28.3.18

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Foto: Persons - Free-Photos

 

Sentia-me quase 100% feliz com a minha vida, não podia realmente queixar-me. Tinha sido adotada muito cedo, não me lembrava tão-pouco dos meus pais biológicos. A família que me adotou, para mim… são os meus verdadeiros pais. Não os vejo de outra forma. Deram-me a melhor educação que podiam, transmitiram-me valores e nunca me faltou amor e carinho.

Tornaram-me na pessoa que sou hoje. Acabei nova os estudos, pois além de ter entrado cedo para a escola nunca perdi nenhum ano. Sempre fui empenhada e dedicada nos estudos e fiz parte dos quadros de honra da escola. Os meus pais inscreviam-me em algumas atividades extracurriculares para me ajudar a socializar mais com as outras crianças, talvez também para me esquecer de que fora adotada; acho que eles sempre tiveram uma panóplia de receios no que toca a esse assunto. Penso que sempre houve uma voz pequenina no meu subconsciente que me questionava sobre esse assunto. Mas os anos iam passando e coisas novas iam sucedendo na minha vida, o que me fizera esquecer um pouco, ou colocar de parte algumas das minhas questões.

 

Foi quando terminei os estudos, que algo em mim despertou, uma curiosidade de saber quem eram os meus pais biológicos. Não só quem eram, como queria entender o motivo que os levou a desistirem de mim. Não que eu não tivesse sido amada, não que tivesse falta de algo. Mas porque sentia que não me conhecia na totalidade e precisava. Precisava de saber o porquê de me terem abandonado em pequena. Os meus pais adotivos, eles sabiam, notava no olhar deles por vezes, como se estivessem à espera do momento em que eu lhes colocasse a questão: “Vocês sabem quem eles são? Gostava de os conhecer”. Acho que sim, que temiam esse dia; e esse dia tinha chegado. Coloquei-lhes aquelas questões. Eles não levaram a mal, mas notei uma certa apreensão nos seus rostos. Não foram rudes, nem egoístas, nem esperava outra coisa deles. Só possuíam um número de telefone e um nome, o nome da minha mãe: “Carolina Mateus”. Deram-mo e abraçaram-me, pediram-me para ter cuidado, com medo que a verdade me magoasse demais. Mas eu sentia que precisava de descobrir, para conseguir conhecer-me a mim mesma. Para prosseguir com a minha vida para a frente. E pais, seriam sempre eles.

 

Os meus dedos suavam, toda eu tremia, digitei o número de telefone e hesitei durante alguns segundos. Respirei fundo e fiz a chamada. Tinha o coração acelerado e congelei quando uma voz rouca disse do outro lado da linha “Estou?”. A única coisa que consegui dizer foi “Sou eu, a Ana. A tua filha”. Por momentos o silêncio instaurou-se naquela chamada. Mas rapidamente ouvi- a chorar. “Ana… nunca pensei que me fosses ligar”.

Pouco falámos depois, mas tínhamos combinado um encontro num parque, não muito longe de onde eu morava. Estava nervosa à medida que as horas passavam.

Mais uns minutos e saí de casa em direção ao parque.

As folhas caíam agora das árvores, para dar lugar a outras novas que já espreitavam. Tinha um calor agradável. Fui caminhando pelo parque até que reparei numa figura estranhamente parecida a mim, sentada num banco, os cabelos ruivos, magra e com um aspeto algo envelhecido para a idade que supostamente tinha. Tive a certeza que era ela quando ela olhou para mim e as lágrimas lhe escorreram do rosto. Foi quando me dirigi a ela e, educadamente, me sentei e a cumprimentei. Não com um abraço, pois sentia uma controvérsia. Não queria, mas queria no fundo, mas não o fiz. Não a conhecia. Ela sorriu e pôs-me a mão no ombro. “Ana, estás tão grande, tão bonita”. Eu apenas tentava perceber que vida tinha tido aquela mulher para ter ficado com aquele aspeto tão triste e pouco saudável. Apenas me saíram da boca as poucas palavras que tinha realmente de dizer. “Porquê? Porque é que me abandonaste?”.

