25.6.14

 

Quando tinha 33 anos a minha irmã morreu. Tinha feito 28 anos um mês antes e ocorreu-me um pensamento sobre aquela série de pessoas importantes e famosas que morreram aos 27. Na verdade, mais uma pessoa se juntava à lista — uma pessoa importante tinha morrido, mas esta mais importante do que todas e qualquer uma.

Então aos meus 33 anos a minha vida mudou de repente. A forma como passei a ver as pessoas, os amigos, o tempo, o trabalho, até o sol e os dias de chuva mudou. Os meus sentidos mudaram, até a música ficou diferente. Já não é a mesma canção! A melodia é sempre triste mesmo que seja alegre. Estes opostos esbateram-se — a alegria tem sempre tristeza, a tristeza está sempre na alegria. Há um vazio que me acompanha e que já sabe que assim será sempre, vazio, buraco escuro, oco sem nada que o encha e ilumine. É o lugar da minha irmã, pertence-lhe, não espera que ela volte, mas também não se dará a mais ninguém.

É o lugar de onde saem as lembranças, os pensamentos, o choro, o riso, as saudades, as gargalhadas e a alegria que era dela. Saem dali, espalham-se pelo corpo, ficam a circular no sangue, nas células, na respiração, na cabeça e repousam, ainda que por breves momentos.

Todos os dias penso, lembro, sinto falta, desejo, falo, rio, choro. E luto. Todos os dias luto. Às vezes de preto, outras de coração e alma. Luto para acordar de manhã e ver a luz, o sol e a chuva e sei que aquele dia vai ser assim, mas sem ela. Luto para sair da cama e me levantar e ir lá para fora, sentir o vento, o calor ou o frio, mas não a sentirei a ela. Luto para estar com os amigos, mas estarei sem ela. Luto para ouvir as nossas músicas e ver os nossos filmes e séries que agora são só meus.

Luto para chorar o que tenho de chorar e para rir sempre que me lembro do seu riso, das suas gargalhadas e da sua alegria. Luto para que a alegria dela viva em mim. Luto para que me veja feliz. O tanto que puder ser. Luto sempre. Luto todos os dias. Luto, não acaba.

Luto, luta, lutamos. As duas. Eu aqui e ela onde estiver. Para estarmos sempre uma com a outra, para estarmos sempre juntas até que a morte nos separe. 

 

Patrícia Leitão

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 06:00  Comentar

Praia | Cabo Verde

Pesquisar
 
Destaque

 

Porque às vezes é bom falar.

Equipa

Alexandra Vaz

Ana Martins

Cidália Carvalho

Ermelinda Macedo

Fernando Couto

Jorge Saraiva

José Azevedo

Landa Cortez

Leticia Silva

Rui Duarte

Sandra Pinto

Sandra Sousa

Sara Almeida

Sara Silva

Sónia Abrantes

Tayhta Visinho

Teresa Teixeira

Junho 2014
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
12
14

15
17
19
21

22
24
26
28

29


Arquivo
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


Comentários recentes
Muito agradecemos o seu comentário e as suas propo...
Muito linda a canção. Obrigado por compartilhar!
Parabéns pelo blog, gostei muito da maneira como e...
Obrigado SAPO.CV!!
Olá :)Este post está em destaque no "Cenas na net"...
Presenças
Outras ligações
Música

Dizer que sim à vida - Carlos do Carmo:

 

Dizer que sim à vida - Luanda Cozetti: