16.11.18

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Foto: Solidarity - Stefano Ferrario

 

A pessoa solidária é sempre conotada de forma positiva, boa pessoa, que exerce atos de bondade e compaixão, sensível, assim, ao sofrimento e às dificuldades do outro. As diferentes fases da vida que vivemos levam-nos, por vezes, a questionar tudo. Pois bem, neste momento, permitam-me que questione a solidariedade. Não questiono a pessoa que tem dentro de si esta “coisa” de ser solidário pois, essa, nunca me causaria questionamento. No caminho e na vontade de ser solidário há pessoas que se cruzam, vontades que se cruzam, objetivos que se cruzam e sentimentos que se cruzam. Nem sempre esse cruzamento é assente em princípios comuns às duas pessoas para que a solidariedade se desenvolva no sentido verdadeiro. A pessoa que precisa (ou não) de uma pessoa que lhe dê a mão, nem sempre é boa pessoa e, provavelmente, no lugar oposto nunca exerceria atos solidários. A pessoa que exerce atos solidários por convicção e por vontade intrínseca não se apercebe que, do outro lado, está uma pessoa que não merece o seu esforço, a sua dedicação e que lhe empreste a sua vida e, a dada altura, vê-se a percorrer caminhos que nunca desenhou. Estou, concretamente, a dirigir-me às pessoas que, de forma inadequada, se apoderam do lado solidário dos outros, manipulando toda a situação, extorquindo sem que, verdadeiramente, precisem que lhes deem a mão. Apenas é mais cómodo ter ao seu lado uma pessoa com “bom coração” pois, assim, a vida torna-se, de facto, mais facilitada. Não é justo que isto aconteça à pessoa que tem dentro de si esta “coisa” de ser solidário. A solidariedade deveria remeter sempre para uma responsabilidade recíproca e nunca deveria assumir estes contornos. Desculpem se desiludo.

 

Ermelinda Macedo

 

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14.11.18

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Foto: Portrait - Khusen Rustamov

 

Não sei ser, sem ser eu.

Não sei fingir que sou melhor. E espero nunca ser pior.

Não sei sorrir, sem ser eu.

Não sei chorar quando convém. E não quereria ser menos sensível.

Não sei preocupar-me, sem ser eu.

Não sei desligar-me do mundo. E há tantos temas que me preocupam.

Não sei sair à rua, sem ser eu.

Não sei virar a cara e ignorar quem sofre. E assusta-me tanto a indiferença.

Não sei cumprimentar, sem ser eu.

Não sei fazer-me sisuda e altiva. E agradeço por isso.

Não sei estar, sem ser eu.

Não sei olhar com olhos menos atentos. Nem com menos vontade de agir.

Não sei ser, sem ser eu.

E eu, cheia de defeitos e dificuldades, medos e indecisões, aprendi que ser eu, não é bom nem é mau – é apenas ser de verdade.

 

HTR

 

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12.11.18

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Foto: Girl - C_Scott

 

Com amor, no respeito e no cumprimento dos votos prometidos em altar, foste concebida. Gerou-te um ventre palpitante, desejoso de se perpetuar. Desenhei-te. Sabe-se lá porquê e onde me inspirei, mas desenhei-te loirinha e de olhos azuis. E, assim nascente. E como eram azuis! E transparentes!

Via-te através e para lá deles. De tanto nos conhecermos os segredos eram de nós desconhecidos. Assim seria para sempre, jurei eu. Por muito tempo acreditei. Não havia dor ou inquietação que a transparência do teu olhar não me revelasse e que eu não resolvesse num beijo ou num abraço mimado.

Cresceste e não perdeste essa clareza e transparência do olhar. A adolescência conservou em ti essa capacidade de seres verdadeira. Deixavas-me sentir-te para lá da pele branca e fina, quase transparente. Privilegiavas-me dando passagem para lugares inacessíveis. Eu desnudava-te de angústias e incertezas com promessas de um futuro promissor junto de um marido que te amaria e dos filhos que viriam desse amor.

Rodeada das minhas certezas fizeste-te uma linda mulher.

Estava feliz com a minha criação, tão feliz que não vi chegar o momento em que foste tomada por essa estranha inquietação e desassossego. Também não me apercebi quando deixei de te ver porque te tornaste impenetrável, fechada em ti, isolada no quarto. Fugias-me. Já não bastava ler na transparência do teu olhar para que vertesses em verdades pequenas mentiras e chorasses tristezas e dores. Os teus olhos nada me devolviam a não ser a certeza de um segredo.

São fases de crescimento, arrufos de namorados, os jovens precisam de espaço – diziam-me. Mas não me tranquilizava.

E, quando por fim, corajosamente quiseste ser transparente e verdadeira como há muito não ousavas ser, proibi-to. Não precisaste falar, firme nas tuas opções a vida ia ser o que tu quisesses e não o que eu tinha programado.

Saíste de casa para viveres o teu amor proibido.

 

Cidália Carvalho

 

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5.11.18

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Foto: Legs - Lisa Runnels

 

Amanhã pode ser tarde demais. Por isso, hoje vou vestir a minha roupa favorita, vou vestir a minha pele e comportar-me como eu própria. Vou ser fiel a mim mesma e deixar cair as máscaras que uso para me proteger. Quero ser transparente para que todos me vejam tal como sou. Quero viver intensamente e sentir o coração a bater forte. Vou arriscar e afastar os medos que me paralisam. Quero sentir-me bonita, atraente e confiante, e isso leva-me a colocar aquele vestido que adoro, a calçar os ténis que combinam na perfeição e a caprichar na maquilhagem. Acentuo o tom dos meus olhos e dou cor aos meus lábios. E saio para a rua para sentir o calor do sol na minha pele. Está um dia maravilhoso para ser eu própria. Quando passa um desconhecido por mim sorrio-lhe e ele, meio confuso, sorri-me de volta. O poder do sorriso é imenso, contagia e desarma. E por isso hoje ele faz parte do meu fato. Sinto-me feliz e cheia de energia e apetece-me gritar isso ao mundo.

 

Pego no meu carro, sem destino, deixo-me levar tranquilamente. Tenho como companhia a minha playlist, elevo o som e canto no meu tom desafinado. Abro o vidro e sinto o vento na minha pele, no meu cabelo e arrepio-me. O meu instinto leva-me até àquele jardim junto ao rio de onde a vista para Lisboa é um privilégio. Fico sempre sem fôlego quando aqui venho, porque ainda me surpreendo com a beleza deste lugar. Inspiro-me. Pego no telemóvel e tiro várias fotografias àquilo que vejo, mas nenhuma traduz fielmente a sua beleza. Quero partilhar este momento, quero que os outros saibam que me sinto viva e a sorrir interiormente também. Coloco uma das fotos no meu mural do facebook, é desta forma que chego a todos apesar de não me agradar que assim seja. Queria estar num palco onde todos me pudessem ver, se deixassem contagiar e vivessem comigo este momento. Queria que todos se recordassem dele. Fecho os olhos e imagino-o, deixo-me levar mais uma vez e quase que flutuo. Abro os olhos e estou a rodopiar. Sinto-os perto, sinto o seu carinho, a amizade e o amor. Tenho tudo o que preciso e é tão simples. Sem reservas, escrevo a frase que me vem à cabeça e que me expõe por completo. Sem máscaras, sem medos, com confiança e com um sorriso aberto, hoje, agora, porque amanhã pode ser tarde demais.

 

Marisa Fernandes

 

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2.11.18

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Foto: Woman - melancholiaphotography

 

A sensualidade de cada momento está na mente do observador. O estimulo que realmente existe é percecionado de forma diferente e, por vezes até, de forma muito diferente. É certo que branco é branco e que frio é frio, mas o “meu” branco pode ser diferente do “teu” branco. Os processos de filtragem e de interpretação dos estímulos exteriores são muito complexos, como sabemos. Para além das “ferramentas sensoriais” que cada um possui, ainda temos de contar com limitações ou imposições externas das quais sofremos, ou então nos sujeitamos. Quantos copos de um bom tinto são precisos para as pessoas ficarem mais bonitas?

 

Acho que o mesmo acontece com o verão. As pessoas ficam mais atraentes nesta estação do ano em particular. Pode ser devido aos meses de preparação anterior no ginásio. Pode ser da dieta alimentar mais cuidada. Mas também pode ser das transparências. Bem, é melhor a partir de aqui estreitar o texto apenas para as mulheres... São as saias, as blusas, os decotes. São os algodões e os linhos. O calor impõe o tecido mais afastado da pele. Pele essa que se quer à mostra do sol, contacto astral que nos faltou durante tantos meses.

De repente há um novo jogo em campo. São os gestos de toque discreto no ombro de colegas, os olhares transviados para silhuetas já conhecidas, mas agora redescobertas, e o desejo encoberto em elogios que não ultrapassem o bom-senso. Enfim... “eu gosto é do verão”.

 

Tudo isto para fugir da “transparência”. Não me apeteceu escrever acerca do que, provavelmente, se esperava. É que, quando não há nada de bom a dizer, talvez a melhor opção seja estar calado. Acabo apenas com uma conclusão retirada da vida real (por oposição à virtual, para a qual, confesso, cada vez tenho menos tolerância): a transparência não se advoga. Pratica-se. E aqueles que mais a clamam, são os que mais a atraiçoam.

 

Rui Duarte

 

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29.10.18

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Foto: Act - Kai Kalhh

 

Lembram-se daquela história do tio Hans, que todas as nossas avós nos contaram em pequeninos? Sim, aquela do rei vaidoso que foi na conversa de dois vigaristas e deu um dinheirão por um fato invisível.  Sim, esse.  Bem, na verdade, como sabem, o fato não era invisível, que isso é coisa que, até hoje, ainda ninguém inventou.  Nem sequer transparente, nada disso – o tecido de que era feito era, apenas... inexistente.  Uma patranha, portanto.  Uma tanga, uma treta muito bem urdida, para, não só extorquir dinheiro ao tal do rei vaidosão, mas também fazê-lo cair no ridículo, levando ao extremo a sua sede de excelência ímpar, de elegância, e de inteligência – claro, segundo ele, acima de todos os olhares e de todos os conceitos.

Mas o maior problema desse mui nobre senhor (que eu sempre imaginei gordo e com dentes amarelos) nem era a vaidade, porque essa é natural e abnóxia.  O grande problema era a sua doentia necessidade de adulação, de endeusamento.  E, claro, a sua leviandade de espírito, pronto a ser mais facilmente seduzido pela mentira e hipocrisia que pela verdade e honestidade.   Não havia nele um pingo de respeito pelos seus súbditos – nobres ou plebeus, ministros que o assistiam, ou gentalha incógnita que o sustentava.

Reza a história antiga que o desgraçado pagou caro, pelo seu deslumbramento e fé no invisível escudo que, afinal, o não protegeria da inteligência dos hipócritas e da inocência do medo: bastou uma criança. Bastou uma criança esfarrapada e ranhosa, ingénua e honesta, para deitar por terra todo o embuste e fazer desmoronar o dique de silêncio podre que segurava os risinhos dissimulados e as palavras de escárnio. 

 

“O rei vai nu!” – quem dera que fosse sempre assim tão fácil desmascarar a mentira e por a nu a verdadeira pele da verdade.  Quem dera que o tecido da dúvida não fosse uma teia intricada e invisível... mas uma malha apenas transparente.

À cautela... vista-se sempre à verdade roupa de dentro bem bonita.  E limpinha.

 

Teresa Teixeira

 

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26.10.18

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Foto: Girl - Anastasia Borisova

 

Ao longo dos anos, fui-me sentindo cada vez mais grata pelos relacionamentos reais, profundos, sem máscaras, que enriqueciam a minha vida. Eram tão raros que a sua simples existência – de um que fosse, esporadicamente –, era suficiente para sentir validada a minha fé no dia seguinte, nos outros e, inevitavelmente, em mim própria. Contudo, perceber a fragilidade dos outros não me permitiu antecipar (ou acarinhar) a minha própria fragilidade. Num mundo onde um elevado número de pessoas vive, única e exclusivamente, em torno do seu umbigo, é muito perigoso não nos cuidarmos, em primeiro lugar. Quando caímos, a menos que tropecem em nós, são poucos aqueles que sentem a vibração da queda e nos vão procurar, sem pensar duas vezes. Essa é a realidade. A esses, eu chamo “tribo da alma”. Uma espécie de lugar seguro onde se entra sem máscaras ou rótulos, e se é amado na totalidade do Ser. Sobretudo naqueles dias em que não nos conseguimos amar… Na expansão da mente e do coração, a tribo vai crescendo também. Pertencemos (sempre que possível, escolhemos estar), pela frequência silenciosa que vibra debaixo da nossa pele, muitas das vezes, sem sequer o percebermos. A magia da vida.

Gosto tanto da minha individualidade, da minha jornada em mim própria, dos meus momentos em silêncio, quanto aprecio a partilha, a comunidade, a sensação de pertença, de escolha e de ação. Gosto da pertença, sim, porque, só livre, se pode pertencer. Escolher estar, lembra-me que jamais me devo acomodar ao que me faz mal, ao que me rouba a paz ou me estende ao comprido. Só inteira posso pertencer porque ninguém me pode dar o que não sou capaz de dar a mim própria. Pessoas inteiras têm vidas fragmentadas também, malhadas no calor da bigorna da existência, mas escolhem, todos os dias, ser a pessoa de quem precisam. Há pessoas de quem faço parte e que fazem parte de mim. Pessoas com quem adoro estar e que me fazem sentir em casa, mesmo que não nos possamos abraçar ou falar, durante muito tempo. Agarro-me a elas com braços e pernas, lembro-lhes o quão importantes são para mim, valorizo a nossa transparência, nos sentimentos, nos pensamentos, nas ideologias diversas que fazem parte, também, do nosso espólio mental e visceral. Chamo a isso honestidade, lealdade, respeito e integridade. Para mim, constituem os vetores mais importantes no que toca à existência de pessoas na minha vida privada. Sem eles, fico perdida, sem rumo e sem vontade.

 

Aos poucos, houve gente de quem me fui afastando porque não faziam qualquer sentido na minha vida. Falavam de valores, pregavam a justiça, a coerência e a compaixão, mas, na prática a teoria era outra. Vezes sem conta. E quando aquilo a que chamo valores, depende de quem faz o quê e a quem, não são realmente valores, são apenas conceitos vazios e abstratos que uso quando me dá jeito. Não consigo respeitar a falta de congruência, a injustiça, a maldade ou o comodismo da ignorância. Nada nem ninguém pode construir camadas dentro de mim se não sabe viver para lá do seu umbigo ou se dedica a ferir o seu semelhante. Sem aquilo que para mim é importante, nenhum pacote promocional me seduz. Nem sempre foi fácil fazer esta triagem, mas, em nome da dita transparência, ganhei coragem para virar as costas, sempre que possível, assim que possível. Fosse família, amigos, conhecidos. Fosse quem fosse. Contudo, demorei décadas a assimilar tudo isto e a agir sem me sentir totalmente culpada pelo sofrimento dos outros. Como se as dores do mundo fossem minha responsabilidade e, virar-lhes as costas, fizesse de mim uma megera. Embora progressivamente consciente, foi um tremendo desafio separar, eficazmente, a ação necessária à mudança, da programação mental (deficitária) previamente instalada. Mas, finalmente, percebi que ninguém salva ninguém que não quer ser salvo. Ninguém. E que há gente que permanece, sim, enquanto poder alimentar-se da nossa energia, do nosso tempo e da nossa vontade. Por mais que me tivesse custado, hoje não é algo que me tire o sono, o apetite ou me aperte o coração. Fechar portas que não levam a lado nenhum, tem sido das melhores aprendizagens da minha vida.

 

Aqueles que permanecem, para quem a minha porta está sempre aberta, são-me muito preciosos. São muito menos do que pensaria há poucos anos, mas são exatamente aqueles que me acrescentam tudo. Amo-os, tal e qual como são, e construo a seu lado um caminho sólido nos afetos, nos desafios que todos enfrentamos (e que nos podem mudar, num pestanejar), bem como nas decisões que resultam de tudo isto. Algumas das pessoas mais importantes da minha vida não podiam ser mais diferentes de mim, e entre si, mas com cada uma delas encontro a linguagem comum que nos faz permanecer. Revejo nelas os mesmos vetores que me movem e é-me suficiente para caminhar mais tranquila. Mas hoje, que sei mais um bocadinho, reconheço que, com alguns amigos, existimos porque não dizemos tudo, porque sabemos calar-nos para não ferir. São amizades, tão belas quanto frágeis, que devem ser protegidas das arestas afiadas da incompreensão e da injustiça, em nome dos valores (reais, sustentados pela ação) que as alicerçam. Dizem que não há pessoas perfeitas ou relações perfeitas, na verdade, isso não me importa nem um bocadinho. Sacrifico qualquer momento de razão, qualquer dor mal resolvida, em nome das pessoas “imperfeitas”, mas absolutamente íntegras, que tenho a honra de ter ao meu lado. Não quero começar discussões que vão apenas magoar, tão pouco desejo alimentar expetativas irreais – neles ou em mim própria. Não quero perder aqueles a quem chamo irmãos, irmãs, companheiros de uma vida. Prefiro ter paz com eles e aceitar que preservar o bem maior, implica abdicar de alguma dessa transparência que tanto aprecio, escondida por detrás das muralhas que as pessoas erguem.

 

Dizia Francisco Xavier: “Aos outros, dou o direito de ser como são. A mim, dou o dever de ser cada vez melhor.”. Continuo a aprender a estar com os outros, mas, dentro de mim, não permito mais portas fechadas ou quartos secretos; devo essa honestidade a mim própria, mesmo quando doer. Ao mundo, não peço (mais) nada. Já me sussurrou, diversas vezes, que o tempo será curto para todos nós e mais veloz do que imaginamos.

 

Alexandra Vaz

 

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22.10.18

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Foto: Light-bulb - Jukka Niittymaa

 

- Luz, quero mais luz! Dai-me luz!

Urgiu, nas suas últimas palavras, reza a lenda, Goethe, no seu leito de morte, para com quem o acompanhava.

Mas a morte, surda, cega, opaca, não deixou passar a luz.

Ver, no sentido de saber, conhecer, é viver. Para ver precisamos de fazer com que a luz chegue até nós, sem obstáculos.

 

A falta de luz, assim tal e qual, deixa muitas criancinhas, com medo do escuro. O desconhecido faz-lhes medo, torna-as inseguras, ansiosas. Precisam de uma luzinha, de presença que seja, para se sentirem no controlo e poderem adormecer. É como o obscurantismo, com consequência nos adultos, vive do medo, do rumor, da distorção, alimenta e cavalga a ignorância.

 

O ar do dia ensolarado e de límpida atmosfera, o vidro amplo, liso, perfeitamente fabricado, a água cristalina, mesmo que corra, permitem ver através de si, são transparentes. Deixam passar a luz.

A transparência deixa passar tudo, ver e ser visto com nitidez: a verdade, a mentira, o reflexo, a refração. Ela, assim, vai-nos enriquecendo de ferramentas que nos permitem ver e saber e criticar e analisar.

 

A transparência faz, proporciona, com que cada um aja como se estivesse a ser observado.

Dá poder. Dá responsabilidade. Gera respeito.

Informação é poder, com informação, formação generalizada, ajo e uso o poder com responsabilidade e respeito, entre semelhantes.

 

Se não houver black outs e a transparência for generalizada, a luz beneficia todos, todos teremos acesso a saber, conhecer pelos nossos próprios meios. E assim estaremos mais bem preparados para saber das coisas, compreendê-las, discuti-las, dar contributos. Sem intermediários que nos contam a sua verdade. Sem alguém com poder para decidir o que cada um pode ou não saber.

 

Sim, é utópico.

Haja luz.

 

Jorge Saraiva

 

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19.10.18

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Foto: Dolphins - Free-Photos

 

O meu elemento é a água, sempre foi, o que não será de estranhar e de ser natural, porque o meu signo é Peixes. Penso sempre na água como algo ligado às emoções, graças à sua transparência que faz com que todos os sentimentos ganhem fluidez, nutrição e força por onde passa. Daí se explique também o meu fascínio pelo Mar, que nunca me canso de o observar e, sobretudo, de o contemplar sempre que posso ouvir o seu espantoso silêncio e por ele deixar-me envolver, evadir-me até aos limites da minha imaginação.

Quando o vejo calmo e tranquilo, observando a sua condescendente mansidão, sinto-me tentado a entrar mar dentro, mergulhar nas suas águas profundas, límpidas e transparentes e ir conviver com as suas miríades habitantes. Só ele, o Mar, enquanto elemento da Natureza, é capaz de revelar através da sua infinita e genuína transparência as suas maravilhas e os seus encantos. É, sem dúvida, o maior reino de águas transparentes que se conhece no Universo, dir-se-ia uma porta aberta a todo o mundo, em que nele se pode entrar sem pedir licença, penetrar até aos seus confins infindáveis, o que nos permite desvendar os mistérios que tão ciosamente guarda. Ele é infinitamente grande, poderoso, dominador e misterioso, mas, porque é generoso, nem por isso deixa de exibir, de mostrar, através da sua enorme transparência, toda a vida maravilhosa que nele existe.

 

José Azevedo

 

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15.10.18

Background - Public Domain Pictures.jpg

Foto: Background - Public Domain Pictures

 

“Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem

E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,

E passa para o outro lado da minha alma...”

Fernando Pessoa

 

Sem bluff, ver logo a pessoa como é. Através dos gestos e palavras. Talvez mais do que faz e, se calhar, nem tanto como o faz. Talvez o que não faça e, nesse instante, o silêncio que estilhaça. Ver uma serenidade ou a indecisão que toma conta desse estar.

Uma terra que se sente revolvida à espera de ser cultivada. Os frutos e as plantas. Tomilhos e flores de borragem.

Contar contigo porque me dizes o que pensas a cada momento, ver essa liberdade, senti-la como partilhada comigo e podendo eu também respirar desse teu estar de cabelos soltos. Permitir-me deixar ir contigo.

Perguntar como será ser e estar assim de um modo simples, direto e quase desarmante, ser o que se é e como se sente.

Por vezes, atento sobre as amarras de uma invisível embarcação, como se se tratasse de um “navio de espelhos / não navega, cavalga” do Cesariny. E, nesse navio de espelhos, deambulamos por entre os fios de ouro envoltos em brumas e névoas ou quando o sol aparece, pelo ar que transpira das janelas que não conhecíamos encerradas, do lado de dentro.

Abrir os meus olhos ao outro e, nesse encontro, exalar uma mesma música que soa, de mim para ti. Chegando mesmo ao outro lado.

 

Maria João Enes

 

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12.10.18

2 Face.jpg

Foto: Face

 

Eu sentia, eu sabia. E ela perguntava-me: “Sabias o quê?”.

