9.6.17

Love-ElisaChristensen.jpg

Foto: Love - Elisa Christensen

 

Houve um tempo em que fomos inocentes de palavras, lembras-te?...

O silêncio, trémulo, quase a medo, encostava-nos os corpos arados de fresco, e os olhos calavam-se em sede de saber-se a fundo, de tatear-se, de só sinalizar o momento em que se abria um beijo...

Nos nossos silêncios límpidos a palavra era excesso, comunicávamos com a polpa dos dedos, em toques sensíveis, entendíamo-nos com os olhos, num bailado de luzes que nos arrebatava a lugares encantados dentro de nós e tingiam de rubor a minha pele de espanto adocicado. O silêncio era um lugar mágico, místico, onde nós éramos dois em um, e o mundo um longínquo marulhar de vozes.

Tu lias-me os lábios, escrevias-me devagar com os teus, e eu, página límpida, sustinha a respiração para não assustar o prazer que precede todos os poemas.

Era o tempo em que o silêncio era nosso.

____

 

É o tempo, agora, de sermos do silêncio.

Culpados de palavras, estorvam-nos os seus sons entre nós, ameaçando o nosso feudo individual, os nossos pensamentos próprios, a nossa liberdade. Cansa-nos respirá-las, contraria-nos ouvi-las. E o que conseguimos ser, um em um, é apenas um resto de mistério, uma pergunta em suspenso, em desespero de voz antagonizante e hostil.

Deflacionamos as palavras por força de as prolongarmos de dentro para fora de nós? Não somos já dignos de as pronunciar, por lhes termos, tantas vezes, profanado o tom e vilipendiado o sentido? Ou é a minha voz, ou é a tua voz, ou são as nossas vozes, ecos de um vazio que nos vai sugando o prazer de sermos... apenas poemas à espera de serem escritos?

O silêncio tomou-nos, meu amor, ou fomos nós que nos refugiamos nele, que o amamos mais que a qualquer murmúrio de páginas do livro que deixámos sem final?

O silêncio, agora, asfixia. Rasga-me por dentro em ranger mudo de lâmina e a marca que me deixa na pele, como mensagem fugidia e lacónica, é apenas uma palavra desaprendida: "Amo-te (?)"

 

Teresa Teixeira

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

Praia | Cabo Verde

Pesquisar
 
Destaque

 

Porque às vezes é bom falar.

Equipa

>Alexandra Vaz

>Ana Martins

>Cidália Carvalho

>Ermelinda Macedo

>Fernando Couto

>Jorge Saraiva

>José Azevedo

>Leticia Silva

>Maria João Enes

>Rui Duarte

>Sandra Pinto

>Sandra Sousa

>Sara Almeida

>Sara Silva

>Sónia Abrantes

>Teresa Teixeira

Junho 2017
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
13
15
17

18
20
22
24

25
27
29


Arquivo
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


Comentários recentes
Muito obrigada por ter respondido ao meu comentári...
Obrigado Teresa por me ler e muito obrigado por se...
Apesar de compreender o seu ponto de vista, como p...
Muito agradecemos o seu comentário e as suas propo...
Muito linda a canção. Obrigado por compartilhar!
Presenças
Outras ligações
Música

Dizer que sim à vida - Carlos do Carmo:

 

Dizer que sim à vida - Luanda Cozetti: