22.12.14

Lampada.jpg

 

Era uma vez um mundo sem pessoas. Nesse mundo existiam apenas animais, que viviam um dia-a-dia em tudo igual aos humanos. Trabalhavam, comiam e dormiam como nós. Brincavam, riam e amavam como nós. Podia dizer-se contudo que a grande diferença para nós, humanos, encontrava-se numa peculiar forma de relacionamento. Os animais desse mundo estranho não conheciam sentimentos negativos. Não se ouviam palavras desagradáveis, insultuosas ou injetadas de ódio e desprezo. Em boa parte tal devia-se ao facto de eles, animais, também não saberem mentir.

Era um mundo simples, sem o peso das religiões e das suas infindáveis discussões, sem o temor de castigos divinos devidos a pecados mortais. Os animais eram todos diferentes, mas todos eram iguais na sua essência. Claro que havia uns mais capazes do que outros, mas a solidariedade animal tratava de os colocar em pé de igualdade. Os mais fortes cuidavam dos mais fracos, até porque compreendiam que hoje forte, amanhã fraco. Quanto mais não fosse pelo andar da idade...

Um certo dia, sem sabermos muito bem como aconteceu, um dos animais “inventou” uma nova forma de pensar. Ideias estranhas inundaram a sua mente e a visão que ele tinha do mundo alterou-se irremediavelmente. Rapidamente percebeu que conseguia dizer coisas que outrora não se atreveria. Cedo percebeu que conseguia falar coisas que não sentia verdadeiramente. A mentira nasceu, mas ainda não tinha um nome. Atrás desta surgiram a manipulação e o desprezo. Como ser todo-poderoso que agora era, os outros passaram de iguais a inferiores. Mas não se pense contudo que o pavão Luís (porque era este o seu nome) tratava os outros com aberto desprezo. Astuto como era, sabia que conseguiria melhor os seus intentos se os camuflasse. Se os outros não percebessem o que se passava, também não poderiam precaver-se, ou pior! Imitá-lo!

E assim foi que durante alguns anos o pavão Luís foi ganhando notoriedade. Sub-repticiamente ia escolhendo conveniências, angariando aliados à medida do seu ego e intensões. Evidentemente que este tipo de comportamento trouxe os seus frutos e os lugares de algum destaque foram chegando.

Ora já quando a sua vida tinha avançado e o tempo disponível era agora muito, o pavão Luís decidiu empreender por um hobby que muito gostava: a pintura. Com a certeza da sua motivação pessoal, o reconhecimento e admiração, esses preciosos alimentos para o seu gigante ego mais tarde ou mais cedo apareceriam. E assim foi que, borrando uma tela com a sua particular visão do mundo, conseguiu obter o que pretendia. De tão diferente que era o seu trabalho visual, de tão trágico, sombrio e despropositado - pasme-se, alguns outros animais encontraram algo que consideraram genericamente de valor.

Agora o pavão Luís encontrava-se verdadeiramente feliz, tanto quanto era possível na sua perturbada participação com o mundo. Após tantos anos tinha encontrado alguns (poucos) animais que poderiam ser seus pares. Iguais. Finalmente. Mas afinal que toque de Midas permitiu este “milagre”? Que pintura preciosa terá sido merecedora de tal distinção? Na verdade o que aconteceu foi que o pavão Luís percebeu que a vida vende. Principalmente se for pintada de desgraça e de choque. Pela primeira vez alguém tinha retratado os mais frágeis como algo indigno. Asqueroso mesmo. O amarelo e o azul, de tão aceitáveis que eram tinham perdido a sua cor. O cinzento e o negro eram agora os seus substitutos.

É claro que o mundo reagiu a este desplante. Principalmente os mochos e as corujas, guardiões da sabedoria que indicaram o erro cometido. Alerta! Gritem bem alto! Este quadro não é justo nem é real! Os mais frágeis não são doentes, massas disformes ou malcheirosas! São animais como nós! São tanto nossos, como nós somos deles! São o carinho, o cuidado, a gentileza e o amor. Sem eles nós nunca seríamos, porque perderíamos a possibilidade do infinito do crescer.

Infelizmente, nem derrotado nem vencido permaneceu o pavão Luís. Com a junção de outras vozes à sua, o mundo já não era o mesmo. A sedução da mudança, mesmo que retrocesso, já tinha ganho raízes. Mesmo que fosse só para alguns, a paleta de cores que ilustrava a vida nunca mais seria a mesma.

Era uma vez um mundo sem pessoas. Nesse mundo existiam apenas animais, que viviam um dia-a-dia em tudo igual aos humanos.

 

Rui Duarte

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:00  Comentar

Praia | Cabo Verde

Pesquisar
 
Destaque

 

Porque às vezes é bom falar.

Equipa

Alexandra Vaz

Ana Martins

Cidália Carvalho

Ermelinda Macedo

Fernando Couto

Jorge Saraiva

José Azevedo

Landa Cortez

Leticia Silva

Rui Duarte

Sandra Pinto

Sandra Sousa

Sara Almeida

Sara Silva

Sónia Abrantes

Tayhta Visinho

Teresa Teixeira

Dezembro 2014
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3
4
5
6

7
8
9
11
13

14
16
18
20

21
23
25
27

28
30
31


Arquivo
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


Comentários recentes
Muito obrigada por ter respondido ao meu comentári...
Obrigado Teresa por me ler e muito obrigado por se...
Apesar de compreender o seu ponto de vista, como p...
Muito agradecemos o seu comentário e as suas propo...
Muito linda a canção. Obrigado por compartilhar!
Presenças
Outras ligações
Música

Dizer que sim à vida - Carlos do Carmo:

 

Dizer que sim à vida - Luanda Cozetti: