30.3.15

LaPecoraNera.jpg

 

Com um suave movimento de costas, Luís acomodou-se um pouco melhor na cadeira. Esticou o pescoço um pouco mais para a frente, para ver melhor aquele texto. Como assim ainda não resultava, inclinou o écran do portátil um pouco menos. Agora sim, tornara o cansaço de tantas horas de leitura de anúncios um pouco mais suportável. E recomeçou a leitura.

- Pois!... Onde é que eu já li isto?

Ouviu a chave a penetrar a fechadura. Olhou instintivamente para o canto inferior direito do écran.

- Dezanove e um. É Joana! Hoje chegou à tabela.

Luís continuou a ler. Joana continuou a entrar. Encontraram-se dali a instantes, na sala, junto ao portátil.

- Olá querido. Estás bem?

O indicador e o médio da mão esquerda dela saltitaram na cabeça dele.

- Hum!...

A cabeça dele abanou num sim de pequena amplitude, para não perder a linha de leitura.  

- Encontraste alguma coisa de jeito?

- Tudo sem jeito!

- Nada!? Nem unzinho? Nem uma aproximação?

- Para pessoas, nada. Só há oportunidades para seres alienígenas.

- Lá estás tu… Algum desses anúncios há de ser minimamente, mesmo que longinquamente, compatível com a tua profissão, com as tuas capacidades. Tornaste-te pessimista?

- Não, nada disso. E hoje cheguei a uma importante conclusão: estes anúncios não são escritos por pessoas, nem são para pessoas. É mesmo negócio de alienígenas.

- Mas os anúncios são, na sua maioria, escritos por psicólogos e técnicos da área do trabalho e das organizações, que trabalham nas empresas de recrutamento e seleção de recursos humanos. São bastante elaborados, do ponto de vista técnico.

- Se acreditas no que dizes estás bem enganada. Isto é de extraterrestres.

- Ok, vá lá, explana a tua descoberta, a tua tese.

- Se gastares um tempo a ler anúncios de emprego, sem preconceito, sem qualquer necessidade objetiva de conseguires um emprego e dessa forma ganhares dinheiro para a sopinha, como és uma menina esperta, logo perceberás que os anúncios são todos iguais. Se são escritos por esses psicólogos e técnicos que disseste, andaram todos na mesma escola, com os mesmos professores, com os mesmos livros e trabalham todos no mesmo sítio. Produzem quilómetros e mais quilómetros de anúncios, que a julgar pela quantidade, será mais a oferta de trabalho do que a sua procura, embora os números oficiais e aquilo que vemos, na rua, nas pessoas, seja bem o contrário. Mas a melhor parte é esta: quem é que estes imensos anúncios procuram? Seres que não existem nesta terra. Hoje consegui traçar o perfil do trabalhador que estes anúncios procuram. Se o encontrares, foge dele, que não é humano e poderá ser perigoso. Trata-se de um jovem, recém-formado, dinâmico e ambicioso, com espírito de iniciativa, com elevado sentido de responsabilidade, com boa capacidade de comunicação, de análise e de resolução de problemas, com facilidade de relacionamento interpessoal e com espírito de equipa, capaz de trabalhar sob stress, com carta de condução e viatura própria, e que simultaneamente tenha experiência profissional comprovada, disponibilidade imediata e que esteja totalmente disponível para a empresa, a qual lhe oferece integração em equipa jovem e dinâmica, possibilidade de progressão na carreira, contrato a termo, e remuneração atrativa dependente do desempenho, ou traduzindo, toma lá quinhentos euros e dá-te por satisfeito enquanto não voltas para a rua. Nunca ouviste falar de motivação, de satisfação, de precaridade, de envelhecimento da população, da necessidade natural de equilíbrio, estabilidade e segurança, de produtividade? E quem tem mais possibilidade de conseguir o trabalho, quem é? É aquele rapaz, desembaraçado e prestável que é irmão da amiga do primo da tia do sogro do amigo. É esse, exatamente, que para não deixar ficar mal toda aquela preciosa fileira familiar, fará tudo e mais alguma coisa, sobretudo na parte da capacidade de trabalhar sob stress. Joaninha, este país está um manicómio e na porta tem uma tabuleta onde pode ler-se: “Uns já cá estão; os outros vêm a caminho.”.

- Percebo que estás muito bem-disposto. E não sei porquê, mas a tua boa disposição deu-me fome. Não comias qualquer coisinha?

- Talvez, já que ofereces. E se eu me tornasse psicólogo ou técnico, desses que escrevem estes anúncios? Está provado que sei escrevê-los, está provado que sei a quem dar os lugares, está provado que sou bem-disposto. E deve dar bom dinheiro. Que achas?

- Melhor seria se tu fosses o patrão, o empresário, o dirigente, o gestor, o CEO, o qualquer coisa que lhes encomenda os anúncios.

- Para isso tenho excesso de habilitações. Humor acima do limite.

 

Fernando Couto

Imagem do filme La Pecora Nera (A Ovelha Negra)

 

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27.3.15

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Desde muito cedo ficaram bem cravados em nossas memórias os mais básicos pilares sobre o profissionalismo, incutido pelos nossos progenitores, estes que reconhecendo as dificuldades de então, projetavam uma realidade futura ainda rigorosa, um contexto mais competitivo em que o trabalho e competência seriam os valores mores para o sucesso dos Homens. Aos homens, em particular, dísticos envergando a humildade, honestidade, trabalho árduo e formação científica, eram as figuras transmitidas com eloquência para tipificar os valores que dignificariam o homem do amanhã.

Aquela sociedade marcada por um contexto misto enriquecido pela transição do sistema colonial para o despertar do nacionalismo imposto pela independência, a postura e comportamento do Presidente Samora Moisés Machel através de discursos (léxico e linguagem corporal) e ações governativas e de liderança, foram os primeiros valores de construção de uma sociedade que envergasse os valores mais nobres, quiçá a opção pelo socialismo como a doutrina melhor posicionada para resgatar valores que permitissem uma melhor organização política e produtiva do país rumo ao almejado desenvolvimento, com ênfase no homem, ou simplesmente, desenvolvimento humano, daí a diligência relativamente ao setor dos serviços sociais.

A profissão é o ofício da pessoa, a sua honra e dignidade residem na capacidade de trabalhar, transformar os recursos a sua volta, promover a qualidade de vida aos membros da sua comunidade espalhados do seu posto de trabalho à sua convivência familiar, propagando assim boas práticas. É dali que se reconhecem e se destacam as pessoas pelo seu perfil e sobretudo pelo brio profissional. O valor de um profissional está na qualidade da sua prestação que deixa uma marca, um selo que o distingue dos outros que eventualmente possam, sempre que for possível estabelecer essa difícil mas tentadora comparação, fazer o mesmo trabalho da melhor ou pior forma, seguramente é raro que sejam iguais.

O profissionalismo é uma questão de cultura de trabalho, um conceito arrojado que encerra um conjunto de qualidades intrínsecas ao indivíduo, rico ou pobre, humilde e trabalhador que do trabalho depende para reclamar os rendimentos que por direito obterá para o seu sustento. Para lográ-lo é invariável o sacrifício de interesses pessoais à custa dos interesses coletivos, estes que se elevam aos primeiros quando o cidadão está na posição de servidor público. A profissionalização do trabalhador, independentemente do setor em que se insere, fundamentalmente o do setor público, encontra inspiração na cultura de trabalho patente nessa sociedade e da liderança em particular.

Um verdadeiro profissional sabe que o atendimento às necessidades e desejos do cidadão, este que é o seu patrão, é a razão primordial de ter sido confiado tal posição. O interesse pessoal prevalece mas não pode abafar o objetivo geral, há necessidade de compatibilizar estes dois interesses que podem antagonizar e rivalizar pondo em perigo o seu desempenho e manchando o seu profissionalismo quando não houver atenção a este iminente conflito.

O parágrafo anterior salienta a ideia a reter do conflito entre os objetivos pessoais e organizacionais do trabalhador, na sustentabilidade a longo prazo da organização que pertencem. Conquanto o interesse fundamental do trabalhador é obter os benefícios diretos a que tem direito pelo exercício da função, à organização interessa construir uma reputação que passa por desenvolver uma cultura organizacional que potencialize os pontos fortes dos trabalhadores e absorva os seus pontos fracos favorecendo o clima organizacional, para garantir a continuidade da organização e um padrão de produtos e serviços estáveis que não perigue a identidade organizacional.

Existe uma crescente convicção sobre a desvalorização ou deterioração da cultura de trabalho assente nas atitudes prejudiciais dos profissionais que revelam pouca assertividade e comprometimento com os resultados, colocando antes destes as contrapartidas ou seus benefícios em alta fasquia, criando-se uma sensação de desconfiança ou desconforto relativamente à real capacidade de alcançar os resultados.

A aparente personificação e arbitrariedade na formação do orçamento ignorando as regras elementares nomeadamente a proporção do custo de mão-de-obra versus do material, martelando fria e secamente para que o valor final se encaixe ao semblante do cliente, aquilo a que em linguagem económica encontraria similaridade as práticas especulativas na forma de dumping ou overprice, é uma das muitas más práticas que se acentuam em momentos de crise.

A competição negativa é outra atitude antiprofissional que pode prejudicar a organização, outrora poderia induzir ou fomentar a competitividade intraorganizacional. A esse respeito, se se estabelecer um plano de carreira e progressão devidamente estabelecido e amplamente conhecido com critérios claros de avaliação de desempenho, haverá condições para induzir a concorrência perfeita com todos os benefícios que comporta, nomeadamente a promoção da produtividade e eficiência.

Um sistema de desempenho integrado e orientado aos resultados deve incentivar a criatividade e inovação, complementado por um eficiente sistema de base de monitoria e controlo de desempenho, componente-chave do sistema de controlo interno.

 

António Sendi

 

 

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25.3.15

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Faço parte da escandalosa percentagem de licenciados que não está a trabalhar na área em que se formou, mas na que encontrou. Tudo começa assim, não é aquilo que queremos, não foi para isso que estudámos, mas foi o que se arranjou, que a vida não para e, para cumprir alguns objetivos é necessário abdicar de outros, ainda que pensemos que seja temporariamente. Mas efetivamente a vida não para e passa… Infelizmente, no país em que vivemos, com a conjuntura atual, não há espaço para muito mais. Ponto.

Com efeito, abdicamos do sonho de exercer a nossa profissão, para sermos profissionais noutra área completamente diferente. Li um dia que a virtude não está em fazermos aquilo de que gostamos, mas sim gostarmos daquilo que fazemos. Ora eu não desgosto daquilo que faço, ao contrário, até considero algumas tarefas bastante interessantes e enriquecedoras. O que me aborrece e frustra é o facto de saber que sei fazer mais e melhor, não ali, mas naquilo que eu escolhi. O que me deixa furiosa é ser suscetível de levar com atestados de incompetência de miúdos de Bolonha acabadinhos de sair do forno. Mas a culpa não morre solteira e reconheço que esta frustração só passará quando um dia conseguir aventurar- me a um novo voo, a sair da minha zona de conforto e procurar um novo emprego que não me faça sentir tão subaproveitada e castrada. Há que pensar positivo.

A outra alternativa, se se quer mais e melhor – mesmo não sendo na nossa área – é ter uma considerável dose de coragem e empreendedorismo, e emigrar, partir e deixar para trás quem se ama, abraçar uma nova etapa que inicialmente será chamada de aventura. E para quem fica, como é o meu caso, é vê-los partir e ficar a aguardar cada migalhinha do tempo de que dispõem para estarmos juntos, a cada regresso nas férias. Mais nada.

E neste contexto de idas e partidas, só não voltamos ao espírito de emigração das décadas anteriores, em que só víamos os tios e os primos nas férias, porque as ferramentas e os meios de hoje são mais e melhores. Hoje em dia, os portugueses já não vivem na aflição de verem chegar os seus entes sãos a salvos depois de dois dias ou mais de estrada, porque o avião está a tornar-se um meio mais comum de transporte, mais rápido e, dizem, mais seguro. E melhor, a carta foi substituída pela Internet, Facebook, Instagram, Viber, Skype e sucedâneos… Mas são presentes envenenados pois, mesmo assim, não nos livram da amargura de vermos a nossa família ampliar-se do outro lado do mundo e da saudade dos amigos de sempre, que agora estão sempre do outro lado do ecrã e nunca ao nosso lado, a tomar um café, a conversar, a caminhar, ou simplesmente ao nosso lado.

Eu por cá vou resistindo, até porque não tenho alternativa, embora às vezes resistência e medo nem sempre caminhem muito longe um do outro, mas não garanto que um dia, reunidas as condições mais básicas e familiares, não deixe este país que eu tanto amo e que tanto me tem desiludido. Nada é garantido, pois não? A única certeza que tenho é que tal como repito ao meu filho “as Mães amam sempre os seus filhos”, também vou amar sempre o meu país, independentemente de tudo. Quem é português ama sempre o seu país, porque é também isto que nos define: a nossa portugalidade, intrínseca a cada gesto, o nosso regionalismo a cada palavra, a nossa alma poética de ser lusitano. Quem é português nunca deixará de o ser. Ponto.

(Só temos é que ter muito cuidado, porque estamos a ficar afónicos e um povo sem voz não me parece saudável.)

 

Ana Martins

 

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23.3.15

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Quando era pequena, naquelas composições de escola “O que queres ser quando fores grande?” escrevia sempre que queria ser professora primária. A primeira redação que escrevi foi assim e depois a certeza não se alterou e escrevia sempre a mesma profissão. Eu gostava muito da escola, de estudar, de aprender, de ler e portanto nada mais natural do que fazer a minha vida na escola, dedicada a ela.

Entretanto cresci e estudei muito e acabei por ser professora, mas não primária (ou de 1.º Ciclo como agora se designa). Estudei para dar aulas aos grandes, mas cada vez me convenço mais que é com os pequenos que deveria estar. É para os ensinar que tenho mais perfil e dá-me muito mais prazer trabalhar com os mais pequenos do que com os grandes que estão sempre na fase do “Que seca!”.

Ser professora não é fácil, por todos os motivos e mais alguns e especialmente nos tempos que correm, mas a verdade é que é disto que eu gosto. Ensinar, conduzir os miúdos por um caminho, despertar neles sensações ou curiosidade, partilhar com eles o que sei, passar-lhes o que aprendi e aprendo. Acho que é muito bonito. Ser professora é bonito e acho que será uma das profissões mais nobres. Não é a mais bem cotada no mercado, é certo, nem a mais lucrativa. Mas é uma profissão que corre nas veias.

É uma profissão que rima com vocação. Rima com dedicação, talvez até com missão e, com toda a certeza, rima com paixão. Todos os professores têm dentro de si essa chama. Algumas estão fracas, outras parecem não existir e outras ainda lutam para se manterem acesas, mas existem sempre. Se tirássemos tudo aquilo que torna esta profissão, hoje, uma cruz (pelo menos é essa a opinião que me rodeia), veríamos que a chama está lá e que chama pelos professores todos os dias.

Quem gosta de ensinar, gosta sempre. É uma paixão que não se explica, que contraria tudo o que será razoável e racional. É uma paixão que ainda se mantém lá dentro e, por isso, esta é a melhor palavra para rimar com profissão: Paixão.  

 

Patrícia Leitão (que também rima com profissão!)

 

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22.3.15

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Vamos por partes. Somos o todo de diferentes partes e essas partes formam um todo. A nossa unicidade é divisível, isto do ponto de vista das ciências sociais. A Sociologia diz-nos que todos nós temos diferentes papéis sociais que, em conjunto, formam um todo que nos carateriza e identifica. Eu, Rui, sou pai mas também contribuinte. Noivo (por pouco tempo), mas também Psicólogo. Filho, mas também cuidador. E por aí fora.

Para efeito do tema, partiremos para uma simples divisão de um mesmo. Eu. O “Rui Profissional” e o “Rui Pessoal”. Penso que ninguém duvidará que falamos de uma mesma pessoa (principalmente eu, atendendo a que a Psiquiatria tem um nome para isso). Contudo, poderei eu questionar quem sou? Para que lado da balança tomba um dos pratos? Sem fazer grandes contas, quase que aposto que o “Rui Profissional” passa mais tempo acordado que o “outro eu”. Se assim for, como é que eu me poderei ver enquanto eu, e ainda, como é que todos os outros me veem?

Ora, para manter o fiel da balança em equilíbrio, estas duas facetas da mesma personalidade têm de ser compatíveis. Quer então isso dizer que tanto a vida pessoal, como a profissional têm de estar em sintonia? Não necessariamente. Mas isso ajuda? Sem dúvida.

Vamos a um lugar-comum. Quantas pessoas conhecem que gostam verdadeiramente do que fazem profissionalmente? E que estão satisfeitas com o que ganham? E que têm autonomia nas suas decisões profissionais? E que têm funções que permitem crescimento e atividades estimuladoras? Eu conheço poucas. Quase que me atreveria, então, a afirmar que a maior parte de nós vive em desequilíbrio permanente. Não só pelas questões levantadas, mas também porque vivemos atualmente nesta fase de contração económica, com toda a sobrecarga pessoal que tal implica.

Felizmente que o “eu pessoal” não nos limita no que somos, assim como acontece com o “eu profissional”. Embora que diferentes, e por vezes de difícil acerto, ambos são partes de um todo que se constitui como um verdadeiro “eu”. Evidentemente que também poderia discordar do que acabei de escrever. Isto porque, mantendo alguma fé na humanidade, gosto de acreditar que em algumas profissões as pessoas, para além de serem quase todas iguais, são muito melhores pessoas quando chegam a casa.

“Sabem como se chama a um afogamento coletivo de advogados e políticos? Um bom começo”.

 

Rui Duarte

 

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20.3.15

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Hoje a conversa do almoço foi bastante deprimente. Gosto de comer tranquilamente, de falar de coisas triviais com os meus colegas, que me façam relaxar e quebrar o ritmo frenético de trabalho. Mas hoje fizemos uma espécie de balanço: “Olhem para nós, agora!” – dizia um – “Longe vai o tempo em que podíamos esta todos aqui sentados sem relógio nem tempo contado, sem termos que enviar um e-mail de última hora, ou de comer à pressa para atendermos alguém logo a seguir.”. “Se eu soubesse” – dizia outro – “não teria investido nos estudos, teria começado a trabalhar mais cedo, reformar-me-ia mais cedo e não teria tantas responsabilidades.”. “Pois,” – dizia um terceiro – “mesmo ao fim de semana estamos a pensar em trabalho, naquilo que ainda falta fazer, na reunião que está agendada.”. “E os filhos!?” – dizia a uma das senhoras da mesa – “Os filhos é que sofrem, sentem a nossa falta, não lhes dedicamos a atenção que eles precisam, só queremos que se despachem, que cumpram com tudo direitinho e (custa-me admitir isto) que não nos atrapalhem.”.

E eu calado, encaixando direitinho na minha realidade todos aqueles queixumes. E a invejar a vida simples e bondosa dos lavradores, dos trabalhadores mecânicos que dobram peúgas todo o dia ou de quem tem uma vida regalada sem ter que trabalhar.

Os dias de quem trabalha não deixam tempo nem espaço para relaxar. Tanto progresso e tecnologia para depois não nos podermos dar ao luxo de ter uma dor de barriga, um esquecimento, ou um qualquer percalço que ponha em risco o frágil equilíbrio da nossa agenda.

“O que nos vale é gostarmos do que fazemos.” – disse eu finalmente. “Mas, valha-me Deus,” – saltaram-me quase todos em cima – “a que preço, rapaz? Achas mesmo que isto é vida, por mais que gostes do que fazes? Daqui a uns anos que histórias vais contar aos teus netos? Só se forem aquelas que se passam nos teus sonhos, porque se contares as outras, eles adormecem ou mandam-te dar uma curva. E espero que não sonhes muito com trabalho.”.

Penso que, mais ano menos ano, isto terá que dar uma volta. Não é sustentável viver assim. A qualidade de vida mede-se muito pelo tempo de lazer, por aquilo que fazemos quando não estamos a trabalhar. É necessário repensar esta organização. E para isso é necessário repensar a nossa hierarquia de necessidades. Aquilo que realmente importa para cada um de nós é constantemente sacrificado em prol daquilo que realmente importa para outra pessoa, seja ela o nosso chefe, o nosso cliente, a nossa estabilidade financeira, ou o nosso medo de sermos dispensados. Se este mundo abrandasse o seu ritmo para metade, eu estaria na profissão certa.

Lembro-me muitas vezes dos tempos em que ia buscar o leite da semana ao produtor. Era ao sábado ao fim da tarde, em Santo Tirso, numa pequena freguesia chamada Sequeirô. O produtor, um lavrador que tinha umas quantas vacas, trabalhava muito, levantava-se todos os dias antes do sol nascer para alimentar o gado, passava o dia no campo e deitava-se depois da ordenha. No entanto, todos os sábados ao fim da tarde parecia que o tempo parava. Estávamos os dois à conversa e as horas passavam tranquilamente sem deixar cicatriz. A ordenha esperava, o sono esperava e o dia seguinte começava à exata hora do dia anterior. Mas nunca me despachou nem deixou de me servir mais um copo porque tinha que dar descanso ao corpo. Nunca ouvi dele qualquer lamento, a não ser o das costas que já não vergavam tanto. E o dos dentes que por vezes não o deixavam comer presunto. E o do reumático, da hérnia e de um genro que tinha alergia à enxada. Era um homem feliz, tranquilo, na profissão certa e no tempo certo. A haver profissões mais dignas que outras, esta é uma das minhas preferidas.

 

Joel Cunha

 

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18.3.15

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Segurança Social: 11%. IRS: 0%. Salário Mínimo. Horas Extras.

- Estou farto desta merda, Vasco. Vou para casa, amanhã ainda é dia 22, ainda temos três dias para os pagamentos.

 

Subsídio noturno: 25%. Subsídio de Refeição…

- Mexe-te, Vasco! Anda embora! Já não está ninguém no escritório, porque é que temos de ficar cá nós, como os mouros, a trabalhar até tarde?

 

O Porto é Londres. Em 30 anos de vida, Vasco, ainda não conseguiu habituar-se ao guarda-chuva, um empecilho em forma de bengala que, no mau tempo, vira-se todo, em guerra com ele mesmo, ao obrigar a fazê-lo figuras estúpidas – logo ele, tão sempre ereto, tão sempre contido como uma estátua, até no mau tempo que lhe encharca os sapatos de berloque. Porto é Londres, sobretudo na Rua de São Roque, onde trabalha, no escritório, mau como uma repartição pública mas que o distrai nos últimos sete anos. Não é Londres, nem Paris, nem Praga. Pior! Sem cor, naquela rua sem luz do sol, aquele escritório mais parece a cidade do México.

- Rua de merda, parece que ainda chove mais aqui, neste ermo…

- Jorge, porque és sempre tão mal-educado?

O colega e amigo entretém-no nos momentos comuns, habituais, convencionais, banais da sua vida – no fundo, o que é. Vasco não tem histórias épicas no seu quotidiano, nem mesmo quando esteve em guerra aberta com o chefe; não fosse ele pacato, ou trouxa, como lhe chama tantas vezes Jorge, teria sido despedido na certa.

O vento a assombrar as melenas de cabelo despenteado à entrada no prédio, uma mulher com uma criança, de andar apressado, como se assim evitasse a chuva que cai a pique, os carros que passam lançando lamas das poças para os pés dos peões. O teto do Mundo resolveu cair em apenas uma rua da cidade.

- Bárbara?...

- Diz, Vasco? Que disseste?... Olha, eu vou indo; deixei o carro na praça e ainda tenho de ir a correr para não me molhar todo, tchau! Até amanhã!...

“Bárbara?...”

Ali, bem no meio dos paralelos, doce Bárbara. Os olhos escuros, tão meigos como ela, carregados do peso de um rímel esborratado – aquele artifício de que ele nunca gostou, nas pestanas naturalmente reviradas e vivas – olhando para ele, de frente, para a incredulidade da alma velha de Vasco.

“Bárbara.”

Encharcada como uma cascata, a gabardina terracota colado ao corpo franzino, todo ele osso; o cabelo, comprido – desde quando? Desde sempre. Linda… Linda.

Mas porque é que voltaste?

- Bárbara, tu endoideceste?! Corre para entrarmos no meu carro! – Vasco dá-lhe a mão, de pianista como lhe dizia enquanto tocava nelas, sempre ao de leve, quando estavam na cama, naqueles domingos atrasados. Frias como habitualmente.

A luz fraca do Clio ainda lhe permite ver a sua beleza por trás das gotas de água escorrendo no rosto sardento. A gabardina, recorda ele, foi um presente, três anos atrás, quando ainda tudo era colorido. Meu Amor…

- Vasco, ele deixou-me…

A proteção do costume no reencontro repetido. Terceira vez, conta ele, que o procura, depois do parvalhão do outro gajo, o Nuno, a deixar e a deixar por outras gajas, que devem ser como ele, até aposta, passeando-se com elas por Porto Santo e Copenhaga. Ainda assim, com tantos sinais como as bochechas de Bárbara, Vasco pensa irremediavelmente: “Pode ser desta.”

O namoro entre ambos, curto?... Curto, não! Foram cinco mágicos anos, atenção! É favor respeitar o que foi vivido! Que saudades dela, bolas! Lá vai ele ter de dar, de novo, o ombro amigo para ela deitar a sua cabeça, para sentir aquele couro cabeludo macio a roçar-lhe o queixo… É como esfaquear-lhe o coração, cortar às tirinhas e ainda servir a frio num prato requintado ao sádico Nuno, que se ri da fraqueza do seu arquirrival.

- Deixa lá isso, já sabes que ele vai voltar…

- Não vai, não… Desta vez, não vai…

- Também dizes sempre isso…

Os olhos brilhantes, os tais, escuros e carregados, a pedir auxílio e esperança.

- Espera, Bárbara, espera...

Ela sorri, com aquele parênteses que ele contornava com a língua em tempos de partilha, silenciosa e delicada, em movimentos de quebranto dos troncos e membros. É a própria que corta o barato da memória da saudade, tentando conversar sobre os pais, como estão eles, logicamente que sim, que estão bem, como o trabalho dela? Sim, assim como o irmão e a chuva neste Porto londrino.

E vai. Vai voltar. Com toda a certeza. “E enquanto tu voltas para ele, eu fico.” A angústia do reencontro é como uma faca de dois gumes – que bom que é encontrar quem se ama, igualmente avassalador como a perda dos minutos seguintes, aqueles do abandono. O dela foi como o início: no meio da chuva, saindo do caro, sem proteção a não ser o casaco oferecido por ele, o seu anjo-da-guarda do costume, que até dispõe de boleia, recusada como o seu amor foi, a seco, no dia do seu fim.

A mente a sobrepor essa tal coisa que se chama de alma: Vai processar salários. Que mais tens tu, Vasco?”

A luz artificial do escritório permanece acesa, horas e horas – talvez dias? – fundindo-se finalmente com a aurora da manhã: e há quem diga que o trabalho não se mistura com o amor.

 

Sofia Cruz

 

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16.3.15

Arco-iris.jpg

 

Andei a investigar o que é isto de ter uma profissão. Parece que é ter uma ocupação, uma atividade, um ofício do qual se retira um sustento ou um qualquer tipo de compensação. Diz que é habitual, sistemático, implica um compromisso e muitas vezes alguns sacrifícios. Obriga-nos a planear muitas coisas e afasta-nos, com frequência, da família e rouba-nos tempo de lazer.

Eu já vou, assim à vontade, na minha décima profissão; e sei que não é ainda desta vez que me sinto realizada, plena, feliz, nem a ter tempo de qualidade para aqueles com quem quero estar e a fazer aquilo que amo. Esta profissão nem sequer a escolhi, nem aceitei.

Caiu-me em cima, literalmente, como uma cruz, destino, carma ou azar, como um meteorito disparado do céu que não me deixa ainda despedir-me, bater com a porta. Há de chegar o dia e vai ser um dia muito feliz.

Algumas vezes na vida já me cruzei com pessoas que foram despedidas ou reformadas, ou dispensadas, como agora é fino dizer, e meses depois reencontrei-as com um ar espantosamente mais jovem e feliz, como se tivessem fugido da cadeia ou lhes tivessem tirado o jugo de cima. Não lhes tinha saído o Euromilhões nem tinham ficado sem preocupações. Mas pareciam outras, só porque já não estavam naquele sítio que as matava aos poucos e que não tiveram coragem de abandonar por causa das responsabilidades.

A minha profissão atual é rotineira mas imprevisível, finta-me todas as tentativas de planeamento, não me dá férias nem tréguas, faz-me sofrer física e psicologicamente, os horários estão sempre a mudar, tem uma compensação financeira incerta nas datas e nos valores, obriga-me a ser forte e às vezes leva-me ao desespero absoluto e à fraqueza total. Já me fez chorar e rir, pedir, suplicar, berrar, perder a cabeça. Já me fez ganhar empatias e perder simpatias. É uma autêntica montanha-russa de emoções, do tédio absoluto à ansiedade, da dor ao triunfo, por vezes separados, muitas vezes juntos.

Com frequência sinto-me revoltada; mas lá me convenço que, desta vez, é assim porque tem mesmo que ser.

A minha profissão, porque ninguém tem que adivinhar, é ser paciente. Há quase ano e meio que vagueio por hospitais, clínicas, centros de saúde, horas a fio, dias a fio, meses a fio, a interagir com quem quero e não quero, entre bombeiros, pessoal de secretarias, enfermeiros, médicos, fisioterapeutas e afins. E vejo outros como eu, todos zombies nas mãos de outros e nos tempos e caprichos dos outros.

Há pessoas e situações que não hei de esquecer nunca, uns por bons motivos, outros por péssimos.

Mas tudo isto para nada interessa, a não ser para dizer que as profissões são muitas vezes duras e raras vezes o que sonhamos; muitas vezes impostas pelas circunstâncias e raras vezes o que amamos. Mas não há que desistir, nunca. Uma profissão há de ser, um dia, uma ocupação habitual que adoramos e que faz parte integrante da nossa felicidade.

Fica aqui então a minha insolente profissão de fé: Eu Acredito.

Acredito em mim, acredito no futuro, acredito em não baixar os braços e em ir até ao fim do arco-íris.

Vamos todos atrás dos nossos sonhos, por favor? Mesmo, mesmo, até ao último sopro, o último instante? Porque nunca é tarde para tentar, para insistir.

E viver, nem que seja um só dia.

Fui dramática demais? Peço desculpa. Ou talvez não.

 

Laura Palmer

 

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15.3.15

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”O que queres ser quando fores grande?” é a pergunta levada à exaustão durante a infância. Crescemos, seguimos o nosso caminho, acabamos na faculdade, ou não, mas somos o que queremos ser, a nível profissional?! Temos as ferramentas necessárias para decidir, nessa altura, o caminho que tomaremos, três, cinco anos mais tarde?! Se calhar, não…

Ainda assim, temos, supostamente, o poder da escolha. Mas o estudo nem sempre nos leva à profissão nessa área. O menino que estudou para ser engenheiro, hoje trabalha num restaurante. A menina que estudou para ser jornalista, hoje trabalha numa loja. Empregos, esses, dignos como qualquer outro. Mas o sonho, a vontade, o querer ficou adiado. A profissão, o ofício que desempenha, fica apenas pelo ser, o querer passa para segundo plano. Desempenha-a por obrigação ou por necessidade, porque tem contas para pagar… não por vontade, ou sequer por vocação. É o tem que ser e, como se costuma dizer, o que tem que ser tem muita força. Nos entretantos perde-se a magia, perde-se a realização profissional, porque não há lugar para todos e, às vezes, nem sequer para os melhores. E a pergunta “O que queres ser quando fores grande?” perde a inocência e o entusiamo de outrora, quando se respondia: “Quero ser bombeiro. Quero ser astronauta. Quero ser cabeleireira.” O “quero ser” dá lugar ao “sou”, mas nem sempre com a palavra, ou com a profissão, que gostava que lhe seguisse. Não quer dizer que não dê o melhor na função que desempenha, mas acaba por faltar sempre qualquer coisa: sentir-se preenchido, realizado! No fundo, feliz! E a frustração acaba por ser um sentimento que vai crescendo… “Sou empregado de mesa, porque preciso de pagar contas” e não “Sou empregado de mesa, porque adoro o contacto com as pessoas”. Profissionalmente e, consequentemente, pessoalmente, fica-se pela metade, vive-se nos entretantos… E a pergunta “O que queres ser quando fores grande?” já deixou de fazer sentido.

 

Sandra Sousa

 

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13.3.15

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- Tens de ir para a escola, ser bom aluno, para teres notas que te habilitem a entrar numa boa universidade, num curso que depois te dê um bom salário e possas, assim, construir uma carreira.

- Excelente! Obrigadinha, ah!!”

Era mesmo isto que eu, enquanto jovem sonhadora, com a mente ainda pouco formatada, cheia de energia e vontade de fazer coisas, precisava ouvir.

Eu sei que temos dificuldade em lidar com a volatilidade, em aceitar o incerto, mas francamente… Não que eu tenha alguma coisa contra ir para a escola, tirar um curso universitário, ou ter sucesso num determinado percurso de carreira. Tudo isso é muito positivo e salutar, tanto para a pessoa humana, como para a sociedade. Mas convenhamos… temos de usar o nosso senso crítico para pensar nas coisas. Sobretudo se é do nosso futuro que estamos a falar. E mais: sem pensar criticamente, sem construir raciocínios sustentados, não conseguimos ampliar a nossa visão do que será o futuro, concretamente o futuro laboral.

Vamos aos factos. O que é que nós já sabemos empiricamente:

- que precisamos de ter um trabalho que nos pague as contas;

- que devemos procurar (leia-se capacitar-nos para) a autossuficiência financeira para não dependermos de pais, de subsídios, ou do Estado;

- que, contrariamente ao que acontecia há algumas décadas, temos previdência social, defendendo direitos em casos de deficiência, entre outros casos;

- que a legislação laboral visa a proteção dos trabalhadores, procurando, em sua essência, manter a dignidade nas relações entre empregadores e empregados;

- que hoje podemos aprender qualquer coisas e, portanto, desenvolver qualquer competência;

- que hoje vivemos na era do empreendedorismo, da gestão por projeto, do networking, das redes sociais, dos negócios online, das parcerias, da inovação em todas as áreas funcionais e de negócio.

Saber o que será o futuro do trabalho, para alguns, poderá funcionar como uma espécie de futurologia, para outros, é um exercício habitué de observação, de antecipação, não só de quais serão as necessidades futuras, mas da coragem de construir, com a profissão, a realidade que queremos, mesmo que isso implique quebrar as regras, mesmo que isso implique sentir borboletas no estômago, na peregrinação diária de fazer diferente.

 

Marta Silva

 

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11.3.15

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Caro Miguel:

 

Ficará surpreendido com esta minha missiva, mas preciso de dizer-lhe algo muito importante.

Quando nos conhecemos, o que viu de mim era ainda resultado de um processo muito duro pelo qual eu tinha passado – e sobrevivido, sim, mas a um custo muito elevado. Nunca me pude considerar uma azarada, dado que continuo viva e, agora, de boa saúde. No entanto, quem esperou ver-me saltar de alegria com todas estas evidências, ficaria muito desiludido se soubesse a meia pessoa que passei a ser desde então.

Sabe que tenho quase seis décadas de vida. Talvez as pessoas achem que já não devia gostar assim tanto da minha imagem ou do meu corpo; talvez haja até quem passe por isto e nunca sinta o que eu sinto, talvez. Mas, para mim, perder as duas mamas, foi algo devastador. Até àquela altura, sempre gostei de vestidos maravilhosos, de ir à praia e usar bonitos fatos de banho (enfim, podia dedicar várias linhas de texto a todas as coisas que eu fazia antes de e que me faziam sentir bonita), tinha vaidade em mim. Depois daquele cancro, depois dos tratamentos, das intervenções, de todos os procedimentos e emoções que constituíram aquele processo macabro, senti repulsa por mim própria, incapaz de me olhar no espelho. Incapaz de me despir à frente de alguém – bom, à exceção dos médicos que me seguem. Incapaz de fazer amor. Incapaz de me sentir capaz e mulher. Realmente Mulher.

“Mas o médico salvou-te a vida”, dizem-me muitos. Completamente verdade. Devo muito àquele serviço hospitalar e a todas as pessoas que há anos me tratam, cuidam, examinam, com um profundo respeito, dignidade e humanidade. Nestes oito anos, a minha gratidão por todos eles tem aumentado e é de facto incondicional. Sei que me vão salvando a vida, ano após ano, mas não tenho vivido feliz. Nunca mais fui plena. Sobrevivo porque continua a ser muito mais o que tenho a ganhar, do que a perder. Não sou ingrata nem cega a tanto de bom que ainda tenho, mas não tenho sido feliz na minha essência. Ninguém é feliz pela metade. Claro que o facto do meu marido se ter ido embora, impediu as pessoas mais próximas de me fazerem muitas perguntas. Parecia-lhes razão suficiente para que eu tivesse sempre alguma tristeza no olhar. Não estavam enganados, apenas desconheciam outras janelas da minha alma.

Quando o conheci, Miguel, acompanhando a minha filha mais nova na sua primeira tatuagem, não imaginava vir a fazê-lo. Sei que hoje em dia é muito comum ver pessoas tatuadas, não tenho qualquer tipo de preconceito a esse respeito mas simplesmente nunca havia contemplado essa possibilidade para mim própria. Curiosamente, pude perceber que ainda há um certo estigma quando finalmente decidi fazê-lo. “Com a tua idade, Constança, sinceramente? Mas ficaste maluquinha, foi? Só falta meteres-te também na droga e no álcool!”. Pouca gente entendeu e, para ser sincera, até eu cheguei a duvidar. Mas, no dia em que tatuou a minha filha e tive a sorte de conhecer aquela rapariga lindíssima (que foi tatuar uma cicatriz tremenda, resultante de um acidente terrível), fiquei impressionada com o que vi antes e depois. Aquele momento, aquele encontro, nunca mais me saiu da cabeça. Alguns dias depois, e pela primeira vez em muitos anos, senti coragem para realmente ver as minhas próprias cicatrizes. Toquei-lhes, senti-lhes a textura, olhei-me no espelho. Ouvi o grito da minha alma, calado e contido há tanto tempo. Chorei durante muitas horas. Gritei a raiva, a revolta, a dor, sem filtros e sem cronómetro. E decidi tatuar-me. Foi o presente que ofereci a mim mesma no meu 58.º aniversário.

Nunca pensei mostrar as minhas cicatrizes a alguém fora do contexto clínico. Nunca pensei que alguém lhes tocasse e, ainda assim, me devolvesse sorrisos genuínos e toda a simpatia do mundo. Ao longo das várias sessões resisti sempre a olhar – fiquei alérgica às metades de tudo, me parece. Depois do maravilhoso desenho que criou para mim, guardei essa imagem na minha cabeça e decidi simplesmente confiar em si. Cada picadela foi arrancando de mim tudo aquilo que já não me fazia falta: a dor, a perda, as memórias mais cinzentas. Viajei dentro de mim própria, sem precisar de pousar os olhos em nada externo a mim, em todas as sessões.

Perdoe-me ter saído a correr como uma tolinha, no dia em que acabámos esta obra de arte, mas o impacto que o resultado final teve em mim, estava para lá de qualquer expetativa. Não consegui fazer mais do que dar-lhe aquele abraço apertado e chorar como uma menina. O que lhe disse na altura, Miguel, ficou muito aquém do que verdadeiramente significou para mim: esta tatuagem mudou a minha vida.

Hoje fui à praia. Com cautela, bem sei que ainda é recente, mas já não podia resistir mais. Neste lindo dia de Verão, ao cair da tarde, estreei um fato de banho em quase uma década. Muita gente olhou para mim, curiosa pelo que podia ver das minhas flores. Entrei no mar, debaixo do sol, sem quaisquer complexos, no meio de tanta gente. Pela primeira vez nada me incomodou. Estava em paz, feliz, serena.

Quando voltei à oncologia, no mês passado, levava um vestido lindíssimo e um enorme sorriso na cara. Comentou o médico: “Está diferente… Mudou o corte de cabelo, a cor, talvez? Perdoe-me, não sou muito bom com estes pormenores de senhoras, mas há, definitivamente, algo de muito diferente em si.” Respondi-lhe que tinha renascido por ter voltado a achar-me bela, sobretudo por acreditar que nunca mais na vida voltaria a sentir-me assim. Ia caindo da cadeira quando viu a minha dupla tatuagem, mas rapidamente se recompôs e acabou surpreendido pelos detalhes, pela cor, pela beleza daquele trabalho. Este maravilhoso médico salvou o meu corpo, livrou-o daquela doença maldita. O Miguel salvou a minha alma. Estou-lhe profundamente grata por ter-me devolvido a autoestima, a vontade de viver em pleno, o amor-próprio. Sinto-me poderosa e bonita.

Obrigada, Miguel. Foi a coisa mais sublime que alguém já fez por mim.

 

Alexandra Vaz

 

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9.3.15

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O que faria na vida se fosse um milionário? Que trabalho faria?

São as perguntas que coloco àquelas pessoas que vão ao meu consultório e estão, ou desempregadas, ou num trabalho que abominam. E o que mais me espanta é que a maior parte não sabe responder. Ou seja, não sabem o que realmente gostam ou qual é o seu talento. Logo, aceitam qualquer trabalho. Portanto, é mais difícil sentirem realização profissional.

Incentivo sempre as pessoas a encontrarem a resposta a estas perguntas, pois é a resposta que vai servir de farol ao contentamento no trabalho, ou até mesmo a encontrar o trabalho ideal. Posso ser otimista, mas a minha experiência diz-me que se nos orientarmos por aquilo que gostamos de fazer, então acabaremos por encontrar a profissão mais adequada àquilo que somos. Então, deixa de ser um trabalho para passar a ser algo que ainda não tem designação. Porque é possível fazer aquilo que amamos. E o contrário também: é possível aprender a amar aquilo que já fazemos. E quando assim é, então tudo é mais fácil – sorrimos mais, não sentimos que estamos a ser sacrificados, ajudamos mais e somos ajudados; tudo flui.

Trabalhar é partilhar algo de nós para o mundo. Se o fizermos com alegria, então podemos ter a absoluta certeza que seremos recompensados!

 

Sara Almeida

 

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6.3.15

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Boa noite, vejo-te cansado, esgotado até… as tuas mãos trazem marcas de um trabalho pesado… o teu uniforme sujo e gasto perde para ti, pois o teu eu consegue ainda sentir-se mais gasto. Quatro estações repetidas infinitamente até à exaustão, durante as quais algo ou alguém fez-te esquecer que vales muito mais do que apenas a espera pelo final do dia… um final que dará início ao final de amanhã... mas ainda vejo aí dentro muito do que eras… muito do que te fará lutar por um novo início… um merecido início onde serás rodeado das palavras “Justiça”, “Mérito”, “Valor”, “Acreditar”, “Vencer”.

Quanto a ti… para onde viajou o sorriso que outrora te iluminava… naquele tempo de estudos, de aspirações e de planos futuros? Sob as tuas quarenta primaveras, sob o teu uniforme cinzento, igual a outros tantos, sei que ainda moram a determinação e o sonho por agora adormecidos. Não te sentes viva, sentes-te como uma máquina em plena linha de produção… rotinas repetitivas, sem espaço a opinião… sem lugar a sonhar ou a mostrar a quão valiosa artista poderias ser… se ao menos te deixassem viver.

Sim, utilizei a palavra artista… o que chamar ao fruto do nosso suor, senão uma forma de arte. Sei que não cantas, nem sequer me acompanhas numa dança… e tu, sei que os únicos quadros que pintas são as fachadas das casas que constróis… mas serão as telas em branco que utilizam para executar a vossa obra, menos valiosas que a tela de um qualquer pintor? Certamente que não, pois toda a forma de arte começa para todos de forma igual… uma folha em branco, uma tela despida, uma ideia ainda inexistente.

O homem da gestão, a doce professora que ensina, o senhor conhecido por consertar todo o tipo de calçado, o experiente eletricista… alguns pintam, outros tantos cantam, mas todos sem exceção encantam, pois todos somos artistas… todos produzimos arte.

Não deixem de acreditar no vosso poder de criação… não deixem que tratem o resultado do vosso trabalho como uma arte menor… não deixem que vos tratem de outra forma que não como artistas. Sonhem, lutem, sejam incansáveis, sejam o maior artista que alguma vez conheceram… valorizem-se e façam-se valorizar… e se procuram novas formas para expressarem o vosso valor, não se deixem vencer pelo arrastar dos dias… se já contam muitas primaveras, muitas mais terão ainda para contar… ainda é cedo para pensar que é tarde.

Encontrem a Arte que existe em cada um de vós.

 

P. Melo

 

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4.3.15

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À medida que vamos crescendo, a vida, mais pequeno incidente ou menos leve angústia, é fácil. Apesar das dificuldades, enquanto somos novos e sabemos o que faremos amanhã, a vida é fácil. Enquanto caminhamos sobre o apoio que nos diz o que somos e fazemos, é fácil. Escola, escola, escola, universidade talvez – mas, e depois? Há quem tenha claramente planeado a jornada que para si deseja, e há, também, quem se sinta perdido. Perdido, porquê? Porque não sendo estudante nem trabalhador, não desfrutando de sonhos nem lutando por eles, carece de amparo perante os ventos que o abalam. Mas não sendo isto nem aquilo, somos sempre mais.

Assim, quem trabalha tem, por outro lado, a tendência a criar com a sua profissão uma relação quase simbiótica. Consequentemente, sem o trabalho perder-se-ia a si mesmo. Sem dúvida que as exigências e a competitividade do mercado de trabalho, hoje em dia, gritam e arranham para que trabalhemos sempre mais e mais, sussurando camufladamente para que nos esqueçamos de nós próprios. Sem dúvida também que, por muito que o que fazemos nos comece a causar dor, queremos, acima de tudo, a oportunidade de continuar a fazê-lo e de extrair, do dia-a-dia cansativo, os possíveis e indispensáveis benefícios. Mas há que pensar que é para viver que vivemos e que enquanto uma profissão é uma profissão apenas, cada um de nós é bem mais do que isso.

Torna-se difícil não estudar nem trabalhar e não ter, assim, uma rotina que segure o dia-a-dia e que nos iluda de que somos o que fazemos. Contudo, aos poucos, vamo-nos apercebendo das capacidades do nosso ser e das potencialidades do que há de mais singular no nosso caráter. Então começa a haver algo mais – mais um apoio, mais uma pedra onde agarrar a mão que escorrega. Ora, mesmo quem imerge demasiado no trabalho e não procura estes outros apoios no mundo, precisa, por vezes, de um escape, de um outro ar, puro e verdadeiro – e então custa a encontrá-lo. Mas existe.

Definimo-nos pela profissão que temos; dispensamos procurar-nos mais para além. Imergimos mais e mais, pois a cada mês, a cada ano, somos mais aquilo que outra coisa. Mas cansa. Não vemos outra opção que não um esforço exponencialmente crescente, mas cansa. E se por ter profissão estamos a salvo da vida e dela nos isolamos, a vida não nos salvará da profissão quando para além dela não nos soubermos já reconhecer. Todavia, estamos cá, e seremos sempre mais que o que fazemos.

 

Isabel Pinto

 

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2.3.15

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Assim de repente, talvez facilitando ou simplificando, podemos considerar o domínio do fogo como o princípio desta história. Vem a propósito de o Homem ter passado a lidar com um objetivo de vida, anseios, sonhos e não apenas passar por aqui lutando pela sobrevivência.

Foi assim que pudemos passar a fazer outras coisas além de recolher o que havia ou passava à nossa frente para nos alimentarmos; foi assim que passámos a poder estabilizar num território e potenciar o que a terra dava através do que veio a ser a agricultura; foi assim que começámos a adaptar objetos, a construir ferramentas, para essa agricultura e para que a caça e a pesca fossem mais eficazes e produtivas, a criar condições e meios para levar a nossa produção excedente de uns locais para outros, por terra e mar ou rio, muitíssimo mais tarde, até pelo ar.

Bom, está mesmo a ver-se onde isto levou. Começámos a saber fazer coisas, a criar valor. Não teria sido assim tão de repente, mas a certo ponto começou a haver especializações - uns caçávamos, outros cultivávamos a terra, outros pescávamos; começou a haver produção a mais aqui que seria valorizada além, se a conseguíssemos levar até lá. Então o melhor era trocar o que eu tinha a mais pelo que outros queriam e não tinham. Bom, bom mesmo, era não nos limitarmos à troca direta, mas ter algo que servisse de medida e acumulação de valor para fazer trocas indiretas no modo e no tempo. Podíamos acumular valor, riqueza. Chamemos-lhe moeda - são precisas etiquetas para tudo. Aliás, tal faz parte da chamada especialização. Fomos sendo cada vez mais especialistas nas competências de ocupação que temos, à qual chamamos profissão.

Evolução maravilhosa, extraordinária, singular, em qualquer ser vivo! Lembram-se? Assim podemos ter sonhos, anseios de vida!

No entanto a moeda, sim essa moeda, diz a sabedoria popular, tem sempre duas faces.

O profissional é o que tem competência - saber fazer, mas profissional também pode ser o que chamamos àquele ser frio, pouco ético, um concorrente devastador e desleal.

O profissional com competências e regras adquiridas em tenra idade que proporcionavam um modo de vida, sucedendo muitas vezes ao progenitor no mester, tinha a sua vida solucionada até ao fim. Agora as profissões, a minha especialização atual, pode ser-me inútil, sem valor, num futuro próximo.

Na cara da moeda chamada profissão temos o profissional ético, na coroa o profissional mercenário. A profissão também pode ser uma forma de exercer cidadania, de servir a sociedade.

E quando não podemos ou conseguimos exercer a nossa profissão, uma profissão, o que somos? E podemos ter anseios, sonhar?

 

Jorge Saraiva

 

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