20.9.15

Nervous-SteveLinster.jpg

Foto: Nervous – Steve Linster

 

Foi a última gota de veneno, Antónia não iria tolerar mais ser acusada, minimizada e humilhada… a mãe conseguia sempre realçar os seus piores defeitos. E o pior é que tinha razão, nunca seria grande coisa. Antónia, por altura com vinte anos, sabia-se feia, desinteressante, sem namorado, pior, não era amada, e agora acusada de nem sequer gostar da bebé, sua sobrinha, que ela havia tomado para o seu coração como sua filha. Acusada, mais uma vez, de não valer nada, de ser uma grande falhada, de ser incapaz, e sem grandes perspetivas de futuro. Aquela discussão, não foi mais do que um acumular de mágoa e frustração que já vinha a tornar-se frequente. E o pior de tudo era a solidão, não ter com quem falar, não ter “aquele” ombro, “aquele” amor, saber que no fundo não valia nada… Não, foi mesmo a última vez. E foi assim que decidiu. Sabia exatamente o que fazer e como fazer. Para o diabo com aquela vidinha execrável. Nem o Vale das Sombras podia ser tão mau!

Antes, porém, decidiu escrever duas cartas: à bebé que amava profundamente e em quem tinha depositado tantas esperanças, e àquele homem que havia conhecido cerca de três meses antes e lhe preenchia o pensamento, embora com muitas contrariedades… Decidiu começar por ele.

Antónia como que se apresentou, pensando, insegura, que ele, eventualmente, nem tinha reparado assim tanto nela, começou por dizer que gostaria de o ter conhecido melhor, porque estranhamente, e apesar das diferenças que os separavam e que poderiam ser decisivas, acreditava que ele era uma excelente pessoa. E foi então que se deu o clique… surgiram-lhe no pensamento pequenas conversas, trocas de olhares, lembrou-se da forma carinhosa com que ele a tratava, de todas as vezes que subiram juntos a rua, ela para a paragem do autocarro, ele para o escritório, sempre de braços colados um no outro, como se o calor de um fosse fundamental para o outro… como se tentassem falar-se através dos braços encostados. Antónia pensou, sobretudo, no seu sorriso fácil de olhar azul, nas sua risada alegre, no perfume que anunciava a sua chegada ainda antes de o ver entrar no café, quando o dia finalmente começava. Foi então, nessa carta de despedida que aceitou algo que insistia em negar redondamente: amava-o, apesar da diferença de idades que os separava, e apesar de se achar muito pouco para ele. Amava-o e decidiu ficar, só para ver como seria… e se não resultasse, haveria sempre uma caixa de comprimidos à disposição. E foi assim que decidiu não se suicidar. Não daquela vez. Talvez porque o ímpeto não fosse assim tão forte, ou talvez porque encontrou dentro de si um motivo para viver.

E o desfecho daquele pesadelo não poderia ter corrido melhor: apaixonados como estavam um pelo outro, amaram-se profundamente todos os dias, tiveram as provações inerentes a qualquer casal, a qualquer dois que no todo é um, casaram e edificaram um ninho baseados na tríade que os regeu desde sempre: amor, amizade e companhia. E foram felizes todos os dias.

 

Ana Martins

 

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