27.9.15

GoldenGateBridge-NicolasRaymond.jpg

Foto: Golden Gate Bridge – Nicolas Raymond

 

O mundo é mudança; a vida é-o também. Talvez chegue o dia em que o nosso espaço pareça tão perfeito que suplicamos em sussurro para que tudo assim permaneça; para que o vento não sopre com demasiada força e para que as corrente marítimas não despertem em fúria – e deste modo em silêncio desejamos que o nosso pequeno universo nunca fuja daquele ténue e frágil equilíbrio. Ora, eu diria que talvez ninguém corra mais perigo do que os que temem a mudança, pois ela existe. Inevitavelmente, a cada dia a terra gira e, tal como cada sistema em harmonia que em nosso redor se move, tal como nós próprios e cada parte do nosso ser, só em dinamismo constante se sustenta em equilíbrio. A constante mudança alimenta o mundo; a constante mudança alimenta a vida.

No entanto, parece que tendemos a só atribuir este excecional valor à mudança quando julgamos que tudo em nossa volta colide e o nosso ânimo e alegria são subtilmente sugados por qualquer força invisível. Desejamos a mudança, mas, porque o mundo então se mostra igual a cada dia, eventualmente desistimos do próprio desejo. Mas a mudança é real e inevitável, e daí brota o conceito de esperança – a faculdade da entrega eterna à busca pela felicidade.

O que é que acontece quando o desespero é tal que a esperança por algo melhor se torna demasiado dolorosa? O que é que acontece quando a esperança morre de todo, quando o mundo não muda e a dor se torna insuportável? O que é que acontece quando a espera por um novo amanhã se mostra vã, quando a vida perde o sentido e se afigura de uma morte presa ao corpo? Há, então, quem desista do sofrimento da luta e decida acabar de vez com tudo. Contudo, uma escolha desesperada não é necessariamente um querer verdadeiro. De todos aqueles que saltam da Golden Gate Bridge, em São Francisco (a ponte mais procurada para tentativas de suicídio em todo o mundo), pouquíssimos sobrevivem. Esses pouquíssimos tendem a dizer-nos, todavia, que se arrependeram do salto no momento em que lançaram o corpo para aquele frio irreversível infinito.

Num romance de Saramago, a certa altura, pode ler-se: “Compreendeu que pela primeira vez na sua vida duvidava do sentido do mundo, e, como quem renuncia a uma última esperança, disse em voz alta, Vou morrer aqui. (…) estas palavras poderiam, sem dor nem lágrimas, abrir-nos, por si sós, a porta por onde se sai do mundo dos vivos, mas o geral dos homens padece de instabilidade emocional, uma alta nuvem o distrai, uma aranha tecendo a sua teia, um cão que persegue uma borboleta, (…) ou algo ainda mais simples, do próprio corpo, como sentir uma comichão na cara e coçá-la, e depois perguntar-se, Em que estava eu a pensar.”

Alguém que viva sob o desespero constante e abafando um grito pela morte poderá não se distrair tão facilmente. Porém, o mundo é vasto e a mente imensamente complexa; haverá certamente algo que suscite ainda que um efémero sorriso ou uma gota de curiosidade em cada um. E se esse algo não estiver à vista, a esperança deverá permanecer, pois a mudança, arrisco-me a dizê-lo, será para sempre inevitável.

De resto, diria que quem experimenta o caminho do suicídio perde o olhar ao valor da própria vida. E se o valor mais alto em nós não passa no fundo de nós próprios, valerá bastante, em prol do outro, pôr o eu num pequeno descanso e ver quem, por ajuda, mudamente apela. Valerá bastante ouvir, pois na sociedade destes dias o tempo para isso foge; valerá escutar e assim abrandar o tempo por alguém. Quem desiste de si próprio poderá sentir que já desapareceu, e então um aceno sem juízo e um momento de atenção plena podem ser a esperança de um mundo, ou mais um sopro numa vida.

 

Isabel Pinto

 

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