30.6.17

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Foto: Smoke - SidLitke

 

Quando chegaram à aldeia eram já várias as dezenas de minutos sem uma palavra, o longo luto da estrada assim o impôs. Pararam o carro bem no centro daquilo que foi uma praça – a praça da aldeia. Helena desligou o motor. Em redor, a cor dominante, ou melhor, a única cor era o preto, no chão, nas paredes e nos telhados das casas, ou em verdade, do que delas restava, nas ruas, no pedaço de jardim agora imaginário, nas árvores. Tudo queimado, ressequido, sem vida, sem alma. Os corações batiam apenas porque sim, contrariando tudo o que os olhos viam; batiam com dor. Não havia homens sentados nos bancos de jardim, não havia mulheres sentadas nas soleiras das portas, não havia mulheres e homens em passo apressado, ou pachorrento, não havia crianças, não havia animais. Havia cinzas, muitas cinzas, havia montes de chapas e de ferros retorcidos; talvez tivessem sido carros, ou motas, ou máquinas agrícolas, ou uma cabina telefónica, ou as mesas e as cadeiras de uma explanada, ou bancos de jardim, ou animais. Agora apenas podiam ser tudo aquilo que a imaginação quisesse.

Ricardo abriu a porta e saiu do carro. Helena seguiu-o. Ricardo deu três passos sentindo estalar sob os seus pés aquilo que foram brasas e que cobriam todo o chão que a vista alcançava. Parou, não querendo causar dano a um corpo assim ferido, tão violado.

 

Imóveis, olharam lentamente em redor, incessantemente na esperança que aquele preto mudasse, que uma qualquer cor invadisse a paisagem e inundasse os seus olhos, dos quais caiam longas lágrimas, sem um ruído, sem um suspiro, sem um ai.

Helena pôs o braço à volta do tronco de Ricardo, ele pousou o braço sobre os ombros dela. Apesar dos dias, dos rescaldos e dos ventos, aquele cheiro queimava as memórias da vida de há poucos dias atrás.

E então sentiram penetrar-lhes os ouvidos, o silêncio absoluto das árvores que não dançavam ao vento, das crianças que não brincavam na praça, dos velhos que não jogavam as cartas, das mulheres que não riam, dos homens que não trabalhavam, dos pássaros que não cantavam, das galinhas que não cacarejavam, dos cães que não ladravam, dos gatos que não miavam, de tudo o que fora vida e estava morto, sem ajuda, sem carinho, sem aconchego, sem humanidade, sem solidariedade, todos irmanados na trágica e lancinante dor de ser consumido pelas chamas. Sim, o que agora dominava aquela praça, aquela aldeia, era o preto e aquele silêncio que, de tão absoluto e brutal, ensurdecia.

 

Fernando Couto

 

 

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28.6.17

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Foto: Statue - Nasalune

 

No mundo atual somos bombardeados, o tempo todo, com uma infinidade de sons: buzinas, vozes, músicas, o telemóvel a tocar, a televisão constantemente ligada, etc. Os ruídos invadem nossas vidas sem permissão e já nos acostumamos tanto com eles que tampouco percebemos a sua presença invasiva.

O facto de estarmos tão habituados a tantos ruídos, nos faz sentir pouco confortáveis em um ambiente silencioso. Temos uma certa tendência em tentar romper o silêncio pois não sabemos mais como lidar com ele. Acabamos por relacionar o silêncio com solidão, como se os ruídos todos preenchessem nossa vida, ainda que não saibamos com quê, exatamente.

Seria um bom exercício tomar consciência do que escolhemos ouvir e não simplesmente deixar ir. Escolher uma boa música que te faça feliz. Prestar mais atenção no que alguém que você ama lhe diz. E também saber calar.

O Silêncio também tem muito a ensinar. Através dele podemos ouvir um pouco mais os nossos pensamentos e refletir sobre nós mesmos. Podemos prestar atenção no nosso corpo, na nossa respiração, na nossa existência.

 

Leticia Silva

 

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26.6.17

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Foto: Silence – Gerd Altmann

 

O silêncio está em todo o lado.

Está entre duas imagens. Está entre duas palavras. Está nos momentos de grande alegria e ainda mais nos momentos de infelicidade. Está quando o sol se põe. Está na descoberta de uma grande verdade. Está numa grande viagem de comboio. Está entre duas pessoas cúmplices. Está na nossa essência.

É valorizado? Talvez não. O silêncio pode ser profundamente perturbador, pois tal como um lago calmo, o silêncio pode espelhar tudo aquilo que não queremos ver nem sentir.

Se o silêncio dos sons ainda se pode tolerar, o silêncio da mente, pode ser difícil de atingir. Mas é este silêncio que permite que as feridas da Alma sejam verdadeiramente curadas.

Como sugerem os budistas, praticar a Arte do não falar permite que a luz do coração se manifeste e o poder da sua sabedoria o transforme.

 

Sara Almeida

 

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23.6.17

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Foto: Anger – Public Domain Pictures

 

As pessoas. As pessoas e as suas bocarras. Enormes, monstruosas no seu falar de escorrências cerebrais improdutivas, inúteis, estéreis!

Falar por falar. Dizer para marcar presença. Apenas um atirar de palavras que não servem mais do que o propósito de provocar ruído, massacre auditivo. O propósito da comunicação perde-se para dar lugar à verborreia.

Não haverá quem as cale?!... Que efeito sublime teria esse silêncio de nadas, que seria muito mais do que o tudo vazio que se insiste em dizer!

 

Introduza-se uma disciplina no currículo académico que ensine a importância do não dizer, do não falar, do não abrir a boca (enfim, talvez só para bocejar!).

 

Sandrapep

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21.6.17

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Foto: Happy – Melissa Flor

 

Houve tempos em que me lembro apenas de um silêncio cinzento e espesso que me povoava os dias. Nessa altura, sentia-me como se estivesse largada no mar, ofegante a esforçar-me por manter a cabeça à tona para respirar. Muitas vezes questionava-me sobre o “para quê” de respirar e era então que ouvia um choro ou um riso - foram mais risos, na verdade – de uma criança acabada de nascer. E não tinha alternativa: inspirar, expirar… Porque a vida não parou.

Depois, esse silêncio transformou-se em vozes, revolta, ironia, medo, raiva... Adormecia e acordava completamente exausta pela falta de silêncio, pela confusão. A única forma que tinha de calar esse silêncio ensurdecedor, era ligar bem alto o rádio do carro, com música bem barulhenta, nada de lamechices ou de me trazer memórias! E continuava: inspirar, expirar… Porque a vida não parou.

 

E como vem a bonança atrás de uma tempestade, mesmo quando é uma daquelas tempestades que brota do mais profundo das nossas trevas, hoje busco o silêncio da tranquilidade, como quem busca a sua própria felicidade. Com o tempo, tenho aprendido a silenciar-me durante os bons momentos para sentir o sabor dessa quietude feliz, para que ao cristalizá-los, me certifique de os vivi com intensidade e de que vão ficar para sempre na minha memória, porque tenho perfeita consciência da irrepetibilidade de um momento. Hoje não me basta pensar que o dia de ontem foi um dia feliz, não, ontem tenho que ter vivido essa felicidade, tenho que ter parado por momentos para sentir aquele momento no momento.

E continuo: inspirar, expirar… Porque a vida não para.

 

Ana Bessa Martins

 

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19.6.17

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Foto: Face - Edward Lich

 

É no silêncio que pesam as palavras, que transpiro as dores e se ouve a alma. É no silêncio que vivo a paz e o tormento, o certo e o errado, sem perturbações mundanas.

Silêncio é peça que desconstrói e dá balanço. É vida para além do som. É tempo morto em que se vive intensamente o todo que nos faz únicos. É no desconcerto que provoca que acerto as pontas soltas, desencontradas entre os murmúrios das vidas que me rodeiam e perturbam o pensar. Silêncio belo. Silêncio de mil sentires, pensares, viveres... Temos a tua existência ignorando que é nele que temos respostas para sem ti viver. Ser. Respirar. Silêncio grito, silêncio calma, silêncio alma...

 

Deixo-me cair nos teus braços, aqui e agora neste lugar inquieto em que perco o olhar no horizonte, em que busco o sopro de tua sabedoria eterna. Envolta em ti, suspiro e deixo cair meu corpo no descanso da tua paz. Silêncio... amigo meu, meu amigo.

 

Landa Cortez

 

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16.6.17

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Foto: Depression - Štěpán Karásek

 

Não se produzem certas palavras e frases em certos sítios. As cabeças andam baixas e os olhos fixam principalmente um chão gasto. Os corredores estão preenchidos de sons, muitos deles sem significado. Por aqui não há silêncio. Todas as horas são preenchidas por passos, pessoas e animais. Não existe recanto de sossego onde se possa desligar. Nem que seja por um minuto. Existe a exigência de estar sempre por cá. Sempre presente, nem que se esteja ausente. Como já disse, não se dizem certas coisas. Coisas de um silêncio que não se cala. Elas estão lá e toda a gente o sabe.

 

Os atrevidos sussurram certas palavras e certas frases. Nesse caso, os olhos não miram o chão, mas acompanham a rotação desconfiada do pescoço. Perscrutam um horizonte curto sempre à espera da surpresa vigilante. A regra do silêncio impera, mas estes bravos cobardes atrevem-se a trocar ideias e informações. Tolos... No final do dia nada ou pouco adianta. Segue-se para casa e arranja-se qualquer coisa para compensar. Umas minis, o futebol, a novela ou compras que não se pode pagar. Qualquer coisa... qualquer coisa para quebrar o sentimento de impotência. O do descontrolo do nosso destino. Durante oito horas alguém mandou em nós. É justo que agora nós mandemos. Ou que tenhamos a doce ilusão de tal. Amanhã repete-se tudo.

 

Rui Duarte

 

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14.6.17

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Foto: Headache - Darwin Laganzon

 

A última recordação que tenho é de estar deitado, na minha cama, a contemplar e a olhar o teto, enquanto a luz do sol espreitava por entre os buracos da persiana. Não estava mais ninguém em casa. Só o silêncio que lá mora e eu. Um momento apenas interrompido pelos pássaros que chilreavam lá fora e pela passagem de um ou outro carro que seguia o seu destino. E eu ficava ali… estava naquela serena tranquilidade.

Fechei os olhos e as vozes começaram pouco tempo depois. Primeiro, ao longe. Quase como um murmúrio. De seguida, aumentaram de intensidade, mas não de sentido. Não era a voz de um anjo e de um diabo, como naqueles típicos dilemas. Era pior do que isso: eram vozes de pessoas, que surgiram, de repente. Apareceram sem serem convidadas, simplesmente.

 

A partir daí, a clareza deixou de fazer parte da minha realidade. As vozes não paravam de me dizer o que devia dizer, davam-me ordens, falavam por mim. Em momentos de lucidez, conseguia perceber que uma delas era feminina e outra masculina, mas confundia o que ambas diziam.

Serviam-se do meu corpo para ter onde habitar, tal como um parasita que se alimenta às custas do seu hospedeiro. Inventavam histórias dentro da minha cabeça e faziam-me acreditar que era nelas que eu vivia. Gritavam comigo, falavam em simultâneo, deixavam-me perdido. Era como se eu, enquanto ser individual, tivesse deixado de existir. Tudo era desordem, caos e confusão. Lembro-me de movimentar-me como se estivesse a livrar-me de alguma coisa e de bater com as mãos na cabeça. Só queria que elas parassem…

 

Abri os olhos. Assim como surgiram quando os fechei, podia ser que se fossem embora quando os abrisse. Mas elas continuavam lá. Abrir e fechar os olhos não é a fórmula mágica para fazer desaparecer o que não queremos.

O silêncio é subvalorizado. Não é oco e tem as mais diversas formas. Há um turbilhão de coisas a acontecerem enquanto ele acontece também. Aquele quarto onde habitava o mais profundo silêncio e sossego contrastava com a mente que não sossega nem deixa sossegar. Talvez o silêncio seja isso: um contraste. Uma dádiva e ensurdecedor ao mesmo tempo.

 

Sandra Sousa

 

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12.6.17

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Foto: Suffering – Andreea Maria Silvestru

 

...

(silêncio)

O silêncio é caleidoscópico! Tem miríades de nuances e significados! Contém toda a sabedoria da humanidade, talvez por isso se diz que é de ouro. Pode ser de sabedoria, de um fervilhar de ideias e pensamentos, do mais doce amor, de compreensão, de empatia e de compaixão. Pode ser intencional e consciente, uma porta de acesso ao divino, uma conexão com o universo, um canal para o conhecimento mais profundo de si próprio e do universo.

O silêncio pode ser uma arma, contém em si todo o rumor do mundo, pode ser ensurdecedor, de revolta e de raiva, de resistência e do mais vil e convincente desprezo.

Tem também um lado oculto e perverso. O silêncio da penitência. O silêncio de quem cala consente. O silêncio sufocado, engasgado de dor e sofrimento, o silêncio do medo, do pavor, da dominação, da subjugação.

 

O silêncio do sofrimento que tantos ainda vivem, ou melhor, sobrevivem! Quantas crianças sofrem em silêncio pelos sonhos arrebatados, pelos maus tratos e violações a que as sujeitaram. Quantas mães se subjugaram em silêncio, às violentas e abjetas agressões dos seus filhos e maridos. Quantos idosos sofrem em silêncio, os maus tratos dos seus filhos que tanto amam, pelos quais se sacrificaram para lhes dar uma vida digna e sem privações.

Por último, aquele silêncio tão familiar em cada um de nós, o silêncio da indiferença. Da indiferença do que acontece, do que se passa para além de nós próprios, da nossa bolha asséptica e intransponível. Este sim, é o silêncio mais nefasto, porque nos anestesia, nos torna ainda mais insensíveis às emoções e ao sofrimento dos outros. É o silêncio da indiferença que nos desconecta dos outros, estagnando e regredindo a humanidade.

Por vezes, há que rasgar o silêncio, fazê-lo explodir, jorrando as vozes nele contidas!

 

Tayhta Visinho

 

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9.6.17

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Foto: Love - Elisa Christensen

 

Houve um tempo em que fomos inocentes de palavras, lembras-te?...

O silêncio, trémulo, quase a medo, encostava-nos os corpos arados de fresco, e os olhos calavam-se em sede de saber-se a fundo, de tatear-se, de só sinalizar o momento em que se abria um beijo...

Nos nossos silêncios límpidos a palavra era excesso, comunicávamos com a polpa dos dedos, em toques sensíveis, entendíamo-nos com os olhos, num bailado de luzes que nos arrebatava a lugares encantados dentro de nós e tingiam de rubor a minha pele de espanto adocicado. O silêncio era um lugar mágico, místico, onde nós éramos dois em um, e o mundo um longínquo marulhar de vozes.

Tu lias-me os lábios, escrevias-me devagar com os teus, e eu, página límpida, sustinha a respiração para não assustar o prazer que precede todos os poemas.

Era o tempo em que o silêncio era nosso.

____

 

É o tempo, agora, de sermos do silêncio.

Culpados de palavras, estorvam-nos os seus sons entre nós, ameaçando o nosso feudo individual, os nossos pensamentos próprios, a nossa liberdade. Cansa-nos respirá-las, contraria-nos ouvi-las. E o que conseguimos ser, um em um, é apenas um resto de mistério, uma pergunta em suspenso, em desespero de voz antagonizante e hostil.

Deflacionamos as palavras por força de as prolongarmos de dentro para fora de nós? Não somos já dignos de as pronunciar, por lhes termos, tantas vezes, profanado o tom e vilipendiado o sentido? Ou é a minha voz, ou é a tua voz, ou são as nossas vozes, ecos de um vazio que nos vai sugando o prazer de sermos... apenas poemas à espera de serem escritos?

O silêncio tomou-nos, meu amor, ou fomos nós que nos refugiamos nele, que o amamos mais que a qualquer murmúrio de páginas do livro que deixámos sem final?

O silêncio, agora, asfixia. Rasga-me por dentro em ranger mudo de lâmina e a marca que me deixa na pele, como mensagem fugidia e lacónica, é apenas uma palavra desaprendida: "Amo-te (?)"

 

Teresa Teixeira

 

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7.6.17

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Foto: New York – Melissa Mahon

 

Se o silêncio não é não fazer barulho, existem momentos da vida que o não fazer nada é por demais barulhento, turbulento e incómodo. Há quem adore o silêncio e faça disso o alfa e o ómega para poder pensar, contudo, para outros, ele é condição fundamental para poder tomar decisões.

Falando na primeira pessoa, diria que gosto do silêncio pontualmente e pouco dado a vazios de sons e de alma. No balanço do ruído e da sua ausência, prefiro, de longe, o barulho da vida, do trabalho, do lazer, do movimento, do quotidiano das cidades e do campo. Sou pouco dado a grandes refúgios e retiros.

 

Às vezes os silêncios metem medo por nada dizerem, por serem ausência de vida. Gosto de sentir o silêncio dos templos por ser melhor para refletir e comunicar comigo próprio. Gosto do silêncio dos gabinetes para ouvir melhor os cérebros de quem decide e, sobretudo, de justificarem o porquê da decisão. Gosto do silêncio dos estádios porque simbolizam momentos decisivos para o que está acontecer. De resto, interpreto os outros silêncios como sinais de vida, de trabalho, de alegria, de comunhão, de fraternidade, de solidariedade. Por isso, por vezes, estes momentos que até podem primar pela ausência de barulhos, podem ser ensurdecedores pelo que transmitem, pelo que significam, pelo que predizem. Desta forma, prefiro o dia à noite, o verão ao inverno, o trabalho ao descanso, a companhia à solidão, etc. É que tenho muito tempo para estar em silêncio e não tenho pressa!

 

Fernando Lima

 

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5.6.17

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Foto: Joy of Life - Ludi

 

Vês o meu sorriso no rosto e deténs-te. Admiras a minha gargalhada fácil e revoltas-te. Enerva-te a minha voz serena, o meu colo doce e a minha paixão nas palavras.

Agita-te o meu vagar nas horas, o meu café demorado pela manhã. Irritam-te os copos meio-cheios que deixo espalhados pela casa. Tira-te do sério a minha capacidade de deixar arrastar pelos dias tudo e tanto que poderia estar a fazer. Perturba-te que o mundo desmorone enquanto eu passeio com o meu sorriso, a minha paixão e a minha gargalhada, incólume ao caos das nossas vidas. Azeda-te a minha indiferença enquanto fazes malabarismos para segurar as 4 bolas no ar sem que se estatelem no chão. E eu, de longe chamo por ti… ”Olha! Olha um arco-íris!” E ensurdece-te esta voz que fala de tudo o resto que acontece enquanto o mundo onde tens, e bem, os olhos postos, vai caindo num sufoco de impotência.

 

Meu amor. Entendo-te. Sei-te bem. Mas ouve-me agora. Dá-me a tua mão e coloca-a aqui no meu peito. Ouves algo a bater? Não, não é um coração. É um monstro que aqui trago amordaçado. Detido e silenciado. Ouve-lo a bater com força no meu peito? Ele bate com tamanho ardume que me chega a doer. E sabes porque bate assim? E sabes porque dói? Quer libertar-se e, por isso, pontapeia-me. Lá dentro, fez-me refém no silêncio e segredou-me ao ouvido: “Deixa-me virar tudo do avesso! Grita, esperneia como ele! Despeja os copos que espalhaste pela casa e vai arruma-los vazios no armário. Não vês que tudo cai lentamente por terra? Não sentes os cortes nos teus pés de tanto que teimas em colocá-los descalços sobre o fio da navalha afiada? Não vês que, tal como todos os outros, os estilhaços dos escombros te ferem? Não preferes chorar e chorar e lamentar-te e ver que os copos nunca estiveram meio-cheios?”.

 

Quando te deitas, fico eu e o meu monstro. Abraço-o e acalmo-o. Choro sem chorar, grito sem se ouvir. Liberto-lhe as amarras e afago-o. Escuto tudo o que tem para me dizer até que esgote as palavras. E então, amarro-o outra vez. Amordaço-o de novo. E deito-me em silêncio. É deste pesar que faço o meu sorriso e a minha gargalhada fácil. É deste pesar que forjo a coragem de ousar demorar-me todas as manhãs e vislumbrar um arco-íris.