Sabia quando olhava para ti, sentia aquelas ditas “borboletas no estômago”, aquele friozinho que arrepiava até ao fundo da alma. Os meses iam passando e a paixão acentuava-se, nada diminuía, muito pelo contrário. O carinho que sentia era cada vez maior, a cumplicidade e o amor. Dizia-te muitas vezes que eras daquelas pessoas únicas, que dava para passar por ti como se nem estivesses presente. E tu rias à gargalhada, não entendias – dizias tu. Dizias que não eras nenhum fantasma, que eu estava a ver muitos filmes, como era possível passar através de alguém, e rias novamente. Eu ria-me também. Não, não era nada fantasmagórico, era uma maneira de te dizer que isso era uma das tuas melhores qualidades. Uma das coisas que mais admirava em ti, a tua transparência. Eras das poucas pessoas que conheço que eram exatamente aquilo que transpareciam. Que nos tranquiliza à primeira, que nos faz apaixonar sem medos, que nos transporta para outro mundo, um mundo mais leve, mais colorido. Coisas assim, nos dias de hoje, estão a ficar em vias de extinção. Tu rias-te quando dizia tal coisa. Porque a tua bondade às vezes era ingénua, mas esse olhar doce e ingénuo só me fazia amar-te ainda mais. Em ti eu sabia que podia confiar, sabia que me podia apoiar. Que podia ser sem medos. Sem segredos.

 

Digam-me vocês. Não é bom amar assim? Poder ser livre estando com alguém? Podermos ter a certeza da transparência da pessoa com quem vivemos, que amamos? Sim! Eu sinto-me uma sortuda. Amo-te “fantasmagoricamente”, dizia-te. E tu? Sorrisos com esse sorriso doce e ingénuo.

 

Inês Ramos

 

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8.10.18

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Foto: Driving - Jake Heckey

 

Nada é o que aparenta ser. Há sempre o reverso, a perspetiva contrária ou o outro lado da história.

Nem nós somos consensuais. Geramos impressões e opiniões díspares, multiplicando-nos pelos contextos e papéis assumidos. É assim que nos interligamos com o mundo e as suas diversas faces. E todos apreendemos a realidade através da subjetividade dos sentidos e dos significados atribuídos, construindo assim um quotidiano entre o preto e o branco.

Presos às conceções que ganham raízes, tornamo-nos incapazes de ver mais além, de encarar o outro e as (suas) circunstâncias, de buscar a verdade por detrás das magras aparências. Limitamo-nos à passividade, amealhando, sem contestar, tudo o que nos chega.

Mas há muito mais para além disso. Há que romper com esta falsa transparência, que se assume como janela para o interior do outro ou mesmo da verdade e afinal não é mais de que um espelho de nós mesmos e da nossa visão do mundo, não como ele é, mas como pensamos que seja.

 

Sara Silva

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6.7.18

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Foto: Cloudy - Adlferry

 

Olho para longe e vejo lagos, montanhas, cascatas, animais à solta, pastos verdejantes, estradas que se cruzam entre si, céu e nuvens mais claras e mais escuras.

Chega-me tudo através da minha perceção, tal e qual as coisas se apresentam. Bem sei que cada um interpreta tudo à sua medida: É aquilo que ali está – umas mexem, outras não, umas brilham, outras não, umas assustam, outras não – mas é aquilo, não é mais do que aquilo. Não há elementos a retirar o que não pode ser retirado ao que é real, ao que é natural…

Olho para mais perto e apenas vejo tudo maior; não altera nada na sua essência. As coisas são aquilo que são, é aquilo que está ali. As cores estão mais nítidas, porque estão mais perto, apenas. Não há forma de alterarmos o que se nos apresenta, é verdadeiramente uma imagem deslumbrante, porque é aquilo que lá está e não estará noutro local. É tudo tão transparente, no sentido em que é real, verdadeiro. E os lagos? Esses são mesmo muito transparentes – não têm mais do que água, cuja cor apenas vai se modificando pela cor que o céu vai assumindo mas, ainda assim, não perde a sua transparência, naturalidade, verdade. A qualquer momento deixam de o ser, se forem introduzidos elementos que os perturbem – é como no ser humano. É melhor pensarmos que a transparência, a verdade, a naturalidade e o real são caraterísticas de tudo o que nos rodeia, também das pessoas. Eu ainda acredito!

 

Ermelinda Macedo

 

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2.7.18

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Foto: Anatomy - Gerd Altmann

 

Nas relações humanas, sejam profissionais ou pessoais, tanto como em Física, somos confrontados com o conceito de transparência.

Em Física, é apenas uma categoria que está em paralelo com opaco e translúcido. Opaco quando não deixa passar qualquer luz. Translúcido quando deixa passar a luz mas não a imagem tal como ela é na realidade. Transparente quando, do outro lado do obstáculo, vemos a imagem tal como ela é, não sendo apenas uma visualização da luz que tem.

Nas relações humanas podia ser tão simples como na Física, considerando que a luz seria a essência do ser que vemos. Será que é? Claro que não… As pessoas são diferentes de dia para dia, consoante as experiências de vida que vão tendo. Mesmo sabendo que a essência não deveria mudar, o nosso estado espírito não é totalmente controlado como e quando queremos. Seremos, então, opacos, pois não deixamos ver nada de nós mesmos? Não, também não é isso, pois seria impossível acontecerem relações humanas, qualquer que fosse o tipo.

Ser translúcido é, assim, a nossa essência. Deixamos passar a nossa luz mas a totalidade da imagem fica para quem aprofunda mais o conhecimento sobre nós. Tal postura perante a vida não é enganadora para quem nos conhece. É apenas impossível o Outro conhecer tudo do meu Eu. Por vezes nem eu mesmo conheço…

Quando ouvimos ou lemos “Total transparência no negócio”, deveremos então desconfiar.

Se ouvirmos “Um dos valores que defendemos é a transparência”, poderemos arriscar confiar pois o que afirmam é que apenas tentam ser transparentes e dão valor a quem também tenta ser transparente.

Opto por uma visão mais realista, considerando que somos translúcidos, mesmo tentando ser transparentes.

 

Sónia Abrantes

 

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29.6.18

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Foto: Woman - PublicDomainPictures

 

Saíram de casa num dia de sol, mas ainda que chovesse não teriam ficado.

Eram um jovem casal e saíram, deixando tudo o que de material haviam conquistado naquela cidade. Deixaram para trás a casa que Hana herdara da tia-avó, e as mobílias escolhidas com detalhe na loja de móveis usados. Deixaram as molduras com fotografias da família, e os álbuns com tantas recordações felizes.

O despertar não foi difícil, já que a noite havia sido de sobressalto, como todas as anteriores em que ouviram disparos e bombas ao longe. Cada um deu-se a oportunidade de um duche demorado, com água bem quente, numa tentativa de garantir a alma aquecida para a viagem.

Naquela manhã rezaram juntos, como sempre, mas desta vez com uma noção mais real da total entrega à providência divina.

O pequeno-almoço foi simples e salgado pelas lágrimas que não puderam conter. A comida que sobrou do jantar foi colocada num saco, onde Hana juntou duas canecas de latão e dois garfos.

Reviram a lista das coisas que não podiam deixar esquecidas, e cada um confirmou a mochila do outro, para que se sentissem mais confiantes ao fechar a porta.

Abraçaram-se com a certeza de quem sabe que tem Deus, limparam as lágrimas que insistiam em cair, e saíram com as mãos dadas.

Não. Não saíram. Fugiram.

Fugiram da guerra e de uma morte certa em data incerta. Fugiram dos sonhos desfeitos, com a certeza de que novos nasceriam, numa qualquer terra onde existisse paz.

Foi uma fuga sincronizada em duas velocidades diferentes: por um lado o coração, que voava quilómetros a cada minuto, na ânsia de chegar a um porto seguro a cada final do dia; e por outro os passos físicos, dos pés doridos e cansados.

Ademir e Hana seguiram em filas intermináveis de homens e mulheres de olhos postos no chão, salpicadas por crianças que, na sua inocência, brincavam sem se importarem com a distância cada vez maior das suas casas. Ademir e Hana decidiram não se preocupar com a casa que deixaram arrumada e com a porta bem trancada, na esperança de ali regressarem mais cedo ou mais tarde. Prometeram um ao outro que a casa seria sempre onde estivessem juntos. E assim a cada noite, fosse debaixo de chuva, vento, ou um céu estrelado, sentiam o conforto do lar quando abriam a bíblia e rezavam – umas vezes com palavras, outras com o silêncio do olhar que se inundava.

A bíblia e o crucifixo encabeçaram a lista dos indispensáveis, mas foram as últimas coisas que Ademir colocara na mochila, no dia em que deixaram Alepo. E foi intencional, pois sabia que tê-los sempre à mão lhe dava a segurança necessária e um incentivo adicional, quando as forças físicas fraquejassem.

 

 

- Mãe, os teus amigos devem ter sofrido muito!

- É por isso que te digo tantas vezes que tens de relativizar os teus problemas, Mariana!

- Eles demoraram quanto tempo a conseguir chegar aqui? No artigo que estás a escrever para a revista também vais explicar essa parte?

- A Hana não acha importante falar sobre quanto tempo levaram, mas ela costuma dizer que foi um tempo pensado por Deus, enquanto pôde aconchegá-los a cada noite no Seu colo...

 

HTR

 

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25.6.18

Woman - StockSnap.jpg

Foto: Woman - StockSnap

 

“Meu amor”. São duas palavras pequeninas que têm um valor imensurável e um significado intenso.

“Meu”. Porque és minha sem aquele sentido de posse, mas com aquele sentido de pertença, de existência em comum. Porque fazes parte da minha vida de uma forma única e especial, sem ser cliché, e ocupas um lugar exclusivo, nunca antes ocupado. Minha namorada, minha mulher, minha alma gémea, minha companheira, minha cúmplice, minha pessoa, minha mais que tudo, minha coisa boa, meu tesouro… e poderia continuar.

“Amor”. Não vou descrever esta palavra porque é o nome de um sentimento poderoso, de uma beleza singular, com um potencial incalculável. Por isso, vou apenas fechar os olhos e vou dizê-la para mim, vou repeti-la vezes sem conta e vou senti-la. Vou imaginar-te e vou só sentir aquilo que ela traduz para nós… e vou sorrir, certamente que vou sorrir, numa expressão facial e com o coração.

São duas palavras que utilizo neste nosso dia-a-dia de uma forma consciente, com sentido e com toda a emoção que elas traduzem. São bonitas e fazem-me todo o sentido. Gosto da forma como soam e gosto daquilo que provocam em ti.

 

Meu amor, isto é a introdução da nossa história. Uma história com muito mais do que 3 anos, uma história impossível de traduzir literalmente e na qual dificilmente conseguirei ser totalmente fiel. É uma história bonita que se continua a construir a cada dia e aqui ficarão essencialmente as experiências mais marcantes, os momentos mais emocionantes, os acontecimentos mais especiais e inesquecíveis que vivemos. Quero registar o que de melhor existe em nós, realçar o quão especial e únicas somos. Quero imortalizar o NÓS! Ambicioso? Talvez… mas, para além de gostar de desafios, também sou persistente!

Podia dar-lhe o título de livro porque é nos livros que se encontram as mais bonitas histórias de amor. Mas não quero, porque um livro é estanque e a história tem um fim. A nossa não tem e, por isso, não faria qualquer sentido. Quero que seja algo em constante crescimento e, assim, que seja o mais fiel possível. Cada uma com as suas particularidades, temos tanto de semelhanças como de diferenças. Lembro-me, desde cedo, de comentarmos o quão curioso era o facto de sermos tão parecidas mas tão diferentes.

Como é natural, fomo-nos conhecendo ao longo do tempo e fomo-nos descobrindo mutuamente. Porém, o mutuamente transcende-se, porque nos fomos igualmente conhecendo melhor a nós mesmas. Cada uma de nós conseguiu potenciar na outra as suas melhores caraterísticas. A vida faz-nos crescer, sem dúvida, mas o conhecimento que tenho de mim, hoje em dia, deve-se em grande parte àquilo que me foste mostrando sobre mim mesma. Sempre acreditaste em mim e nas minhas capacidades, muito mais do que eu, e isso fez-me vê-las como nunca as tinha visto.

No sentido oposto aconteceu o mesmo e as diferenças em cada uma de nós estão à vista, sentem-se. Essencialmente, somos pessoas mais otimistas, mais leves e confiantes, mais seguras, aventureiras, e mais felizes!

O “Nós” é difícil de definir. Consigo dizer que envolve sentimentos para além dos óbvios, caraterísticas específicas, pessoas em comum, paixões paralelas e objetivos semelhantes.

 

Foi assim que comecei por escrever uma história onde a confiança era inabalável. Eu sou uma pessoa desconfiada por natureza, nunca confio em ninguém até me provarem o contrário, porque as pessoas passam a vida a desiludir-nos. A minha quota de desilusão é tão imensa que foi assim que me tornei. Até tu apareceres!

Sempre otimista e crente nas pessoas, totalmente o oposto de mim, confias até que essa pessoa te dê razão para não o fazeres. Mostraste-me isso e convenceste-me a pouco e pouco. Mas acima de tudo confiei em ti, cegamente, sem quaisquer dúvidas de que estaríamos juntas para sempre. Porque foi isso em que me fizeste acreditar a cada dia que passei ao teu lado. Lutei para aceitar que era louca por ti e para revelar isso a todos os que nos rodeavam, que há muito já tinham percebido o nosso sentimento mútuo. As pessoas admiravam-nos e até certo ponto, invejavam-nos, de uma forma boa.

Demorei igualmente muito tempo a aceitar que algo estava mudar. Não queria ver algo que para mim era inimaginável, como era para ti sempre que falávamos no assunto. Falávamos sobre tudo abertamente. E deixaste de o fazer a determinada altura. Surpreendeste-me logo aí e a confiança abalou. Confrontei-te várias vezes e dei-te sempre uma nova oportunidade para mudares, porque eu confiava que tudo ia ficar bem. A confiança que tinha em ti era maior do que a confiança em mim mesma. Isto é tão verdade que, quando contei às nossas amigas que já não estávamos juntas, todas pensaram que tinha sido eu a desistir. Tu perdeste-te, deixaste-te deslumbrar pelo desconhecido e nem mesmo o amor que sentias (e que sei que ainda sentes) te fez parar. Nem os avisos, nem a desilusão que foste aumentando em mim. Um dia tudo desabou, não havia volta a dar porque a confiança acabou de vez. Apesar de toda a nossa história, aquela que introduzi aqui, não foi possível voltar atrás. A mágoa ainda existe, a dor permanece porque foste tu, a pessoa mais confiável que conheci, que me desiludiu.

Quiseste perdão, quiseste explicar-te, quiseste outra oportunidade mas não me foi possível porque a cada tentativa só me desiludias ainda mais. Ainda hoje desiludes e não te reconheço. Por ter perdido a confiança em ti, perdi para além do meu amor, a minha melhor amiga, a minha maior companheira, a minha melhor companhia, a minha pessoa, a minha maior cúmplice, o meu maior pilar… e poderia continuar.

 

Ainda te amo, morro de saudades tuas, nossas, mas sou incapaz de te olhar sequer!

E pergunto-me, como vou confiar de novo?

 

Marisa Fernandes

 

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22.6.18

Girl - Bob Dmyt.jpg

Foto: Girl - Bob Dmyt

 

As relações humanas, tal como todos sabemos e cedo aprendemos, são extremamente complexas. Elas regulam-se por diversos fatores, sendo talvez dos mais importantes os que se associam aos papéis sociais que assumimos. Da mesma forma, os conceitos associados aos diferentes contextos e papéis submetem-se a regras específicas, transformando-se em significações diferenciadas, querendo-se, contudo, objetivas na comunicação.

Assim, confiança entre um casal (dois elementos, dois papéis sociais, um contexto específico), não é a mesma coisa que a confiança entre um superior hierárquico e um subalterno (dois elementos, dois papéis sociais, um contexto específico). A palavra confiança mantém-se, verificando-se uma diferenciação quanto ao seu significado (extensão, profundidade e requisitos até – por exemplo legais).

Desde crianças somos empurrados para a ideia que a confiança é um “bem caro”, logo nunca deverá ser “dado” cedo demais e nunca a quem não “a merece”. Entende-se, desta forma, que a criança deverá cultivar um espírito crítico relativo aos que a rodeiam, assim como um juízo de valor das situações (e também das pessoas) em que se vê em jogo. E de um jogo por vezes se trata. As motivações implícitas ou explícitas, os seus desejos, amores e ódios poderão ser o objetivo final de uma relação de confiança falseada ou, em contrário, verdadeira. Evidentemente que o desenvolvimento normal irá afinar todas estas questões, ajudando assim na construção de uma personalidade que se revelará (ou não!) na plenitude da sua maioridade.

 

Será uma criança desconfiada, um adulto desconfiado em potência? Sinceramente, não faço ideia. Mas mais importante ainda: será uma criança desconfiada, um marido ou uma esposa desconfiado/a em potência? Será uma criança desconfiada, um mau líder ou gestor em potência? A ser “verdade” esta relação causa – efeito, a verdadeira “mossa” encontra-se aí. Enquanto “adulto” não nos identifica ou diferencia praticamente de forma alguma, “pai”, “psicólogo”, “chefe”, etc., categoriza-nos de forma muito específica, balizando muito do que de nós se espera, na cultura em que nos inserimos.

 

Rui Duarte

 

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18.6.18

Tree - Dimitris Vetsikas.jpg

Foto: Tree - Dimitris Vetsikas

 

Na selva do medo, pergunto a todos os sentidos que me habitam, a todas as pedrinhas que piso, a todos os ramos que estalam, à dor da minha passagem: “quantas vidas é preciso morrer para que se aprenda que a cautela é mais que instinto?” E só o vento que me atravessa ousa responder-me: “Tantas quantas mortes seja preciso viveres, para que confies nas clareiras – à luz, a verdade é memória de sangue, mesmo que eu dissipe o pó de todas as lutas, vividas e não vividas”.

Ah, as clareiras da Fé! – esse parente excelso da esperança. Não sei se no corpo que compõe a memória futura do pó que serei, ainda resta resquícios dela... pois que até ele me há de trair! Mas respeito a soberania do sangue. A verticalidade genética do caráter e o alcance transversal da experiência. A interdisciplinaridade dos saberes e a transcendência da coragem. Creio no vento.

 

Estudo o chão volátil da clareira à minha frente: há sinais de luta, riscos de arado, sulcos de águas rápidas, lamas de seca lenta. Sangue. Marcas que deixaram as presas arrastadas. Flores. Frutas esperando a sorte da fome, antes que o tempo lhes corroa a polpa. Sementes já sábias, ciosas e crentes no poder das chuvas. Vida. Despojos e oferendas. E o Sol passando alto, nomeando as cores, garantindo aos corpos a energia do calor, e a ambição do paraíso.

O vento abre-me passagem, eleva-se em alas de cicio leve, pousa nas copas altas das árvores expectantes. Respiro fundo - e abandono, enfim, a malha apertada da selva escura a que eu me agarrava por precaução e cegueira. Devagar, ofuscada pela luz, trémula mais por emoção que por medo, mas ainda cuidadosa, mas ainda ouvindo as vozes ancestrais de todas as minhas células perecíveis, liberto-me das sombras como réptil descartando a pele. Ou como crisálida eclodindo.

Vou. Voo. Mas a ousadia é um céu eletrificado, e eu um poço de água viva… – e caio à terra já macerada de outras quedas, de outros sonhos. Reergo-me e aprendo: a humildade é um veículo seguro e a coragem é o chão que me promete a eretilidade: já é tanto quanto baste à minha sobrevivência. E, apesar do meu corpo vulnerável a todas as coisas sob o sol, a minha sombra reconforta-me, garante-me que há norte ao largo da minha capacidade inata de sentir. Serei capaz de tudo, se respeitar os tempos, os espaços, as memórias, as razões, os ciclos, as pedras, todos os seres. E o instinto.

Confio.

 

Teresa Teixeira

 

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15.6.18

Supergirl - Thomas Abdella.jpg

Foto: Supergirl - Thomas Abdella

 

A autoconfiança é como uma bola de pingue-pongue: às vezes lá no alto; outras vezes no chão (ou mais abaixo ainda).

Recordo com amargura o período em que estive desempregada. Dois longos anos que juntaram uma licença de maternidade, uma empresa em decadência e um mercado de trabalho em franca contração.

Ser mãe a tempo inteiro nunca foi uma ideia que me atraísse, porque afinal, de que serve ser uma (super) mulher se não puder desempenhar diariamente dezenas de papéis e tarefas?

O arrastar dos dias, a ausência de resposta a candidaturas e entrevistas, a falta de contacto com a profissão, foram minando a crença nas minhas capacidades, e tornando cada vez mais ténues as esperanças de um dia voltar a trabalhar na minha área.

 

Mas o pior... foram as pessoas (algumas). Porque é quando estamos mais em baixo que descobrimos o pior das pessoas. A forma como ainda nos fazem sentir pior. Há pessoas que se superlativam diminuindo os outros. Período negro, esse...

Ficou para trás, felizmente. Mas ficou também gravado um ensinamento. Ou vários, até:

Perseverança, perseverança.

Tapetes e uvas podem ser pisados; as pessoas não.

Desistir? Nunca.

Confiança? Em mim. Todo o resto é de desconfiar.

 

Sandrapep

 

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11.6.18

 

Mafalda - Quino.jpg

Foto: Mafalda - Quino

 

Eu confio

Tu confias

Ele confia

Nós confiamos

Vós confiais

Eles confiam.

Que bando de ingénuos, não é?

Mafalda a Contestatária; Quino

 

Será? É de ingenuidade que se trata quando falamos em confiança?

Aparentemente sim, confiança e ingenuidade são duas palavras juntas e casam bem. Mas, sendo a confiança um sentimento de quem acredita, em algo ou alguém, e a ingenuidade uma qualidade ligada à falta de conhecimento, como é que este sentimento e esta caraterística caminham de mãos dadas? Acreditar cegamente que todas as pessoas têm um bom carater e confiarmo-nos a elas, é ser ingénuo. E, no entanto, que outra forma existe de ganharmos confiança, a nossa e a dos outros, se não falarmos uma linguagem de bondade, uma linguagem de ingenuidade?

Às vezes, muitas vezes, falarmos a linguagem do coração faz de nós ingénuos, se calhar sem impacto no outro, ou existindo, sem o efeito esperado e desejado porque não é garantido que quem ouve, ouve também com o coração, mas torna-nos confiáveis.

A ingenuidade é uma virtude que não dura mas, em nós, ela está em estado permanente porque, se descobrimos num momento o que desconhecíamos até então, estamos simultaneamente a ser ingénuos relativamente a outras novas e futuras situações. E continuamos confiando no Outro, no desconhecido, em nós e no nosso saber. Ingenuamente, acreditamos que o amanhã se não for melhor há de ser igual a hoje, e continuamos confiando.

Assim emparelhadas, confiança e ingenuidade, não nos deixarão demasiados permeáveis, desprotegidos e à mercê de forças alheias que nem sempre são de boa vontade? Para nossa defesa, não sejamos ingénuos, nada nem ninguém merece uma confiança ilimitada. É da sabedoria popular que todos temos um preço; encontrado esse preço a tentação é grande e destrói-se a confiança. Confiança perdida dificilmente é recuperada e, de tantas vezes se perder, passamos a conjugar o verbo pela negativa:

Eu não confio

Tu não confias

Ele não confia…

 

Cidália Carvalho

 

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