30.10.15

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Foto: Our Planet On A Palm – Виталий Смолыгин

 

O Tempo… de que matéria é feito o Tempo? Conseguiu a ciência demonstrar que o tempo se esgota? Porque nos rendemos tanto perante um Tempo se este é eterno? Porque corremos tanto contra um Tempo, se nós somos o próprio Tempo?

 

Tempo é conceito… um signo criado pelo Homem ao qual se atribuiu um significado. Será do Tempo passado que sentimos saudade? É do Tempo futuro que temos medo? Um medo que nasce no Tempo presente com medo do desconhecido…

 

O Tempo não existe… existe eternidade, e a eternidade não se explica… a eternidade sente-se… sintam a eternidade em cada respiração profunda… em cada brisa… em cada flor que renasce… em cada estrela… em cada gota de água… em cada um de nós…

 

Todos nós somos a Eternidade… todos nós somos fruto da criação…

 

O Homem não é religião… o Homem não é Raça… o Homem não é Crença… o Homem não é Luta… Sofrimento… Dor… Vingança… Diferença… o Homem não é Superior…

 

Se superioridade existe, o Homem habita neste momento o mais baixo patamar de inferioridade… o mais baixo patamar da intolerância, da fragmentação, do caos… o Homem que julga tudo controlar… mas o Homem não é Deus… o Homem é uma criação… é energia… é espírito…

 

Ao Espírito foi dado um corpo… ao Espírito foi dada uma visão… e o Homem deixou-se cegar… deixou-se perder pelo caminho… deixou-se adormecer… deixou-se afastar da eternidade…

 

Liguem a televisão… procurem por informação… o que encontram? Encontram o fruto da cegueira… encontram o fruto do desvio… será que somos apenas isto? Será que somos apenas Guerra? Corrupção? Racismo? Xenofobia? Segregação? Ego? Dinheiro? Poder? Inveja? Rancor? Raiva? Ambição? Futilidade? Superficialidade? Aparência?

 

Agora saiam lá fora… tentem encontrar-se algures por entre este mundo que tornamos louco e insuportável… viajem até ao centro de um jardim… desapareçam por entre a Natureza… desliguem-se dos telefones… desliguem-se da Internet… desliguem-se do que é material… e agora observem o Mundo sem a venda… observem o Mundo não apenas com os olhos físicos mas com o olhar da Alma…

 

Façam a pergunta a vocês mesmos… seremos apenas isto? Olhem em redor… olhem para tudo o que nos foi oferecido… olhem para a vida que nos rodeia… seremos tão ignorantes ao ponto de acharmos que somos o centro do Universo? Que perante esta imensidão de vida e energia somos os únicos iluminados a quem foi dada a bênção da vida? Será tudo isto um enorme acaso? Porém, acaso com uma complexidade que ultrapassa a compreensão Humana… e seria este o nosso desígnio? Tanta vida paga com Destruição? Tanta vida desperdiçada com Ódio?

 

Temos que ser mais do que isso… temos que voltar ao nosso caminho… temos que recuperar a visão… temos que procurar incessantemente a resposta para a pergunta “O que somos?”, “Qual o nosso papel nesta imensidão?”, “Para onde vamos”… e para onde vamos não existe Tempo… existe amor, um amor que não é mensurável... uma compaixão inqualificável… um sentimento de que todos estamos interligados e fazemos parte de um todo… todos somos um… quando o corpo físico se extinguir ficaremos apenas nós… da forma que realmente somos… sem máscaras… sem filtros…

 

Mas enquanto não despertamos para a eternidade, porque não começar já por treinar o Amor? Porque não elevar-nos a algo melhor?

 

O Tempo… esse não existe, porque a eternidade… somos nós…

 

P. Melo

 

 

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28.10.15

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Foto: Curl Of A Low Tide Wave – Circe Denyer

 

É engraçado como o tempo, por vezes, é difícil de contar. Como às vezes parece passar tão depressa; outras tão devagar. Porque o que é o tempo, afinal? Será de facto mais que uma ilusão humana? Ou que importa, de todo, procurar distinções entre ilusão e realidade, uma vez que nunca saberemos mais do que a nossa perceção do mundo e que nunca nos preocuparemos com mais do que o que sentimos a cada momento?

Das reflexões sem fim pelos recantos da imaginação, da razão, ou de tudo o mais que nos guie, emerge então a fantasia. Eu diria que em relação ao tempo – e ao modo como ele nos comanda, com tanta força, sempre que procuramos ser nós a comandá-lo – estas meditações eternas podem trazer alguma leveza. Isto é: independentemente da natureza real ou ilusória do tempo, ele mostra-se invariavelmente algo tão maior que nós próprios! Sejamos nós um pequeno frágil boneco nas mãos da grandiosidade do tempo, ou um mar de complexidade que constrói ideias abstratas de algo totalmente ilusório – ou nenhum dos dois aspetos, ou ambos ao mesmo tempo – o tempo, em si (seja ele o que for) ultrapassa tão grandemente a nossa consciência…

Porque não sabemos dizer o que é o tempo; não sabemos vê-lo nem senti-lo. Poderão dizer-me, então, que estou errada e que sentimos claramente o tempo quando corre por entre nós. Mas isso que sentimos são os movimentos do tempo e não tanto o tempo em si.

Porque seja a natureza do tempo aquela que for, é algo que nos ultrapassa em tal grandiosidade! Mencionei já que estas reflexões sobre o tempo nos podem trazer uma certa leveza? É verdade – porque quando nos deparamos com algo tão maior que nós próprios, todo o peso doloroso da nossa existência dissipa- se subtilmente com o sopro do vento. O que resta então? Entrega.

Pouco importa se algo do que digo é verdade se não. Tudo é como o tempo – ilusão ou realidade, só a sensibilidade das nossas perceções nos comanda – e logo corremos constantemente dentro do nosso próprio olhar. No entanto, quando a visão se torna turva e o corpo pesado, podemos parar e contemplar o tempo. Podemos, por um momento, escolher leveza, entrega, liberdade.

 

Isabel Pinto

 

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26.10.15

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Foto: Despejando Cerveja – Petr Kratochvil

 

Duas horas e meia de sono na noite anterior e o torpor adensa-se. Os olhos querem fechar mas estou num país estranho. Por um qualquer motivo, até para mim indecifrável, sentei-me na esplanada de um bar. O dia está a fechar e os ingleses, vermelhos, começam a jantar. Para mim, latino, é cedo. Demasiado cedo. Para comer ou ir dormir.

À minha frente tenho uma mesa para quatro, mas estou só.

A cerveja local, de um litro, engole-me a visão, aliada a esse cansaço que me transporta para a semiconsciência.

Reparo num canteiro que tem uma árvore. Sofre com a poluição de uma zona balnear famosa. No seu centro a árvore não abana com a brisa gentil. Passa um Opel Corsa e as plantas vergam.

Dou-me conta que passou um momento único na minha vida. Precioso por isso mesmo, mas inútil daqui por uns minutos.

A vida é isto mesmo.

Coisas que não se repetem, e que na maior parte das vezes não valem nada.

A não ser que não tenhas dormido.

E que o álcool ajude.

 

Rui Duarte

 

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25.10.15

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Foto: York City View – Petr Kratochvil

 

De repente o meu corpo voa em queda livre a grande velocidade… a força do ar comprime o meu rosto deformando-o… em segundos, os pontos distantes ganham forma… a distância vertiginosamente encurtada, desenha os vários contornos das copas das árvores, dos telhados… a agitação da cidade que acorda torna-se nítida e os ruídos mais percetíveis à medida que me aproximo do fim… o impacto derradeiro: um espasmo doloroso percorre todo o corpo fazendo-me saltar na cama…

Acordo sobressaltada, desorientada, os cabelos molhados, o corpo a ferver, húmido de transpiração da brutal emoção final. Sento-me na cama, surpreendida com este sonho em que ponho termo a uma vida, a minha própria vida. Nunca a ideia de suicídio me tinha surgido de forma tão pungente, tão real!

Essa ideia de uma aparente liberdade, esse ilusório poder sobre a própria vida, fez-me pensar…

A ideia de suicídio afigura-se como uma remota possibilidade de comandar a vida, interrompendo-a. Percebemos que temos a capacidade de decidir antecipar um fim que desde o momento do nosso nascimento já é certo, embora num tempo incerto.

Se encararmos essa ideia apenas como uma possibilidade, ou uma fantasia, e não como uma alternativa de ação, ela passa a ter o efeito placebo, que de certa forma ajuda a superar e ultrapassar as dificuldades. Tal como a ideia de ganhar o euromilhões nos abre a possibilidade de sonhar com uma outra vida de luxos obscenos, sem arrependimentos.

Percebi o poder que temos dentro de nós. E percebi que os desafios se desfiam quando os encaramos com toda a força e energia que temos escondidas dentro de nós, sem nos darmos conta.

Levantei-me da cama, espreguicei-me languidamente e sorri com gratidão para o dia que surgia, com novas aprendizagens e desafios para desfiar.

 

Tayhta Visinho

 

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23.10.15

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Foto: Woman And Bicycle – George Hodan

 

Durante anos repeti para mim própria que, se tivesse dinheiro, compraria tempo, nas suas mais distintas formas, para poder usufruir da família, dos amigos, para cuidar de mim, compraria tempo só para estar.

Mas a epifania aconteceu, finalmente, e percebi que afinal não depende apenas do dinheiro, já que não precisamos de comprar uma coisa que temos, no preciso momento, só que, de tão denso e ocupado, não nos damos sequer conta disso. O tempo, essa preciosidade que já temos, foge-nos a um ritmo frenético.

 

É preciso “destralhar” o tempo. Sim, exatamente, “destralhar” o tempo. E isto pode ser feito de diversas formas, desde o simples pormenor de trocar o sítio dos pratos para os colocar junto da máquina de lavar loiça, para que arrumar a loiça demore menos tempo, até à organização geral e pormenorizada da casa, para não perder tempo à procura… de uma caneta. Arrumar o exterior para alcançarmos o interior. É necessário fazermos uma apreciação detalhada daquilo que realmente precisamos. Será que precisamos de dois cortadores de pizza, de 6 pares de calças pretas, dos naperons que nem sequer usamos, mas que foi a Avó que deu?

