28.5.14

 

Olhava o espelho. Via uma estranha ou um futuro demasiado cedo. Não era ela. Apenas alguém, que substituira a sua vitalidade. Com o olhar encovado, como o de quem vai para a cova, pálida de cansaço e vazia de quem fora. Estravanha-se. Que pensariam quando saísse à rua? Já nem importava, se ela própria já não tinha nada a esconder. Já não conseguia esconder de como morrera por dentro, de como tal morte de quem fora lhe secava as veias. Toldava-lhe o semblante e tornava os olhos mais fundos, mais distantes do mundo alheio. O mundo vivo, no qual se sentia um fantasma, palpitava ainda lá fora com todos os seus ruídos e sem consideração pela morte antecipada desta inquilina.

Rolou-lhe uma lágrima pela face que depressa reprimiu. Quem és tu? Como chegaste a isto? Porquê? Onde te perdeste neste caminho?

Lembrou-se de como era antes do calvário por que passava. De como era cheia de vida, agitada, cheia de projectos e esperanças. De como gargalhava e de como ao olhar o mar se sentia viva. Porém, tentava perceber em que momento do percurso se despistara da vida. Fora tudo acontecendo, acumulando, sucedendo. E, de repente, já não vivia. Existia apenas, por força das circunstâncias. Passava por um luto de si própria. Apetecia-lhe chorar, mas quase já não havia lágrimas. Só cansaço. Cansaço de tudo.

Saiu à rua. Todos a olhavam como se olha um enfermo. “Coitada”, deviam pensar, “Está mesmo acabada”. Sabia que por mais que se sentisse um fantasma, não passava despercebida. Devia ser mesmo isso. Parecer um fantasma, tal era o ar de espanto horrorizado dos outros. Mas, isso era o de menos. A maior ferida era contemplar-se assim e sentir-se perdida dentro de si. Querer resgatar quem fora e não ter forças. Querer mudar quem era naquele momento e não ter esperanças. Ter saudades da mulher que vivia nela e da qual se esquecera. Era um luto terrível pelo qual passava. Porque estar de luto, era dizer adeus a tudo o que fora e deixava saudade. Tudo o que se vai com a partida. A dor que fica na mudança, mesmo que depois dessa “morte” haja vida. E aquela sensação de nem sequer se reconhecer. De não se sentir. Estranha dentro do seu próprio corpo. Da sua mente.

E, nos passos da existência, continuou caminho, em estado de mortandade.

 

Cecília Pinto

 

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