29.7.16

Mouth-GianniCrestani.jpg

Foto: Mouth – Gianni Crestani

 

Diz-se que existem três coisas que, quando partem, nunca regressam, designadamente a palavra proferida, a pedra lançada e a oportunidade perdida. As caraterísticas materiais e formais destes objetos, em sentido restrito, conferem certa qualidade que adjetiva a ação, assim, dependendo do impacto causado, nada garante que haja uma segunda vez, a menos que o sujeito a crie para se retificar e seja entendido como tal.

Todavia, é inevitável que ocorram estes incidentes, quer seja por ignorância, desinteresse, ou falta de atenção, nalguns contextos mais propensos à aceitação do risco a prediposição para errar é, mais do que a assumpção da natureza humana, uma abertura para o aprendizado num processo de transformação da matéria de forma criativa. O caminho para a inovação ou desenvolvimento implica cometer erros através dos quais aprendemos a lição e melhoramos a nossa prestação nas ocasiões futuras até acertar, numa sequência de tentativas incertas.

Numa aldeia cada vez mais global, em que o espaço transcende a dimensão física, perdem-se as referências e conteúdos locais devido ao imperialismo de protótipos externos que ganham relevância devido ao descohecimento ou fraca consolidação dos modelos locais. Essa baixa compreensão e desinteresse pela cultura local é campo fértil para a aceitação de ideias rotuladas de ocidentais por alegadamente serem melhores que as locais.

Uma ideia deve ser tratada como tal, um ponto de partida, exigindo algum rigor, profundidade e cuidado, o que implica uma apreciação prévia antes de passar a fase de aceitação ou refutação. Pelo método científico o pesquisador, partindo de uma inquietação válida e conhecida, define pressupostos estruturalmente consistentes e com base em instrumentos robustos recorre ao campo para recolher dados imparciais com vista a sua validação face aos pressupostos previamente definidos, e assim poder emitir uma opinião materialmente relevante.

Para alguns a especulação alimenta a ânsia pela verdade, para muitos a especulação confunde-se com a verdade, pois não se permitem aprofundar as matérias muito menos despender um processo mental, nomeadamente de investigação, explorando a arte de pensar nas dimensões de perguntar e de duvidar, e daí formar uma opinião sólida e própria que resulta da consolidação do conhecimento gerado neste processo.

 

É interessante notar a força da especulação que ganha supremacia num ecossistema em que o conhecimento não é prioridade, à medida que for sendo repetida de forma ressonante ofusca a intuição humana, ganha contornos de verdade e levará algum tempo até que a verdade absoluta se sobreponha e recupere o seu lugar.

Não é de estranhar que vulgaridades encobertas pelo populismo tenham alguma preponderância relativamente à verdade, é o mundo de quem fala mais alto ou mais depressa. A franqueza com que é proferida uma verdade com algum nervosismo à mistura fragiliza a antítese, a menos que haja um juízo competente, independente e imparcial para neutralizar a subjetividade e focar-se no objeto avaliando não só as palavras, mas também o contexto em que se insere e a linguagem corporal. Com algum ceticismo diria que, enquanto houver espaço para a manipulação do processo, os meios podem justificar os fins no curto prazo, mas a verdade revelar-se-á.

 

António Sendi

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 09:30  Comentar

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