19.4.19

Barefoot - Rawpixel.jpg

Foto: Barefoot - Rawpixel

 

Primavera

Debaixo de uma cerejeira

tudo é servido

decorado com flores

 

Flores de cerejeira no céu escuro

E entre elas a melancolia

quase a florir.

 

Matsuo Basho

 

O coração humano pede muitas coisas. Pede a rotina para ter controlo sobre as coisas e confiança para melhor habitar o tempo. Por entre a ramagem dos dias, os sonhos aguardam tímidos. Aqui e ali um raio de sol atravessa as folhas verdes e castanhas. O coração sequioso de esperança, quando as nuvens se acinzentam de chuva, interroga-se sobre o subtil mistério do viver. Pede instantes de alegria para suportar as nuvens de chuva.

Por vezes, o coração pede janelas para arejar e deixar entrar a plenitude do viver na sua efemeridade.

Ao resgatar a vulnerabilidade, abraçar a fraqueza, o quão tudo dói ou se torna demasiado, esquecemos de nos focar no momento. Os sentidos permitem isso, regar melhor as plantas para crescerem fortes. Estender o corpo a notas quentes, como a voz de quem gostamos dizer que nos ama, o frescor da água nos pés ao ritmo das ondas, o som dos passarinhos na lonjura. Este voltar a luz ao que brilha de mais pequeno, à verdade da nossa fisicalidade, permite um encontro connosco no agora e perante tudo o que nos possa assaltar, a certeza do vaivém das ondas. Neste ver o que é invisível, a esperança floresce, ancorada no viver como se estivéssemos enamorados.

No amor, o coração humano regala-se estando em aberto consigo próprio e ao outro. Se entra chuva e vento, granizo, entram também sorrisos e mimos, carinho de toda a espécie pelo espanto que é o encontro com o outro. Como quando banhamos os pés no mar, espantados face à sua beleza e intensidade, felizes por existir.

 

Maria João Enes

 

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15.4.19

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Foto: Blindfolded - Anemone123

 

Quando olhei para ti... e me perdi. Quando olhei para ti e me perdi não foi pelas melhores razões. Quando o meu sorriso desvaneceu. Quando deixei de existir, deixei de acreditar na minha essência. Perdi-a no comodismo. Perdi-a por ti. Para ti. Sem saber, sem sequer me aperceber.

Fechei os olhos a novas oportunidades quando tantos me alertavam para ser feliz. Eu achava que o era, erradamente. Muito erradamente. Cega, fechada num mundo infeliz. Até tu teres o desplante de teres aberto os olhos para uma nova oportunidade. Para algo que dizias ser bom para ti. Mas não admitiste! Mentiste. Com todas as palavras. Com todos os dentes. Mentiste-me. Iludiste-me. Com palavras vazias, gestos vazios. Que eu quase acreditei. Quase!...

Felizmente consegui superar, consegui não olhar mais para ti, consegui virar a cara. Não acreditar nas tuas palavras feitas e gestos ensaiados. Foste um bom ator nesse teu palco falso. Mas não triunfaste. Lamento dizer-to. Mas não foste sucedido. A força trouxe-me ao de cima.  Voltei a sorrir, voltei a viver, a sentir-me viva. Sentir que existe algo que nunca vivi, pois nunca me dei a oportunidade de o fazer. Porque estava numa concha só tua. Perdida. Iludida com a infelicidade.

Renasci. A vida é cheia de sonhos, que perdemos pelo medo de não arriscar. Pelo medo de fugir do comodismo. Basta ter coragem, ter força. Não ter medo de ser feliz.

 

Inês Ramos

 

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12.4.19

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Foto: Action - Pexels

 

Saber vencer na vida, mais do que uma virtude, é uma manifestação de força do querer, da tenacidade, da pertinácia e determinação da vontade de alguém que não vacila face a qualquer obstáculo ou contrariedade. A força de vontade interior é o motor necessário para todas as áreas da vida, não só a nível pessoal, mas também no campo profissional, constituindo ela própria uma fonte de energia indispensável para a adoção de uma firme atitude mental e intelectual na luta diária e persistente de cada um de nós.

Ela, a força de vontade, motiva a decisão de alguém poder crescer e afirmar-se como pessoa, de superar-se a si próprio, ir mais além e ultrapassar os seus próprios limites.

A força de vontade deve ser exercitada de forma gradual e progressiva, mediante ações repetidas ao longo do tempo, tal como acontece com a preparação física dos atletas, no sentido de se poder alcançar os objetivos.

Lutar, cair, sem, porém, esmorecer, levantar e começar de novo, se for preciso, faz parte desse exercício mental para fortalecer o ânimo e o espírito de vencer.

 

Já o eminente cientista Albert Einstein afirmava: “Há uma força motriz mais poderosa que o vapor, a eletricidade e a energia atómica: é a vontade”. Essa capacidade de esforço do ser humano é determinante e ajuda-o a cumprir um plano de ação com vista ao objetivo que definiu.

A força de vontade interior, mental e intelectual, qual segunda natureza que é, na motivação da luta diária e persistente, constituirá, seguramente, a grande fonte inspiradora para quem não se resigna com as adversidades da vida.

 

José Azevedo

 

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8.4.19

Mulher-moçambicana - Idílio Chirindja.jpg

Foto: Mulher-moçambicana - Idílio Chirindja

 

Momentos difíceis;

Momentos que pensamos que nunca podem vir a acontecer;

Momentos que quando chegam são uma surpresa absoluta;

Momentos que acontecem e são desastrosos,

Momentos que provocam um sofrimento tal que, às vezes não se percebe como se resiste;

Momentos indiscritíveis de tanta miséria e angústia;

Momentos em que falta tudo;

Momentos em que as pessoas não conseguem dizer absolutamente nada, e os discursos dos que falam são dramáticos;

Momentos em que as pessoas só pedem o essencial;

Momentos em que doenças aparecem por falta de condições;

Momentos em que as prioridades são água e mantimentos básicos (como as prioridades são tão relativas!!!);

Momentos em que é preciso TUDO.

As imagens que se veem de Moçambique são aflitivas e muitos duras. Como se sobrevive a partir do zero? É preciso tudo, mas, é preciso muita força para garantir a sobrevivência imediata.

 

Ermelinda Macedo

 

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5.4.19

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Foto: Fitness - Sabine Mondestin

 

Era uma vez uma menina, como tantas outras há 30 anos atrás, que via o Popeye e a Olívia Palito na televisão. Todas aquelas histórias contribuíram, de alguma forma, para moldar o seu ser e a sua personalidade. A distinção entre o bom e o mau, a vida enfatizada e sem filtros, as traquinices do Brutus, a resolução de problemas do Popeye, o encantamento da Olívia... Tudo isto lhe deu o conhecimento, visto agora como ferramentas para levar a vida de determinada maneira, sem que esta lhe roube toda a energia que teima em querer fugir.

Até sobre os espinafres e o seu poder ela aprendeu. Lembrou-se deles quando, num certo momento da sua vida, foi diagnosticada como tendo princípios de anemia, o que quer que isso signifique, já que o princípio quer dizer que já começou, quando na realidade ainda não tem. A verdade é que o pai se lembrou, e bem, que se o Popeye ganhava tanta força com os espinafres, a sua menina, agora já não tão pequena, também o conseguiria. Claro está que não devemos acreditar em tudo o que os desenhos animados nos dizem e, após consultar o médico, este confirmou que a alimentação com bastantes legumes verdes escuros ajudam a combater a anemia. E assim foi, até hoje a anemia não passa disso, de principio e não uma doença que veio para ficar.

A delicadeza da Olívia também lhe transmite, sempre o fez, uma força incrível pois, com aquele jeito feminino e aparentemente sensível, consegue ser educada, fazer o que acha melhor e sem agredir os outros, sem ser preciso ser mal-educada nem indelicada.

Até Brutus consegue provar que o tipo de força que utiliza não o leva onde ele pretende chegar, pois inclui sempre a maldade para a situação e para os outros.

 

Estas forças, como tantas outras, parecem ser dadas a todos como adquiridas, mas não o são. Temos que saber exponenciá-las, saber geri-las, escolher onde e quando aplicá-las. E, por vezes, se as gastarmos mal, quando precisamos realmente delas, elas falham...

Para a menina desta história, que continua a comer espinafres, a força mantém-se, mas até quando? Ela sabe que não a pode dar como adquirida.

 

Sónia Abrantes

 

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1.4.19

Man - Patrick Neufelder.jpg

Foto: Man - Patrick Neufelder

 

É o que nos prende e nos mantém, ou o que nos impele. A ação invisível que nos soergue ou derruba. A incógnita entre o estático e o movimento, entre a pressão e a reação, concretizada no enlace da física com a realidade, pendendo sempre entre a conjetura e a realização.

Tanto marca a sua existência como a sua ausência, perdida e achada em diversas dimensões do ser, onde não há verdades absolutas. É tudo o que nos sustem e nos faz ver um pouco mais além.

É a força. É a garra. É o que ou nos liberta ou nos amarra.

 

Sara Silva

 

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29.3.19

Man - Photosforyou.jpg

Foto: Man - Photosforyou

 

Começo a escrita sob a nuvem de uma semana profissional complicada. Com certeza um arranque auspicioso quando o tema proposto é a simplicidade. Confesso que o deadline para a entrega do texto já foi largamente ultrapassado, mas com toda a honestidade, apenas ontem me apercebi de tal facto. Simplesmente resta-me pedir desculpa.

Desde ontem à noite, assaltado pela culpabilidade de quem não cumpriu, revi os ângulos possíveis de abordagem ao tema, tendo-me rapidamente apercebido que as hipóteses seriam:

a) de caráter pessoal, que incidisse na vivência da última semana;

b) de caráter geral, até mesmo ficcionado, que incidisse em quê ???

Pois… nada simples…

 

A hipótese a) rapidamente ficou fora do horizonte descritivo atendendo que a primeira frase que se colou imediatamente à ideia foi: “se não tens nada de bom para dizer, mais vale estares calado”. Podia, claro, simplesmente borrifar-me para as consequências das palavras escritas e utilizar este texto como um veículo de catarse, mas todos sabemos que na suposta era da Liberdade Individual nunca antes estivemos tão escrutinados. É complicado… Aproveito aqui a oportunidade para agradecer à minha esposa a solidariedade e compreensão demonstradas na escuta ativa do que levei para casa. E, já agora, perdoa-me os palavrões utilizados que ilustraram e deram cor à minha revolta e frustração. Podem ser artifícios linguísticos básicos, mas na verdade simplificam com crueza a categorização de certas coisas. E assim, dessa forma, todos nos entendemos.

 

Restava-me a hipótese b) e aqui apresentou-se a segunda dificuldade. “Keep it simple” e partir daí. Mas, sinceramente, quantos textos de treta existem vangloriando uma existência mais “despegada”, “em contacto com o interior”, com menos “pegada ecológica” e blá-blá-blá?

Invariavelmente, o quadro profissional invadiu o pensamento, alicerçando-se numa dicotomia eu vs. outro. Nas simplicidades e dificuldades da minha vida, comparativamente às simplicidades e dificuldades da vida de terceiros. Mas, muito honestamente, não irei por essa via, principalmente por duas ordens de razão: já demasiadas vezes escrevi acerca da deficiência / incapacidade e ninguém aprecia um tipo chato e repetitivo. E, mais importante ainda, devido à convivência recente com pessoas que têm tido o condão de me fazer pensar acerca da diversidade funcional, não sinto segurança (ou justiça) na minha opinião acerca de tal juízo comparativo.  Ficou registada a frase “nada sobre nós, sem nós”. Fica a promessa: se algum dia escrever sobre tal tema, será com coautor.

 

E assim, analisadas as hipóteses que tinha, cheguei a conclusão que serve o imediato. Face ao tema que propuseram, simplesmente decidi não escrever.

 

Rui Duarte

 

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25.3.19

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Foto: Daisies - Manfred Richter

 

Vem aí a primavera. É fácil perceber isso, mesmo sem ter descoberto a serventia dos calendários, mesmo não sabendo a dinâmica das rotações, mesmo não conhecendo o poder das sementes, ou a necessidade da chuva, ou a importância do sol. Tudo o que nos é revelado de forma simples é fácil de entender: e o que há de mais simples do que o nascimento de uma margaridinha miúda, no relvado semisselvagem em frente da minha casa? Depois outra, e outra, e um ou outro dente-de-leão.  Ao mesmo tempo, as árvores, que passaram a época mais fria despidas e tristes, começam a espreguiçar-se ao sol mais demorado dos novos dias, e dos seus ramos brotam flores magníficas. Nascem de noite, talvez, silenciosamente, para não acordar quem dorme – e é tão natural a sua chegada que os nossos olhos nem estranham as cores novas, antes se agradam e dulcificam, aceitando a simples idade das coisas.

 

É como nós. É como a vida. A gente nasce e pronto, nascemos, é tão simples. Está tudo previsto, o colo da mãe, a alegria do pai, o berço, o amor, o mundo.  E mesmo quando falta, ou a mãe, ou o pai, ou a alegria, ou o amor, ou o berço – ou isso tudo junto – é certo que um colo haverá sempre, seja de quem for. Ainda certo, por enquanto, é também o mundo (até porque sem o mundo, não seria nada simples alguém nascer...).  E a ele chegamos nus, puros, inocentes, ignorantes – e nunca, em outra qualquer idade da vida, seremos tão cobertos de simplicidade, tão naturalmente confiantes e espontâneos. O instinto, de imediato, é o que nos serve – e, dali em diante, a Natureza harmonizará as forças para que as primaveras façam connosco o que fazem com as flores: mel, feitiço, esperança; e os estios, o que fazem com os frutos: maturidade, alimento, colheita; e os outonos, o que fazem com as folhas: júbilo, ouro, sangue; e os invernos, o que fazem com as sementes: milagre, criação, sobrevivência.

 

Mas, entretanto, há todo um processo de complicação, nesse simples decorrer das estações. Crescemos e vamos aprendendo coisas: que às vezes chove, que às vezes está frio, que às vezes dói, que às vezes magoamos.  Descobrimos, num processo tão natural quanto simples foi o nosso nascimento, que a vida é confusa, que, não sendo nós seres solitários, nos é impossível manter, tantas vezes, a simplicidade.  Ou a liberdade – de o ser e de Ser, simplesmente. O estudo desperta, a experiência ensina: há fios por todo o lado, tropeçamos, caímos, aprendemos, reaprendemos; há, à nossa volta, cotovelos em riste, criamos estratégias de sobrevivência e defesa, mentimos, caímos, fingimos estar bem, rebuscamos em nós o princípio da verticalidade, cedemos outra vez ao vento, inclinando a cabeça a interesses mais altos, a solicitações mais aguerridas, a sofisticações mais apuradas. E lá se vai a simplicidade por completo.

Mesmo com essa consciência, repetimos a frase chave para entrar nos círculos dos jubilados da vida: “A simplicidade é uma arte, atinge-se por refinada estratégia e apurada e experiente habilidade”. Ora! Eu fico na simples idade das coisas – talvez porque ainda reste em mim um bocado de inocência e uma espécie de talento natural para esbardalhar a Vida com que nasci.

 

Teresa Teixeira

 

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22.3.19

Bread - Pexels.jpg

Foto: Bread - Pexels

 

– Por favor, meia-de-leite e um croissant. – pedi, certa de que não haveria complexidade na satisfação do meu pedido.

– Vai tomar ao balcão ou quer sentar-se numa mesinha?

Não estranhei a pergunta, pareceu-me até razoável, a intenção não seria outra que não fosse a de me sentir bem servida. Mas, vi-me assim, a ter de escolher um cenário, comprometendo a simplicidade do ato de morder um croissant e tomar uma meia-de-leite.

– Descomplica e escolhe lá uma mesa. – pensei.

Olhei à volta na esperança de lobrigar o lugar ideal para tão simples ocasião. A mesa junto à janela proporcionar-me-ia um ambiente agradável; separada por um vidro, testemunharia com recato a azáfama e o borburinho da rua. Por norma sou ativa e participativa, mas há momentos – aquele era um deles –, em que me deixo arrastar para uma letargia, de tudo deixar correr e sentir simplesmente a vida a passar.

– Posso sentar-me naquela mesa?

– Sim Senhora, nesse caso pode fazer o pedido à menina que serve às mesas. Ela passa por lá.

Solícita, a empregada anotou num bloquinho o meu pedido. Com a cabeça, fez um sinal de assentimento e pareceu dar a tarefa por concluída. Não, ainda não, faltava um pequeno pormenor.

– O croissant é simples?

Sempre gostei de croissants e, para mim, eles valem por si só, nunca senti necessidade de os misturar.

– Sim, simples.

– Gosta deles mais para o tostado ou para o clarinho?

Entendi por clarinho, malcozido; como não aprecio massas cruas, optei pelo tostado.

– Muito bem. A meia-de-leite é quente ou morna?

– Com o frio que está, quentinha confortar-me-á bastante mais.

Parece ser desta. A empregada acabou as anotações, meteu o lápis e o bloquinho no bolso da bata e ensaiou dirigir-se ao balcão, mas de repente:

– A meia-de-leite é clara ou escura?

Que raio, eu só queria lanchar. Pensei que fosse coisa simples de fazer, mas vejo-me submetida a um prolongado interrogatório. Nesta altura, as papilas gustativas já não preveem um croissant adocicado – este transformou-se num pedaço de farinha cozida, amarelada e deslavada de sabor. A meia-de-leite amargou. Sou tomada de uma indecisão, ficar ou admitir que me enganei e ir embora. Mas, de novo pensei para mim:

– Descomplica e decide-te, clara ou escura?

Com sinais evidentes de impaciência e desagrado, referi a minha opção.

– Peço desculpa, disse a empregada, só mais uma coisinha, quer açúcar ou adoçante?

Já me decidi, pego no saco e vou-me mesmo embora sem saborear os tão afamados croissants. Mas a contenção e o controle comportamental deram-me fome, a satisfação da necessidade básica de me alimentar obrigou-me a repensar a minha decisão. Vencida, respondo:

– Olhe, faça como se fosse para si.

– Ok! Nesse caso vou trazer-lhe açúcar amarelo e a meia-de-leite bem batidinha, com a espuma a vir ao de cima.

Afinal ainda se podia complicar mais um bocadinho.

 

Cidália Carvalho

 

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18.3.19

Barefoot - Free-Photos.jpg

Foto: Barefoot - Free-Photos

 

A água parece tão calma. Sentada na relva, em frente ao rio, fecho os olhos e deixo-me embalar pela harmonia que me rodeia. Dentro de mim, o burburinho serena, lentamente. Oiço os pássaros, as águas, o som do vento, das folhas que se agitam no meu regaço. Fundo-me no tempo como se pudesse, eu própria, ser onda, gaivota ou raiz. O sol devolve-me a preguiça e estendo-me ao comprido. Sinto o cheiro da relva, ainda molhada, e algo se me agita no sangue: esta felicidade toda dá-me vontade de chorar. O meu corpo estremece, silencioso, sucumbe num pranto sem fim, mas não consigo parar de sorrir. Abraço a Mãe Terra e encosto o ouvido no solo, oiço o bater de um coração; pensei ser o meu, jurei ser o dela, despedi-me sem saber em que momento nos alternamos nesta história. Quer dizer, eu e ela, sentir e ser, simplesmente. Não importa. Aqui, nada importa. Apenas respirar, ser, sem pressa, com lágrimas, sorrisos e estes raios luminosos sobre nós. Dentro de nós.

 

Quando o sol, majestoso e sereno, boceja no horizonte, levanto-me sem vontade de regressar. Obrigo um pé a caminhar atrás do outro, digo ao coração que não tenha medo. Há um equilíbrio, muito nosso, que mantém as coisas no seu lugar. Há sítios para descansar, há sítios onde morar. Há pessoas com quem se está, há pessoas com quem se é. Sei as que não me dizem nada, as que me fazem sentido e as que, sem aparente sentido, sempre me encontrarão. Haja o que houver, caminho sabendo que voltarei aqui, que levo o som do rio, dos seus habitantes, da sua dança, das árvores, debaixo da minha pele. Que somos Um sendo únicos. Sei que estou em casa em momentos e lugares onde o barulho do sangue se confunde com o som da terra, com a musicalidade das águas, com a gargalhada cristalina de uma criança. Quanto mais me afasto, mais pertenço. E encontro, sempre, o caminho de volta.

 

No regresso ao ritmo urbano, diluo-me na multidão. Caminho, anónima, ainda com o cheiro da relva molhada em mim, alheia às conversas e aos pensamentos do mundo. A lua, por cima da minha cabeça, lembra-me que me espera, para a nossa conversa noturna. Nas noites em que ela ilumina a minha casa, a minha pele não é minha, é dela; ou me sento e resolvo a coisa a bem, ou ela vai comigo para a cama e arruma comigo. E ela sabe-o, ó se sabe. Hoje, conversamos, despimos o que calamos e deitamos, sem dolo. Dançamos, se tiver de ser, abraçamos o que restar e respiramos. A pele inteira. Mas, antes disso, é preciso chegar a casa, abraçar os filhos, os patudos, orientar a vida, falar em Morse, fazer mil e umas coisas antes do tempo (parecer) abrandar e a lua se instalar, imponente e zangada – sabe que me havia esquecido dela – na minha varanda. Pois aqui me tens, inteira, de braços abertos, sem qualquer resistência.

 

Uma avalanche de coisas boas percorre o meu corpo, sacudindo os meus medos. Lembra-me que viver é maravilhoso, também nos dias em que dói existir e nada parece lógico, nos momentos em que cada passo parece um salto no escuro… As coisas simples e pequeninas são as que sustentam esses dias de indecisão e de medo, são as que permitem manter a cabeça à tona e os olhos no horizonte, enquanto as águas se agitam com violência. As coisas pequeninas são extraordinariamente importantes e, sem elas, não há pertença, não há chão, não há tempestade que se derrote. Sem elas, nem a lua escuta nem o sol sorri. Sem elas, eu estaria perdida num mundo onde sentir e pensar, intensamente, é quase uma perversão.

Hoje, aqui e agora, abraçada pela lua, respiro, grata, na simplicidade que torna o (meu) mundo mais belo e com sentido. E, amanhã, se acordar, saúdo o sol e a vida, como se os sentisse pela primeira vez, e continuo. Um pé atrás do outro.

 

Alexandra Vaz

 

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15.3.19

Classical-music - Pexels.jpg

Foto: Classical-music - Pexels

 

Não...

(pois, sei, estamos a começar mal; num texto, uma apresentação, uma ideia a começar pela negativa, é fraco sinal, pouco cativante, se cativar...)

 

O que eu quero dizer é que o simples, a simplicidade, não é um começo, deverá ser um fim, um objetivo a atingir. Dizer, pensar, fazer as coisas simples, de uma forma o mais simples possível. Sem facilitismos, sem complicações que, se calhar, serão tão só um meio de impressionar, mesmo distanciar.

Fixemos então, já aqui e agora uma conclusão parcelar. Ser, fazer, dizer simples não é o mesmo que ser fácil. Redutor, simplista, imediatista. Atingir a simplicidade é um processo, bem trabalhoso porventura. É preciso desbastar muito, depurar, retirar gorduras supérfluas, pouco saudáveis.

Para se ser simples no resultado é precisa muita complexidade, muito conhecimento, muita técnica e muita arte.

 

Fácil de perceber e de ouvir: para onde nos leva a simplicidade aparente dos primeiros acordes da Quinta Sinfonia de Beethoven - tan, tan,tan, taaam? Que emoções profundas, arrebatadoras, nos envolvem ao ouvir as primeiras notas da Lacrimosa, do Requiem de Mozart?

“Amor é um fogo que arde sem se ver”, de Luís de Camões, para onde nos leva este primeiro verso do soneto, para que memórias, pessoas, circunstâncias?

Aliás a poesia será o cúmulo da forma da escrita, o processo em que com menos se consegue mais. Emoção, sentimento, ideias.

Não somos todos geniais, evidentemente, não podemos, a generalidade das pessoas, ambicionar produzir obras primas.

Podemos e devemos, todos, ambicionar atingir a simplicidade, questionarmo-nos sobre isso. Sem facilitismos, sem complicações desnecessárias, com dádiva e entrega.

Como um serviço. Humilde.

 

Jorge Saraiva

 

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11.3.19

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Foto: Girl - Hulki Okan Tabak

 

A simplicidade rima com complexidade e caio na tentação de pensar na antologia entre ambos os conceitos. Não quero, porque simplicidade também combina com felicidade e, isso sim, vale a pena explorar.

Começo por um cliché: “A felicidade está nas coisas mais simples”.

 

Um sorriso. Tem o poder de contagiar o outro e é quase impossível não sorrir de volta a alguém que o mostra sinceramente. É uma arma que deita o outro por terra por mais defesas que ele demonstre. Contagia e desarma, é assim que o defino em parte.

O cenário que vivemos pode ser feio e negro e gigante e confuso, mas ao recebermos um sorriso toda a perspetiva se altera, nem que seja por um curto momento. Sorrir de volta é igualmente compensador porque nos dá uma sensação de alívio, há algo que se dissolve naquele momento.

 

Um bom dia. Há dias em que carregamos o mundo nas costas. O caminho avista-se longo, sinuoso, doloroso até. É difícil comandar o corpo porque o peso nos impede os movimentos. Mas há aquela pessoa que nos dá um bom dia com esperança no olhar e alegria na voz e o peso torna-se mais leve. São apenas duas palavrinhas e têm esse poder.

 

Um abraço. Às vezes existe um vazio. Suspiramos e aquele aperto no peito não nos deixa, olhamos em volta e sentimo-nos perdidos. Às vezes precisamos apenas de um carinho e o abraço, no meu ponto de vista, é o melhor que existe. O toque é uma terapia sobejamente comprovada cientificamente, o calor e o aconchego têm a capacidade de nos dar conforto, a pressão dos braços em nosso redor é relaxante, como é relaxante a pressão de uns dedos durante uma massagem. E é apenas um abraço.

 

O sol. Desde os primeiros raios do dia até ao seu desaparecimento artístico em pôr-se. O sol gosta de protagonismo. Com a luz do sol tudo se transforma. As paisagens ganham beleza, as cores evidenciam-se, há maior nitidez no que observamos porque a claridade assim o permite.

Todos apreciamos um bonito dia de sol. Todos temos mais energia quando o vemos e é quase inevitável sair à rua para senti-lo.  Todos ansiamos por ele pelos mais diversos motivos e deixo à imaginação de cada um.

O calor do sol na pele que a tonifica, o calor que nos traz satisfação, o calor que nos faz despir camadas de roupa mostrando a beleza dos corpos, o calor que tem um efeito terapêutico no nosso estado de humor.

 

Pequenas coisas que nos trazem alegria. Pequenos momentos de satisfação, e a vida é feita desses mesmos.

Dançar descontraidamente. Ouvir música, aquela música que mexe cá dentro. Um mergulho no mar. Uma refeição caseira na companhia certa. Beber um copo de água quando a sede aperta. Sentir uma brisa na cara. Andar descalço na areia. Um jantar entre amigos. Ouvir aquela palavra que nos acelera o coração. Dormir uma noite de sono tranquila. Ver um filme que nos traz emoções. Assistir a algo que nos faça arrepiar. Caminhar com um objetivo ou mesmo sem destino. Saltar, só porque sim. Fazer algo de diferente do habitual. Arriscar e sentir o friozinho na barriga. Dialogar sobre a vida. Comprar aquela peça que namorámos durante meses. Chegar a casa ao final de um dia de trabalho. Relaxar no sofá. O silêncio. Namorar. Um banho quente. A sensação de liberdade ao viajar. Ouvir uma “boa noite, dorme bem” daquela pessoa. Oferecer um presente. Receber algo que gostamos. Realizar um desejo. Ouvir um obrigado.

Podia continuar…

Cada um tem as suas coisas mais simples, as coisas que marcam a diferença e que tornam os momentos especiais e inesquecíveis. Não precisamos de muito, precisamos de saber apreciar a beleza na simplicidade das coisas do dia-a-dia.

 

Marisa Fernandes

 

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8.3.19

Woman - Alexandr Ivanov.jpg

Foto: Woman - Alexandr Ivanov

 

“Queria, queria

Ser igual ao peixe

Que livre nas águas

Se mexe”

Pedro Homem de Mello

 

Um dia, chegando a casa, senti que estava pela primeira vez a entrar num mundo novo. Mesmo que já lá morasse há um ano, aquele espaço não seria pisado por ele e tudo bem, não vinha nenhum mal ao mundo. Como se me encontrasse no agora, com esta nova pessoa que eu sou. Uma paz que assoma por dentro banhando as paredes e enchendo, enchendo e enchendo devagar até transbordar.

Como respirar quando tudo arde e pesa o ar cá fora?

Séneca, na sua ideia de viver de modo desapegado do prazer e sem medo da dor, não seria a chave do mistério. Há um conforto que nos transmite segurança, confiança, pontos de referências no que é familiar e rotineiro como o primeiro café da manhã.

Andamos na vida por vezes mais perdidos do que sei lá o quê, e nisto um dos corrimãos desaparece e caímos. Com poff!! e tudo.

Infinitamente rápido é o movimento do tempo, como se vê mais claramente quando se olha para trás. Pois quando estamos atentos ao presente, não o percebemos, tão suave é a passagem do tempo ao ir pelo dia afora.

A linguagem da verdade é simples. Quando nesse encontro mais silencioso nos deparamos a um espelho que não se parte ou distorce, aí aquietemos para ouvir esse ribeiro que murmura há já muito tempo: gosta muito de ti.

 

Maria João Enes

 

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4.3.19

Couple - Mystic Art Design.png

Foto: Couple - Mystic Art Design

 

A noite cai assombrosamente gelada. Olho pela janela, mas não vejo ninguém. Parece que se silenciaram as horas neste anoitecer. Mas que me interessa isso se hoje tenho o teu beijo.

Hoje vou entregar-me a ti. No teu amor quero perder-me! Os teus olhos que tudo revelam, dizem-me para esperar pois um dia deixarei de sofrer.

Toco-te… Fecho os olhos e vejo as estrelas. Beijo-te… E por um momento voas comigo

até ao infinito, onde encontraremos o nosso amor.

Quero-te! Enfrentarei o mundo pelo teu amor. Sei que nada tenho para te oferecer além de todo este amor, toda esta simplicidade que nos une, que nos toca. Sou apenas um grão de areia no vasto deserto. Mas olha, fecha a janela, está a arrefecer, e vem! Vem consertar comigo os planos de um futuro ainda incerto.

 

Inês Ramos

 

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1.3.19

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Foto: Woman - Foundry

 

É nas coisas simples e na simplicidade dos nossos atos que podemos encontrar o essencial da vida. Todavia, na era em que vivemos, tão materialista e consumista, torna-se cada vez mais difícil encontrar simplicidade nas pessoas e nas coisas que nos rodeiam.

Nos tempos que correm, somos dominados, infelizmente, por uma cultura em que predomina o superficial e o virtual, subjugados muitas vezes por uma autêntica “loucura” de ficção, cujo mundo em que vivemos mais parece irreal face ao total desapego e indiferença do que é natural e genuíno.

Valha-nos, ao menos, a “Mãe Natureza” que, sempre fiel aos seus princípios e pródiga nas suas dádivas, nos vai confortando com as suas lições de simplicidade, suprema virtude de sentimentos. E são essas lições que, como autênticas lições de vida que são, nos ensinam que o poder das coisas simples é o que nos faz sobreviver e nos torna mais felizes.

Com tantas coisas simples e saudáveis ao nosso alcance, para o exercício do corpo e o cultivo da mente, é preciso saber aproveitar essa fonte de recursos naturais e fazer boas escolhas, no dia-a-dia de cada um de nós, que passam necessariamente pela convivência sã e fraterna entre as pessoas, pelo desfrutar da vida ao ar livre, pela rejeição de artificialismos, falando e agindo com simplicidade nos relacionamentos interpessoais.

Em tudo isto é que reside o essencial para uma vida salutar.

 

José Azevedo

 

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25.2.19

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Foto: Woman - Free-Photos

 

Aguardava mais um dia pacato e monótono como todos tinham sido até então. O despertar tornara-se numa obrigatoriedade que se forçava por cumprir todas as manhãs, em pleno contentamento com o que existia no agora, fruto do que construíra no passado. E assim seria esse dia, não fossem aquelas quatro palavras inesperadas a colorir o amanhecer.

“Bom dia. Como estás?”

 

Levantou-se, executou a rotina habitual e deixou que os seus olhos percorressem aquelas letras vezes sem conta até um sorriso se desenhar nos seus lábios.

“Bom dia.”

 

Não estava mais só. Havia alguém no outro lado da linha, entre quatro paredes como ela, quiçá, que dedicara alguns segundos ou minutos do seu tempo a essa partilha, a esse reconhecimento, e só por isso, este já não seria um dia como os demais. Ia ser mesmo um bom dia, independentemente do que se passasse.

“Como estás?”

 

Acostumara-se à solitude propiciada pelas circunstâncias a que não conseguira fugir, às inevitabilidades que fizeram parte do seu caminho, mantendo sempre a cabeça erguida enquanto o seu corpo se movia adiante. E agora recebia o retorno da sua coragem e valentia, do seu inesgotável otimismo que por vezes se quebrava, nunca se extinguindo, disfrutando dessa nova força e energia que se apoderaram do seu espírito, dando um novo fôlego à esperança.

“Bom dia. Como estás?”

 

Leu uma vez mais, espantando-se com o poder de meras palavras e dos pequenos gestos como este. Era inegável a magnitude dos detalhes, capazes de gerar os maiores impactos assim, quase sem querer.

 

“As coisas mais simples da vida são as mais extraordinárias, e só os sábios conseguem vê-las.”

Paulo Coelho; “O Alquimista”

 

Como tinha razão este sábio cujas histórias viajaram e povoaram mundos. As suas palavras evocadas quase por instinto comprovavam as verdades empíricas que lhe eram reveladas nas suas vivências.

Seguiu com as horas ocupadas, sentindo na pele a diferença proporcionada pela simplicidade, sabendo-se, de igual modo, um pouco mais sapiente por ter constatado essa verdade.

É que de facto são os detalhes que passam despercebidos na correria quotidiana, aqueles cuja soma se engrandece e se torna percetível no conjunto de dias a que se chama vida. São eles que podem marcar e determinar a maior das diferenças. Por isso, repetindo a intenção, logo se apressou a responder:

“Bom dia. Muito obrigado pela tua mensagem. Agora estou bem, ao lê-la. E tu, como estás?”

 

E esse gesto repetido manteve-se, multiplicando-se, trazendo dia após dia um novo ânimo ao seu despertar.

 

Sara Silva

 

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22.2.19

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Foto: Girl - Free-Photos

 

Estou um bocadinho cansada de pessoas que exibem a sua sabedoria, que exibem o seu trabalho, que exibem só o que de melhor fazem, que exibem o seu exterior. Sinceramente tenho dificuldade em perceber! Não há necessidade.

Perceber a simplicidade é difícil e não é para todos. Na sociedade em que vivemos, a beleza que a simplicidade transporta nem sempre é percebida. Às vezes até é mal interpretada: “Aquela não é formal, não veste como a maioria das pessoas. É estranha”.

A simplicidade não traduz o conhecimento e as capacidades de cada um. É uma forma de estar na vida. A pessoa vê o mundo de forma transparente e vive-o de forma tranquila. Não precisa de ostentar; não precisa de se vangloriar. Ouve-se a si própria e não sabe ser de outra forma.

Pessoas simples são pessoas simples, e o que eu penso é que não sabem mesmo ser de outra forma, mesmo que lhe digam que podem ser prejudicadas e mal interpretadas por isso.  Ainda bem que não conseguem ser de outra forma, com todas as consequências que isso pode trazer, porque a beleza e a sabedoria estão aqui. 

 

Mas como lidar com pessoas que, perante a simplicidade, a discriminam?  Digo que, provavelmente, devem apelar à sensibilidade dos seus olhares e expandir horizontes, e aceitar que pessoas simples são, na sua maioria, pessoas belas, de coração aberto, e muitas vezes muito interessantes sob vários pontos de vista. Só não precisam de o dizer.

Conheço pessoas cuja simplicidade é uma das suas caraterísticas. São tão interessantes e aprendo tanto com elas!

 

Ermelinda Macedo

 

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18.2.19

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Foto: Drip - Free-Photos

 

Mais um dia de chuva e uma ventania brutal.

Acordo e penso que o treino será engraçado. Talvez até uma verdadeira aventura!

Mas será bom fazer algo diferente e que apele aos instintos de sobrevivência. Que apele ao simples desejo de chegar ao fim com sucesso e, de preferência ileso.

Talvez seja melhor adiar por umas horas e adiantar trabalho. Treino depois...

 

Ui... A chuva agravou e o vento está a levantar tudo o que pode.

Treinar será ainda mais interessante assim...

Porque razão não fui correr como é habitual? É sempre a primeira coisa que faço... Hoje não porquê?

Esta simplicidade das rotinas diárias é tão eficaz... Lá tive que mudar hoje. Logo hoje que os céus decidiram desabar com tudo o que têm.

Penso agora que, no meu mais íntimo, desejo por algo mais do que um dia simples. Deixei a mente escolher em vez de obedecer à rotina. Esta mesma mente que agora teima em convencer-me que ir correr à chuva e ao vento me vai deixar divertida... Será ela louca? Serei eu dependente dela?

Afinal não é assim tão simples... Essa dita simplicidade.

 

Sónia Abrantes

 

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11.2.19

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Foto: Little - Barrie Taylor

 

“Vou contar até três”.  E a urgência acontece, entrecortada por soluços que agitam pequenas lágrimas e as despenham de uns olhos miúdos, entre rebeldes e apavorados.

 

1...

O dono dos olhos miúdos, uma criança de não mais de cinco anos, sento o peso do ameaçador monossílabo atroar o universo todo. O universo todo é uma coisa enorme, pensa ele. E mesmo assim, não há para onde fugir, no limiar da revolta ou do desespero ou da emergência.  O seu corpo pequeno acusa as réplicas do primeiro trovão, em ondas que se chocam entre si: “luto pelo doce que quero, ou desisto?...”  O tempo parece tomar uma forma estranha, difusa, e, portanto, aos olhos do menino, relativa:  afinal ainda haveria o 2 e o 3, ele sabe, já aprendeu na creche, já é crescido e sábio. Ainda não chegaria já o juízo final – ou se declaravam os vencedores.  Aproveitando um soluço vindo lá das profundezas do seu coraçãozinho cheio de direitos, solta mais um grito de protesto e arrelia, e mobiliza um exército de lagrimazinhas novas: “Eu queeeeeeroooooo!...”. A urgência dele é maior que a da mãe, a julgar pelo arrastar desesperado do verbo “querer”. “Não!”, dizia-lhe, lá de dentro da sua cabeça dorida do choro, a vozinha de um espírito voluntarioso e pérfido, “Tens direito ao doce, já o tinhas pedido quando saíste de casa, a mãe devia ter isso em conta! E portaste-te bem, até ajudaste a empurrar o carrinho de compras! E o doce é barato, e diz na televisão que faz os meninos felizes e tudo!”.

