7.7.14

 

Não é a primeira vez que espera sentado naquela sala. Conhece bem os procedimentos - quando o Juiz entrar há-de levantar-se e quando lhe for pedido, em voz alta e bem pronunciado, dirá o seu nome.

Das outras vezes a espera não foi tão penosa. As situações eram diferentes, pequenos furtos, crimes sem sangue, crimes menores, ouviu dizer numa das audiências.

A sala está abafada e o ar irrespirável. Gotas de suor caem-lhe do rosto taciturno e toldam-lhe a visão. À luz intensa do sol veem-se partículas de pó que pairam silenciosas, formando um carreiro de um ao outro extremo da sala. Fixa uma pequena partícula e tenta segui-la com o olhar. Tem de matar o tempo de alguma maneira. Perdeu-a de vista, já se confunde com as outras. Não consegue perceber em que direção se movem ou se têm alguma direção, parecem-lhe movimentos aleatórios, lembram-lhe a ordem universal, milhares de partículas em movimento sem que se instale o caos. Gosta da ordem.

Um burburinho trá-lo de volta à sala. Ei-los que chegam, os justiceiros. Levanta-se.

- Jura dizer a verdade, só a verdade e não mais do que a verdade?

Nas reuniões que teve com o advogado ensaiaram perguntas e instruíram respostas. Em todo o caso não tem muito para dizer e ainda quer dizer menos que isso. Na verdade não quer dizer nada e se pudesse nem estaria ali. Fugir, é o que lhe ocorre. A espera e o frente-a-frente com o juiz e todos os que vão decidir qual vai ser o seu futuro, enfada-o. Não percebe porque é que não dizem logo o que têm a dizer e o mandam para uma cela, ou para um lugar que eles achem ser o mais adequado ao seu caso.

- Sim, juro!

Já não ouve e quer apenas ser libertado da presença daqueles emproados todos que se advogam de estar dentro da lei e de terem o direito de o julgar. Que sabem eles do que aconteceu naquela tarde? Ninguém naquela sala conhecerá algum dia as verdadeiras razões, as suas razões. Ela sim, sabia. Estava avisada e sabia que um dia aconteceria. O terror estampou-se-lhe nos olhos, quis gritar mas apenas balbuciou qualquer coisa. Pareceu-lhe um pedido de desculpa. Mas não, ela gritou-lhe na cara todo o ódio e desprezo que sentia. Não tivesse ela gritado e a desgraça quase que não acontecia. A honra de um homem limpa-se com sangue, e o dela correu em abundância.

Não quer saber o que está a acontecer ali onde tudo obedece a um ridículo ritual e onde todos parecem querer encontrar complexidade onde nada deveria ser mais simples do que fazer justiça. Julgam-no à luz da lei por ter feito justiça moral na ponta de uma bala. Saberão eles o que isso é, justiça moral, justiça que o coração dita que se faça?

Ignorantes.

Considera-se um homem simples, de condição humilde, não se eleva em conhecimentos e teorias como as que tem ouvido desde que foi detido - família desestruturada, mãe alcoólica e pai violento, o meio a influenciar uma personalidade desviante – tudo não passa de considerações teóricas, quase a justificar o ato e a acalmar a sua consciência, se ela estivesse atormentada, o que não é o caso. É tudo muito mais simples do que isso - para matar bastou-lhe o coração ferido e a honra mordiscada. O coração e a honra é que ditam as regras e ela não tinha o direito de lhe roubar um e outro. Fez o que tinha de ser feito a alguém que fez o que não devia.

- Culpado!

 

Cidália Carvalho

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 06:00  Comentar

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