4.8.14

 

O meu nome é Maha al-Sharif, vivo na Arábia Saudita e ontem fui presa por cometer um crime. Fui apanhada a conduzir, e no meu país só os homens podem conduzir. Safei-me com uma noite de encarceramento porque o meu marido é, simultaneamente, uma pessoa importante e um marido compreensivo e, como foi a primeira vez, moveu influências e mandou irem-me buscar. Quando cheguei a casa, bateu-me com um cinto, para me ajudar a ganhar juízo. Já sei que vai demorar muito tempo para ter coragem de me voltar a arriscar a sair de casa e sobretudo, tornar a ter oportunidade de colocar as mãos num volante. É que, se me tornam a apanhar, não me safo tão facilmente.

 

Chamo-me Feriha Kulin e sempre quis ser médica; adoro o cheiro a farmácia, os instrumentos cirúrgicos, o bulício dos Hospitais e, sobretudo, pessoas. Pronto, e puzles para resolver, do género, fratura exposta ou falha cardíaca. Chamem-me estranha… mas só quero ir salvar vidas. Fui inscrever-me na faculdade. Bateram-me, empurraram-me, correram-me à vergastada. Diz que só os homens devem estudar e que o lugar das mulheres é em casa, a tomar conta do marido e dos filhos. Diz que afinal sou louca. E agora estou internada num hospício. O meu pai trouxe-me. Diz que sou a vergonha da família.

 

Eu sou a Laleh. Há tempos passeava no parque da cidade, estava um lindo dia de Primavera. Ia de mão dada com a minha namorada. Ela disse alguma coisa simples e bonita como ela. Eu adoro-a. Dei-lhe um beijo. Demos um beijo rápido, envergonhado, a medo, a correr, como as duas criminosas que somos. Toda a gente sabe que aqui em Teerão a punição para a homosexualidade é a morte. Ela foi enforcada ainda antes de mim, eu fui obrigada a ver. Agora estou aqui nesta cela imunda, à espera que levem o meu corpo para o mesmo destino. Que seja em breve, por favor, porque a minha alma já foi.

 

O meu nome era Jehan Bakhsh e tinha quinze anos. Fui comprar especiarias à mercearia, já era um pouco tarde mas a minha mãe insistiu porque o meu pai, o meu marido e os meus irmãos estavam a chegar a casa para jantar e vinham com fome do trabalho, e era importante terem uma refeição decente. Aqui no Paquistão as mulheres têm que ter cuidado quando saem à rua sozinhas, mas eu tinha sempre cuidado. Já estava a regressar quando fui encurralada numa esquina por três jovens. Ainda imberbe, um deles. Mas todos muito decididos, muito cheios de si e de coisas para provar. Seguiram-se horas que não posso contar, porque nem consigo voltar a esse lugar. Consegui escapar com vida e voltei para casa. A minha família estava preocupada. Quando perceberam o que se passara, os homens da família levaram-me para as traseiras da casa. Chamaram-me nomes que também não ouso repetir, explicaram-me que a culpa era minha, que as mulheres são todas umas meretrizes e que eu era uma adúltera e uma desgraça insuportável para o bom nome da família. A seguir, mataram-me ao pontapé.

 

Eu nasci no Sudão e o meu pai chamou-me Meriam. Dizia sempre que eu era a sua luz. Depois os anos passaram e eu apaixonei-me. Para mim este amor vale tudo. Fiquei grávida. O meu amado é cristão, eu não. Fui presa, estava grávida. Porque ele tem uma fé diferente chamaram-me adúltera e levei cem chicotadas por ter casado com um cristão. Consegui sair do país com a minha família. Mas sei que não posso voltar nunca mais.

 

Dora Cabral

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 06:00  Comentar

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