10.5.17

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Foto: Fatigued – Sasin Tipchai

 

Por alguma razão, quem melhor escreve sobre o Amor são os poetas. Porque só as mais belas palavras, metáforas e seres sensíveis originam a melhor mistura para se descrever o indescritível. Como nascer num país de poetas não faz de mim uma poetisa, apenas vou escrever o que eu sinto que é o Amor. E aqui refiro-me ao amor entre dois seres, não necessariamente Amor de casal.

 

- Amor é equilibrar o conceito de espaço. É permitir estar-se perto o suficiente para estar e longe o suficiente para ver o outro na sua totalidade, sem apego, sem forçar.

- Amor é liberdade. É permitir que o outro seja, e não quem nós queiramos que o outro se torne.

- Amor é confiança. É aceitar que o medo de perder, de ser trocado, é apenas posse pelo outro. O amor não se tem. Sente-se.

- Amor é aceitar. Aceitar o que se recebe, sem querer nada em troca, sem comparar, sem exigir. Quem ama, recebe.

- Amar é mudar. A partir do momento em que se ama alguém, não se é mais igual, pois sente-se mais amor.

 

Amar não é perder a si mesmo. Mas sim encontrar-se.

Como disse um poeta “o Amor é o encontro de duas liberdades”!

 

Sara Almeida

 

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8.5.17

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Foto: Couple – Dimitris Vetsikas

 

“A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.”

Vinícius de Moraes; “Para Viver um Grande Amor” (Companhia das Letras)

 

Não há uma definição única do que é o amor. Acho que cada um ama à sua maneira. Posso dizer o que é o amor para mim e ainda assim, tenho certeza que essa conceção foi mudando com o tempo e com as experiências da vida.

Na adolescência somos tomados abruptamente e arrebatados pelo amor romântico (quando não platônico) e acreditamos que jamais seremos capazes de amar alguém com a intensidade que amamos o primeiro amor, ainda que nem saibamos bem quem aquela pessoa era de verdade. À medida que vamos nos relacionando com as pessoas e com o mundo, podemos experimentar diferentes formas de amor (e de amar) e como esse sentimento se manifesta na vida de cada um. Acho muito comum dizer que não existe amor maior que amor de mãe, mas não é todo mundo que tem a sorte de experimentá-lo.

Hoje, para mim, amar é estar presente. É acolher, cuidar e compartilhar o que se tem. É fazer parte da vida de quem se ama por escolha e não por obrigação. É gostar de estar junto, simplesmente por estar e poder lembrar como esse momento compartilhado é precioso. Independente se for um amor entre amigos, entre amantes, entre pais e filhos, entre humanos e seus bichos. Independente dos rótulos sociais todos e das fotos publicadas em Facebook. O mais importante é realmente compartilhar a vida com quem se ama.

 

Leticia Silva

 

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5.5.17

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Foto: Man – Manfred Antranias Zimmer

 

Uma vez o destino decidiu emendar o erro que o tempo vinha cometendo. A tua ausência da minha presença disso fazia prova. Gravosa era a falha, até porque o tempo me tinha ouvido clamar teu nome, apesar de ainda não o conhecer. Em sua defesa, pedia o tempo, que decidisse afinal se eras loira ou morena, mais doce ou mais rebelde, mais tudo ou menos nada… E à medida que ouvia esta lamúria, eu pedia mais tempo ao tempo, apenas para decidir como serias. E assim o destino, cansado de ouvir falar de culpa e indecisão, tantas vezes terrível e cruel, decidiu ser bondoso. De tão bem-disposto que andava, chegou mesmo a ser cómico ao mostrar que, ao contrário do que se acredita, às vezes, mas só mesmo às vezes, quanto maior for a procura, menor é a recompensa.

 

Rui Duarte

 

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3.5.17

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Foto: Family - rmt

 

Todos desejamos amor uns aos outros, uma ou outra vez, numa ou noutra ocasião. Desejamos ainda que haja no Mundo e entre todos. Falamos tanto dele mas quando surge a pergunta “o que é o amor?”, a boca fica muda, os olhos perdem-se em pensamentos longos que são rompidos de forma algo corajosa e por vezes certeira, dada a sensibilidade do tema, por explicações do amor que lhes foi ensinado, que sentem em si, o amor que lhes pertence.

Existem várias caraterísticas que são associadas por todos, de forma inequívoca ao amor, mas será esse o amor de todos nós? Poderá este ser definido? Como explicar e falar de algo tão profundo, complexo e necessário que nasce e morre de forma inexplicável dentro de cada um de nós? De um sentimento que possui as mais variadas formas de manifestação? Pelos amigos, pela família, por aquela pessoa que desejamos ter ao nosso lado pelo resto dos nossos dias e, sobretudo, aquele que a vida me tem ensinado ser o mais importante e o pilar de todos os outras formas de amar – o amor por nós mesmos.

São estas as perguntas que me enchem a alma quando os meus olhos se perdem em pensamentos logos, em busca da resposta à “tal” pergunta.

Quando se interrompe o meu silêncio, relato que este é, aos olhos do meu ser, o sentimento mais nobre que se pode experimentar, o conjunto perfeito e harmonioso de tudo que existe de bom dentro do ser humano. Creio, de mim para mim, que o amor é a cura do Mundo. A sociedade que nele habita vive sedenta de manifestações deste sentimento que se perde entre rotinas cruéis que nos consomem, compensando a escravidão invisível a que nos conduz, sob a forma de bens materiais dos quais acabamos por sequer ter tempo de usufruir, perdendo-nos assim entre a ida e a volta, sem viver realmente nem uma nem outra.

 

Pare. Reflita.

Qual o papel que o amor tem representado na sua vida? Qual o lugar real que ele tem tido no seu dia-a-dia? Qual o tempo que lhe dedica? Tem-se amado?

 

Landa Cortez

 

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1.5.17

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Foto: Sad – Morris Sneor

 

Amanhã fazes anos. Olho para trás e em retrospetiva vejo que errei tanto! Porque não sabia; porque foste o primeiro.

Não te dei colo suficiente e agora mal consigo sentar-te ao colo, porque já estás tão crescido! Não te dei beijos suficientes, e agora beijo-te todos os dias, em todos os momentos possíveis. Mas nunca chega para mim nem para ti. Não te abracei o suficiente e agora os meus braços começam a ser curtos para te abraçar. Mas abraço-te na mesma, com todo o sentimento (imenso) que tenho por ti.

 

Dizem que não há amor como o primeiro; e é mesmo assim. Foste o primeiro, e és tão especial por isso! Vivemos experiências irrepetíveis, brincámos, sorrimos. Conversámos – tanto! Quero agarrar-me ao tempo, porque te vejo a crescer e tenho medo de te perder: para os outros, para a vida. Orgulho-me de te ver crescer, mas ao mesmo tempo desejo que o tempo pare. Queria continuar a proteger-te; sobretudo, dos teus medos.

 

Mudaste de ano, de escola. Um 1º período que iniciou estranhamente bem, mas depois descambou. O novo, o diferente, as regras, os desafios, tudo junto foi às vezes demasiado para ti. Apesar disso venceste esse caminho e o 2º período está a ser melhor. Aos poucos, vais-te habituando. Mas custa não te ver feliz, entusiasmado com alguma coisa! És inteligente, sonhador, bom. Tinhas tudo para ser bem-sucedido no jogo social, porém há qualquer coisa que te impede de te deixares ir. Mas uma coisa é certa: és como és; tenho que te aceitar assim, empurrar-te às vezes, contudo, deixar-te viver a vida de acordo com a tua perspetiva.

E estar sempre aqui. Para o caso de ser preciso.

 

Sandrapep

 

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28.4.17

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Foto: Engagement – Karen Warfel

 

Livre. Leve. E solta.

Calma. Tranquilidade. Leveza.

Faz-me sentir como se eu perdesse o peso que carrego de ser quem sou. O mesmo que eu sinto contigo: eu sossego, abrando, sou translúcida e transparência. Porque me dispo para ti, porque me deixo descobrir, porque deixo que me descubras.

Porque sou quem sou contigo e porque sinto que tu és quem és comigo, sem filtros ou máscaras. Somos dois seres no estado mais genuíno e puro do ser, como se um se envolvesse na mente do outro, E o mais bonito é que o outro permite isso. Conexão mental. Liberta-me a mente.

És o meu ponto de luz. Que me conduz. Que tira o véu da minha alma e a liberta. E voa: livre, leve e solta.

 

“Segue o Sol

Ele é que é o teu farol

Olhos na altura

Swing na cintura

Pé no chão, carapinha no céu

Coração leve, pulsa no sabor da aventura

A vida é um rio que desliza até ao Sol

Daqui para adiante, horizonte fundo, alto, largo

Só luz

Segue o teu Sol

Siga”

Sara Tavares; Ponto de Luz (tradução livre do crioulo)

 

Sandra Sousa

 

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26.4.17

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Foto: Child - Petra

 

O seu olhar era sábio, profundo e doce, alimentando-nos a alma. O seu sorriso iluminava tudo à sua volta. Dizia que o medo era o maior dos males. À custa do medo atrocidades se cometiam. Nada a amedrontava e ela, nada afrontava. Delicadamente aproximava-se dos animais mais selvagens, aqueles que qualquer adulto não ousava sequer olhar, e acariciava-os com amor, um amor irradiante, luminoso. Toda a natureza se harmonizava na sua presença, como se uma onda transformadora de um puro e amplo amor banhasse tudo à sua volta.

Com amor, amor incondicional por todos os seres, o medo desvanece e a vida refloresce com mais vigor e harmonia.

Era ainda uma criança, mas continha em si toda a sabedoria milenar: o AMOR incondicional tudo transforma!

 

Tayhta Visinho

 

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24.4.17

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Foto: Pregnancy – Alba Romá

 

E, de repente, o tema Amor.

Mote preferido dos poetas, inspiração maior dos que, não sendo poetas, escrevem versos. Tema nunca esgotado pelos pensadores, matéria viva e pulsante que alimenta livros, sustenta a eternidade dos melhores romances e confirma a intemporalidade dos contos infantis.

Seiva da própria vida, elixir de juventude, fome do espírito, alimento da saudade. Tempero sensorial das palavras mais simples. Ingrediente básico para as declarações mais requintadas. Tema de apetência natural e conhecimento transversal a todos a quem é pedido que fale dele - do Amor.

 

E, de repente, eu aqui, ser amante e amado, sem saber o que escrever sobre Ele. Eu, que já escrevi cartas de amor ridículo, já sonhei romances de amor eterno, já persegui sonetos de amor espartilhado, já senti amor de versos livres, já magoei poemas de amor inocente, já rimei saudades com amor vivo, eu, que já sublimei tantas palavras de amor... temendo dissertar sobre Ele sem cair em fossos comuns, ou tropeçar em palavras já exauridas de sentido e originalidade.

Eu que, como todos vós, sabe da sua importância nas relações humanas, e em todos os pontos e nós do tecido que nos interliga, eu, sem saber que parábola escrever para o explicar. Em que pequena frase o definir. Em que longo depoimento o interpretar. Em que simples palavras o elevar ao princípio e fim de tudo o que existe. Direi que o sinto, que o tenho dentro de mim, que nasci dele e para ele. Direi que dele necessito como pão para a boca. Direi que preciso de dar desse pão aos outros, para poder sobreviver. Que há vezes em que me sinto, simultaneamente, a explodir de saciedade dele e a mirrar de fome dele. Direi que sou humana - e que muitas, muitas vezes, não consigo manter equilibrado o fluxo desse sentimento que, como o sangue do nosso corpo, tem uma circulação própria e fundamental no corpo da sociedade - receber para respirar, dar para viver.

Mas sei que respeitar a circulação vital do Amor dos outros em tudo o que nos cerca, é o primeiro passo para conseguir ser feliz. Ou, pelo menos, para continuar capaz de Sentir - sem precisar ou saber explicar o silêncio onde cabem todas as memórias do ventre da nossa mãe.

 

Teresa Teixeira

 

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21.4.17

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Foto: Granny – Benjamin Balazs

 

Podia dizer do amor sobre muitas coisas… ao dinheiro, a um objeto, a um animal, a uma profissão, etc., mas… isso não é amor.

A palavra amor até pode ser polissémica, ou pelo menos dar-se a várias interpretações consoante o sujeito e o objeto dele. Também se reconhece ser difícil de definir, pelo que é preferível personalizar, projetar em alguém esse sentimento para poder falar dele com mais propriedade e substância: o amor de mãe.

A mãe certamente terá muitos defeitos, muitas inconsistências ou, pelo menos, algumas imperfeições. Quem as não tem? Mas regra geral ela dá tudo o que tem e sabe para a defesa, crescimento e desenvolvimento das suas “crias”. A mãe dá-se, doa-se, divide-se, multiplica-se, sofre, supera-se, enfim, ela é capaz de tudo para proteger e fazer crescer o seu filho. Tira à sua boca para dar ao filho; coloca-se sempre em último lugar; esquece-se de si mesma; sofre por antecipação; sofre com e por; vive todas as angústias, todas as ansiedades e dores do filho. Nunca pergunta pelo troco; nunca dá a pensar no retorno; nunca quer recompensa a não ser o carinho e a memória de que é merecedora. A mãe que é mãe não hierarquiza nem privilegia pois preocupa-se com todos e cada um conforme as suas necessidades e caraterísticas, encontrando sempre uma solução, uma forma, um jeito de fazer ou resolver qualquer dificuldade, prevenindo e antecipando possíveis desencontros que a vida vai construindo. A mãe é sábia e a experiência adquirida dá-lhe autoridade em todos os momentos. À sua maneira, ela prolonga-se, projeta-se e, às vezes, realiza-se no filho É uma incondicional defensora e admiradora do filho, pois tenha ele a idade que tiver, ele é sempre o seu menino!

Assim é uma mãe e, se conseguir multiplicar o dito por dez, aí tem a minha mãe, muito amada.

 

Fernando Lima

 

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19.4.17

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Foto: Mom - Unsplash

 

- Quero subir para aí contigo, mamã! - dizias, como se fosses embarcar numa aventura inelutável. Os teus olhos grandes a engolir o mundo brilhavam enquanto, impaciente, saltitavas em pontas.

Segurei-te pelo tronco e puxei-te para mim. O sol tímido roseava-te o rosto pousado no meu peito. Devagar, baloicei-nos e deixei que a brisa nos afagasse os cabelos. Dancei os meus dedos pelas tuas sobrancelhas e desenhei-te a face vezes sem conta. As tuas pestanas longas, negras, cerravam-se aos poucos. Estavas ali. Meramente ali, comigo, nesse dom, que só as crianças possuem, de estar verdadeiramente e completamente onde estão.

E naquele instante, todos os relógios pararam. Eras outra vez o bebé que há anos embalei no meu regaço. Sussurrei-te em silêncio as saudades que me trouxeste. Sei que me ouviste. Como me ouves de todas as vezes que te sorrio sem nada dizer. E eu fui criança também, eu estive ali, meramente ali, contigo, connosco e com os ponteiros de todos os relógios do mundo, interrompidos, suspensos, como nós, naquela cama de rede, sob o abraço do sol.

Amo-te, amo-te em paz. Amo-te tão tranquilamente, tão intensamente e tanto… como todos os amores deveriam amar. Esse amor que se balança, sustado e eterno.

 

De repente, olhaste para mim, olhos enormes a engolir o mundo outra vez:

- Mamã! Quero ir jogar à bola com o mano!

Saltaste para o chão depressa, correste e os relógios regressaram ao seu compasso. Deixei-te ir, como te deixo ir “crescendo” a cada dia que passa, escapando-me das mãos. Sei, porém, que sabes (tão bem) que no meu coração não habitam relógios. Podes voltar ao meu regaço que eu prometo que o tempo para de novo e que não digo a ninguém que te balanço como em criança, neste amor sustado e eterno.

 

Vanessa Brandão

 

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17.4.17

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Foto: Girl - Cheryl Holt

 

Disse-te, na única vez em que nos demoramos nas palavras, que nem todas as figuras geométricas me agradavam, sobretudo triângulos. Respondeste com uma sonora gargalhada e uma apaixonada dissertação sobre os três vértices que a ti te faziam tanto sentido. Apesar de eu gostar das palavras que pincelaste, dos sons que, juravas, contavam histórias de amor, dos cheiros que inebriavam a alma, não encontrei harmonia em nenhum dos teus predicados: quanto mais falavas sobre eles, mais eu rodopiava no vórtice do teu desconcerto. Deixei de te escutar quando te disse que nada tinha para te oferecer e tu continuaste, alheio à minha vontade, argumento atrás de argumento. Se não estivesses tão empenhado em queimar razões a troco de nada, poderia ter-te dito que também tu nada tinhas para me oferecer e que esse é o teu caminho, não é o meu. A tua insistência nunca poderia recrutar-me mas a tua arrogância impediu-te de perceber que nem todos vibram na tua frequência. Não está certo nem errado, não é bom nem é mau, é o que é. Queremos coisas diferentes, sabes? O amor na tua vida tem três vértices e arestas afiadas, nunca descansa e salta refeições a troco de uns petiscos. Na minha, deita-se numa cama de dossel iluminada pela luz de um vitral de Fibonacci e repousa num par de braços onde se espelha. Na sua ausência, só a completude do Ser, e apenas ela, me alimenta. Nada disto te faz sentido, pois imagino que não. Vá, não percas mais tempo a explicar-me as mil vantagens do “amor moderno” e as triangulações da tua intimidade. Olha, está ali alguém com Pitágoras escrito na testa. Faz-nos um favor a ambos: vai lá vender-lhe o teu peixe e deixa-me aqui com o Marvin que canta, só para mim, este amor antigo e gostoso.

 

Alexandra Vaz

 

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14.4.17

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Foto: Love – Юрий Урбан

 

Simpatia, beleza, empatia, química - sim, também, até pode ser tudo isso que entrechoca, faz chispa e produz faísca, lança a chama, lavra um fogo crepitante. E depois?

As dúvidas, as hesitações, as culpas, o lastro? Os mal-entendidos, os outros amores, os desencontros e os desmerecimentos. Sim, oh sim!

A carne é boa, muito boa; é inebriante, explosiva, sufocante, ardente e vê-se, sente-se, toca-se, arrepia-se, transpira-se. Da capo!

Sim, outra vez.

Também a música, a voz; tocar, cantar podem ligar-nos. E ligam.

O prazer da mesa, no prato e no copo, multiplicado pelo prazer da presença dos amigos múltiplos.

O sexo e a mesa compram-se ou trocam-se. Não é por aí, portanto.

O que faz o amor, com que haja amor? Tem parcelas? É total, inteiro, digo eu. Não vem de volta? É igual. Que interessa? Interessa, mas o mais importante, faltando muito, muito para ser tudo, é podermos e sermos capazes de amar, termos como e quem amar.

O amor dá vida, traz vida. Ainda que não tenha razões, é razão de vida. Sem o amor, o quê?

Que bom, como eu sou capaz de amar, de saber que o amor pode ser eterno, aconteça o que acontecer. Sim, incondicionalmente!

O amor precisa de tudo, o amor não precisa de nada. Não é à escolha, é assim. O amor é! Permanece. Pereniza.

Precisamos de ser amantes e chegamos ao amor. Vivemos com amor.

 

Jorge Saraiva

 

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12.4.17

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Foto: Couple - Pexels

 

O amor é a expressão mais terna da humanidade. A transcendência elástica que abriga o possível e o impossível no seu âmago.

Quem habita a atualidade cravejada de sofrimento e de lamentos diversificados entende o quão urgente e necessária é essa força silenciosa. Esse grito mudo que reclama por um sentir traduzido positivamente nos gestos e nas palavras. Mais do que nunca é importante agir. Mais do que nunca é importante amar. E basta que um coração bata e uma mão se estenda para iniciar a revolução individual, que pela acumulação de sinergias transformará a realidade. Nesse ato simbólico reside o princípio da comunhão global, colmatando as falhas cruas que despontam em cada canto, rompendo eficazmente com o ódio, o medo ou a ignorância que afligem e ferem os pilares que nos sustentam como sociedade.

 

Refugiemo-nos no que nos torna humanos, tanto pelo mitigar das diferenças, como pela procura das semelhanças, usufruindo do milagre da coexistência que traz conhecimento e crescimento conjuntos, necessários à progressão dos tempos e união ambicionados. E assim a vida será tanto mais doce quanto maior for o amor.

 

Sara Silva

 

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10.4.17

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Foto: Beautiful – Pana Kutlumpasis

 

Ela é a verdadeira fonte de amor. Mas, antes e primeiro que tudo é fonte de vida, o que já é muito. Mas mais do que isso, é igualmente uma força da natureza viva que procura ser ela própria, sempre a mesma, una e múltipla: una em relação a ela, múltipla em relação a todo nós, cujas paixões de amor são várias e em todos os sentidos. Nela começa o mundo; nela começa a vida, com o seu intenso amor dá vida à vida; nela só há amor para dar e receber. Só ela sabe dar vida ao mundo com inigualável amor.

 

Governasse ela o mundo, com a ternura e amor que nela existem, certamente que tudo seria diferente: haveria mais paz e concórdia; mais fraternidade e solidariedade; mais justiça e compreensão entre os homens e mulheres. O seu papel na vida não se esgota apenas no embalar do berço do recém-nascido e muito menos se resume ao papel de musa inspiradora, quando considerada pela sua beleza física. Graças à sua inesgotável capacidade de amar e de poder dar tanto do seu amor, ela poderá embalar a humanidade para a evolução de uma sociedade mais justa, fraterna e humana.

 

As qualidades femininas são sempre evocadas de forma especial na comemoração do dia mundial da mulher, em 8 de Março de cada ano, que ocorreu há dias, mas nem sempre se reconhece, na prática quotidiana, a sua dedicação e ponderação, a sua intuição e o seu sentido de amor que imprime nas relações humanas. Apesar de subestimado muitas vezes o seu papel na sociedade, temos de convir que é na mulher que reside o amor supremo da humanidade.

 

José Azevedo

 

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7.4.17

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Foto: Female - Cheryl Holt

 

Não se vê mas sente-se. Sente-se tanto que por vezes sentimos um grande formigueiro na barriga, só de ouvir falar.

Dói. Sentimos tanta dor por tê-lo como por não tê-lo. Dores diferentes, é certo, mas dores. Sem perceber bem porquê, secretamente desejamos sentir essa dor só para sabermos que estamos vivos e em relação com alguém.

Ele não se vê mas é ele que nos faz mover. É ele que nos faz ir de norte a sul do país por uma mera causa, só nossa apenas.

Vem de dentro e nada cá fora pode alterar isso. Pode tentar, influenciar, deturpar a visão mas... na verdade, nada altera. Por vezes até fortalece.

Faz-nos rir e chorar quando pensamos no que foi vivido, sentindo saudades e vontade de repetir certos momentos e sensações.

Dá-nos energia de continuar a fazer o que fazemos apenas por amor, apenas por acreditar.

Se correr bem, é recíproco e duradouro. Para sempre. Se correr menos bem, fica mais uma história para contar. Mas devemos sair dela a sorrir porque vivemos e amamos com todas as nossas forças. Afinal, não é para isso que existimos?

 

Sónia Abrantes

 

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5.4.17

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Foto: Couple - Lambhappiness

 

Olhou-me nos olhos. As mãos, de detalhes e traços únicos, acariciavam-me o rosto. Havia sensação naquelas carícias, de resto como em tudo que tocavam, porque eram mágicas. Os dedos longos percorriam livremente o meu rosto, conheciam-lhe os pormenores e os sinais que me distinguiam das demais e me individualizavam. E, nesta divagação, colhia uma felicidade explosiva e o sentimento de eternidade.

 

Olhou-me nos olhos mas não me viu. Não viu o meu interior, não podia vê-lo, escolheu-me para materialização da mulher com que tinha sonhado. Eu vi no seu olhar essa mulher que ele acreditou ter encontrado e, transformei-me aos poucos no que ele quis que eu fosse. Mudei e quase acreditei na transformação. A simplicidade deu lugar à sofisticação e eu quase gostei. Esqueci referências do passado, adotei novos modelos e quase parecia verdade. Mas esta mulher que o desejo idealizou quase matou a mulher verdadeira. Vivíamos uma alegre mentira. Enganávamo-nos. Ele, a ver em mim o que queria ver mas que eu não era, eu, esquecida do que fora, a fingir ser o que não era.

 

Mas, amor não se engana.

Olhou-me nos olhos e eu não lhe devolvi a imagem que ele queria ver, mostrei-lhe a minha alma ferida de mentiras.

Viu-me. Amou-me ainda mais!

 

Cidália Carvalho

 

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3.4.17

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Foto: Family – Omar Medina Films

 

“Amor” não é, para mim, um tema que tenha leitura fácil e traz-me algumas dificuldades. Por um lado, não consigo definir “amor”, por outro, tenho a sensação que há várias formas de o sentir por diferentes pessoas e, por outro, tenho a convicção que, às vezes, para além do bem-estar, também me provoca (muito) sofrimento.

 

Com a primeira dificuldade não estou preocupada, porque penso que o amor é apenas para sentir e dar, e ter a tarefa de o definir não me leva a lado nenhum.

 

Com a segunda, é assim mesmo. Amor pelo pai, amor pela mãe, amor pelos filhos, amor pelos irmãos, amor pelo companheiro… Há qualquer coisa de diferente entre estes amores, mas sinto-os como amor.

 

Com a terceira fico preocupada, porque também me faz sofrer. Mas, provavelmente é assim; se não sentisse amor, talvez não sofresse da forma que sofreria se o sentimento não fosse amor, digo eu, com todas as dúvidas.

 

O amor preocupa, inquieta, perturba, apazigua. Aqui, ou noutro local, sinto a liberdade de expressar que o amor me provoca diferentes sensações e, a propósito dessa liberdade, também esta precisa de ser pegada ao colo e cuidada com amor.

 

Ermelinda Macedo

 

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31.3.17

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Foto: Woman – Efes Kitap

 

A luz da manhã chegou-se à janela, colou-se ao caixilho, avançou para a ombreia e para o parapeito, deslizou pela parede, tocou na cadeira, raspou no armário e derramou-se sobre a cama, dos pés à cabeceira. Quando lhe tocou o rosto, ele acordou, de repente. Ele gosta de ser acordado pela luz das manhãs de primavera. Deixou-se ficar por uns instantes, imóvel, a sentir a luz nas pálpebras fechadas, no calor que se lhe acendia suave no rosto. Saiu da cama num salto que o levou a bater com os dedos do pé direito na cómoda, que ali ao lado se acomodava para mais um dia. Gritou de dor!

 

Talvez tenha dito um palavrão, logo abafado pelo armário. Acariciou os dedos magoados e percebeu que não havia fraturas. Avançou para a casa de banho. Após algumas funções que ele definiu para si como sendo a melhor forma de começar o dia, e que vou evitar explicar, entrou na banheira. Percebeu que já estava atrasado. Abriu a torneira e a água precipitou-se sobre ele, como só a água sabe precipitar-se. Instantaneamente percebeu que, na precipitação, esquecera de rodar o manípulo para o lado da quente. Gritou de frio!

 

As manhãs de primavera provocam-lhe fome – é sabido. Na cozinha, percebeu que tinha apenas uma fatia de pão. Excelente para uma torrada. Ligou a torradeira que, nas última semanas vinha a torrar-lhe a paciência, ora não torrando o pão, ora queimando-o. E dedicou-se a pensar sobre o que preferia colocar na torrada. Marmelada, manteiga e um lençol de geleia, doce de mirtilo ou doce de limão, limão, limoeiro, que lindo estava o limoeiro nessa manhã… e os amores-perfeitos logo ao lado, tão perfeitos, sobre os quais se debruçavam os narcisos procurando espelhos, todos inebriados com o cheiro das rosas… a queimado… Gritou de raiva!

 

Caminhava e sorria. Era primavera, estava sol, o ar estava frescamente a aquecer. Sorria e caminhava. Olhava as pessoas na rua, apressadas e com roupas leves. Caminhava e sorria. Olhava os decotes e as pernas descobertas. Sorria e caminhava. Atravessava as ruas como que esvoaçando, apreciando aqueles prodígios da primavera. Caminhava e sorria. “O metro está hoje encerrado por motivo de greve. Agradecemos a sua compreensão”. Gritou de fúria!

 

Atrasado e indo a pé para o trabalho. Até era bom, pois assim fazia uma caminhada naquela deliciosa manhã de primavera. Excelente para perder algumas das gorduras que lhe engorduravam a barriga e outras partes. Na esquina, uma criança gritava com a mãe. E como gritava forte… Não tinha mais de cinco anos. E a mãe envergonhada no silêncio. No tempo em que fora criança, não era assim. Os olhos colados na dinâmica da progenitora e do seu rebento. Quando ele era criança, as mães é que gritavam com os filhos. E chamavam-lhes nomes. Alguns nomes, elas chamavam a elas mesmas, certamente entusiasmadas com a gritara. Mas agora anda tudo ao contrário – são as crianças que gritam. E o poste ali tão perto do nariz… Gritou de dor (mais uma vez) e de desespero (por não ter sensores de proximidade, como os carros)!

 

E foi passando assim aquele dia de primavera. Apreciou o ar quente, a luz, o sol, as pessoas, e celebrou a alegria. Gritou de alegria (em silêncio) por tantos prodígios que um dia assim revela. Por vezes distraia-se e gritava (baixinho e envergonhado) ao tocar o seu exuberante nariz, burilado a poste.

 

Avançando, que todos temos afazeres…

 

Quando o sono o assaltou, resolveu deitar-se. Mas antes, assegurou-se de que a janela estava preparada para receber a luz do dia seguinte, que também deveria ser de primavera. Já com o pijama colocado, esticou-se na cama. Esticoooouuu-se e espreguiçou-se, que é uma coisa muito boa, sobretudo numa noite de primavera. Gritou (longamente) de satisfação.

O vizinho bateu na parede e gritou (irritado):

- Não te estiques!

 

Fernando Couto

 

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29.3.17

Seagull-2905102.jpg

Foto: Seagull - 2905102

 

Quando dei por mim, todo o meu ser jorrava para o mundo um surto de emoções. A minha voz percorria tudo à minha volta, atravessava as paredes, penetrava a terra e enchia o céu de um tenebroso trovão. Tal como o pássaro que, de asas abertas, abraça o ar para levantar voo, eu cobria de braços estendidos o universo que me pertencia.

 

Subitamente tomo consciência do meu ato e fico espantada com a força do som que emana de dentro de mim. Não sei onde fui buscar tanto fôlego mas não é hora de parar. O estrago já está feito e ainda há muito para libertar. Conscientemente, ganho novo lanço, empenho o meu corpo na sua desencarceração e descubro um atordoante prazer em soltar-me até ao ponto mais alto.

Lentamente, vou perdendo altura e sinto-me a planar acima das minhas amarras. Deixo a minha alma varrer os últimos vestígios de ar. Desço devagar à terra onde o meu ser e o meu corpo se unem em sincronia.

 

Olho à minha volta, expressões de incompreensão questionam esta minha repentina forma de expressão.

Vazia e de joelhos ao chão, despeço-me em silêncio desta catarse que se evapora na minha exaustão.

Agora sim posso recomeçar.

 

ESM

 

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27.3.17

Scream-Mandyme27.jpg

Foto: Scream - Mandyme27

 

Sobre o Grito:

Deu origem a uma obra de arte norueguesa que retrata o desespero e a angústia;

Não é possível dar um grito na fase REM do sonho pois, com a exceção dos músculos dos olhos e respiratórios, os músculos ficam paralisados.

Ajuda a diminuir a dor física. Alguns estudos indicam que enquanto se grita, o cérebro fica com menos espaço para assimilar a dor, fazendo com que a perceção da dor diminua.

Gritar ajuda a espartilhar a dor que vai na Alma. E aqui Gritar não é no sentido de gritar com raiva para as outras pessoas. É gritar para o Universo, é soltar a voz, é deixar que a dor seja vomitada sob a forma de um som. É a antítese do silêncio que grita o som mais perigoso de todos, que é o silêncio do já nada mais vale a pena.

A vida vale um Grito... vale todos os gritos que tiverem que ser lançados no ar.

Gritar.... gritar muito. Depois, com tranquilidade no rosto, seguir em frente rumo à vida!

 

Sara Almeida

 

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