“Ana… eu abandonei-te para poderes ter uma vida melhor”. “Mas porquê?”, perguntei. Não poderia ela ter-se esforçado mais um pouco e ficado comigo?

“Era nova demais e com muitos vícios, o teu pai desapareceu e eu não tinha ninguém, sou uma sem-abrigo e já o era na altura. Foi quando vi um casal chorar à porta da igreja, falavam um com o outro, falavam com Deus ao mesmo tempo. Pediam um milagre, não conseguiam ter filhos. Vi como desejavam tanto um, eras tu Ana, tu eras o milagre deles.”

Eu estava perplexa, as lágrimas corriam-me pelo rosto. Ela também chorava. Levantou-se e abraçou-me. Disse mais uma vez antes de se ir embora: “Ana, eu abandonei-te para poderes ter uma vida melhor, mas nunca deixei de te amar”.

Antes que eu conseguisse fazer algo, ela tinha desaparecido por entre os arbustos.

Uma sensação de vazio apoderava-se de mim, mas de alívio também.

 

Inês Ramos

 

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26.3.18

Walking - Public Domain Archiv.jpg

Foto: Walking - Public Domain Archiv

 

Andava pelos seus cinquenta e poucos e andar é palavra que lhe assentava. Durante o dia poucas vezes estava sentado. Percorria o pavimento não fazendo sequer círculos. Para a frente e para trás, para a frente e para trás. Gostava de sair da sala e andar pelo exterior, assim, sem rumo. Repetia quase sempre as mesmas palavras, ou as mesmas frases curtas. Levava a mão ao queixo ou ao cabelo, repetindo estereotipias (não podia ser de outra forma) que provavelmente lhe dariam conforto no contacto com o corpo que era seu.

Gostava muito de comer, pelo menos até certa altura em que esse mesmo corpo começou a dar de si. Mas continuava a caminhar. Muitas vezes em sofrimento. Caminhava em casa, caminhava no centro e caminhava para consultas e análises. E caminhou assim durante anos.

Durante anos esteve entregue a uma instituição que o acarinhou, confortou, alimentou, vestiu, etc. As pessoas dessa instituição tornaram-se sua família.

Essas mesmas pessoas perderam-no há duas semanas. Perderam a sua presença, o seu andar. Restou um vazio no chão, no pavimento, na porta por onde ele passava para ir para o exterior. Em vazio caiu também (finalmente) o seu sofrimento. Os dias de lamúrias e gemidos que não conseguiam traduzir onde lhe doía. Doeu a quem o cuidou e teve de tratar do seu funeral. Não se sabe se doeu à família, que, afinal, sempre tinha. Enfim. Pelo menos no abandono, nunca esteve abandonado.

 

Rui Duarte

 

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23.3.18

Girl - Free-Photos.jpg

Foto: Girl - Free-Photos

 

“Nos dias cinzentos da rua, é mais fácil ficar cinzento cá dentro” - pensava eu, abandonada na minha tristeza, enquanto olhava pela janela à espera de te ver chegar, embora soubesse que não chegarias.

Por mais dias que passem, vou sempre esperar que chegues, cansado, depois de um dia de trabalho. Por mais luas e sóis que se sigam, uma parte do tempo parou no dia em que os dias deixaram de contar para ti. A outra parte, a que continua a correr, é ditada pelas estrelas que pões a brilhar para nós aí de cima, de onde nos vês e acompanhas. E pelas centelhas de luz, que na terra brilham por ti: os nossos filhos.

 

Sempre soube que me amavas. Mas foi só depois de partires, que percebi a força poderosa do Amor. Foi depois de ficar sozinha, que entendi que o Amor salva e que Deus não nos abandona. Foi só depois de não estares aqui fisicamente, que vi que afinal a morte não é o fim e a vida é apenas uma parte do caminho.

Mas mesmo assim... queria muito que o teu caminho tivesse sido mais longo. Merecia-lo! Queria que Deus não tivesse precisado de ti no Seu jardim. – E na horta? Tens trabalhado muito? Imagino-te sempre aí, com os teus biscates, sobretudo quando preciso de usar a chave de fendas, ou a enxada.

 

Tem chovido tanto, que me ri a pensar que devias ir ajudar o São Pedro a arranjar as canalizações. Ou foste tu que rompeste os canos de propósito, por saberes que estava tudo seco cá em baixo?

 

Todos temos aprendido esta nova forma de viver – sem ti. E todos os dias, mesmo não estando aqui fisicamente, fazes parte dos nossos dias. Umas vezes fazes parte de sorrisos. Outras, fazes parte de teimosias. Uns dias fazes parte de derrotas. Outros, das nossas conquistas.

Há muitas manhãs em que me apetece abandonar-me à dor e às lágrimas. E é o teu exemplo, de força e coragem, que me faz sair da cama. Mas ainda não consigo deixar lá a tristeza, ponho-a no bolso e levo-a comigo para viver o dia.

Quando há sol, sinto que a luz me ajuda a sorrir. Lembro-me de quando éramos jovens namorados, a passear de mãos dadas e a fazer promessas de amor eterno – que eterna e amorosamente cumprirei.

Depois, nos dias de chuva na rua, é mais fácil chover nos meus olhos.

Mas tal como a chuva faz brotar a vida na terra, assim as lágrimas serão fecundas em mim. Exatamente como o teu Amor.

 

HTR

 

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19.3.18

Sunflowers - Rudy and Peter Skitterians.jpg

Foto: Sunflowers - Rudy and Peter Skitterians

 

- Eu podia ter-te feito tão feliz... mas tu abandonaste-me.

- Nunca te abandonei. Como poderia? – os sonhos são feitos de matéria intáctil, inconsistente, incrível. Sustentável apenas pela sua própria leveza e transparência – como se pode abandonar o que nunca sequer conseguiu iludir-nos à desilusão? O que nunca sequer tocou o horizonte da nossa capacidade de ver?

- Mas tu viste-me, tu conseguiste ver-me, nitidamente, apesar da minha forma de ilusão. Apesar da minha débil natureza onírica...

- Consegui, confesso. E de que me valeu isso? Apenas fazer-me ganhar o tempo de um arco-íris... Ou de um sorriso. Ou de um beijo... Ou de um suspiro fundo...

Em contrapartida, fizeste-me perder bocadinhos preciosos do tempo que eu precisava para os projetos. Projetos viáveis, concretos, para os quais eu tinha capacidade e me foram dadas ferramentas. Coisas que eu tinha que fazer, para sobreviver.

- Não posso acreditar que, ainda por cima, me cobras os pequenos-grandes instantes que te fiz perder... Reconhece: a maior parte desses projetos de que falas com tanta ou tão pouca convicção, apenas fizeram de ti o que és hoje: infeliz...

- Tens razão. Ou talvez não. Digamos que fizeram de mim uma pessoa bem-sucedida, segundo os moldes da sociedade em que vivo. Construí família, criei os meus filhos em segurança, singrei na vida desafogadamente, direi até, com bastante sucesso...

- ...material. E que fizeste ao teu compromisso com a felicidade? Que fizeste com a esperança de me realizar? De te realizares...?

- Ah, para de me lembrar a paixão antiga que tive por ti. Quer dizer, a certeza de que poderia levar por diante essa paixão. Isso são águas passadas! Como eu já te disse, eu nunca te abandonei – apenas, para sobreviver, te releguei para o fundo mais fundo do meu coração – lá, onde hão de morrer todos os meus sonhos, afinal...

- Ainda bem que me guardaste no teu coração... Obrigadinha... Olha se fosse no fígado, num joelho... pior!!! – na cabeça: detestaria conviver lá com os teus preciosos e inadiáveis projetos.

- Não sejas irónico... Já te disse que a vida não se faz de sonhos?

- Já. E eu emendo-te: a vida não se faz só de sonhos. Mas negar o teu sonho, a tua paixão mais funda... (não te esqueças, foste tu que disseste que me exilaste no lugar mais fundo do teu coração...) Ah, negar o teu sonho de vida inteira é negar-te a ti próprio!

- ...

- Que foi? Emudeceste, agora?

- Posso confessar-te uma coisa?

- Claro, sou o teu sonho, que melhor confessor arranjarias?

- Não brinques, estou a falar a sério.

- Está bem, diz. Sabes que podes ter confiança em mim (assim essa confiança fosse recíproca...)

- Que disseste?

- Nada, nada. Diz lá o que querias dizer.

- É tarde. O sol já desce e tenho medo...

- ...

- Não dizes nada?

- Digo. Digo que te amo e que, para mim, serás sempre a criança ingénua e crente que me colheu numa manhã de girassóis e fez de mim a sua grande paixão. Digo que acredito em ti, no teu poder de me reabilitar e fazer do meu nome a tua melhor Obra. O Teu Sonho realizado. Não é tarde, é apenas o nosso tempo. Salva-te, salvando-me do limbo dos sonhos incumpridos.

E não tenhas medo. Eu estou no comando, agora... e a vida que te resta é, verdadeiramente, a Vida Inteira.

 

Teresa Teixeira

 

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16.3.18

Alone - Mike.jpg

Foto: Alone - Mike

 

Hoje decidi partir. Podia ter avisado com algum tempo de antecedência mas não nos supus à mercê de maleitas sazonais. Enquanto oscilámos entre a primavera e o verão a coisa foi correndo, o outono e o inverno são impossíveis de aguentar ao teu lado: quem tu és nos dias negros nem o diabo quer para companhia. Transfiguras-te, insidiosamente, trazendo os piores sacanas do mundo na algibeira. Demorei a perceber que os conhecias de longa data e que te construías, enquanto pessoa, sob o seu patrocínio. Acreditei piamente seres apenas uma alma perdida e mal-amada mas cheia de vontade de ser tudo aquilo que dizia (querer) ser. Acreditei nas tuas palavras, nos teus silêncios, na tua presença, na tua ausência, nas tuas intenções e gestos “genuínos”. E, até depois de já não acreditar, escolhi ficar. Fui incapaz, apesar dos sinais cada vez mais evidentes, de ver o pior em ti, de te imaginar capaz de tudo aquilo que hoje sei. Em boa verdade, jamais acreditaria em tal se o mesmo me fosse narrado por terceiros. Tinha de ser assim: ver para crer, preto no branco, uma chapada dada pela língua de uma baleia azul. É indescritível o que se sente quando tudo aquilo que se pensava ser verdade não o é. Quando nos percebemos atores num enredo do qual nunca escolhemos fazer parte. Na verdade, por opção, nunca estaria aqui. Esta história contada ao pormenor seria igual a muitas outras, sobretudo depois de a teres tornado vulgar, decadente e pequena. Estabeleceste as regras do jogo mas eu escolho dar-lhe um final. Hoje. Sim, hoje mesmo. Não consigo respirar, não sinto nada mais do que desespero neste momento em que a vida, tal como a conheci nos últimos anos, ruiu perante os meus olhos. É desolador saber que tudo o que disseste e fizeste foi estudado, que faz parte do teu jogo doentio e que vais mentir até ao último minuto comigo. Claramente, não lamentas nada no teu discurso contraditório, apenas teres sido desmascarado. Não há em ti um pingo de honestidade, e nem isso consegues fingir, mesmo que penses que sim… Por isso, hoje, decidi partir. Não sei de quanto tempo vou precisar para curar o que ainda sinto mas jamais o farei permanecendo contigo. Preciso de sair deste pesadelo para poder pensar com clareza, longe da angústia que me consome. A tua máscara caiu por terra, por mais que te esforces em mantê-la. Já só quero que te cales e me deixes ir embora. Não peças desculpas vãs, não justifiques o indesculpável. Deixa-me regressar a casa, respirar amor e reconstruir-me na dor que me trouxeste, longe do asco que agora me causas. Tenho mil perguntas mas não vou fazer nenhuma: não quero ouvir mais nenhuma mentira, não quero lágrimas de crocodilo e acessos de raiva. Cala-te, suplico. Só quero ir-me embora, não há mais nada a dizer. Já não aguento ver-te aí, de pé, na cena teatral que ensaias há anos, consumido pelo ego e pela maldade, incapaz de perceber que já não há mais nada em ti que eu deseje, mesmo que ainda te ame. Atrai-te o abismo, nadas no sofrimento como um peixinho mas não pertenço aqui, nunca pertenci. Por favor, cala-te. Não precisas de entender. Não quero explicar nem mais uma linha. Quero ir para casa. Quero chorar em paz. Quero respirar fora do lodo em que te agitas e resgatar todos os meus sonhos. Deixa-me partir, simplesmente. Não contribuo, nem mais um dia, para esta farsa.

