à narrativa da solidariedade, pensando em duas pessoas em diferentes posições de existir num dado contexto, penso que seria interessante um contacto de proximidade e de respeitar o outro na liberdade da sua decisão, como autor da sua própria vida. O contacto com o diferente traz sempre novidade e isso permite evoluir, como indivíduos e como grupo.

 

Referências:

Nussbaum, M. C. (2001). Upheavals of thought: The intelligence of emotions. Cambridge: Cambridge University Press

 

Maria João Enes

 

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30.11.18

Holding-hands - Benjamin Balazs.jpg

Foto: Holding-hands - Benjamin Balazs

 

“Fazer bem sem olhar a quem”, sem nada esperar em troca, qual aforismo popular ou máxima que não deve significar apenas um simples ato de caridade, mas antes, e muito mais do que isso, a expressão de sentir o prazer de praticar a solidariedade. O prazer de fazer o bem é, ou deve ser, – convenhamos – maior que o de recebê-lo. Necessário se torna, por isso, procurar sentir o que os outros do mesmo modo sentem quando lhes falta algo de importante na vida.

Na prática do dia a dia, fazer o bem deve constituir algo capaz de transformar e melhorar o meio e as pessoas que nos rodeiam. É maravilhoso saber cumprir de forma consciente e despretensiosa o que traz realização e felicidade ao próximo, exercendo a pedagogia de uma boa ação, imbuída esta de uma nobre missão de apologia ao amor. Quando nos colocamos no lugar do outro e tentamos confortá-lo e amenizar o seu sofrimento, isso cria empatia e tolerância, desperta a vontade de ajudar e de agir segundo princípios morais em que se destaca a importância da solidariedade, sentimento tão caro e relevante nas ações sociais.

 

Nesta vida, ninguém avança sozinho, precisamos uns dos outros, se possível, de “mãos dadas” para um mundo mais fraterno e solidário. Pequenos gestos, como um sorriso nos lábios, um olhar de esperança, uma troca de mimos e de carinho, de amizade e de respeito, bem como a indispensável compreensão para com o nosso semelhante, poderão ajudar muito e contribuir para um viver melhor com menos sofrimento. A isto chamamos solidariedade!

 

José Azevedo

 

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26.11.18

People - Leroy Skalstad.jpg

Foto: People - Leroy Skalstad

 

Era um daqueles dias quentes de verão. Mais um ano que ajudava os meus avós na mercearia, penso que esperava quase o ano todo para o fazer.

Como eu gostava de aqui estar. Não só pela companhia dos meus avós, que tanto adorava, como os simples pormenores do campo que traziam o melhor à tona, coisas que não víamos na cidade. O simples cumprimentar do Sr. Manel, aquele sorriso e a importância em vir-me sempre dizer um simples “Olá”, ou a senhora Maria que me pedia sempre se podia levar-lhe as compras a casa e me dava sempre uns trocos, coisa que eu não aceitava, mas ela insistia. Não o fazia pelo dinheiro, mas sim pela doçura daquela senhora, por poder ajudá-la de alguma maneira. E ela ficava tão feliz quando o fazia. Era daquelas senhoras que os filhos pareciam ter-se esquecido dela. Era uma pena e partia-me o coração, dizia-lhe muitas vezes que, para mim, era como mais uma avó; e aquele sorriso? Nada se comparava.

 

Mas nesse verão não fora o amável Sr. Manel, nem a senhora Maria que marcaram tão intensamente aqueles momentos prazerosos que tinha na aldeia do meu avô. Fora outra coisa.

Tal como fazia sempre, o meu avô dizia-me para ver as datas dos produtos, dar uma vista de olhos à fruta e deitar fora o que não estivesse de agrado ao cliente. E assim era, todos os dias o fazia. E todos os dias colocava num saco esse “lixo”, muitas das coisas ainda estavam boas, mas não para se apresentar num supermercado. O meu avô dizia-me sempre para colocar em sacos e deixar junto à porta, nas traseiras da loja. Que uma senhora que vivia em péssimas condições ia mais tarde buscar. Era a maneira do meu avô a poder ajudar de alguma maneira. Por vezes, até colocava mais alguma coisa, mesmo estando em plenas condições. Mas apesar de contribuir para esse ato caridoso que tanto adorava no meu avô, fora algo que despertou a minha atenção. Foi naquele dia quente, em que eu tive de ir às traseiras da loja já depois de ter deixado os saquinhos como de costume, que me deparei com a senhora que prontamente me pediu desculpa e eu disse-lhe logo não ter mal, para estar à vontade. Mas o que me fez escorrer as lágrimas pelo rosto, fora o olhar do pequeno menino que vinha com ela, os olhos brilhantes, emocionados ao olhar para um dos saquinhos e dizer “Mãe!! Hoje temos brócolos, gosto tanto de brócolos mãe!”. Ele estava embriagado de felicidade, apenas por um pedaço de brócolos. E aquele brilho nos olhos, aquele olhar doce e triste apesar da felicidade do momento, fez-me sentir uma tristeza profunda. Fez-me voltar para dentro e trazer o pedaço maior de brócolos que o meu avô tinha na mercearia. Não consigo explicar em palavras a gratidão, nem do menino, nem da mãe. Mas sei que tinha ganho o dia, a semana, todo esse ano. Apenas pelo olhar daquele menino. Quando muitos deitam fora, outros ficam radiantes. Dão importância, por não terem. Por querer e desejar tanto, mas não ter posses.

E foi aí que despertou em mim o desejo de ajudar, de fazer a diferença, de poder receber mais sorrisos como aqueles – genuínos.

E foi assim...

 

Inês Ramos

 

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23.11.18

Hug - Anemone 123.jpg

Foto: Hug - Anemone 123

 

Numa era em que somos mais do que parecemos, temos tempo e vontade para pensar nos outros. Até a mais egoísta das pessoas dá por si a ajudar, mesmo não estando à espera, mesmo não sendo esse o seu modo de vida.

Num tempo em que todos temos muito, em que o luxo se confunde com banalidade, e em que, mais do que esses todos, há os que não têm nada, escondidos pela poeira da hipocrisia dos mais fortes, daqueles que decidem o que deve ser ou não ser sabido, a ajuda confunde-se com oportunismo.

Sim, de que vale dizer que fazemos se, na prática, não abdicamos do nosso conforto em prol de quem precisa?

De que serve dar, fazer angariação de fundos e eventos sociais relevantes, se não vamos ter com quem precisa e lhes damos um abraço, rimos com eles, choramos ao lado deles?

Se realmente a solidariedade acontecesse genuinamente, não iriamos para o café ou para uma grande plateia falar dela. Não abriríamos a carteira, simplesmente, e daríamos as notas que reservamos para a solidariedade. Essa é a parte fácil.

Dar o nosso coração numa relação de comunicação direta tem mais impacto a longo prazo do que o dinheiro. Esse, só por si, nada faz. Precisa dos solidários para se tornar ajuda.

Solidariedade é dar-se, amar-se a si e aos outros, apenas para gerar felicidade.

 

Sónia Abrantes

 

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19.11.18

TV - Alexander Antropov.png

Foto: TV - Alexander Antropov

 

Um novo amanhecer e eu desperto. Pronta para a rotina que se estende.

Eis que aura carregada da matina cede perante um pequeno-almoço conjunto que me é oferecido. Agradeço e prossigo.

Após a espera exasperante de quem conta com a mobilidade pública, deparo-me com novos cenários. Entro no transporte e vejo, uns metros adiante, alguém a ajudar uma senhora de idade a subir, e na paragem seguinte, o cuidadoso motorista aguarda por um transeunte que consegue alcançá-lo, já ofegante. Durante o trajeto, o silêncio. Partimos todos para os nossos recantos.

 

E eu dou início à minha jornada laboral.

Não me importo de ir além do dever, esperando contagiar os demais com uma pronunciada e trabalhada boa-disposição. E no decorrer das tarefas troco produtos por sorrisos, pensando que deveria ser assim que a economia deveria funcionar.

À saída, acompanho com o olhar um miúdo enérgico e distraído que tomba no chão. Ups!... A sua mãe aproxima-se e ajuda-o a levantar-se. O miúdo logo recupera.

Antes de chegar ao exterior, forneço indicações a um consumidor perdido neste labirinto comercial e contemplo as horas. Estou pronta para o que resta: o descanso. Ou assim julgava eu.

Ao receber sinais de que há uma alma inquieta, nomeadamente por meios tecnológicos, faço uso da amizade e empresto os ombros, cedendo de igual modo os ouvidos. O melhor é que, mesmo não o esperando, recebo-os em retorno, na mesma dose. Um contacto que enriquece e preenche, arrumando para canto os vazios.

 

Recuperado o contentamento de ambas as partes, volto para casa, para o meu doce lar.

Ligo a televisão em busca de boas novas e ali está uma, entre tantas outras que recheiam o passado e o presente: conjugados os esforços, romperam-se probabilidades e reergueram-se as nações! As tragédias foram colmatadas, os jovens foram salvos e os homens foram resgatados. Quanto não se consegue com um pouco de cooperação!

É a grandiosidade do bem de que a humanidade é capaz. Do mais pequeno gesto quotidiano à mobilização internacional altruísta, tornando todo e cada dia um pouco melhor para as vidas que se cruzam e se entreajudam. É a nossa potencialidade, multiplicada nos diversos cenários práticos.

 

Sara Silva

 

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16.11.18

Solidarity - Stefano Ferrario.jpg

Foto: Solidarity - Stefano Ferrario

 

A pessoa solidária é sempre conotada de forma positiva, boa pessoa, que exerce atos de bondade e compaixão, sensível, assim, ao sofrimento e às dificuldades do outro. As diferentes fases da vida que vivemos levam-nos, por vezes, a questionar tudo. Pois bem, neste momento, permitam-me que questione a solidariedade. Não questiono a pessoa que tem dentro de si esta “coisa” de ser solidário pois, essa, nunca me causaria questionamento. No caminho e na vontade de ser solidário há pessoas que se cruzam, vontades que se cruzam, objetivos que se cruzam e sentimentos que se cruzam. Nem sempre esse cruzamento é assente em princípios comuns às duas pessoas para que a solidariedade se desenvolva no sentido verdadeiro. A pessoa que precisa (ou não) de uma pessoa que lhe dê a mão, nem sempre é boa pessoa e, provavelmente, no lugar oposto nunca exerceria atos solidários. A pessoa que exerce atos solidários por convicção e por vontade intrínseca não se apercebe que, do outro lado, está uma pessoa que não merece o seu esforço, a sua dedicação e que lhe empreste a sua vida e, a dada altura, vê-se a percorrer caminhos que nunca desenhou. Estou, concretamente, a dirigir-me às pessoas que, de forma inadequada, se apoderam do lado solidário dos outros, manipulando toda a situação, extorquindo sem que, verdadeiramente, precisem que lhes deem a mão. Apenas é mais cómodo ter ao seu lado uma pessoa com “bom coração” pois, assim, a vida torna-se, de facto, mais facilitada. Não é justo que isto aconteça à pessoa que tem dentro de si esta “coisa” de ser solidário. A solidariedade deveria remeter sempre para uma responsabilidade recíproca e nunca deveria assumir estes contornos. Desculpem se desiludo.

 

Ermelinda Macedo

 

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14.11.18

Portrait - Khusen Rustamov.jpg

Foto: Portrait - Khusen Rustamov

 

Não sei ser, sem ser eu.

Não sei fingir que sou melhor. E espero nunca ser pior.

Não sei sorrir, sem ser eu.

Não sei chorar quando convém. E não quereria ser menos sensível.

Não sei preocupar-me, sem ser eu.

Não sei desligar-me do mundo. E há tantos temas que me preocupam.

Não sei sair à rua, sem ser eu.

Não sei virar a cara e ignorar quem sofre. E assusta-me tanto a indiferença.

Não sei cumprimentar, sem ser eu.

Não sei fazer-me sisuda e altiva. E agradeço por isso.

Não sei estar, sem ser eu.

Não sei olhar com olhos menos atentos. Nem com menos vontade de agir.

Não sei ser, sem ser eu.

E eu, cheia de defeitos e dificuldades, medos e indecisões, aprendi que ser eu, não é bom nem é mau – é apenas ser de verdade.

 

HTR

 

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12.11.18

Girl - C_Scott.jpg

Foto: Girl - C_Scott

 

Com amor, no respeito e no cumprimento dos votos prometidos em altar, foste concebida. Gerou-te um ventre palpitante, desejoso de se perpetuar. Desenhei-te. Sabe-se lá porquê e onde me inspirei, mas desenhei-te loirinha e de olhos azuis. E, assim nascente. E como eram azuis! E transparentes!

