11.12.17

Russia - CrazyRussian.jpg

Foto: Russia - CrazyRussian

 

“Não descubras o teu peito,

por maior que seja a dor –

quem o seu peito descobre,

de si mesmo é traidor.”

 

Não me lembro bem da primeira vez que ouvi essa quadra - tão cheia de sabedoria - mas lembro-me, sim, muito bem, quando comecei a entender-lhe o significado.

“Se os olhos são a janela da alma, o segredo é a alma da verdade”, dizia-me também a Sra. Camila, a Guardadora de Mistérios. E continuava: “Cada um tem a sua própria e íntima verdade... Se a confiar totalmente aos outros, vai, ao mesmo tempo, expor-se a julgamentos e impor-se como juiz. Há que nunca perder o mistério dos pequenos silêncios – os pequenos silêncios são irmãos do encanto das grandes palavras.”.

A Sra. Camila era a velhinha mais velhinha da aldeia. Era o que eu achava. O seu rosto miúdo, emoldurado pelos finíssimos cabelos tecidos da primeira luz das manhãs, era um campo sagrado: continha vinhedos de outono, sulcos geados de sementeiras, vestígios de ninhos de andorinhas, trigais já segados de pão, ribeiros secos pelos desertos da vida. Boca, quase nenhuma, sugada pela falta de dentes, e olhos feitos de água fresca – dois poços fundos, insondáveis, porém saciantes, retemperadores, cheios de paz e sabedoria. E de mistérios. Todo o conjunto, toda a morfologia facial da Sra. Camila, era uma página... não! – um livro inteiro, não só de Geografia – física e humana – mas também de História.

 

Histórias. A Sra. Camila, sabia contá-las como ninguém! (deixaram-se iludir por aquilo de “boca, quase nenhuma” e “guardadora-de-segredos-irmã-do-silêncio”?... ah, desenganem-se! – ela, apesar de saber imensamente mais do que me contava, era um livro, eu não disse...?! - da sua boca pequena e flexível, como ramo de árvore ainda tenra, voavam bandos de palavras que sabiam todos os ninhos da minha imaginação!)

Aí é que está – a minha imaginação: era nela que eu chocava os mistérios. Era nela que guardava os segredos que ia descobrindo, à medida que iam nascendo as pequenas certezas que lá cabiam. E os meus próprios mistérios, novinhos em folha. Bastantes, até. Mas, claro, não tantos como os que a Sra. Camila trazia nos olhos. Ah, não!...

Ela era uma verdadeira Guardadora de Mistérios. E repetia-me, entre histórias de faz-de-conta, e contas do seu rosário: “Sabes, Teresinha, devemos deixar que os outros granjeiem um quinhão de terra, no lameiro que nos pertencer por direito. Mas só se o quiserem, se o merecerem e se tu achares que eles têm necessidade disso para sobreviver. E só lhes permitas o quinhão bastante para essa sobrevivência! O melhor, o maior, deixa para ti – nunca se sabe se quem te renda, um dia te rasga. E nunca se sabe se esse que te rasga, ou outro que venha, um dia, não precisará que tu o remendes... com a grandeza da tua alma e a garantia da tua granja.”

 

Eram palavras algo confusas para eu entender, na altura. Mas ia percebendo uma verdade: os mistérios são como ninhos – é bom descobri-los, saber que estão lá, no alto daquela árvore, mas o segredo de todas as primaveras é respeitar-lhes a arquitetura, ter cautela, não espalhar a notícia; cuidar de manter os ramos intactos e a peugada despercebida e esperar que os ovinhos se tornem passarinhos – guardadores do grande mistério do voo.

 

Teresa Teixeira

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

8.12.17

Furious - Robin Higgins.jpg

Foto: Furious - Robin Higgins

 

“Um dia destes, acordo desta letargia, esbofeteio-me, com vigor, para a vida não ter de o fazer mais, fecho todas as portas entreabertas sem olhar para trás e decido que é tempo de viver a sério.” Renovei estes votos, ano após ano, a cada desafio enfrentado; quis muito acreditar que isto seria suficiente para que a minha alma escapasse daquilo que a consumia. Aceitei dos outros a falta de razão, de justiça, de integridade, como se não as merecesse, para não enlouquecer. Aprendi, muito cedo, a suportar em silêncio, sem chorar, a maldade daqueles que deveriam proteger-me.

 

Todavia, entorpecidos os sentidos, manter a cabeça à tona revelou-se uma tarefa titânica. Viver entre o que se faz porque deve ser feito (ou assim se enraizou a coisa) e aquilo que realmente nos faria flutuar, sem esforço, é completamente desgastante. Sentir a alma voltar-nos os pés noutra direção e ainda assim ficar ali, onde nada se pode curar é, simplesmente, insano. Não há forma prosaica de o dizer. É-me, particularmente, penoso porque o masoquismo não consta do meu cardápio, em dia nenhum do calendário. De bom grado eliminava esta ferida, num golpe misericordioso e, talvez, talvez ainda restasse algo de mim que se pudesse salvar. Escapei o melhor possível durante décadas. Enfrentei vários demónios para os deixar partir, fechei algumas das tais portas escancaradas e aprendi, muito recentemente, a dar explicações, apenas e só, a quem as merece. Mas, volvidos todos estes anos, constato que não curo a minha maior ferida, que ainda permito uma violência emocional desmedida e que sou completamente incapaz de a entender ou de me proteger dela.

 

Andei cá e lá, movida pelo amor que me liga a ti, nesta formatação da minha pessoa, na qual tu foste, sem dúvida alguma, a medida de todas as coisas. Vivi na tua sombra, respirei o teu dióxido de carbono (acreditando ser oxigénio), fui o alvo das tuas críticas, nesta vida que me foi roubada sem apelo nem agravo. Foste e és protagonista na tua vida, sempre a mãe de todas as dores, a mais sofredora, a que mais lutou, a mais prendada, a mais organizada, cobriste-te com esse manto de tantos predicados luminosos que deixaste de nos ver – continuo ingénua, vês? Desconfio que nunca me viste realmente, não como sou. Esperei que um dia me amasses, me desses paz, me fizesses sentir segura mas, até hoje, partilhar o teu lar é mergulhar, de olhos bem abertos, num espaço que me fere, onde durmo e me movo hipervigilante, frágil e assustada. Crescer não me tornou imune a ti, não impediu que te movesses na minha vida como se esta te pertencesse. Uma sequela da tua vida, à mão de semear, sempre que dela precisasses. E sim, tu precisas sempre. Tu precisas sempre mais do que toda a gente. Não interessa o esforço dos outros, os sacrifícios que fazem para colmatar as tuas necessidades, não interessa o quanto nos matas lentamente, desde que haja alguém que escute as tuas lamúrias. Na tua dor és Rainha, na dor dos outros és Comodoro. E eu sou o teu permanente dano colateral, simplesmente, porque me permiti acreditar, durante demasiado tempo, que esta história podia ter um final feliz. Um dia irias ser grata pelo amor que tinhas e, esse milagre, ia parecer-te tão grandioso e tão sublime que nunca mais te queixarias de nada. Nesse abençoado dia, irias perceber todas as coisas maravilhosas que ainda tinhas, todas as bênçãos que recebias diariamente e o quão privilegiada, afinal, tinhas sido. Serias Amor e Gratidão e eu estaria, automaticamente, curada – gostava tanto de ter conserto. Seria linda, a metamorfose singular da minha alma: de pião das nicas à redenção. Sonhei, repetidamente, com esse dia, acreditei com todas as minhas forças que, no âmago da minha pessoa, permaneceria, intacta, a capacidade de te aceitar a qualquer altura, sem contrapartida, sem recalcamentos, plena de amor. Mas a vida tem-se escoado a cada dia, levando com ela a força e a esperança que me restavam nesta nossa relação.

 

À medida que me desformato, constato, com profunda tristeza, a extensão desses danos dentro de mim. Como pude acreditar que podia passar por isto (quase) incólume é algo que me transcende. Neste lugar que ocupo agora, onde mal respiro, oiço o eco da tua voz e, mesmo à distância, até esse, me empurra para baixo. Voltaram o buraco no estômago, o nó na garganta e a sensação de abandono, alimentados pela migalha que ainda permito que me dês. Nela, a tua total incapacidade de ouvir o meu grito, ainda que este seja, mais amiúde, sonoro e lavado em lágrimas. Tudo passa, tudo é ligeiro. Nos outros. No palco da existência, debaixo do teu holofote, apenas tu e todos os teus dramas. A tua cacofonia silencia qualquer queixume. Já não consigo viver tão zangada. Não consigo dormir de olhos abertos, punhos em riste e acordar, semana após semana, com medo de sair da cama e de enfrentar as exigências do dia. Se não te consigo transmitir nada de bom, não posso permitir mais que me arrastes contigo para esse catastrofismo militante do qual te recusas a sair. Já percebi que estás em casa, nesse lugar de dor que tratas com tanto esmero. Mas eu não posso continuar aí, contigo, tão perdida. Quem sou eu, afinal, fora do teu sistema solar? Por que é amar-te uma sentença de morte? Preciso de asas para voar mas as minhas raízes foram-me violentamente arrancadas: como faço agora para me levantar? Preciso de um lugar seguro na minha vida. Preciso de dormir sem medo. De respirar profundamente. E de aceitar, de uma vez por todas, que há um preço a pagar por permanecermos onde nos ferimos; eu, reconheço, já lá estou há demasiado tempo. Não quero mais esta pena perpétua, camuflada de amor, em nome do bem maior. Por que somos quem somos, na vida uma da outra, permanecerá um mistério. Aceito-o, finalmente. Agora, por favor, leva-o contigo e deixa-me ser a pessoa de quem precisei a vida inteira.

 

Alexandra Vaz

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

4.12.17

Roasted-Chestnuts - Cristina Pechirra.jpg

Foto: Roasted-Chestnuts - Cristina Pechirra

 

Há coisas que eu, realmente, não entendo. E logo eu, que sou entendido em tudo aquilo que penso e falo! Mas é que tu, tu és estranha!

De manhã, estavas capaz de me esganar porque tiveste que parar de estender a roupa para encher as bolas de basquetebol para os miúdos jogarem, enquanto eu estava refastelado no sofá.

E suspiraste de desilusão quando foste ao armário de ferramentas em busca de fita adesiva para tentar tapar a fuga de ar da bomba manual e encontraste o livro que comprei para te oferecer este Natal - como se eu pudesse adivinhar, após 15 anos de casamento, que tu detestas romances do tipo “Nicholas Sparks”.

E não disfarçaste a tristeza quando, mais uma vez, eu troquei o plano prometido de uma matiné no centro do país, por um rápido passeio na cidade.

E posso jurar que vi nos teus olhos duas lágrimas prestes a rolar (desespero ou raiva?), quando, num dos meus típicos momentos de avareza galopante, fui estacionar o carro quase a 1 km da marginal só para não ter que pagar o parque.

 

E vai daí que, de repente, quando passavas pelo assador de castanhas e lhe lançavas um olhar de desejo reprimido, eu me lancei sobre ele e comprei-te um cartucho. E, como que por encanto, o teu semblante alterou-se radicalmente. Voltaste a sorrir, disseste-me um “obrigada” embargado de emoção e, de besta, passei a bestial!

Mas que poder misterioso terão estas castanhas assadas, que te fizeram esquecer tudo o que estava para trás? Seria porque tu adoras castanhas ao ponto de te deixares enfeitiçar pelo seu sabor único, quentinho e esbraseado? Ou talvez porque eu te tenha surpreendido com um gesto que demonstra que, afinal, eu até me importo um bocadinho contigo, e que, apesar de me ter torcido todo ao desembolsar aqueles 2 € para pagar as famigeradas castanhas, fi-lo para te agradar?