E acordo cansada, e tu não vês. Não assistes à luta de feras que travo em mim, todos os dias da minha vida. Porque neste palco sou rainha. Porque deste teatro sou mestre. E raios me partam se eu me vou a baixo! Por isso, o mundo pode ruir, mas o meu sorriso não. Porque enquanto puder trilhar o caminho, para o percorrermos caminharei erguida e nem darei pelas feridas nos pés, pelos estilhaços na pele, pelo fumo das derrocadas. Porque enquanto eu sorrir e abraçar serena, enquanto eu deixar o meu colo ser amor e não queixume, enquanto trouxer a paixão nos olhos e a esperança nos lábios, seremos felizes. E sei-o tão profundamente que chego a acreditar, e acredito tão verdadeiramente que tu, por vezes, também. E basta uma gargalhada que não a minha para eu saber que o silêncio valeu, enfim, a pena.

 

Vanessa Brandão

 

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2.6.17

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Foto: Train – Peter van de Ven

 

Estação de Campanhã, sábado de manhã, um cheirinho de primavera no ar, uma brisa agradável carregada de dialetos vários. Após o primeiro lanço de escadas, noto a presença de diferentes volumes, deixados aparentemente ao acaso, como se alguém tivesse saído à pressa e esquecido os produtos domésticos: havia sacos com comida, rolos de papel higiénico, baldes e produtos de limpeza, roupa em trouxas. Percorro o corredor em silêncio, não vejo ninguém por perto. Na chegada à gare a que me destino, duas senhoras, vestidas integralmente de negro, rodeadas de sacos, exaustas. Uma das senhoras senta-se na escada, fecha os olhos, balbucia algumas palavras em espanhol, pede a Deus que a ajude, pede força para concluir a sua missão. Nas muitas rugas da sua cara aninha-se o descanso que nunca a quis abraçar. A outra senhora continua num ritmo frenético, escada acima, escada abaixo, carregando e largando sacos.

Procuro um banco à sombra, esqueço as mulheres, a viagem, sorvo o primeiro café do dia com deleite – apesar do copo de plástico e da sua origem duvidosa. Quando o comboio chega procuro um lugar junto de uma janela e afundo-me, com preguiça, no banco. Dois minutos antes do comboio arrancar, o silêncio é interrompido pelos gritos de alguém: reconheço o sotaque espanhol nas palavras pronunciadas em português, “Senhor, por favor, segure a porta aberta. Temos muitas coisas para carregar”. Do lugar onde me encontro não as vejo mas, da minha janela, consigo ver alguns dos volumes, ainda no exterior. Metade das coisas está já dentro do comboio, a outra metade está ainda espalhada pela gare e ao longo do corredor da estação. E o comboio quase a arrancar...

Em frente a mim dois polícias apreciam a cena com curiosidade. Nas costas dos coletes, pode ler-se “Polícia – Esquadra de Segurança Ferroviária”. Miram as mulheres enquanto a recolha, insana e exaustiva, decorre. Discutem algo sobre um guarda-chuva caído ao lado dos carris. Tentam, sem sucesso, tirá-lo com um cassetete. Menos de um minuto para o comboio arrancar e ainda há volumes na gare. A porta abre, os passos apressam-se, a porta fecha, os volumes vão desaparecendo. Ninguém fala, a não ser as duas senhoras e os agentes em missão de salvamento do guarda-chuva. Num comboio cheio de gente, o silêncio é pesado. O silêncio dos que assistem, impávidos, cansados das “suas vidinhas”, perdidos em dramas egoístas, aparentemente distraídos, mergulhados nas redes sociais ou num jogo. E eu, ali, sentada, simplesmente. Sem desculpas.

 

Por fim, o comboio atrasa-se exatamente um minuto – o tempo suficiente para que o último dos volumes seja resgatado. As mulheres conseguem, finalmente, sentar-se. Não me mexo, não me viro. Não percebo porque o faço, ou melhor, porque nada fiz durante aqueles minutos. No meio da minha apatia, porque não me levantei atempadamente? Porque não ofereci ajuda como faço tantas outras vezes? Definitivamente, há dias em que não me orgulho de mim própria. Sinto-me tão idiota. Hoje, não olho nos olhos de ninguém, não alimento conversas, não oiço música, não leio um livro, não consigo, sequer, respirar fundo. Baixo a cabeça e fecho os olhos, quero permanecer invisível até chegar ao meu destino. Respeito o silêncio dos outros. O meu, é de vergonha.

 

Alexandra Vaz

 

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