20.8.14

 

Ando “kitada”. Para todo o lado carrego um “kit” de princípios e regras que me definem e regem o meu comportamento e a minha relação com os outros. Ao afirmar que carrego um “kit”, não se entenda com isso que pretendo aliviar-me dele, pelo contrário, procuro nunca o perder de vista e ser fiel a esses princípios e regras. Alguma alteração ou cedência que processe, faço-o na convicção de os aperfeiçoar.

Sinto uma enorme gratidão, princípio que faz parte do meu “kit”, e quero homenagear os meus primeiros e principais educadores, a minha família. Gente simples, com tradições, que me deixaram em herança princípios de grande humanidade. Lá onde vivíamos, lembro-me de ouvir comentar a seriedade do meu avô, a capacidade de trabalho da minha avó, a amizade da minha mãe e o respeito dos meus tios. Os seus exemplos de vida foram o método mais simples, direto e eficaz de desempenhar o papel que lhes competia e que nunca se escusaram fazer: educar-me.

Nunca senti neles medo, dúvidas ou cansaço no desempenho dessa tarefa. Faziam-no sem ansiedade, com saber e segurança e por isso os seus ensinamentos não me sufocavam nem me oprimiam, davam-me confiança. Tudo se processava de uma forma tão natural que não me deixavam margem para dúvidas sobre a informação a reter. Educar era simples, era uma rotina que consistia em acompanhar e mostrar como se devia estar e fazer.

Não me traumatizaram as vezes repetidas em que me ensinaram a deixar o pão na mesa depois das refeições, sempre com a parte superior virada para cima, tapado com uma toalha muito própria para depois, e só depois, apagar a luz caso fosse noite. O que é que este exemplo insignificante valeu na minha formação pessoal? Aprendi com ele a respeitar. O pão, fundamental na alimentação de então, era produto de um trabalho cheio de sacrifícios, por isso, havia que valorizar e cultivar o sentimento de estima por algo conseguido e por alguém que o conseguiu. Eu compreendia esse ritual e aprendi a respeitá-lo. E o respeito pelas pessoas e pelas coisas que o merecem é outro dos princípios, muito importante, que meti e transporto no meu “kit”.

Nunca questionei porque é que à mesa o meu avô era servido sempre em primeiro lugar e porque lhe era dado o melhor que havia, ainda que ele não o comesse sozinho e repartisse com todos. Com isso, aprendi a partilhar e a hierarquizar.

Eram solidários, apesar de não conhecerem a palavra solidariedade - é uma palavra jovem, mas mostraram-me que os mais desfavorecidos e debilitados não precisam da nossa arrogância mas da nossa bondade e que a miséria humana não é uma condição mas uma circunstância que devemos ajudar a resolver. Eles assim o faziam.

Ensinaram-me uma vez e hoje ainda pratico o pequeno gesto de me desviar ou descer o passeio quando me cruzo com alguém de idade avançada ou com mais dificuldade em se movimentar do que eu, facilitando-lhe a passagem.

São muitos os exemplos que guardo, não conseguiria enumerá-los a todos mas a ideia que quero passar, e que retenho também para mim, é que eu não seria a pessoa que sou hoje se não tivesse essas referências.

A melhor maneira de lhes mostrar a minha gratidão por tudo e tanto que me ensinaram é empenhar-me em passar ao meu filho o “kit” que herdei. Enche-me de alegria saber que ele valoriza este legado.

Ainda que não partilhem desta minha visão sobre educar terão que respeitá-la, porque assim mandam as regras da boa educação.

 

Cidália Carvalho

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 06:00  Comentar

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