Eu cá não sei. Só sei que és estranha como o caraças, porque num momento pareces detestar-me e, noutro, é como se me amasses com a força do primeiro dia. Serão assim todas as mulheres?

Bem, também não vale a pena pensar muito nisto, deixa-me relaxar no sofá a ouvir os comentadores da bola, que o Porto está em alta e isto de ter tido um momento de gentileza pôs-me de rastos.

2 €... Que roubalheira, por um punhado de madeira!!

 

Sandrapep

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

1.12.17

Pray - Martine.jpg

Foto: Pray - Martine

 

Vamos começar por algo bonito, que há borboletas bem lindas, vistosas, coloridas, ainda que algumas tenham figurações que pretendem ser ameaçadoras para os seus predadores. Comecemos pela borboleta tropical pois então.

Aviso, em tempo: a história, exemplificativa, começa bem, bonita, mas vai acabar mal, qual tempestade. Cientificamente, é uma história, digamos, determinística, com relação de causa e efeito. Na teoria do caos, dizem-nos que um bater de asas de uma linda borboleta na região do Amazonas, Brasil, pode vir a causar um tornado, um furacão nos estados do midwest norte-americano!

Para os cientistas, por uma via, em termos religiosos, por outra, está tudo, ainda que de formas bem complexas, explicado. Para um simples mortal, acontecem coisas inexplicáveis, verdadeiros mistérios.

A mínima diferença, modificação, das condições de uma situação considerada de partida, pode gerar consequências inimagináveis (inexplicáveis para o ser humano médio - excluindo, portanto, os especialistas e os ignorantes), de dimensões catastróficas ou, (porque não?) maravilhosas. Não apenas na meteorologia, pode ser na língua escrita e falada, pensemos por um momento que o português de Portugal e do Brasil tem a mesmíssima origem, há cerca de tão só 500 anos, mas pequeníssimas diferenças circunstanciais foram originando palavras novas e termos e expressões iguais à partida vieram a ter aplicações e significados diversos, em alguns casos aproximando-se do antagónico; pode também ser um episódio idêntico que significou para duas pessoas uma perda, tendo para uma consequências desastrosas, mas proporcionou uma sucessão de boas oportunidades para a outra (os males que vêm por bem).

 

Já terá dado para perceber o ponto de vista.

Não vou maçar-vos mais: passo para as conclusões - que, rogo, sejam aplicadas por cada um ao que lhe interesse - o mundo, a sociedade, a nossa vida, sem mistérios seriam muitíssimo menos interessantes, se se puder comparar!

Convirá é, perante as circunstâncias, que há que aceitar, não nos colocarmos apenas como efeito, mas também como causa, agente, ator. Mesmo rezar o terço, para quem o faça, digo eu e justificando o título da prosa, não deverá ser um ato mecânico, uma lengalenga sem sentido.

 

Jorge Saraiva

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

Praia | Cabo Verde

Pesquisar
 
Destaque

 

Porque às vezes é bom falar.

Equipa

>Alexandra Vaz

>Ana Martins

>Cidália Carvalho

>Ermelinda Macedo

>Fernando Couto

>Jorge Saraiva

>José Azevedo

>Leticia Silva

>Maria João Enes

>Rui Duarte

>Sandra Pinto

>Sandra Sousa

>Sara Almeida

>Sara Silva

>Sónia Abrantes

>Teresa Teixeira

Dezembro 2017
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


Arquivo
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


Comentários recentes
Muito obrigada por ter respondido ao meu comentári...
Obrigado Teresa por me ler e muito obrigado por se...
Apesar de compreender o seu ponto de vista, como p...
Muito agradecemos o seu comentário e as suas propo...
Muito linda a canção. Obrigado por compartilhar!
Presenças
Outras ligações
Música

Dizer que sim à vida - Carlos do Carmo:

 

Dizer que sim à vida - Luanda Cozetti: