14.12.16

Man-LeandroDeCarvalho.jpg

Foto: Man – Leandro de Carvalho

 

Ele escrevia num dos piores momentos da sua vida. Da vida deles. Quando a porta da frente se fechou ele caiu. Caiu num chão frio e num buraco do qual parecia não conseguir sair. As tábuas magoavam-no e as pernas estavam sem circulação. Mas não queria levantar-se. Mas não conseguia levantar-se. Ainda escreveu no telefone para um amigo ir lá a casa. Não chegou a enviar a mensagem. Acho que não sabia o que dizer-lhe ou então teve vergonha. Sim, daquela que o constituía como cobarde, como há pouco ela o acusou de ser.

 

Doía-lhe tudo… Doía-lhe a cara de tanto chorar, doía-lhe o peito de tanto e com tanta força respirar, mas o que lhe doía mais era ver finalmente no que ele a tornou. Angustiava-o perceber, finalmente, que a ruína de parte do âmago dela teve dedo seu. Não lhe importava mais quem tinha as culpas, seja do que for. Não lhe importava que ela o insultasse e que fizesse dele alguém mesmo mau. Merecia-o, merecia tudo, qualquer castigo que lhe viesse pela frente.

Corroía-lhe algo que não conseguia identificar, apenas sabia que habitava no seu peito. Percebia que algo quebrou. Pensava em magoar-se. Fazer como já fez anteriormente. Um gume afiado, o fio escarlate a correr para o chão. Na verdade, talvez a única coisa que o impedia de repetir vil ato era a lembrança do estado dela, quando o foi buscar às urgências, da última vez. Sentia-se um fraco. Voltou a pensar em ligar a alguém, mas colocou impedimentos a todos de quem se lembrava. Ninguém iria entender o que sentia.

Nos intervalos do choro secavam-se-lhe os olhos. A visão turvava e algumas teclas tornavam-se indistintas. É incrível como conseguimos perceber trivialidades em momentos como este. Parece que o cérebro se ocupa em autodistrair-se para não te autodestruíres. Autodestruição. Sim, se calhar tinha sido o caminho que tinha percorrido sem o escolher. E tendo-a arrastado consigo. Disse-lhe, antes de ela sair de casa, que aceitava tudo o que quisesse, divórcio incluído. Ele tem noção que terá de cumprir pena. Questionou-se se o que irá fazer nos próximos tempos, a ele mesmo, será suficiente.

Sim, porque bem se conhecia. A autocomiseração irá ser o seu farol. A tristeza também. Tudo aquilo que ele tinha feito, pensava, trazer-lhes-ia felicidade. Todos os gestos, os discursos, os comportamentos. Jurava, de coração, que pensava agir bem. “Lida com tudo, mas em partes de cada vez”. Sabia que não estava bem e, ao admitir frequentemente tal, acreditava ser suficiente para domar o que estava a florescer. Ciúmes. A merda dos ciúmes… Como pôde ele duvidar dela e não perceber o quanto errado isso era? Como pôde ele não perceber tanta coisa?

Ele sabe como. Pensava ser mais forte do que era. De saber já muito da vida. Mas ninguém sabe. Em certa medida somos sempre crianças indefesas, rodeadas de dúvidas e medos. As rugas e as costas curvadas ajudam a disfarçar.

 

As lágrimas voltaram a lembrar-lhe do motivo do texto. Continuava no chão, computador no colo. Obra do destino, ele estava ali. À distância de um braço, quase já sabendo que poderia substituir o aço. Escrever era, em certa medida, aplicar golpes profundos em si. Que merdas! Que traste! Não se trata apenas de ter magoado a pessoa mais importante para si. Mais uma vez, trata-se de a ter transformado em algo mais sombrio do que quando a conheceu. Pede perdão ao teu anjo. Nem que seja pela milionésima vez. E não lhe prometas nada de nada! Tem apenas a humilde esperança de conseguires fazê-la voltar ao seu melhor.

 

Rui Duarte

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 09:30  Comentar

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