8.11.15

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Foto: Girls With Masks – Lucy Toner

 

O tempo é algo que me tem atormentado bastante nos últimos dois anos. Quando estudava escritores na escola e alguns deles falavam sobre a imutabilidade do tempo e como a angústia da sua passagem se refletia na sua escrita, nunca percebia por que razão isso os afetava tanto! Agora percebo, porque também a mim o tempo me angustia! Não só a passagem do tempo mas também o que fazemos dele.

 

Há dois anos atrás a minha irmã morreu num acidente de carro e a forma como eu via o tempo alterou-se profundamente. Sempre tentei ter tempo para as pessoas de quem gosto e muitas vezes dava prioridade a isso em detrimento de outras coisas. Durante alguns anos não me importava de ter horários pequenos nas escolas, porque assim tinha tempo livre para me dedicar a estar com as pessoas.

Passava muito tempo com a minha irmã. Nos últimos anos ela tinha estado fora do Porto, a trabalhar, e só vinha a casa nos fins-de-semana. Então passava os fins-de-semana com ela e mesmo durante a semana, não estando fisicamente, falávamos muito ao telefone. De repente, esta pessoa deixou de estar. Acabou-se a sua presença. Acabou-se o tempo para ela e acabou-se o tempo com ela para mim.

Nos primeiros dias a pergunta que se impunha era “Como é que a vida continua depois disto?”. Nos dias seguintes a pergunta passou a ser “Como é que se continua a não ter tempo depois disto?”. E é algo a que não consigo responder. E isso angustia-me.

Como é que não se tem tempo se estamos vivos? Qualquer palavra pode ser a última, qualquer convite recusado pode ser o último, qualquer momento passado com amigos pode ser o último e ainda assim as pessoas continuam a não ter tempo! Como é que isto é possível?

 

Vivemos como imortais. Ela foi, nós não, por isso temos tempo. Amanhã dá. Para a semana ainda chega. Daqui a um mês vai muito a tempo. E se não for?

O tempo passado na companhia de quem mais gostamos é a coisa mais preciosa que temos na vida. É o tempo que passamos e aproveitamos com essas pessoas que atenua um pouco o sofrimento da perda. Enquanto cá esteve vivemos momentos juntos, partilhámos, falámos, rimos, chorámos, fizemos tudo. Quando a pessoa vai embora, a sensação de que aproveitámos todos os momentos que podíamos aproveitar é o que nos dá uma certa tranquilidade. “Enquanto cá esteve eu vivi e partilhei com ela a minha vida”. A tranquilidade vem daqui, a saudade de tudo o resto.

Tivemos as duas todo o tempo do mundo e agora como é que o mundo não tem tempo? Perante a morte e a ausência, como é que o mundo se atreve a não ter tempo? São perguntas, indagações que me inquietam e angustiam. O tempo foge de ter tempo!

 

Patrícia Leitão

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 08:00  Comentar

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