30.11.16

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Foto: Woman – Enrique Meseguer

 

Minha amiga de uma vida inteira, escrevo-te agora, minutos depois da despedida no teu abraço. Trouxe no meu coração a tristeza que partilhamos, a incredulidade pela inconstância da vida, a dor de te sentir novamente magoada. Trouxe, na alma, tudo aquilo que não te pude dizer. Há menos de uma semana, abraçava-te, efusivamente, pela alegria que de ti transbordava. Em poucos dias, porém, tudo mudou. Oh, minha amiga, que desilusão… Ver-te feliz é das imagens mais lindas e contagiantes da existência, ver o teu coração sangrar é uma das mais duras. Sabes, tudo aquilo que diminui a tua luz, põe em causa a minha fé no mundo e nos outros. Relembra-me que a vida não é justa ou imparcial, por mais que eu ame viver.

Hoje sei que não existem palavras suficientes para aliviar esse peso que carregas dentro do peito. Precisas de chorar, de estar triste, de estar apenas com quem queiras estar, de não explicar nada, de não perceber nada. Sento-me em silêncio ao teu lado porque é tudo o que precisas de ouvir de mim, neste momento. Não te vou dizer que vai passar, que já sobreviveste a tanta coisa, se calhar, muito pior que isto, que és linda de morrer, que o mundo está ceguinho e outros argumentos que, ainda que verdadeiros, te poderiam ferir agora. Hoje quero apenas que te sintas amada. Guardo tudo isto para mim, para to relembrar, com carinho e amor, quando a tua alma sorrir de novo, de coração aberto e sem chagas.

 

Hoje será assim, e se calhar amanhã também, e todos os dias mais de que precises; estarei contigo em todos eles, mas não te vou deixar construir lá casa. Não vou deixar que sucumbas à sombra do que te foi dado, te convenças de que isto é tudo o que mereces e te percas dentro de ti própria. Minha amiga, nesse lugar de dor, a vida é dura para toda a gente. Não permitas que, dentro de ti, viva alguém que não se identifica. Alguém que cruza o pátio, a medo, apenas para observar a lua e se lembrar que ainda existe. Alguém cuja voz nunca se ouve mas que mata todos os sonhos, um por um, sem apelo nem agravo. Sei que isto é mais facilmente dito do que feito, por isso, não te apresso na tua avalanche, não te sugiro, não te atropelo. Só tu conheces o tamanho da tua dor. Mas, amanhã, nesse amanhã que tu sentirás como o dia seguinte à tempestade, quando tudo isto já não doer em ti, não desistas daquilo que sempre quiseste, daquilo que sentes debaixo da pele, daquilo que te faz verdadeiramente feliz. Não percas a esperança da alegria, da cumplicidade, da honestidade. Não te acomodes a um guião onde vives pela metade. Não aceites menos do que dás na totalidade da tua alma.

Sei que te falham as palavras e a compreensão sobre ti própria, amiga da minha vida, mas não te sintas sozinha: na verdade, o que cada um de nós sabe de si próprio, e dos outros, não nos serena na nossa solidão. Quem grita em nós não encontra conforto nas palavras partilhadas com quem não as pode entender. Por isso andamos tão perdidos e desencontrados, num mundo concebido para o imediatismo e para a matéria. A vida parece ser exponencialmente multilingue mas, tristemente, continuamos tão iletrados no campo dos afetos. Contigo, todavia, e durante todos estes anos, nenhuma emoção permaneceu anónima ou ignorada, nenhum sentimento se desvaneceu. Como um farol no meio da tempestade, ter um amigo verdadeiro é manter viva a esperança de um porto de abrigo, de segurança, de compreensão. Não tenho poções mágicas para te dar ou garantias infalíveis de um dia melhor; tão pouco a minha vida pode atestar todas as coisas que agora te digo e em que ainda escolho acreditar. Mas sei que sempre te encontrei. Sempre. E tu a mim. Nas tempestades e nas alegrias.

 

Não sei quem vai caminhar contigo no futuro, quem vai encher o teu coração de amor e serenidade, quem vai encaixar em ti como uma luva, quem vai aos teus sonhos chamar “nossos” e voar contigo, sem medos nem reservas; mas só a esperança te pode colocar novamente nesse caminho. Agora, minha amiga, neste momento em que nada te faz sentido, deixa-me ser o teu farol, eu e todos os que te amamos. Deixa-me abraçar-te na dor, para que a sintas sair de ti, e mantém a cabeça à tona até voltares a sonhar e a respirar fundo. Um dia, acredita, vais sentir-te segura, amada e suficiente. E feliz, por mil razões mas, sobretudo, por teres enfrentado este momento com tanta coragem, apesar do medo e da tristeza. Nesse dia vais caminhar inteira, sem desejar nada do que ficou para trás.

Não percas a esperança, alma minha, não estás à deriva.

 

Alexandra Vaz

 

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28.11.16

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Foto: Smartphone – Gerd Altmann

 

Não perder a esperança significa ganhar mais vida. Sim, mais vida para acreditar no futuro. É no acreditar que é possível, que mora a esperança; no acreditar em algo de positivo ou negativo, tão desejado por alguém, que pode acontecer, para gáudio de quem sempre acreditou. A esperança pode constituir uma força inspiradora e motivadora para quem confia no futuro, proporcionando uma sensação de segurança e estabilidade no plano das ideias, ao mesmo tempo que, pela sua função animadora, pode evitar o desespero, a frustração e o esmorecimento. Saibamos, por isso, aproveitar essa fonte de energia que poderá ser mantida com a força de vontade, perseverança e, sobretudo, no crer que algo é possível mesmo quando, porventura, surjam contrariedades. Nunca deixar cair a esperança, nunca a perder, parece ser a máxima da nossa vida a que devemos fazer jus. Perdê-la, impede-nos de encontrar o rumo certo, o sentido que nos ajuda a orientar a nossa vida, em busca do que tanto se deseja ou não. Embora o sentimento de esperança possa, de algum modo, confundir-se com um sentimento de bem-estar, na medida da confiança que lhe é transmitida durante o seu estádio de expetativa, em relação ao que se pretende realizar ou alcançar - mas sempre será um bem-estar instável, já que à esperança está sempre associada a dúvida do resultado - a verdade é que a sua energia é já por si suficiente para manter bem acesa a chama da vida na procura do que se deseja.

 

De resto, a sábia crença popular nunca deixa de recomendar e mesmo aconselhar: tenha esperança, não perca a esperança. É o aforismo popular tão vulgarmente usado pelo comum dos mortais perante o infortúnio e as vicissitudes da vida.

 

José Azevedo

 

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25.11.16

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Foto: Prague – Sara Vaccari

 

É com uma revolta algo embaraçosa que confesso que perdi a fé na Humanidade. E, não conhecendo mais do que uma ínfima parte desta, sinto-me à vontade para generalizar essa amostra. As pessoas perderam o básico, a essência do que é ser humano. Perderam ou simplesmente têm preguiça de ser aquilo que deveriam ser, não sei bem.

E mesmo que não sejam todas, são em número suficiente para arrancarem às outras a esperança de uma sociedade em que se cultive a verdadeira amizade, convívio, solidariedade, partilha. Porque, se exige esforço, se implica compromisso, se pressupõe alguma responsabilidade, já não cativa, nem motiva. E é assim que, aos poucos, as pessoas desistem das pessoas.

 

Em face desta constatação, dou por mim a olhar para além do céu e a desejar que haja vida para além do planeta Terra e que outras civilizações nos venham ensinar aquilo que nós parecemos ter esquecido.

 

Sandrapep

 

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23.11.16

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Foto: Food - Katerina

 

Palavra singular. Verde, como eu tanto gosto!

Singular, sim, o seu plural é outra coisa, todo um outro mundo. Esperanças, belíssima, preciosíssima, graciosíssima, forma de estar!

Voltemos ao singular.

Haverá expressão mais positiva do que a esperança? Haverá algo mais motivador do que a esperança?

Dum spiro spero - enquanto se respira pode haver esperança. Enquanto à vida, …

Como recentemente li algures, qualquer coisa como isto: a sorte é uma coisa muito boa, convém é que nos apanhe a trabalhar!

Pois é.

A esperança é um excelente ponto de partida. Nem que seja só um ponto de partida. Aquele pedacinho que nos faz agir, mover montanhas, ultrapassar dificuldades, sofrer por algo recompensador, querer conquistar. Sem isso não diria que nada, mas andará lá perto.

 

[sofre mais aquele que sempre espera do que aquele que nunca esperou nada? - Pablo Neruda]

 

Se me ficar pela esperança até ao final do dia, amanhã estarei na mesma, com esperança, menos, um bocadinho que seja, certamente. E depois de amanhã?

Recorrendo à matemática, no limite, se não se passar da esperança, estaticamente digamos, caminharemos, e não é uma contradição, mais ou menos rapidamente ou mais ou menos lentamente, à escolha, para a raiva, o desespero.

Mau conselheiro.

Deixemos então a matemática, para tantos de nós território árido. Passemos para a gastronomia, mais apetitoso. A esperança será uma doçura, mas, só por si, tanto açúcar pode levar ao enjoo, à náusea. Precisamos de juntar algo de ácido ou de salgado para equilibrar ou mesmo realçar os sabores. Assim, a melhor receita talvez seja a de pensar que a esperança, per se, não obtém resultados, haverá que juntar algum pessimismo, relevar possíveis dificuldades, fazer com que este ingrediente nos faça perseverar e ficar mais bem preparados para qualquer eventualidade.

Logo, matematicamente, de novo, pensar negativo, mas agir positivo, deixa-nos aparelhados para concretizar a esperança. Mesmo que seja um restinho.

Chegar lá.

q.e.d.

 

Jorge Saraiva

 

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21.11.16

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Foto: Chest - Alexandra

 

Diz-se que hoje em dia se vende de tudo.

Será que se vende esperança? De preferência em caixinhas, para ser mais fácil utilizar conforme vai sendo necessário.

Quer dizer… Necessário parece ser sempre!

Em caixinhas de tamanhos personalizados conforme os assuntos a que cada dose deve dizer respeito.

Eu cá já não tenho caixinhas, quase. O que vou tendo é réstias de esperança que em tempos transbordaram das imensas caixas, caixinhas e caixotes que tinha. Agora utilizo essa esperança espalhada e reaproveito-a para as mais caricatas situações, de onde eu nunca pensei precisar ter esperança.

Se calhar o mal foi esse: depositei tanta esperança em tanta coisa que fiquei quase a zeros.

Mas, mesmo no final da minha capacidade de esperança, acredito, de alguma forma acredito em tudo o que é bom e simples, descomplicado.

Por vezes complico na tentativa de descomplicar.

Muitas vezes crio algo complexo, para tornar tudo mais simples.

Infelizmente também digo e faço coisas menos boas, para chegar a um fim melhor para mais pessoas.

Afinal, se calhar preciso deixar de ter esperança para voltar a tê-la no que realmente importa.

 

Sónia Abrantes

 

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18.11.16

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Foto: Embrace - Mariekekoene

 

Virá um dia em que nada será como hoje. Um de nós não estará ao lado do outro, onde sempre esteve. Gritaremos os nossos nomes e o silêncio será a resposta. Apelaremos à nossa memória e fugazmente ouviremos as nossas vozes, veremos os nossos sorrisos, sentiremos os nossos cheiros e as nossas carícias, mas as nossas presenças esfumar-se-ão com o passar do tempo. Faltar-nos-á o chão e sentir-nos-emos afundar. Estaremos de mãos dadas com a dor e andaremos por onde ela nos levar. Vazios, não teremos outras vontades que não sejam a de viver essa dor. Mas então, quando tudo parecer terminado, uma certeza nos dará novo alento, a de nos voltarmos a encontrar!

Voltaremos a encontrarmo-nos!

Nada sei desse novo encontro. Não sei quando, o momento não depende de nós, nem como, nem onde, não determinamos as circunstâncias, mas sei que voltaremos a encontrarmo-nos porque esse é o nosso desejo.

Tu ou eu estará à espera na chegada. Eu ou tu estará à espera da partida.

E, só por que temos esta certeza, eu não morrerei contigo, e tu não morrerás comigo, viveremos na esperança do reencontro.

 

Cidália Carvalho

 

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16.11.16

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Foto: Girl – Mihai Paraschiv

 

Um dia (que dia!) senti-me estranhamente triste e angustiada (penso que todos nós temos dias em que a tristeza nos visita, sem percebermos muito bem o que se está a passar), a angústia incomodava, empurrava-me para trás, não me deixava seguir com os passos no caminho que eu pretendia. Pensei em pegar em mim ao colo. Foi isso que fiz. Peguei em mim ao colo e pedi ajuda, na “esperança” que a pessoa a quem pensei pedir ajuda me ajudasse mesmo, e na “esperança” que no outro dia conseguisse seguir com os meus passos para o caminho que pretendia. A nortear todo este processo o que existia: anedonia, astenia… enfim um conjunto de “estranhos” (sim, para mim eram estranhos) sintomas. Mas, quando pegava em mim ao colo (sim, porque peguei várias vezes), existia um movimento que me dizia que valia a pena. Era difícil, muito difícil! Sentia o meu peso nos meus braços, não tinha muito sucesso em adormecer-me nem a alimentar-me, mas eu sentia que valia a pena insistir, porque o movimento que eu fazia nestas tarefas era acompanhado de “qualquer coisa viva”. Eu penso que era um sentimento de esperança, não sei.

 

Pouco a pouco deixei de pegar em mim ao colo e passei a andar sozinha. Bem sei que foi um processo lento, bem sei que com pequenos avanços, bem sei que de vez em quando tinha de voltar a pegar em mim ao colo, mas aquele sentimento (o de esperança, penso eu) nunca me abandonou.

A vida deve (tem?) de ser vivida com este sentimento e, nos momentos mais difíceis, ele deve (tem?) de estar presente. Comigo resultou. Não sei se um dia voltará a resultar, mas tenho esperança.

 

Ermelinda Macedo

 

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14.11.16

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Foto: Smile – Nicolás Borie Williams

 

Rodrigo já recebeu diversas heranças, ao longo da vida. Herdou de várias pessoas: de vários tios e tias, dos seus pais, de uma irmã. Considera-se por isso um homem rico, já que valoriza muito o legado recebido, pela sua qualidade. Aquilo que é hoje, sabe-o, é o resultado do estar com eles e do que deles herdou, o ser e o estar, as atitudes e os comportamentos, uma boa parte da sua visão do mundo, a forma como se relaciona com o mundo e com as pessoas.

Heranças teve que não foram fáceis. Hoje percebe-as como heranças, como boas heranças, mas tempos houve em que a inquietação foi grande, por conflitos, por desentendimentos, por incompreensões. À época, tudo parecia confuso e incompreensível, mas afinal havia um sentido, um conteúdo impercetível que hoje, com a distância do tempo, se tornou claro e valioso.

Heranças, das outras, das tradicionalmente consideradas como tal, as desejadas e cobiçadas, as materiais, também as teve, embora poucas, mas essas revelaram-se um pesadelo, a fonte e o foco de experiências assaz desagradáveis, ao exporem o lado sombrio, ou negro, das pessoas.

 

Por isso Rodrigo, que é um homem de fé, em paz com morte que não deseja mas aceita, costuma dizer que a sua herança são os seus mortos e trá-los sempre consigo.

 

Fernando Couto

 

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11.11.16

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Foto: Learning – Sasin Tipchai

 

A comunicação formal e ativa por meio das redes sociais é o percalço do mediatismo e da mediocridade. Trata-se do exercício de descontração da especulação, abordar factos alheios à sua esfera, de forma destemida, sem possuir fundamentos, não se permitindo questionar e, sucessivamente, ir buscar respostas construtivas. Uma comunicação digna de realce deve ambicionar como target um mercado distinto e diferenciado, devendo a priori resolver o conflito existencial da interpretação do tempo e espaço, da objetividade dos factos e do seu posicionamento face à matéria em análise.

O passado, o presente e o futuro, são tempos cronológicos soltos que se desenrolam de forma sincronizada formando uma linha sensível devido ao seu caráter de continuidade. A distância que os separa não existe no plano temporal, somente no espaço existencial das pessoas, principalmente as que têm o relantim do relógio acelerado.

No mundo da moda, vasta maioria desapega-se do trabalho que exige esforço físico e/ou mental, envolvidos com o calor da zona tropical propagado pela brisa do índico. O prestígio, qualidade que constitui desiderato de todo o ser humano, é deveras laborioso e sinuoso de tal força que muitos conspiram, cometer atropelos, tal fenómeno social do encurtamento de rotas, caindo na fácil tentação de cometer o mal para o ganho fácil, desconsiderando o essencial: competência, ética e mérito.

 

O prestígio é um presente muito valioso, é o diamante que todos gostariam de receber mas não querem merecê-lo. Com ele aprende-se a ser intenso e a desafiar constantemente um novo e próprio modus vivendi, as leis da física sendo assim matéria-prima para os cientistas sociais e não só, constituindo-se acervo informacional para a escritura de um futuro best seller.

Atividades do quotidiano que designaria de empreendedorismo social, como é o caso do voluntarismo, são de mandatos irrevogáveis com renovação tácita, pouco atrativos no curto prazo devido a isenção de uma remuneração fixa, adotando uma lógica de remuneração dos fatores em regime de sucess fee associado à incerteza da sua eficácia. Elas asseguram, antes, o acesso a networking ou capital social, fonte de vantagem competitiva sustentável da nova era.

Nesse ecossistema a avaliação de desempenho é contínua e em tempo real, a sua versatilidade e exposição permitem comunicar-se com um público diversificado e vasto que futuramente irá assegurar vantagem de fazer-se conhecer, permitindo que se evolua a passos largos à omnipresença e até, porque não, a unanimidade em modelos de governação inclusivos.

A pessoa esclarecida sabe a nítida diferença entre espaço e tempo e vive como se fossem iguais. O seu ofício não é tratado com extrema modéstia sujeitando-se a estabelecer limites temporais para a sua implementação, o que colidiria com a entrega ao trabalho, compromisso com excelência e orientação no resultado. O seu foco é o objetivo de curto e de longo prazo, não é ao acaso que a vitalidade do setor produtivo requere que seja altamente competitivo e adote esse modelo operacional. A gestão por objetivos exige assim maior rigor, disciplina, motivação e competência.

Voltando à intensidade, alguém terá dito que apesar de teoricamente estar em igualdade de circunstância, desencorajava-se a pretender um papel de direção de um organismo, por exemplo, quando existem técnicos sem conflitos de interesse que possuem igual ou superior habilidade técnicas mas, sobretudo, conhecem melhor os contextos e histórias à volta, elementos diferenciadores na liderança de ambientes com uma significante diversidade cultural.

Dito isto, destaca-se a máxima de Mahatma Ghandi segundo a qual “O melhor presente que um pai pode dar ao seu filho, é educação”. Somente pessoas preparadas para os desafios do amanhã saberão brilhar em ambientes adversos.

 

António Sendi

 

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9.11.16

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Foto: Girl – Adina Voicu

 

Eu herdei os olhos do meu pai. A boca também. E com o passar dos anos eu percebo que herdei muito além das suas caraterísticas genéticas. Reconheço em mim alguns traços de personalidade que, na adolescência eu abominaria, pois imaginava ser tão diferente dele... Naquela época, não era capaz de reconhecer em mim alguns “defeitos” tão parecidos com os do meu pai e menos ainda, algumas qualidades.

Na maioria das vezes, quando se pensa em “herança”, vem logo à cabeça, propriedades, bens materiais e ainda uns pouco afortunados que herdam dívidas também. Pensamos pouco sobre o quanto herdamos dos nossos pais ou daqueles que estiveram presente em nossas vidas, na nossa formação como indivíduo. Acho que há uma tendência em culparmos a nossa “herança” pelas mazelas da vida e atribuir o nosso sucesso a nós mesmos. Mas talvez esqueçamos que, até os defeitos dos nossos pais, nos fazem ser quem somos. Hoje, mais madura, sou capaz de perceber que herdei do meu pai, coisas boas e ruins, e reconhecendo mais claramente em mim esses “defeitos”, tento combatê-los (muitas vezes sem sucesso).

 

Não tenho filhos mas se os tivesse, penso que os educaria de forma parecida com a que meu pai me educou, ainda que em alguns momentos tenha passado por sofrimento (típico dos adolescentes), hoje percebo o quanto aquelas exigências todas fizeram diferença na minha vida.

Vejo que muito além de qualquer bem material, herdamos hábitos (bons e maus), aptidões e valores. Claro que quando nos tornamos adultos podemos sempre refletir e decidir sobre o que queremos herdar. Sobre a genética não há poder de escolha, mas talvez a grande diferença da vida esteja em como lidamos com aquilo que nos foi deixado.

 

Leticia Silva

 

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7.11.16

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Foto: Brothers – Adina Voicu

 

A herança pode ser uma coisa fantástica, se falarmos daquelas comédias em que alguém fica milionário com uns milhões vindos de um tio-avô esquecido, ou de um primo em sabe-se lá que grau. Mas isto é o lado superficial ou fútil da questão, aquele que não é importante nem determinante para as nossas vidas.

A verdadeira herança é outra coisa, é quem somos e como somos e a compreensão que temos do mundo por causa daqueles que nos criaram e daqueles que passaram pelas nossas vidas.

Nem sempre são coisas boas, porque os outros são como nós, ou seja, não são perfeitos. Para complicar, a herança não é só feita de palavras e gestos. É muito mais o resultado do que observamos enquanto crescemos, a soma inexata dos exemplos que nos foram oferecidos enquanto crescemos e nos moldamos.

Interessa mais o que nos dizem ou o que fazem e o que nos fazem? Tem mais impacto o que vemos ou o que ouvimos? Há situações com um impacto tão profundo nas nossas vidas que nunca mais dele nos livramos.

Um filho que é fisicamente maltratado ou verbalmente abusado, como se torna numa pessoa meiga e gentil? Uma filha com uma mãe ansiosa aprende onde a ser calma e tranquila? O que nos ensinam pais, avós, tios, mentores e outros que tal, para nos preparar para a vida, a nossa vida? Não a que imaginaram ou esperaram para nós mas aquela que vivemos porque somos únicos e temos sonhos próprios, esperanças diferentes, aquela que nos faz bater de cara na parede muitas vezes, porque tem que ser e na realidade só aos trambolhões aprendemos qual o caminho que desejamos.

Herdamos manias, tiques, agimos muitas vezes de formas que nos tolhem, porque não podemos desiludir quem nos ajudou a crescer. Dizer não, ou apenas nada dizer, a quem nos fez nascer, nos mudou fraldas e deu a primeira papa, é muito duro. Sentimo-nos a falhar às suas expetativas e a ser mal-agradecidos. E quando a vida é madrasta e nem a infância foi simpática e amena, ainda assim estamos sempre em busca dessa aprovação. Como se sem ela não fossemos nada e nenhum dos nossos passos tivesse valor. Como eternas crianças, bem lá no fundo.

 

Aquilo que mais tenho procurado é ser eu mesma e viver a minha vida como desejo; é um caminho arriscado porque estamos mais expostos a críticas. E quando falhamos? Como dizia a minha avó, Deus nos livre e guarde. A dado momento pivotal da nossa passagem pelo planeta, temos mesmo que decidir se conseguimos, ou não, ser a ovelha negra da singularidade familiar.

Não tenho como negar que muitas recordações aconchegantes se estendem pela minha infância e adolescência; e depois há outras mais complexas e que, falando claramente, dispensava. Mas tudo isso é a minha herança e a partir dela já me construí e reconstruí inúmeras vezes. Não só com sucessos, nem sempre com sorte, mas com uma profunda convicção.

A nossa herança é tudo o que nos deram, mais do que tudo o que nós damos aos outros. Os que nos amam devem compreender isso. Os pais devem saber quando passar de redoma para malha de segurança; devem saber quando nos largar ou quando nos apanhar. Os irmãos devem saber quando passar a amigos em vez de rivais. O resto da malta deve saber quando nos deixar voar e respeitar a nossa essência.

Não é nada fácil, eu sei. Mas o Amor genuíno é assim.

Amor sem aceitação, não é amor. Mesmo quando parece.

 

Laura Palmer

 

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4.11.16

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Foto: Cemetery - 3345408

 

Algumas considerações acerca de heranças (de alguém que não percebe mesmo patavina do assunto):

 

Herança Familiar - Complicado, para afirmar o mínimo. A primeira entrada no Google remete-me para uma página da DECO. Dou uma leitura rápida no texto explicativo que acompanha uma foto de uma mão com um porta-chaves em formato de casa, deitado numa palma aberta. Património. Herdeiros. Sucessão. Bens. Direitos. Dívidas. Funeral. Atos religiosos. Testamento. Administração. Liquidação. Perfilhar. Deserdar. Quota indisponível. Aceitação tácita e Deus me livre. O castigo que a morte trás aos vivos não acaba na dor emocional. Evidentemente que nem todas as mortes são iguais e, em muitos casos, o consolo do coração serve-se do que se deixou. Noutros porém, tal como refere o texto citado, a inexistência de um seguro de vida é basto motivo para desconsolar e responsabilizar quem cá ficou. Sim, já ouvi afirmar: “quando me for, pelo menos não deixo a ninguém as minhas contas”. Reconheça-se que, como último gesto altruísta, a coisa não está nada mal. Há quem faça muito menos naquela tendência final de acertar contas com a vida e com os vivos.

 

Herança Patrimonial - Advém da anterior ou é uma parte da mesma. Confesso que não sei. Julgo ser TUDO aquilo que se deixa. Acho que, existindo diferença para a primeira, este TUDO não tem de advir de um familiar. É o caso típico e frequente da fantasia, em que aquele milionário sem herdeiros deixa em testamento tudo ao seu fiel mordomo. Isto, claro, depois da namorada, 40 anos mais nova, ter gozado o seu devido quinhão.

 

Herança Económica - Soa-me a algo político ou empresarial. Ou a algo semelhante a bode-expiatório. No caminho diário para o trabalho ligo sempre o rádio na Antena 1. Tenho a tendência masoquista (claro que sou português) de ouvir as notícias da atualidade, como se gosta de dizer. Evidentemente que as noticias são as da atualidade. As que já foram notícias, na sua decrepitude tornaram-se história. Mas já estou a divagar. Parece-me então familiar a expressão. A sua tradução em bom Português é (independentemente da cor da boca partidária que a produz), “está tudo uma merda mas a culpa não é nossa”.

 

Herança Cultural / Social - Peço desculpa por misturar as duas, mas as fronteiras das expressões são de difícil destrinça. A malta que pôs um gato dentro de um pote, pôs o pote no alto de um poste, pôs a base do poste em chamas (mais ou menos isto, perdoem-me qualquer imprecisão de tão sublime quadro tradicional) provavelmente será um exemplo espetacular do primeiro caso. Mais espetacular do que o próprio espetáculo contudo, terá sido o facto de pelos vistos ninguém ter sido condenado por tal. Ora aí está talvez um bom exemplo do segundo caso. Já vem de trás no nosso país (herança social) que a vida dos animais não vale um chavo. Vá lá que isso aparentemente está a mudar. Exceto quando é a RTP a fazer uns trocos e “serviço público” com a transmissão das touradas.

