4.4.14

 

Era uma vez…

Não, não me lembro de me terem dito muitas vezes esta expressão. Mas lembro-me de me contarem muitas histórias, cada um à sua maneira.

Os avós contavam como fora a sua juventude, como surgiram os seus casamentos, como era na época em que a menstruação vinha pela primeira vez e não existiam as “modernices” de hoje, como foram depiladas pela primeira vez e o que fazer para que esse tormento não se repetisse vezes sem conta, como começaram a namorar sem que os pais soubessem, como fugiram das guerras e conseguiram encontrar um local calmo para viver… Todas elas situações impensáveis nos dias de hoje mas que contarei aos que vierem depois de mim para que nunca percam a sabedoria que os nossos antepassados tinham.

Foi isso que ficou da minha infância, rodeada de pessoas sábias mesmo sem a escolaridade obrigatória ou analfabetas até. Sábias porque tinham rugas, que eu via como caminhos já percorridos e que me levariam para longe, para uma vida cheia de aventuras como as deles.

Os pais não contaram muitas histórias diretamente… Contaram-me que para viver bem temos que trabalhar muito. Contaram-me que a família é o mais importante e que essa mesma família, por vezes, tem que fazer escolhas difíceis que levam à tristeza em alguns momentos. Escolhas como o ralhar e pôr de castigo quem mais amamos, apenas porque sabemos que é o correto e que dará bons frutos no futuro.

Foi isso que ficou da minha infância, as escolhas mais difíceis são feitas por aqueles que mais amamos. Difíceis porque, na grande maioria das vezes, para um futuro melhor, privamo-nos da sua presença e dos seus sorrisos.

A irmã mais velha contou muitas histórias… Mesmo sem “Era uma vez…”, ela conseguiu criar na minha mente um mundo imaginário, sonhos, lições do dia-a-dia, formas de lidar com os mais velhos, formas de planear o futuro, a importância de fazer hoje para conseguir amanhã.

Foi isso que ficou da minha infância, as diferentes formas de estar que cada indivíduo pode ter consoante as situações, nunca deixando de ser nós próprios.

O que posso mais dizer sobre a infância? Nada, pois até hoje tento revivê-la, mesmo que isso me leve a momentos de melancolia por saber que nada será como era. Escolho revivê-la para nunca me esquecer o que realmente é importante e conseguir ensinar a quem vem a seguir, para que nunca me esqueça do meu EU e das pessoas que o fizeram e que são as mais importantes.

 

Sónia Abrantes

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 06:00  Comentar

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