Via-te através e para lá deles. De tanto nos conhecermos os segredos eram de nós desconhecidos. Assim seria para sempre, jurei eu. Por muito tempo acreditei. Não havia dor ou inquietação que a transparência do teu olhar não me revelasse e que eu não resolvesse num beijo ou num abraço mimado.

Cresceste e não perdeste essa clareza e transparência do olhar. A adolescência conservou em ti essa capacidade de seres verdadeira. Deixavas-me sentir-te para lá da pele branca e fina, quase transparente. Privilegiavas-me dando passagem para lugares inacessíveis. Eu desnudava-te de angústias e incertezas com promessas de um futuro promissor junto de um marido que te amaria e dos filhos que viriam desse amor.

Rodeada das minhas certezas fizeste-te uma linda mulher.

Estava feliz com a minha criação, tão feliz que não vi chegar o momento em que foste tomada por essa estranha inquietação e desassossego. Também não me apercebi quando deixei de te ver porque te tornaste impenetrável, fechada em ti, isolada no quarto. Fugias-me. Já não bastava ler na transparência do teu olhar para que vertesses em verdades pequenas mentiras e chorasses tristezas e dores. Os teus olhos nada me devolviam a não ser a certeza de um segredo.

São fases de crescimento, arrufos de namorados, os jovens precisam de espaço – diziam-me. Mas não me tranquilizava.

E, quando por fim, corajosamente quiseste ser transparente e verdadeira como há muito não ousavas ser, proibi-to. Não precisaste falar, firme nas tuas opções a vida ia ser o que tu quisesses e não o que eu tinha programado.

Saíste de casa para viveres o teu amor proibido.

 

Cidália Carvalho

 

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5.11.18

Legs - Lisa Runnels.jpg

Foto: Legs - Lisa Runnels

 

Amanhã pode ser tarde demais. Por isso, hoje vou vestir a minha roupa favorita, vou vestir a minha pele e comportar-me como eu própria. Vou ser fiel a mim mesma e deixar cair as máscaras que uso para me proteger. Quero ser transparente para que todos me vejam tal como sou. Quero viver intensamente e sentir o coração a bater forte. Vou arriscar e afastar os medos que me paralisam. Quero sentir-me bonita, atraente e confiante, e isso leva-me a colocar aquele vestido que adoro, a calçar os ténis que combinam na perfeição e a caprichar na maquilhagem. Acentuo o tom dos meus olhos e dou cor aos meus lábios. E saio para a rua para sentir o calor do sol na minha pele. Está um dia maravilhoso para ser eu própria. Quando passa um desconhecido por mim sorrio-lhe e ele, meio confuso, sorri-me de volta. O poder do sorriso é imenso, contagia e desarma. E por isso hoje ele faz parte do meu fato. Sinto-me feliz e cheia de energia e apetece-me gritar isso ao mundo.

 

Pego no meu carro, sem destino, deixo-me levar tranquilamente. Tenho como companhia a minha playlist, elevo o som e canto no meu tom desafinado. Abro o vidro e sinto o vento na minha pele, no meu cabelo e arrepio-me. O meu instinto leva-me até àquele jardim junto ao rio de onde a vista para Lisboa é um privilégio. Fico sempre sem fôlego quando aqui venho, porque ainda me surpreendo com a beleza deste lugar. Inspiro-me. Pego no telemóvel e tiro várias fotografias àquilo que vejo, mas nenhuma traduz fielmente a sua beleza. Quero partilhar este momento, quero que os outros saibam que me sinto viva e a sorrir interiormente também. Coloco uma das fotos no meu mural do facebook, é desta forma que chego a todos apesar de não me agradar que assim seja. Queria estar num palco onde todos me pudessem ver, se deixassem contagiar e vivessem comigo este momento. Queria que todos se recordassem dele. Fecho os olhos e imagino-o, deixo-me levar mais uma vez e quase que flutuo. Abro os olhos e estou a rodopiar. Sinto-os perto, sinto o seu carinho, a amizade e o amor. Tenho tudo o que preciso e é tão simples. Sem reservas, escrevo a frase que me vem à cabeça e que me expõe por completo. Sem máscaras, sem medos, com confiança e com um sorriso aberto, hoje, agora, porque amanhã pode ser tarde demais.

 

Marisa Fernandes

 

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2.11.18

Woman - melancholiaphotography.jpg

Foto: Woman - melancholiaphotography

 

A sensualidade de cada momento está na mente do observador. O estimulo que realmente existe é percecionado de forma diferente e, por vezes até, de forma muito diferente. É certo que branco é branco e que frio é frio, mas o “meu” branco pode ser diferente do “teu” branco. Os processos de filtragem e de interpretação dos estímulos exteriores são muito complexos, como sabemos. Para além das “ferramentas sensoriais” que cada um possui, ainda temos de contar com limitações ou imposições externas das quais sofremos, ou então nos sujeitamos. Quantos copos de um bom tinto são precisos para as pessoas ficarem mais bonitas?

 

Acho que o mesmo acontece com o verão. As pessoas ficam mais atraentes nesta estação do ano em particular. Pode ser devido aos meses de preparação anterior no ginásio. Pode ser da dieta alimentar mais cuidada. Mas também pode ser das transparências. Bem, é melhor a partir de aqui estreitar o texto apenas para as mulheres... São as saias, as blusas, os decotes. São os algodões e os linhos. O calor impõe o tecido mais afastado da pele. Pele essa que se quer à mostra do sol, contacto astral que nos faltou durante tantos meses.

De repente há um novo jogo em campo. São os gestos de toque discreto no ombro de colegas, os olhares transviados para silhuetas já conhecidas, mas agora redescobertas, e o desejo encoberto em elogios que não ultrapassem o bom-senso. Enfim... “eu gosto é do verão”.

 

Tudo isto para fugir da “transparência”. Não me apeteceu escrever acerca do que, provavelmente, se esperava. É que, quando não há nada de bom a dizer, talvez a melhor opção seja estar calado. Acabo apenas com uma conclusão retirada da vida real (por oposição à virtual, para a qual, confesso, cada vez tenho menos tolerância): a transparência não se advoga. Pratica-se. E aqueles que mais a clamam, são os que mais a atraiçoam.

 

Rui Duarte

 

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29.10.18

Act - Kai Kalhh.jpg

Foto: Act - Kai Kalhh

 

Lembram-se daquela história do tio Hans, que todas as nossas avós nos contaram em pequeninos? Sim, aquela do rei vaidoso que foi na conversa de dois vigaristas e deu um dinheirão por um fato invisível.  Sim, esse.  Bem, na verdade, como sabem, o fato não era invisível, que isso é coisa que, até hoje, ainda ninguém inventou.  Nem sequer transparente, nada disso – o tecido de que era feito era, apenas... inexistente.  Uma patranha, portanto.  Uma tanga, uma treta muito bem urdida, para, não só extorquir dinheiro ao tal do rei vaidosão, mas também fazê-lo cair no ridículo, levando ao extremo a sua sede de excelência ímpar, de elegância, e de inteligência – claro, segundo ele, acima de todos os olhares e de todos os conceitos.

Mas o maior problema desse mui nobre senhor (que eu sempre imaginei gordo e com dentes amarelos) nem era a vaidade, porque essa é natural e abnóxia.  O grande problema era a sua doentia necessidade de adulação, de endeusamento.  E, claro, a sua leviandade de espírito, pronto a ser mais facilmente seduzido pela mentira e hipocrisia que pela verdade e honestidade.   Não havia nele um pingo de respeito pelos seus súbditos – nobres ou plebeus, ministros que o assistiam, ou gentalha incógnita que o sustentava.

Reza a história antiga que o desgraçado pagou caro, pelo seu deslumbramento e fé no invisível escudo que, afinal, o não protegeria da inteligência dos hipócritas e da inocência do medo: bastou uma criança. Bastou uma criança esfarrapada e ranhosa, ingénua e honesta, para deitar por terra todo o embuste e fazer desmoronar o dique de silêncio podre que segurava os risinhos dissimulados e as palavras de escárnio. 

 

“O rei vai nu!” – quem dera que fosse sempre assim tão fácil desmascarar a mentira e por a nu a verdadeira pele da verdade.  Quem dera que o tecido da dúvida não fosse uma teia intricada e invisível... mas uma malha apenas transparente.

À cautela... vista-se sempre à verdade roupa de dentro bem bonita.  E limpinha.

 

Teresa Teixeira

 

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