 

2…

Desta vez, até o espiritozinho meio-maligno se assustou, dentro da cabecinha fervente do pequeno. “Bolas, 2, já??... E eu ainda nem sequer dei o segundo berro! Mau, mau, a coisa complica, se o tempo se esgota e eu não uso todas as minhas armas... Olha!, gente a parar à nossa volta!! ...é isso, mais um berro e a coisa toma contornos de crueldade desnecessária contra uma criança inocente, para não falar já em violência!”. E, desta vez, dois gritos estridentes disparam da pequena boca gulosa e voam por todo o hipermercado, assustando até o pó das mais altas prateleiras. Sim, de facto, os olhares que se foram juntando à volta da cena tornam-se um pouco intimidadores para a pobre mãe, até aí exercendo o seu direito de ter razão, sem pressa, nem escândalo.  Um burburinho parece começar a ferver, no caldeirão da gente dona-da-razão. “Oh, coitado do menino, ele está nervoso e a mãe só está a piorar a situação, com aquela atitude de ameaça!”. “Qual quê?, eu dava-lhe era um valente açoite nas nalgas, ia ver se a birra não acabava logo!”. “Credo, a criança é um monstrozinho!”. “Não lhes sabem dar a educação em casa, vêm para aqui dar espetáculos de graça!”. “A mãe é que tem a culpa, com certeza já lhe deu abusos, agora que o ature!”.

Bem, a coisa está feia.  E o menino, de repente, já não se acha dono da eternidade, que o número 3 deve estar a cair-lhe em cima. E o comentário daquela senhora com lábios feitos de linha vermelha muito fina e olhos sem cor, que lha comeram as pestanas postiças, fá-lo parar o soluço propulsor de mais meia dúzia de lágrimas e coloca-o em alerta: “O importante é o amor. E esta mãe não tem amor pelo filho, ela não sabe, mas está a afetar o filho para a vida, expondo-o assim. Estas mães não têm paciência, nem compreensão, só querem saber delas próprias. Se calhar não tem tempo para explicar ao filho porque não lhe dá o doce, depois é esta cena triste... a mães assim, deviam-lhes ser retirados os filhos”... (...) ...Bem.  O espiritozinho dentro da cabeça do menino mexeu-se nervosamente e mandou parar de imediato:  soluços, lágrimas e esperneações. O coração, lá no fundo do seu peito, revolveu-se e reposicionou-se, assim, encolhidinho entre as costelas ainda meio trémulas, ligeiramente virado para a esquerda. Uma dorzinha lá dentro lembrou o menino que a urgência, afinal, não tem nenhuma importância. O importante é o Amor.  E o amor da sua mãe não sabe contar, nem sabe quando acaba o tempo, nem sabe medir o universo, porque ele, mesmo menino pequenino, está sempre entre ela e o universo, muito pertinho, por isso, maior que todo o universo.

A mãe, claro, sabe contar. Mas esquece-se sempre em que número vai, quando os seus olhos se entendem para ela, arrependidos e tímidos. Por isso, o 3 nem aconteceu. Em vez disso, a mãe deu-lhe um doce: um sorriso recheado do melhor amor. E seguiram os dois, empurrando o carrinho de compras, corredor fora, para longe das pessoas que comeram muitos doces em pequeninos e que nunca fizeram birras no supermercado.

 

Teresa Teixeira

 

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8.2.19

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Foto: Woman - Free-Photos

 

O despertador ainda não tocou, mas já acordaste. Ao contrário de outros tempos, não são os minutos a menos de sono que te incomodam, nem o vislumbre imaginário da chatice das reuniões que vais ter ao longo do dia. De facto, o que te assalta é uma incapacidade imediata da capacidade de respirar. O peso no peito é insuportável e assim é, também, a incapacidade de suster o choro.

As tuas decisões e indecisões roubam-te o pensamento lúcido e a capacidade de resolução. Cessaram as soluções viáveis, existindo apenas uma montanha inultrapassável e inenarrável, porque sim, por muito que expliques, ninguém te entende, ninguém sabe como sofres, nem quão profundo é o buraco na tua alma. Porque a tua dor já não é tangível e o domínio do corpo e do real há muito foram deixados para trás, assim como a alegria e o prazer. O único consolo que te resta atualmente é quando te abandona a vigília, e o sono toma de assalto as tuas horas, agora maravilhosas. Contudo, adormeces sempre com o medo que a realidade invada o onírico, e então, até esse refugio foi contaminado pela tua dor e desespero. E esse torna-se o teu núcleo, o teu ser. A ansiedade e a angústia são o teu par, tornam-se o teu ser. Não reconheces o teu âmago e anseias a cada momento por uma explicação. Algo que te diga quem és e o que se perdeu. E como podes voltar a trás. Porquê? Que fiz eu para merecer tal sofrimento? Porque sinto o que sinto e porque já não sinto o que outrora sentia? E talvez, numa tentativa lógica de voltar a sentir, cortas-te. Uma e outra vez. Um braço serve, talvez os dois. Mas depressa te apercebes que não é solução. Nunca é solução. São apenas as cicatrizes visíveis da urgência da saída que não encontras.

 

Rui Duarte

 

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