29.1.18

Plane - ionutscripcaru.jpg

Foto: Plane - ionutscripcaru

 

Beleza é um conceito, dizem. E que está apenas nos olhos de quem vê. Pode ser. Mas depois há aqueles momentos em que o que vemos nos esgota a capacidade de olhar, e nos obriga à sujeição de todos os sentidos e à reverência a coisas inexplicáveis: é aí que nasce a Poesia.

 

Cheguei hoje de uma curta viagem para fora do meu país, Portugal. Anoitecia quando o deixei, há duas semanas, num dia de céu limpo. Virei a norte, voando, e a linha de fogo que demarcava o horizonte líquido era de uma nitidez afiada e longa, que me cortava a respiração. Subjetividade? Sim, talvez – a minha pele é, confesso, extremamente vulnerável a golpes de luz, e a minha respiração a cortes de espanto, quase susto. Nem pensei em beleza, ou qualquer outro adjetivo – apenas vi. Juro que vi.

Depois, o céu cresceu, debruado a lume esmaecendo, e a terra foi ficando preciosa, lá no fundo. Sei lá, ou talvez fossem os meus olhos, que já não olhavam, apenas me enriqueciam de filigrana delicada e faiscante – sei lá, ou talvez fossem as luzes da cidade a iludir-me... Talvez. Mas era belo! Belo, o trabalho de ourives, em arabescos, caprichos, flores, corações estilizados. Teias de fios dourados, desenhando joias espalhadas no veludo negro das povoações namoradas do mar. E juro que não ficou tudo pelos olhos, por isso, comecei a duvidar, desde então, nessa máxima de que “a beleza está nos olhos de quem vê”.

 

Como já disse, voltei hoje a Portugal, vinda de norte, pelo ar. Era de dia. E não sei se foi saudade, se foi poema – só sei que, descendo, a minha terra se me revelou, outra vez, de uma beleza que me abanou por dentro... Deve ter chovido, porque os prados, ponteados de casas e bordejados por pequenas manchas de árvores, eram de um verde vivo e liso. Deve ter chovido, porque os meus olhos se humedeceram, deixaram, outra vez, de saber olhar, e puderam sentir a recendência das ervas recém-cortadas, o cheiro dos pinheiros mansos, o conforto sensitivo de uma bela manta de retalhos, carinhosamente criada por mãos que sabem da beleza, sem saber que o sabem. E juro que, desta vez, senti por dentro que “a beleza está na alma de quem ama”. Com poesia ou com saudade. Ou com ambas.

 

Teresa Teixeira

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

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