Dito assim, parece confuso. O que tem a ver uma casa organizada com o tempo? Tudo. Aliás, creio que é até uma excelente metáfora para a organização da nossa mente. Recentemente aprendi que “destralhar” uma casa é, sobretudo, um processo emocional. Não é a qualquer altura que simplesmente decidimos desfazer-nos dos “monos”, porque encerram em si memórias e emoções, boas e más. Cada objeto contém uma memória, uma época. Por isso é que organizar uma casa é um processo tão complicado e tão emocional; é necessário avaliar se cada objeto é necessário ou se nos faz feliz. São essas as duas regras básicas para “destralhar” uma casa – e só a partir daí é que se pode decidir se vai para o lixo ou se fica.

 

Paralelamente, não é a qualquer altura que conseguimos aliviar a nossa mente das mágoas do passado, das saudades de momentos e de pessoas, da ansiedade do que ainda não aconteceu, dos medos e dos apegos – os tais apegos que, segundo os budistas, não nos deixam seguir o verdadeiro caminho da felicidade. E todas estas emoções também nos consomem tempo. Tempo que poderíamos capitalizar para nós.

Seria fácil descartarmos as nossas emoções, mágoas e angústias, mas infelizmente não trazemos um interrutor na nuca para o colocarmos em off sempre que a tristeza teima em aparecer e as mágoas teimam em queimar-nos o peito. Mas se conseguirmos chegar àquele ponto em que o nosso exterior e o nosso interior estão com as prateleiras devidamente arrumadas e etiquetadas, com tudo no sítio certo, onde com apenas o olhar encontramos o que procuramos, porque as tralhas foram à vida, perderemos então menos tempo, quer nas tarefas domésticas, quer a dar vida nos monstros azuis que nos povoam o pensamento e nos devoram a alma.

 

“Destralhar” o tempo consiste, sobretudo, num esforço incrível para deixarmos de perder tempo a pensar no tempo perdido e seguir em frente, em não perder tempo a pensar no que poderia ter sido e afinal não foi, consiste em perder o hábito de começarmos os nossos raciocínios ruminantes por “se…”, porque o presente vive-se com vista no futuro.

 

Difícil, muuuuuuito difícil, não? Para chegar a esse ponto – a esse nirvana - só focando nos ganhos: PAZ, mais disponibilidade para nós e para os nossos, mais tempo para estar… só para estar…

Eu acredito nisto, e um dia vou lá chegar. Por enquanto ainda tenho metade da casa por desocupar e não vou parar até fazer plenamente parte desta minha vida que se desenrola à minha frente e até conseguir estar comigo. Só estar…

 

Ana Martins

 

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21.10.15

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Foto: Green Alarm Clock – George Hodan

 

Há muito tempo (ou talvez há não tanto tempo assim), pensava que o tempo era insignificante. A idade adulta estava longe e a velhice era uma miragem. Tudo o que me fazia lembrar a existência do tempo era o despertar, pois daria tudo por mais duas horas a dormir e os minutos que faltavam para a campainha tocar no secundário. Mas o tempo ensina que ter tempo é um presente. O mais valioso dos presentes. Não existe bem algum que nos dê mais uma inspiração quando chega a hora de partir.

Hoje já sinto o tempo. E já não acho que seja traiçoeiro. Nem inimigo. Nem rápido. Nem lento… O tempo é o meu companheiro de viagem… Espelha o que sou, lima as arestas, diz-me como caminhar, ora dando passadas rápidas, ora dando passadas vagarosas. Às vezes obriga-me a parar… Também me ajuda a esquecer e a rir-me do passado, ajuda a colocar todos os acontecimentos em perspetiva. Leva-me a aceitar o inaceitável e é um bálsamo para a dor. O tempo é a minha bolha nesta existência. Permitiu-me estar aqui e vai levar-me um dia para um lugar sem tempo… E por ser tão intimo meu, não o posso deter com as mãos. Porque eu sou o tempo! E o tempo de existir é o agora.

 

Sara Almeida

 

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19.10.15

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Foto: Curtain - Steve Linster

 

Deste-me a mão, no pequeno-almoço, e falaste-me do amor, da plenitude, do arrependimento e de sonhos. Disseste que o tempo estava do nosso lado e que tudo farias por nós, ainda antes de eu bocejar. Sorriste mas parecias, ao mesmo tempo, inquieto. Não precisas de dizer-me coisas bonitas só porque não estou bem, não tenho expetativas desmedidas nem sonhos hipotecados. Viver, tal como havias sugerido, não é assim tão mau. Tinhas tanto medo desses sonhos, lembras-te? Não os espero e não vou pedir-tos sorrateiramente, portanto, sossega. Foge-te o sorriso, pareces triste. Dizes que agora, afinal, precisas de sonhos. Precisas de saber que isto tudo não é em vão – alguma vez o foi? Fico confusa. Oiço-te sem te escutar, olho-te sem nos sentir. Não te entendo. Vejo medo nos teus gestos. Não consegues ler-me a alma, desde que me perdi em mim própria, mas sentes a minha distância. Tens medo, eu sei, reconheço esse patamar, mas não consigo sacudir-te daí para fora. Não sei onde estou. Não sei quem sou. Não sei o caminho a seguir. Tenho um medo diferente a agoirar-me.

Mas tu, tu precisas de dar um sentido a isto. Queres entender tudo, racionalizar aquilo que nem eu entendo; queres esgravatar o fundo pantanoso da minha alma enquanto seguro o microfone e grito coisas sem sentido. Não quero lembrar-te que me ensinaste a viver sem ti, quando me partiste o coração, numa dança lenta e amarga. Não quero magoar-te ainda que me tenhas desiludido. Não sei como te explicar que me encontro agora numa espécie de limbo intermédio, onde tudo me parece confuso e distante, entre caminhos e decisões de uma vida que não entendo: a minha.

É mais do que nós que equaciono, desde que o meu cérebro e o meu corpo colapsaram. É como se a minha vida não fosse minha e eu fosse uma estranha na minha história. Gostava de te explicar isto de uma forma simples mas ainda não assimilei o que está a passar-se. Tenho mais medo do que nunca. Sinto-me paralisada por esta dor interior que me devora. Não consigo sonhar quando, simplesmente existir, me consome a energia que me resta. Os dias são um desafio permanente e tudo, absolutamente tudo na minha vida, está em hibernação. Nós, também.

Fazes do tempo teu aliado, nesta quimera alada que reiteras a meu lado, mas não vês a ironia disso: lutaste tanto por este dia e agora lutas para fugir dele. Quando me expulsaste da tua alma, tudo mudou em nós. Vivemos um tempo de ausências e dor, perdi a minha fé em ti. Um dia, deixei de saber quem eras, o que querias, o que fazias. E cada dia, depois desse, foi cauterizando o nosso passado e, com ele, todos os sonhos do amanhã. O tempo não é nosso aliado, é nosso carrasco. Não somos nada nas suas mãos mas demos-lhe trunfos preciosos.

Devolvo-te o beijo depois da torrada e da conversa que não tivemos. Olho para ti e vejo-me a mim, num passado não muito longínquo. Abraço-te com genuíno amor, conheço a dor que sentes. Fico triste contigo mas já não fico triste sem ti. Não sei se os meus sentimentos por ti se alteraram ou se a minha exaustão já não me permite ver com os olhos da alma – ou sentir, com o coração. Não sei se temos tempo, como dizes, ou se já o gastamos em viagens indescritíveis à Terra do Nunca. Sei apenas que não tenho forças para lutar, contigo ou qualquer outra força do universo.

Não me peças respostas nem me angusties. Do tempo, nada sei. De nós, ainda menos.

 

Alexandra Vaz

 

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18.10.15

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Foto: End Of The Day – Vilem Skarolek

 

Há quem morra muito antes de morrer.

A vida, por vezes mata-nos. Os sonhos, os projetos, as ilusões. As pessoas. Os que nos são ou foram queridos, que hoje “se morreram” nas nossas vidas.

Falta. A falta que nos faz uma mãe, um irmão, um amor, um marido que já não é. Que já não são. Que já cá não estão.

Saudade que dói, que dilacera. Saudade que cega, que tira a fome, que tira o ar.

Há pessoas que quando se vão nos levam também. Pedaços de nós, inteiros de nós.

Porque o mundo, como o conhecíamos até então, deixou de o ser. Morreu-se.

E onde há luz só vemos breu, e onde há ar não respiramos, e onde há mar nós não o vemos. Só desejamos que nos engula. Para todo o sempre.

Afogamo-nos na imensa dor que é perder o ser amado. Não queremos vir à tona, não queremos que nos puxem, odiamos que o façam.

Queremos morrer.

Morrer para não ter que ver uma luz que cega. Morrer para nunca mais sentir.

Porque até respirar dói, e não há nada, nem ninguém, que nos tire do chão. O chão que já lá não está.

Mas depois vem o tempo. O bendito tempo, que maldigo o tempo, que diz o tempo, é o melhor amigo do tempo. O tempo de sarar.

Ah, tempo! Que demoras tanto tempo a passar.

Passa-me tempo, passa depressa, mas não leves na pressa o sentimento de amar.

Sê meu amigo.

Porque diz que tu, tempo, e eu sei que sim, tempo, hás de ajudar-me.

 

Joana Pouzada

 

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16.10.15

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Foto: Cuplu Tineri In Parc – Catalin Berciu

 

- Quanto tempo tens?

Olhou pela janela e esboçou um sorriso. Não fugia daquela pergunta. Apenas não lhe fazia qualquer sentido.

- Quanto tempo te resta? - insistiu.

- O mesmo que a ti - respondeu, olhando-o profundamente nos olhos.

- Estás a brincar com isto?! Estás maluca? Isto é muito sério!

- Não. Resta-me o mesmo tempo que a ti. Acredita que não brinco.

Sentia-se confuso. Baralhado. Revoltado. Angustiado. Sentia que a perdera, mesmo antes do tempo findo.

- Vou falar com o médico. Não quero saber se me escondes a verdade. Vou descobri-la a todo o custo. Não me podes negar isto. Depois de toda a nossa vida.

- Não te nego nada. Resta-nos o mesmo tempo.

Saiu furioso. Na sua fúria apenas residia o medo da perda. De não poder tê-la para sempre.

Olhou de novo pela janela. Conseguia ver o horizonte dali. Mas nada mais, para além dele. Embora tal não significasse que para além daquele horizonte não houvesse mais céu, mais mar. Há sempre mais para além do que a tua vista alcança. No entanto, aquele horizonte só prometia fim, a partir daquela janela.

Voltou esgotado. Triste. Semblante pesado. Encontrou-a serena. Tal adormecida. Embora apenas descansasse a vista do horizonte. Ao vê-la assim, cândida e serena, sentiu a sua paz e sorriu. Aquela dor que o dominara, estancou por um momento.

Devagar, ela abriu os olhos cerrados e devolveu-lhe um olhar com vida. Voltou a sorrir-lhe. Disse-lhe:

- Resta-nos o mesmo tempo, meu amor. O tempo da nossa vida. Este, só este que temos. O tempo que temos até ao fim. Juntos. É o mesmo tempo. O nosso tempo! Disfrutemos como disfrutamos do pôr-do-sol. Ele põe-se no horizonte. É lindo observá-lo assim. Mas, morre na noite. Pensamos que é morto para sempre. Mas, sempre renasce. Sempre permanece. Assim é o nosso amor. Para sempre. Mesmo que não me vejas, estarei contigo. Em cada novo dia da tua vida. O nosso amor é o nosso tempo, disse, enquanto uma lágrima lhe molhava o sorriso.

 

Cecília Pinto

 

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14.10.15

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Foto: Grandad And Granddaughter – George Hodan

 

Foste sem avisar, sem dar sinal de partida. Não houve um aviso, sinal ou indício. Nada! Foste assim, de repente. Partiste… sem despedida. Ninguém estava à espera. Eu não estava à espera. Sempre achei que teria tempo para ter tempo para ti. Que teria tempo de recuperar o tempo perdido, aquele tempo (agora que percebo, precioso!) que podia ter aproveitado contigo. E quanto do teu tempo tu quiseste dispensar e aproveitar, com a traquina menina de outrora! Por gosto, por vontade, mas acima de tudo, por amor! Não correspondi… Ou deixei de corresponder a esse tempo e a esse amor… Não aprendi o que deveria ter aprendido contigo. Porque achei que o tempo não te levaria tão depressa, porque talvez não acreditasse na sua efemeridade, ou simplesmente por egoísmo!

Recordo-te muitas vezes. Perco a noção do tempo e da realidade quando penso em ti! São boas as lembranças! E são a única coisa que ficou, só me culpo por não serem mais. Demasiadas vezes penso há quanto já não te tenho. Nunca estou certa da resposta! Parecem muitos mais anos do que aqueles que são na realidade! (Como a noção do tempo sentido e do tempo real são subjetivas…) Este ano, perfaz 8 anos de ausência… da tua ausência. São uma eternidade para mim…

Chorei-te muitos dias e noites, sempre às escondidas. Ainda choro… Tento, frequentemente, lembrar-me da tua voz, agora com mais dificuldade, confesso. A minha memória atraiçoa-me, por vezes, e penso como é possível já não me lembrar nitidamente dela. Choro mais. Falsamente vou buscar consolo à recordação do teu riso. Desse ainda me lembro! Não que fosse uma gargalhada sonora; não a era. Era meia abafada, quase inaudível, com um som muito caraterístico e uma expressão muito própria, que nunca reconheci em mais ninguém.

Talvez seja esse som e a boina, que estava lá sempre, salvo nas refeições, pois que não era ato de respeito, que mais me vêm à memória. O que não deixa de ser curioso porque, agora que penso, eram os olhos azuis, amargurados e tristes que sobressaíam mais no teu rosto. As vicissitudes da vida assim o ditaram. Injustamente… infelizmente! E nem isso me fez ficar mais perto de ti. Porque a menina ingénua, inocente, traquina e feliz, deu lugar à então adolescente senhora do seu nariz, egoísta, resmungona, que achava que não precisava de passar tempo contigo! E não podia estar mais errada… Dói a tua ausência e dói também o egoísmo e a indiferença que tive e sem perceber como aí cheguei.

A infância preencheste-ma com tudo o que poderia ter sido e tido: amor, alegria, brincadeira, traquinice, carinho. Nada me faltou. Se tivesse que escolher um som desse tempo, seria o da tua mota a chegar para ir buscar-me. Não que me recorde bem da minha reação, mas sei que estava sempre pronta para ir contigo. Por isso gosto de imaginar que, mal ouvia o barulho do motor, me ponha pronta à porta de casa. Um cheiro? Talvez o do lume do lar, onde tantas vezes se preparava o almoço de domingo. E a extravagante mistura dos cheiros das flores dos jardins, obviamente! A imagem seria a tua, de pose calma e serena, de boina na cabeça, sempre! A ver-me ir embora, quando numa tarde quis ir à minha vida… Tola!

No início, depois da tua morte, custava-me imenso ir a tua casa. Devia ter ido todos os dias! Naquela altura o lugar ainda se parecia contigo, ainda se sentia a tua presença! Será sempre a tua casa. Não a imagino de outra maneira, apesar de, muitas vezes não a reconhecer como tua. Os jardins perfeitamente cuidados, com a máxima dedicação e bonitos, são hoje folhagem seca e ressequida. Até as flores sentem a tua falta. Não há o cheiro perfumado de outrora. Não passa de uma casa fria e cinzenta, com hortas e jardins murchos e maltratados. De quando em vez, a própria Natureza lá faz jus à tua outrora presença e brinda-nos com os cheiros do passado. E ficas mais perto de nós.

Dizem que o tempo cura tudo. Não podia discordar mais. A ferida da saudade, da perda, da ausência (primeiro, a minha, agora a tua), do meu desprendimento e egoísmo… Esta ferida, o tempo nunca curou, nunca curará, nem tão pouco me ensina a lidar com ela. Amei-te mal e do meu jeito torto. Nunca disse que gostava de ti. Não sei se tu o sabias, tal era a minha indiferença, muitas vezes, e já há muito que deixei de ter tempo e oportunidade para to dizer. Devia ter dito… Devias ter sabido isso…

 

Sandra Sousa

 

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12.10.15

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Foto: Oude Klok – X Posid

 

Temos tempo, o Sol nasce todos os dias, apesar de ser a Terra, coitada, que tem que dar as suas voltas para que isso aconteça. Atrás de tempo, tempo vem.

 

Pois, mas tempo é dinheiro, diz o banqueiro que o emprestou e que gosta, esfregando as ávidas mãos, que o tempo passe, que os juros sejam cobrados, rogando para que as imparidades não lhe caiam nos braços, na hora das contas.

 

Ora, ora! Não há dor que o tempo cure, ele a tudo dá remédio. O que agora se apresenta como se fosse o fim do mundo, tempo passado e vai ficar só uma moedeirazinha, uma ralação que amofina e que deixa a pairar umas más memórias. É a vida.

 

Então, a memória é que será a verdadeira referenciadora do tempo, é que nos traz o quando, o como, o onde. Aquilo de que nos esquecemos, foi-se, mas o que lembramos, está. Não sendo o tempo elástico, a memória pode esticar um momento marcante, instante que seja, para toda a vida - a minha eternidade – ou encolher o que esquecemos até à nulidade.

 

Vai sendo tempo de pensar em não abusar da paciência do vosso tempo, ele é escasso, não é? Mesmo que infindável, pois um momento sucede a outro, e a outro e ainda mais outro: nós, durante a maior parte das nossas vidas, podemos ser donos de nós próprios, tomar decisões, fazer opções conscientes no momento, mas não conseguimos fazer parar ou acelerar o tempo.

 

Será um trabalho interminável, onde talvez a luta, a ambição e a esperança sejam a de conseguirmos passar pelo tempo, deixando marcas, em vez de aceitarmos apenas que o tempo passe por nós.

 

É que quando começamos a dizer muitas vezes “amanhã faço isto”, aumenta a probabilidade de amanhã voltar a dizer o mesmo. E aí, o tempo assenhora-se de nós.

 

Jorge Saraiva

 

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11.10.15

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Foto: Beach Time – Irena Jackson

 

Entregou-me a carta sem uma palavra. Estava profundamente triste e eu sabia, não precisava que dissesse fosse o que fosse. Foram anos e anos a assistir à sua imensa dedicação à irmã que sofria de uma depressão profunda.

Seguia até desaparecer no meio da azáfama citadina do fim de mais um dia de trabalho. Impossível não questionar o sentido da existência…

Resisti a esse quebranto maldito que ceifa os mais frágeis. Olhei para o céu, imperturbável no seu cinzento metálico, respirei fundo, que é sempre uma maneira eficaz de combatermos o esmorecimento, e segui sem direção definida com a carta agarrada na mão.

Galguei as ruas das lojas indiferente ao seu encerramento, não queria comprar nada, talvez até quisesse… quem sabe a ressurreição da minha amiga que se tinha suicidado e deixara uma carta para mim…

Lembrei-me do meu último encontro com ela. Fora há cerca de um mês. Estava bem disposta, forte, segura de si, falara muito da sua última crise. Na verdade estava a recuperar de uma tentativa de suicídio que acontecera três meses antes.

“Realmente, pensar que a tendência suicidária desaparece quando a depressão diminui é um terrível engano.” Dei por mim a repetir esta frase ininterruptamente e o estado de choque começou a ceder o seu espaço a uma dor fortíssima no peito.

Subi a rua onde estava a passo apressado, ofegante, a repetir a frase, a querer fugir da minha incapacidade de perceber o pedido de socorro que a minha amiga me tinha lançado através da sua boa disposição, força e segurança.

Agora sim, escutava com clareza certo refrão escondido, a tropeçar na sua narrativa tão animada: “ Tenho medo de ficar sozinha em casa.”

No meio de tantas palavras, lançadas umas atrás das outras, estas eram mais umas, também lançadas umas atrás das outras, eufóricas!

“Tenho medo de ficar sozinha em casa. Tenho medo de ficar sozinha em casa. Tenho medo de ficar sozinha em casa.”

A minha amiga já sabia que a crise suicidária é curta e, se não há alguém por perto para acudir, pode resultar no suicídio. Num minuto confuso, impulsivo, de choque com a própria tristeza, com a própria dor irremediável, desiste-se. É num gesto rápido que se termina a vida. A minha amiga sabia e estava-me a dizer que não me fiasse na sua boa disposição porque a sua vulnerabilidade suicidária era uma companhia inesperável.

Parei repentinamente e abri a carta. Era um recado rabiscado num papel dobrado com o meu nome.

“Amiga que frio. Estou agarrada ao cobertor e o telefone está longe e só tenho papel e lápis e telefono-te assim sozinha em casa do frio. O cobertor não aquece, amanhã vem verão, diz a telenovela, e ainda bem para ir à praia. Agora, dormir, dormir e não acordar mais. Tenho medo de ir sozinha à praia.”

O quebranto maldito enrolava-me: Impossível não questionar o sentido da existência…

Olhei para o céu, imperturbável no seu cinzento metálico, respirei fundo, que é sempre uma maneira eficaz de combatermos o esmorecimento, e segui com direção definida, levando a carta agarrada na mão. Era preciso contar a história da minha amiga a todas as amigas e amigos que têm medo de ficar sozinhos em casa para lhes dizer que, se têm medo de ficar sozinhos em casa, devem vigiar muito bem esse medo para que, quando ele começar a aparecer, possam telefonar e pedir ajuda.

Afinal, quem resiste a um passeio na praia?

 

Sónia Coimbra

 

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9.10.15

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Foto: Time On My Hands - Junior Libby

 

Aqui estou eu a tentar controlar e gerir as 24 horas do meu dia, igual ao número de horas de qualquer pessoa.

Mas o que fazer com elas?

O que é prioridade?

Dormir, pelo menos sete ou oito horas por noite.

Fico com apenas 16 ou 17 horas para tudo o resto.

Comer, entre pequeno-almoço, lanches, almoço e jantar, pelo menos 2 horas.

Sobram 14 ou 15 horas.

Trabalhar, 8 horas num dia bom.

As restantes 6 ou 7 horas são para caminhos para o trabalho e escola, brincar com os filhos, vestir, ir à casa de banho.

Ah! Com jeito ainda consigo 1 hora diária, alguns dias por semana, para fazer exercício físico.

E tempo de não fazer nada? Tempo de ser apenas eu?

Com este panorama, resta-me aproveitar cada atividade diária para o fazer, sem ficar à espera de ter tempo. Esse, não espera, apenas passa.

Viver cada dia como se fosse o último, ou seja, da melhor forma, qualquer que ela seja.

Isto se pensarmos em dias… É melhor assim, pois se pensamos em semanas, meses e anos, reparamos que muito se fez mas muito ficou por fazer.

Vivemos no tempo certo apenas, pode ser?

 

Sónia Abrantes

 

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7.10.15

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Foto: Happy Girl – Anna Langova

 

Hoje, dei por mim a fazer um esforço de memória para tentar lembrar-me dos motivos desta última zanga… É ridículo, não achas?

Será que eu me anestesiei ao ponto de já não registar nada, de não sentir mais nada, de simplesmente apagar estes pedaços de vida que tu preenches de negro?

E, vai-se a ver, são pequenos (grandes) nadas, mas que todos juntos, todos os dias, repetidamente, me cansam, saturam, irritam, destroem… Não sei quando me tornei assim, tão amarga…

Discordo! Discordo, porque se até nem pensar nisso, consigo ser feliz, verdadeiramente feliz! Ainda ontem, enquanto estendia a roupa ao som dos clássicos dos anos 2000, longe de todos estes pensamentos, eu cantei, dancei, saltei, senti-me nova, capaz de tudo!

Por isso, não, não sou amarga, tu é que tentas tornar os meus dias assim, mas eu não deixo. Ou melhor, vou deixando… Porque tem que ser…

Mas não sei. Realmente não sei. Quanto tempo mais conseguirei aguentar? Pensando melhor… Até se vai tornando mais fácil, porque agora eu não registo, (quase) não sinto e, na resignação de algo que tem que ser, aceito que nem todos têm que ser sempre e totalmente felizes.

E, colocando tudo em perspetiva, tu podes apenas ser… uma pedra no meu sapato.

 

Sandrapep

 

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5.10.15

FotografiasCampoConcentracao.jpg

 

O tempo é relativo e não pode ser medido exatamente do

mesmo modo e por toda a parte.

Albert Einestein

 

Sobressaltado, instinto de defesa em alerta, senta-se no catre. Do corredor chegam-lhe vozes que gritam não sabe o quê. Parece-lhe que choram mas ao choro sobrepõem-se vozes que parecem zangadas. Aproximam-se com passos rápidos e tão coordenados que parecem um só. Estão perto, cada vez mais perto. Um pontapé e escacaram a porta, entram bruscamente. Os gritos são ordens para se levantar. A tremer, de medo e frio, veste o que se imagina já ter sido uma camisola e, sempre em andamento, enfia as pernas numas calças esfarrapadas. Está assustado, o catre e o lugar exíguo, mal iluminado com ratos a disputar a vida com os homens, parece-lhe agora um lugar seguro. Quer recuar para esse lugar seguro mas é empurrado para a frente, para o corredor que é tão escuro como o cubículo de onde foi expulso. Quer fugir dali mas as pernas não cedem. E se cedessem para onde iria? Sente-se desfalecer. Uma mão segura a sua e aperta-a com força. Reconhece essa força, mantém-se direito com a dignidade que o pai lhe ensinou. Caminham de mãos dadas. Duas mulheres seguem à frente. Uma, a mais velha, está tão vergada pela dor que em altura se nivela pela mais pequena. Também elas caminham de mãos dadas. Ouve-as sussurrar e a voz que lhe chega acaricia-lhe a alma. A porta no fim do corredor dá para dois pátios, os homens vão para o da direita, as mulheres para o da esquerda. Ele larga a mão do pai, quer acompanhar a mãe e a irmã, mas a mãe repele-o e empurra-o para o lado do pai. Quer chorar mas as lágrimas não saem. Aguenta tudo e tudo não tem sido pouco, mas ser rejeitado pela mãe causa-lhe uma tristeza de morrer. Debate-se para ficar junto dela, agarra-lhe o vestido mas ela vira-lhe as costas.

 

O seu nome gritado fá-lo sentar-se na cama. Está alagado em suor e lívido de terror. Mais um daqueles pesadelos que há de acabar com ele. Durante anos as cenas de terror vividas no campo estiveram agrilhoadas na sua memória. Aprendeu a relevar o que fizeram com ele e com a sua família porque considerava que, mais importante do que aquilo que lhes fizeram, era o que ele iria fazer com isso. Conseguiu viver com alguma normalidade até ao dia em que revisitou o campo. No corredor que percorreu com os pais e a irmã e que haveria de os separar para sempre, a fotografia da mãe acariciou-o com o olhar. Se ao menos ele lhe pudesse agradecer pela vida que ela lhe salvou! É que, ao afastá-lo para o lado do pai, ela sabia que lhe salvava a vida porque os homens eram aproveitados para trabalhar, as mulheres eram fuziladas mesmo ali.

Memórias que o tempo não apaga.

 

Cidália Carvalho

 

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4.10.15

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Foto: Stunning Sunset – Maliz Ong

 

Brittany Maynard escolheu o dia em que queria morrer. “Hoje [1 de novembro de 2014] foi o dia que escolhi para morrer com dignidade”, disse na mensagem de despedida que deixou.

A decisão da jovem de 29 anos foi tomada para evitar o sofrimento de passar por uma doença dolorosa – um cancro no cérebro. Depois de duas cirurgias e da doença ter-se agravado, foram-lhe dados seis meses de vida. Os tratamentos adequados ao seu caso seriam demasiado agressivos e tirar-lhe-iam qualidade de vida, talvez, dignidade. “Como o meu tumor é grande, os médicos prescreveram-me radiação cerebral. Li sobre os efeitos secundários: o cabelo ficaria queimado e o meu couro cabeludo ficaria coberto por queimaduras de primeiro grau. A minha qualidade de vida desapareceria”, elucidou a jovem.

Brittany teve de se mudar para Portland (Oregon) – vivia em Oakland (Califórnia) -, onde lhe foi permitido tomar essa decisão e “morrer com dignidade”, como sempre frisou.

Mas esta opção, explicou, obedece a critérios: “A opção de pôr fim à vida é para pacientes mentalmente capazes e em estado terminal, com um prognóstico de seis meses ou menos”.

Pediu e recebeu de um médico uma prescrição com os medicamentos que deveria tomar para pôr termo à vida, se algo se tornasse insuportável. Tinha nas mãos o seu destino, sem que ninguém a obrigasse a nada. “Não sou suicida. Se fosse, já teria tomado os medicamentos há muito tempo. Não quero morrer. Mas estou a morrer. E quero morrer nos meus termos”, acrescentando: “Ter esta escolha no fim da minha vida tornou-se tremendamente importante. Deu-me paz durante tempos tumultuosos que, de outra forma, teriam sido dominados pelo medo, pela incerteza e dor”.

O suicídio assistido difere da eutanásia. No primeiro é a própria pessoa/doente que provoca a sua morte, embora com a ajuda de uma outra que lhe prescreve o tratamento necessário para tal; já a eutanásia é feita por uma terceira pessoa.

Em Portugal, e em muitos outros países, o suicídio assistido e a eutanásia não são legais. Mas não teriam outras pessoas com casos idênticos ao de Brittany e em pleno de todas as suas faculdades mentais a possibilidade de escolha e de livre arbítrio? De também elas poderem escolher “uma morte com dignidade”?

 

Sandra Sousa

 

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2.10.15

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Foto: Baby And Dad Sleeping - Vera Kratochvil

 

Sobre o tempo, a cronobiologia tem muito a dizer. Enquanto as ciências da vida estudam o onde (morfologia) e o como (fisiologia), a cronobiologia acrescenta à ciência o estudo do quando. Preocupa-se com o quando as coisas acontecem. É interessante perceber a vida interna e externa como um ciclo… os vários ritmos internos e a vida como ritmada. Olhando bem para dentro de nós, percebemos os ritmos silenciosos que nos constituem… olhando bem para fora de nós, percebemos bem os ritmos que nos rodeiam e que constituem a vida ritmada que vivemos… primavera, verão, outono, inverno - primavera, verão, outono, inverno… um ciclo. Os dados repetem-se a um ritmo constante. O dia tem sempre 24 horas e repete-se 365 ou 366 vezes por ano… o ano é composto sempre por 12 meses… a semana começa sempre ao domingo e termina sempre ao sábado… e o nosso dia? É ritmado… para a maioria das pessoas o acordar é de manhã, o trabalho é durante o dia e o sono durante a noite… porquê? A melatonina aumenta com a falta de luz… o cortisol eleva com o aumento dela… é assim que dizem os nossos ritmos internos… a maioria das pessoas está acordada de dia e dorme à noite… há sincronia entre o que se passa dentro e fora de nós. E o tempo? O que é o tempo? É um espaço virtual que é ocupado pelo que fazemos? É uma linha contínua onde se encadeia ou se encaixa aquilo que fazemos? Fica a ideia que está ligado ao quando as coisas acontecem, porque para a saúde interessa saber quando ocupamos o espaço virtual com as atividades diárias, ou quando acontecem essas atividades que se encadeiam ou encaixam nessa linha contínua.

 

Ermelinda Macedo

 

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