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Foto: Ouvir Música – Petr Kratochvil

 

Estar fora do grupo foi sempre uma condição para a definição de quem está dentro. Há os que reúnem condições para estar dentro e há os que não, tal como há os que aceitam pertencer e há os que não. No entanto, entre o estar fora voluntariamente (como por exemplo não querer pertencer ao rancho folclórico de Zebreiros) e o estar fora por imposição da vontade do grupo, do sistema ou das circunstâncias (como por exemplo, não ter emprego), jaz uma diferença abissal. A primeira não nos belisca de todo; a segunda fere-nos de morte lenta. Mas uma terceira circunstância mata-nos de todo: quando não queremos pertencer a determinado grupo mas, por força de pertença a outro, obrigamo-nos a fingir que pertencemos ao primeiro. É o caso de todos aqueles para quem o peso da marginalização exercido por um determinado grupo é maior do que a assunção pública de pertença a outro grupo. Até há pouco tempo (e ainda nos dias que correm) havia muita orientação sexual escondida; uma boa parte de nós faz por parecer ter mais dinheiro do que aquele que verdadeiramente tem, quer na roupa que usa, quer nos lugares de lazer que frequenta, quer nos comportamentos sociais que adota, quer mesmo nos empréstimos suicidas que contrai; por vezes mesmo a música de que gostamos é alvo de crítica, seja porque não passa nas rádios (que são formatadoras de gostos), seja porque confere ao ouvinte um estatuto de rebeldia ou o conota com alguma seita satânica, seja até porque, de tão medonha escolha musical, o ouvinte passe por extraterrestre e assuste as crianças e as gentes de bem.

A definição da identidade pessoal é, em boa medida, a definição do, ou dos grupos de pertença, ou seja, somos os grupos de que fazemos parte ou, pelo menos, daqueles a que queremos aceder (ou com os quais nos identificamos). E quando nos é vedado o acesso, nem que temporariamente, ou, como vimos, quando nos obrigamos a ficar de fora, somos também o reflexo dessa exclusão, com todas as marcas que ela deixa na nossa autoestima, crenças e valores.

O que une as pessoas e as agrupa não passa de um motivo para justificar aquilo que para o Homem é uma necessidade básica – o gregarismo –, como se de tanta evolução resultasse na noção de que as necessidades básicas carecem de razão. Assim, a exclusão de um grupo tem efeitos diretos nesse gregarismo, seja de forma neutra, leve, moderada ou severa, consoante a valorização que a pessoa atribua à necessidade de pertencer a esse grupo. Por vezes pode sentir-se feliz, por vezes marginalizada. Por vezes pode marginalizar-se, quando percebe que o grupo não lhe confere o sustento material ou emocional de que necessita. E aí pode não só não pertencer como agir contra o grupo.

A marginalização tem implicações pessoais muito pesadas: na adolescência as implicações são trágicas, moldando para toda a vida (ou, pelo menos, por um longo período da vida adulta), o comportamento alimentar, os padrões exagerados de beleza ou a seleção daquilo que verdadeiramente importa, por exemplo. Na idade adulta, a tragédia não é menor, refletindo-se na autoestima e na força com que se olha para a vida social.

Marginalizar é, no fundo, um ato de defesa e de identificação: como se o bicho Homem necessitasse de exemplos vivos para se aperceber de que não tem esta ou aquela caraterística que lhe conferem exclusão: enquanto não as tiver, ou seja, enquanto não for como aquela pessoa que, à luz do seu grupo de pertença, as tem, pode dormir descansado, com a garantia de que amanhã acordará do lado de dentro da tranquilidade e segurança que os grupos lhe conferem.

 

Joel Cunha

 

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