Respiraste sobre mim, pela última vez, há minutos. Com um ar dramático e choroso, balbuciaste: “com que facilidade me arrancaste da tua vida”. Olhos nos olhos, respondi-te: “com que facilidade nunca me fizeste parte da tua.” Amorfa e em choque, aceitei aquele beijo tenebroso que encerrou uma história de vários anos, como se de uma brisa se tratasse. Deixei-te encenar e protagonizar a cena final, insípida e doentia, sem paz, sem verdade, sem respeito. Fiquei aliviada quando me soltaste e pude, finalmente, virar-te as costas, sem vontade de olhar para trás. Já não me podes magoar mais, mesmo que eu ainda não saiba quando vais deixar de doer em mim.

 

Sentada no avião, lavada em lágrimas, abracei-me por ter sabido resgatar-me a uma meia vida contigo, num limbo demasiado perigoso que tu trilhas de olhos fechados. No regresso a casa, caminho trémula, não consigo respirar; ainda me sinto perdida porque mergulhei inteira em nós e andei à deriva, sem o saber, mas em momento algum me abandonarei. Amei-te como mereço ser amada, as tuas sacanices a ti pertencem. No final de um dia que começou tão mal, respiro de alívio, apesar da catástrofe que tenho ainda de digerir. A esta distância percebo que muita coisa terrível aconteceu, é um facto, mas que podia ser muito pior: eu podia ser tu. Como diria a minha avó: “Fosga-se”!

 

Alexandra Vaz

 

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12.3.18

 

Bed - Dieter Robbins.jpg

Foto: Bed - Dieter Robbins

 

No outro dia comprei um pijama.

Para muitos pode parecer uma banalidade mas, de facto, eu nunca tinha, até àquele momento, comprado um único pijama para mim. Cresci a vestir os pijamas que me ofereciam – feios, sempre um ou dois tamanhos acima do meu – e sempre me bastou.

Mas naquele dia, como em muitos ultimamente, sentia-me longe de estar feliz.

Então, vi-o. Fiquei ali parada a olhar para o expositor, tentando decidir se o levava ou não: seria uma futilidade? Afinal, tenho uma gaveta cheia de pijamas (que detesto)...

Comprei-o, não sem deixar de me sentir estranha com aquela compra um pouco fútil.

Mas esse sentimento desvaneceu-se no momento em que o vesti: não sei explicar... Invadiu-me uma sensação de conforto, um sentimento de pertença e de carinho, e eu tive a sensação – não, eu tive a certeza – que o meu pijama estava a abraçar- me.

Por isso, posso afirmar que esta foi a compra mais importante que fiz até hoje. Que pena não ter comprado dois pijamas, para ir alternando...

 

Sandrapep

 

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9.3.18

Chairs - Jody Davis.jpg

Foto: Chairs - Jody Davis

 

A música pode ser a de Ry Cooder, como na banda sonora de Paris, Texas.

 

Caminhando, fisicamente. Sem tempo, relógio, sem rumo, quase, podem ser vários, tantos rumos. Tanto faz. Olhando, como que sem ver, como que absorto. Mecanicamente, mas ao mesmo tempo, sentindo, recordando, respirando.

 

Percorrendo, à base da memória, mentalmente. Recordações meio perdidas, mal definidas, como que no meio dos cinzentos da neblina. Em tempo: meio perdidas será o mesmo que dizer, meio achadas, mas com uma sensação de afastamento. Recordações perenes, apesar de tudo, de vida, vitais. Reconstruídas. Talvez já vistas com os olhos de hoje, vivas.

Histórias, vivências, pessoas.

 

Visto com os olhos de hoje, as pessoas estavam, sentiam-se abandonadas. Isoladas, como que à beira de perdidas. Ficar, continuar ali faria com que até a esperança fosse ela embora. Abandonasse as pessoas, cada uma.

Com um mínimo de ambição, dilaceradas, rasgadas por dentro, quase que só acompanhadas pela esperança futura umas, outras pelo desespero presente, todas, quase todas, foram saindo. Para muitos lados, saindo. Desertificando.

 

Volto. Percorro fisicamente, olho, vejo estradas novas, autoestradas, rotundas, esculturas, casas, edifícios. Tudo vazio... pessoas, muito poucas. Muito velhas. A meio caminho entre o orgulho de manter ali a vida e as suas raízes, a raiva de não ter saído, o sentir-se inteiro na sua terra e, lamentosamente, a inveja de não ter partido.

 

É o interior. É a vila, a aldeia, algumas com etiqueta de cidade. Ao abandono.

Antes, a triste agricultura de subsistência, que já nem isso era, ajardinava tudo, pobremente, o que a vista alcançava. Agora, tudo pode arder, matando muitos dos poucos que restam, ao abandono, como uma pilha.

 

Jorge Saraiva

 

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5.3.18

Love - Longzu.jpg

Foto: Love - Longzu

 

Esbelta, de aparência muito cuidada mas sem descair para a exuberância, não passava despercebida. No liceu que frequentávamos era a mais popular. Irradiava uma simpatia e jovialidade cativantes. De gestos largos e risos fartos era agregadora e prendia-nos a atenção. Só por sonsice não admitíamos que ela era a colega perfeita, a amiga que todas queríamos ter. Não se privava de um abraço ou de um beijo mais caloroso, quer o outro fosse rapaz ou rapariga, amigo ou simplesmente conhecido. De tempos a tempos víamo-la dar mais atenção a um do que a outros e logo se levantava um coro de indignadas na contabilização de mais um namorado. Se os boatos lhe chegavam, e era natural que alguém lhos levasse com a generosa ideia de amizade mas que empacotava uma estratégia de aproximação àquela fonte de alegria, ela não os valorizava, nem isso era razão de reflexão sobre o rumo da sua conduta porque, pouco tempo depois, víamo-la entregue às atenções de outro qualquer que ela tivesse escolhido. Sim, porque era sabido ser ela a escolher quem seria o próximo a exibi-la em frente aos colegas.

 

Todos os anos o início letivo era de grande agitação e de muita curiosidade, que se estendia até ela. Como será que vem a Mariana? E ela vinha mais atraente e desafiadora do que no ano anterior. Entrava na sala de aulas confiante e sem pressa, cumprimentava à direita e à esquerda até se sentar no lugar vazio que lhe aparecesse. Vinha mais escandalosa.

Às raparigas que pensavam que belo era as gotas de orvalho a darem brilho às rosas numa manhã fresca de primavera, ela mostrava-lhes que belo era as gotas em corpos suados depois de uma sessão de amor. E os lábios pálidos daquelas, abertos para lamberem o rajá de morango, em nada se pareciam com os lábios carnudos e escarlate desta, desejosos de serem saboreados num jogo de paixonetas. E eram os mesmos lábios que se entreabriam num sorriso matreiro quando algum jogador deste xadrez amoroso lhe segredava ao ouvido, sabe-se lá que embrulho de palavras doces e promessas deliciosas, enquanto dos das outras apenas saiam cochichadas maledicências.

Tamanha liberdade escandalizava as colegas que assim não eram, mas assim queriam ser, e também aquelas que, assim sendo lhes faltava a audácia para o assumir. Era assim com Mariana, desejada por todos os rapazes invejada por todas as raparigas.

