7.2.14

 

Inclinou a cabeça um nadinha para a frente e com isso a ponta do nariz ficou-lhe encostada na vidraça da janela. O desconforto, do frio húmido que sentiu, provocou a resposta imediata de puxar a cabeça de volta, mas Pedro contrariou, forçou o nariz à nova posição, até que este e o vidro chegassem a um entendimento, a um equilíbrio térmico que lhe restituísse a sensação de conforto. Lá fora, sob aquela chuva miúda, dissimulada mas permanente, que muito molha os tolos que a não percebem e saem à rua desprevenidos, passava um carro, outro daí a minutos, mais dois, juntos, a um intervalo ainda maior. A pé… bom, a pé, ninguém. Nos intervalos das passagens dos carros, nada mexia na rua. Parecia uma rua fantasma, de uma cidade fantasma, sob um céu cinzento escuro, como vira na televisão, no filme de cowboys. Mas no filme não chovia. Afastou o seu pensamento do que via através dos olhos que permaneciam abertos e concentrou-se no que ouvia. O som baixo da televisão, de várias pessoas que dialogavam numa língua estrangeira. Pelos ruídos de tecido contra tecido, descobriu a irmã, no sofá, frente à televisão, certamente a ver o programa. Um pouco mais distante, na cozinha, percebeu os ruídos da louça e os passos da mãe. Do pai, nenhum som; talvez estivesse a dormir, no quarto.

Na barriga, já não sentia a língua estufada de uma qualquer vaca, em luta com um exército de ervilhas, que se tinham encontrado numa estrada larga, por ele aberta com o garfo, sobre densas colinas de delicioso puré, até que a mãe lhe ralhou que a comida é coisa série com a qual não se brinca. Aquelas tréguas digestivas eram um bom sinal. Seria de esperar só mais um pouco e começaria a sentir, de novo, fome. Poderia então beber um leite com chocolate, bem morninho, e comeria um pão bem fofinho, com manteiga. Que bom que era beber leite achocolatado e comer pão com manteiga, a ouvir a chuva, longe da humidade e do frio da rua, junto dos pais e da irmã, sem pensar na escola à qual teria de voltar no dia seguinte, para mais uma semana de ditados e redações e gramática e geografia e contas e… nunca mais era adulto para não ter de ir à escola.

Depois de sair da mesa foi brincar com os carrinhos. Brincou, brincou, mas acabou por sentir dentro de si assim um… não entendeu bem… um vazio!? Uma vontade de nada fazer, nem brincar, naquela tarde escura, chuvosa e triste, que o puxava para se deitar, para se enroscar. Foi então para a janela e ali ficou de pé, imóvel a olhar, a aprender o mundo, a sentir e a adivinhar os cheiros, os sons, a luz, as cores, os movimentos. Gostava de estar ali, assim. Apetecia-lhe que a sua vida lhe ficasse ali parada, naquele tempo e naquele lugar, para todo o sempre. Queria que aquele intervalo, entre a brincadeira e o lanche, durasse para sempre. E no coração sentiu que isso não seria possível pois, mais tarde ou mais cedo, alguma das componentes daquele equilíbrio haveria forçosa e irremediavelmente de se alterar e com ela tudo mudaria e ele iria sentir a angústia da mudança, a necessidade de procurar novos equilíbrios, de ter novos intervalos. Estremeceu com a mão que se lhe pousou no cachaço exposto após uma ida ao corte. Era a mãe que anunciava a chegada do lanche.

 

Fernando Couto

 

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