15.8.16

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Foto: Smartphone - StockSnap

 

- E cá estou eu, como sempre, para aqui sozinho. Ninguém quer saber de mim. Ninguém vem visitar-me. Ninguém telefona a saber se estou vivo ou morto. Tenho a minha música e isso basta-me. Mas já nem tenho quem ma grave. Também não peço a ninguém. Hoje ainda não falei com ninguém. Devo ter a voz de quem acabou de acordar. Mas hoje até acordei bem cedo. Sai e fui dar uma volta aqui, ao pé de casa, sem olhar para ninguém. Andei em círculo. Sinto-me só. Ela já está melhor, mas não sei quando regressará e eu fico aqui, sozinho. Nem me agradece por tê-la ajudado. E toda esta gente pergunta por ela. Hipócritas. Agora que ela está doente vão visitá-la e perguntam por ela, como se eu tivesse de responder. Não respondo; viro-lhes as costas. A minha vontade era mandá-los fo***. Por mim, que estou aqui, não perguntam, não querem saber, não querem saber de mim. De mim, eu que a salvei. Saca***! Eu, que tenho problemas, eu, que sofro tanto, eu, que já passei por tanto. Só eu sei… ninguém imagina pelo que passei e pelo que passo. Não é fácil ter o problema que eu tenho; mas nem imaginam. Ter a doença que tenho e ninguém quer saber. E ainda vem falar de mudança… Mudar o quê? O que é que eu posso mudar? Só se fosse estourar com esses tipos todos. Se soubesse o esforço que faço para me controlar… Mudar… Ninguém entende que eu sou assim, seus filhos ** ****? Não entendem que não há mudança? Não entendem que eu sou assim, que a minha doença é assim, que não há nada para mudar, nada a fazer, que é assim e pronto? Não entendem o que eu sofro. Há as pessoas normais, como você. E depois existo eu, que sou diferente, que sou assim. Mas ninguém quer saber, ninguém ajuda, ninguém facilita, ninguém me respeita. Nada vai mudar. Isto é assim. E eu não preciso de ninguém. Quero é que me deixem em paz, que não me chateiem. Tenho a minha música e pronto!

 

- Sabe que a forma como vê o mundo e as outras pessoas, a forma como se sente, a agressividade que sente, a violência que gostaria de provocar mas que consegue controlar, sabe que tudo isso faz parte da sua doença? Não será possível eliminar a doença, mas será possível controlá-la, mantê-la controlada e ter uma vida normal, em paz, gratificante, na qual se sinta bem, bem melhor do que é agora. Essa hipótese não lhe agrada? Se acredita que não há regresso a uma vida gratificante, então ela nunca existirá. Se acreditar que o regresso é possível, então a mudança poderá acontecer.

 

- Tretas! Tudo tretas. E os médicos são uns ignorantes e uns mentirosos. Foi por culpa deles que eu fiquei assim. Mas eu percebi a tempo e deixei de os sustentar. Não entendem que não há volta a dar a isto, que eu sou assim e que isto será sempre assim, logo, não vale a pena. Não há caminho de regresso! E eu estou bem, desde que me deixem em paz. Ouço a minha música e isso basta, não quero mais nada. Deixem-me em paz, cara***! Eu sei controlar a minha irritação, eu sei tratar de mim, eu sei o que devo tomar. Não vou é encharcar-me de pastilhas, como eles querem e depois ser um mer*** como eles. Não quero falar mais!

 

Fernando Couto

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 09:30  Comentar

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