 

Troquei com ela duas ou três palavras em quantidade igual de ocasiões. Mariana nunca me elegeu para incorporar a enorme trupe que a rodeava e eu não era suficientemente determinada, tímida até, para impor a minha presença, mas atraía-me nela a forma como celebrava a vida.

Cruzei-me com ela muitos anos mais tarde, por razões profissionais. Não se lembrava de mim, naturalmente, mas aos poucos, com a conversa a trazer o passado ali para o presente, ela foi-se rendendo e a conversa, inevitavelmente, derivou para os bons tempos de juventude. Não tinha a mesma opinião que eu e a juventude, para ela, fora tudo menos boa. Confidenciou-me que a Mariana do liceu em nada se parecia com a Gata Borralheira que, depois das aulas, cuidava da casa e dos irmãos. Acabou o liceu e não pôde continuar os estudos. A mãe cumpria o horário de trabalho no emprego e horas extraordinárias a fazer limpeza num restaurante para poder sustentar a família, porque o pai tinha-as abandonado. Partira havia uns anos e dele sabiam muito pouco, apenas o que outros emigrantes contavam – tinha arranjado outra família. A responsabilidade de que tudo corresse bem com os filhos tornou-a numa mulher cheia de severas regras, por isso, e antes que ela regressasse a casa do trabalho, Mariana tratava de se desarmar, despia a máscara que fizera dela a rapariga mais desejada do liceu, apertava o cabelo, limpava as pinturas do rosto e retirava as pestanas postiças que tão bem lhe aprofundavam o olhar.

Quando nos reencontrámos mantinha a vivacidade e a alegria de outrora, mas transformada numa mulher discreta e serena. Casou com o homem que lhe garantira que nunca a abandonaria. O único homem que interrompeu o ciclo vicioso – escolhido, divertido, descartável, abandonado. A escolha dessa vez foi dele, ela não teve que fazer nada, apenas confiar e deixar-se amar. E, continuou o seu relato: “Antes dele nunca valorizei ou amei verdadeiramente alguém, sempre me rodeei de gente para não me sentir só e se percebia que os sentimentos me começavam a dominar, abandonava a pessoa com medo que ela me abandonasse a mim. Ele não poderá repor os pedaços de juventude que me foram arrancados por todos os que passaram pela minha vida, mas mostrou-me que o futuro é, também para nós, uma possibilidade.”.

 

Cidália Carvalho

 

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2.3.18

Elder - Jhair Arcia.jpg

Foto: Elder - Jhair Arcia

Viver na solidão, para muita gente, principalmente para pessoas idosas que são abandonadas pelos seus familiares e amigos, será como viver na “escuridão”. Mais doloroso, porém, do que essa solidão propriamente dita, é o sentimento atroz do abandono que as domina e que torna essa vida solitária ainda mais angustiante, mais triste e amarga.

Há quem considere que o maior poema do século XIX, que se chama simplesmente “Só”, da autoria de António Nobre, reflete o drama do infindável horror da soledade, cujo significado não se reduz apenas ao existir em solidão, mas também ao estado de abandono de alguém.

Dir-se-ia que a vida, para essa gente solitária, deixou de ser vivida, “deixou de ser vida”, porque todos os seus horizontes de vida se fecharam; cruel tortura de quem foi abandonado e rejeitado pelos seus, quando mais deles precisava em termos de amparo e afeto!

Infelizmente, é o que está a acontecer com frequência nos dias de hoje, com alguns idosos que são, muitas vezes, deixados pela família em abrigos, esquecidos em hospitais e atirados para lares.

Tanto fizeram ou sofreram pelos filhos e netos, ao longo da sua vida, muito amor, carinho e ternura lhes dedicaram; em muitos casos, porém, nada receberam em troca, nem mesmo um simples “mimo” de afeto ou de gratidão.

E bastaria, contudo, às vezes, para aliviar esse sofrimento e tornar menos penosa a soledade em que vivem, que pudessem sentir a proximidade, o afago e a ternura dos seus familiares e amigos, bem como deles recebessem, ao menos, uma pequena parte da dádiva de amor que nunca regatearam aos seus entes queridos.

José Azevedo

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