 

Herança Genética - É como um encontro às cegas. Com sorte nunca mais o esqueces e até pode ser o ponto de viragem na tua vida romântica. Com azar nunca mais o esqueces e até pode ser o ponto de viragem da tua vida romântica. Ou como a roleta-russa. Mas já perceberam a ideia. Já aqui o escrevi várias vezes mas aqui vai mais uma. Trabalho há 15 anos com pessoas com deficiência intelectual e/ou multideficiência. O que posso dizer? A herança genética é tramada. Síndromes, mais síndromes e mais síndromes. Cromossomas, tinto, coca. Má nutrição, bagaço, cavalo, tabaco. E por aí fora. Diagnósticos difíceis de pronunciar, muitos deles com nomes de uns senhores estrangeiros. Não interessa muito. O rótulo é o mesmo, no final.

 

Mas aproveito para deixar à vossa consideração o seguinte: o rótulo não tem de existir mais que o necessário, dado que rótulos todos temos. Olhem para todas as pessoas como isso mesmo. Pessoas. Umas precisam de mais apoios e outras de menos. Todos temos direitos e deveres. Não deixem que a herança cultural e social de olhar para alguns como “coitadinhos” tolde o vosso juízo crítico da justiça social e relacional.

 

Herança Indivisa - Não faço ideia do que se trata. Nem quero saber. A não ser que dê jeito saber caso herde alguma coisa que se veja.

 

Rui Duarte

 

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2.11.16

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Foto: Mother - Unsplash

 

Durante anos questionei-me a que lado da família me assemelhava mais, ao contrário da minha irmã mais velha que herdou o feitio e as feições do nosso lado paterno, e da minha irmã do meio que herdou a personalidade do nosso lado materno, nunca consegui identificar quer em mim quer no meu irmão, semelhanças específicas com nenhuma das partes. Com o passar dos anos fui-me dando conta da “hibridez” da minha personalidade, ao mesmo tempo que encetei uma corrida contra o tempo para puder trabalhar tudo aquilo que herdei e que não gosto ou me faz mal.

Existe uma linha muito ténue entre aquilo que herdamos e o que queremos herdar, seja em termos de caraterísticas, ou em termos de código genético. E nesse contexto a genética – que é a mais universal e legítima das heranças - tanto pode maravilhar como pode condenar.

A genética é a mais ambígua das heranças: por um lado recebemos as caraterísticas menos boas, as doenças e até as situações mal resolvidas dos nossos ascendentes, que inevitavelmente, acabam por desaguar em nós. Por outro lado, exibimos com orgulho as qualidades que nos passam, e que tanto apreciamos: mesma cor de olhos, a mesma frontalidade, a mesma humildade, etc., e no outro reconhecemos traços físicos e de personalidade que nos fazem recordar, com alegria, quem já não está e assim louvar a abençoada genética.

É então que surge uma necessidade de divisar aquilo que somos fruto do que herdamos e aquilo que nos construímos para ser, em alguns casos combatendo o que não queremos ser.

 

No entanto, meus caros, muito mais importante do que preocupar-me com aquilo que sou através dos outros e do que sou através da minha individualidade, é trabalhar o meu todo para deixar o melhor de mim à Herança Maior que recebi e que deixo ao mundo: o Sol em forma de um rapazinho que me foi legado. O meu filho sim, é a maior e mais valiosa de todas as heranças que algum dia podia ter sonhado, e, sem dúvida, a mais nobre que posso deixar ao mundo, não porque tem uns incríveis traços de personalidade e jeitos familiares que me transportam no tempo, mas porque me resgatou às sombras, fez crescer em mim a necessidade de ser melhor a cada dia, e porque me ensina mais do que algum dia sonhará.

 

Ana Bessa Martins

 

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