29.12.11

 

A Ana era ainda uma jovem menina quando foi violentada pela primeira vez. Uma dor que lhe tomou a alma de tal forma que deixou de se reconhecer. "Porquê eu?" era a sua pergunta mais frequente. Apesar de ter sido um estranho, sabia que em casa ninguém compreenderia o que tinha passado e, por isso mesmo, nunca contou a ninguém. Para a família e amigos, continuava a ser a criança que era, responsável e com boas notas, apenas um pouco rebelde na sua maneira de ser.

 

Passados dois anos o seu avô, a única pessoa que a conseguia confortar apenas com o olhar, morreu de um acidente estúpido que nunca ninguém lhe soube descrever. Mas como seria possível morrer assim de forma tão rápida e inesperada, sem que ninguém lhe dissesse uma única palavra? Como poderia aceitar esse vazio inexplicável?

 

Meses mais tarde a sua família desconstruiu-se e já nada era reconhecível: nem o estar, nem o ser, nem o ficar. E foi nesse momento que Ana soube que tinha que partir. Como poderia ela ficar no meio daqueles escombros de uma família com que não se identificava? Mas na verdade, no momento que se preparava, surgiram mil argumentos e desculpas e não foi... ficou!

 

Os anos foram passando e aqueles escombros que inicialmente repudiou, tornaram-se a sua casa, a sua forma de estar e até mesmo o seu ser. Sabia que nada de bom poderia vir e a descrença pela vida e pela felicidade era total. Como poderiam existir pessoas que se diziam felizes? Achava que certamente o diriam apenas da boca para fora, porque acreditava que a felicidade não existia e nada poderia ser tão cor-de-rosa quanto a tentavam pintar.

 

Depois de terminar o curso, de ter um bom emprego e um bom carro, Ana poderia ser considerada uma pessoa bem sucedida. Mas ela sabia-se derrotada. Derrotada por eles, derrotada pela vida e por uma série situações que não controlou e que agora já não conhecia o caminho inverso. Nessa altura sentiu que tinha chegado a um cruzamento: lutar ou desistir eram apenas as duas opções.

 

Desistir sem dúvida era o mais fácil, mas… como fazer o mais fácil se toda a sua vida tinha sido difícil? Porque não procurar o tal pincel da vida cor-de-rosa de que lhe falaram em tempos?

 

Pouco mais de um mês depois, estava sentada na esplanada de uma pastelaria na rua mais agitada da cidade. Faltavam poucos dias para o Natal e a agitação de carros e de pessoas era tanta que lhe fazia confusão. Ela estava simplesmente ali sentada, estática, com o seu interior apertado e sem reação... mas aquele momento não a preocupava, sabia que não era vazio o que sentia, mas nervoso. Olhou para o relógio: Faltavam 20 minutos para a primeira sessão que tinha marcado na semana anterior. O nome recomendado era Rita e essa era a única coisa que sabia dela. Depois de pagar a conta do lanche, seguiu para o prédio que olhava de longe. Subiu ao terceiro andar e entrou naquela pequena clínica embalada por uma música dos anos setenta. E tal como a música, todo o ambiente parecia ter parado décadas atrás. O que a esperaria para além daquela outra porta fechada que adivinhava ser a do consultório?

 

A verdade é que por detrás daquela porta saíram longas conversas, que ela não sabia se eram com a Rita ou se consigo mesma. Semana após semana, apenas as duas sabiam o que se libertava ali, um mundo construído muito para além dos escombros que vivia.


Os anos passaram. A Rita continua a trabalhar naquele pequeno gabinete e a receber pacientes hora após hora. A Ana, essa, já seguiu o seu caminho. Saiu de casa, deixou a família que a maltratava sem saber, encontrou um amor que vive em pleno e está grávida de 8 meses. Ficou radiante quando soube que iria ter uma menina, e já lhe pintou o quarto… de cor-de-rosa!

 

Cátia Azenha (ariculista convidada)

 

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26.12.11

 

O sol quente teimava já em entrar pelas frinchas distraídas da persiana. O quarto ia-se iluminando devagarinho, descobrindo a pouco e pouco um corpo entorpecido na cama, desajeitado, deitado ao acaso e ainda com as pantufas nos pés. A cama ainda por desfazer e, na colcha, a forma desenhada e amarrotada do peso do António. Lenta e dolorosamente, deixou-se tombar para o lado e esfregou os olhos contrariado. Com o peso do seu mundo sob as costas curvadas, levantou-se e apertou melhor o roupão folgado. Vagarosamente, deixou-se arrastar até à casa de banho onde um espelho pequeno e frio lhe devolveu um rosto sonolento e amargurado. Repetiu os seus rituais de sempre e regressou ao quarto. A cama esperava por si, sedutora e apetecível. Mas naquele curto instante, mesmo antes de se deixar levar pela força da gravidade e afundar no leito dormente da cama, António hesitou e deu um passo atrás. Naquele momento começou a ser um dia diferente, algo inédito nos últimos meses. Sentou-se na escrivaninha e arrastou para os lados as pilhas de livros desarrumados. António pegou numa folha perdida e numa caneta e fez algo que nunca tinha feito antes: escreveu uma carta ao seu pai. “Pai, as tuas críticas foram sempre muito duras e sinto que nunca estive à altura das tuas expetativas. Estou magoado contigo… Mas amo-te muito e tenho muitas saudades. Lamento tanto nunca te ter dito isto, tanto… porque somos tão orgulhosos?” A tinta continuou desenhar letras e palavras naquela que seria a primeira e última carta que António escreveria ao seu pai que havia sofrido um AVC fatal na Primavera. Quando terminou, quem estivesse muito atento poderia ver o atenuar subtil da sua curvatura.

“Uma já está!” – pensou António. Um pouco animado e sem saber muito bem como ou porquê, via-se agora decidido a arrumar cada uma das gavetas da sua alma. Aqueles sítios secretos onde vamos colocando tudo aquilo que nos toca e que nos dói, às vezes tanto ao ponto de as fecharmos a sete chaves. O pó que se vai acumulando dentro delas vai-se tornando cada vez mais dolorosamente denso, pesado. Juntamente com a poeira, cresce o medo e a vontade de evitar mexer ou remexer nestes compartimentos escondidos cuja morada apenas nós conhecemos. Porém, um dia acordamos e sentimos que já temos pouco de humanos, pois tudo aquilo que nos define e que nos impulsiona, as emoções, as angústias, os desejos, ficaram presos nestes pequenos baús. António, nesse dia, sentiu-se um pouco mais vivo. Guardou a carta num envelope distinto e vestiu-se à pressa. Ainda meio zonzo por todas as decisões que havia tomado em tão pouco tempo, apalpava freneticamente a desarrumação do seu quarto em busca das chaves de casa. O quarto, assim como toda a casa, era um pequeno caos. A sua alma, essa, começava agora a ser desempoeirada, aos poucos, gaveta a gaveta. Já na rua, António caminhava tranquilo, com as mãos nos bolsos e numa passada segura e decidida. O frio daquele entardecer de outono beijava-lhe a face e um sorriso desenhou-se nos seus lábios. A casa da sua mãe ficava a uma dezena de minutos de distância e, no entanto, desde o funeral do seu pai que não se falavam. Era tempo de arrumar mais uma gaveta…

 

Liliana Jesus

 

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22.12.11

 

“Desorganize-se! Tenha uma nova experiência de vida. Ajudamos a desorganizar-se. Contacte-nos.” Logo por baixo aparecia um número de telefone, um e-mail, uma morada.

Carolina ficou imóvel a reler tão estranho anúncio, impresso no seu jornal da manhã de sábado, habitualmente consumido com uma cevada dupla e um queque, no conforto do café, em mesa junto à montra, de onde lançava olhares esporádicos ao jardim fronteiro. Pensou ser absurdo. Absurdo, não – estúpido, é mesmo estúpido, acrescentou. Deve haver alguma ideia, alguma coisa por trás disto… Surpreendida e intrigada, Carolina esticou-se nas costas da cadeira. Toda a vida se esforçara em ser organizada, em otimizar a sua organização, em alguns aspetos tinha mesmo conseguido algum requinte organizacional. A sua casa, a sua família, o seu contributo laboral, eram claramente o resultado do seu esforço organizativo e gostava de pensar em tudo isso como um relógio em perfeito funcionamento.

Já em casa, após uma passagem pelo supermercado para as compras de sábado, o desassossegante anúncio não saía do pensamento de Carolina, provocando-lhe alguma irritação. Tinha de fazer alguma coisa! E fez. Telefonou para o número do anúncio.

A conversa, com aquele homem de voz suave e calma que transmitia tranquilidade, foi ainda mais surpreendente. Ele representava uma empresa que ajuda as pessoas a deseorganizarem-se, a sentirem a vida de forma diferente, a serem verdadeiramente felizes, como ele explicava. E como fazem esse trabalho? Fácil! Deslocam-se ao domicílio do cliente, analisam a sua vida em pormenor e entregam um plano de desorganização, para que o cliente o coloque em prática. E acompanham a aplicação do plano, dando consultoria e, eventualmente, introduzindo alterações no plano original, se a experiência revelar essa necessidade. Todo o processo está terminado ao final de trinta dias, ou seja, um mês depois o cliente está garantidamente desorganizado e feliz, ou então será reembolsado. Carolina estava paralisada. E todo aquele trabalho de análise, planificação e desorganização, até era em conta… Como não experimentar? Como provar ao idiota que criou tal empresa que tudo aquilo era completamente estúpido e impossível de concretizar? Carolina só encontrou uma resposta – contratar os serviços da “Não quero saber… – Consultores”. Nessa mesma tarde, em casa de Carolina, começou o trabalho de análise.

 

Uma semana depois, Carolina recebia o seu “PPD - Plano Pessoal de Desorganização”. Leu atentamente os seus sete pontos-chave e os detalhes pessoais que se seguiam a cada um deles: 1 – Guarde tudo pois um dia pode ser útil; 2 – Coloque qualquer coisa em qualquer lugar; 3 – Trate de tudo sempre na próxima semana; 4 – Nunca arrume - procure o que quer no meio da confusão; 5 – Use apenas a sua memória; 6 – Esteja sempre atrasada; 7 – Perca pelo menos um objeto pessoal por dia.

Ficou sem palavras, mas num impulso, o seu consultor pessoal de desorganização colocou mãos à obra.

 

Seis meses depois, Carolina sentia-se mais feliz do que nunca, sem vestígios de stress. Luís, o homem de voz suave e calma que transmitia tranquilidade, perguntou a Carolina, ao verificar o seu percurso de sucesso para a desorganização e felicidade:

- É possível viver com organização?

Carolina respondeu prontamente:

- Sim, mas não é a mesma coisa…

 

Fernando Couto

 

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19.12.11

 

Uma venda nos olhos... Não vendo os outros com este par de olhos, vejo-me a mim, melhor...

 

1º Passo. Respiração caótica. Expira, expira, expira, só expira! Pelo nariz, boca fechada. Sem ritmar pela música, deixo variar a batida da respiração, às vezes forço essa batida. Ah, seria tão mais fácil se a cabeça tivesse só um botão liga/desliga! Mas que posso fazer se é por aqui o caminho! Vai, vai, ajuda com o corpo, os braços fazem de fole. Chega o abismo, vou morrer! Com tanta expiração não sei por onde entra o ar. Não pode entrar ar! Será que quem inventou isto sabia o que fazia? Abro ligeiramente a boca, bebo um gole. Aldrabei... É para continuar! O tempo avança. “Último minuto”, diz uma voz tocando o meu botão de fogo. Vou todo, então. Sinto desfazer-se a coroa por cima da cabeça, enquanto as lágrimas já se formam no canto dos olhos...

 

2º Passo. Catarse! Explosão! O sonho mais secreto que cada um tem e reprime. Poder ser um louco absoluto por uns minutos. As lágrimas que se formavam jorram agora entre os meus olhos e a venda. Agarro uma almofada, um abraço a mim próprio... Vem mais, não sei bem o que há ali. Violento, assusta! Raiva condenada, mas raiva de quê? Teatro. Deito-me no chão e bato no colchão sem ter razão. Dois murros e as razões aparecem tão rápido que não sei como não me dava conta de que lá estavam. Não sabia que ainda estavas ali... Não sabia que já estavas ali... Foste. Agora mexo o corpo. Apetece-me tremer como se me preparasse para voar. Volta a tristeza, deito-me e choro. Eu sabia que estavas por ali... Assim me encontrou o sinal para o próximo passo.

 

3º Passo. Huu Huu Huu. Entre o céu e os pés no chão, um Huu saído ali abaixo do umbigo. Salto batendo com o pé todo no chão, enquanto os braços se mantêm erguidos ao alto, descobrindo esse som bem no fundo de mim. Assusta a batida forte dos calcanhares no solo. Parece que o corpo se pode desintegrar a qualquer instante. Mas sabe-me bem, cada vez me vai sabendo melhor. Sentir o pulsar daquela vibração pelo corpo acima. Começam-me a doer os ombros... Sei bem o que é, as dores da responsabilidade. A responsabilidade sobre o que está fora, com a qual ainda me entretenho, mais esta nova responsabilidade funda sobre mim próprio. No próximo passo vou passar mal... Esquece o próximo passo! Agora é este e devolve-me o eu.

 

4º Passo. Stop! Parou nesta posição! Sem mexer. Observo primeiro o fluxo de energia correr corpo acima. Mas vêm as dores nos ombros. Os braços começam a baixar um pouco, um pouco mais, baixam mais ainda. Vem o julgamento, o meu julgamento... Não me importa. Vou aproveitar como posso, como sei. Isto é meu, não é de quem inventou a meditação. Observo estas duas forças, a que me leva os braços para baixo e a que os mantêm em cima. Num momento sinto os braços muito em baixo e volto a levantá-los ao alto. E assim fico até a música começar.

 

5º Passo. Dança! Celebração! Milagre! Estou só ali a balançar ao vento do meu ser. Sinto o nascer do sol aparecer por detrás da venda e viro-me para ele. Cai uma lágrima em mim. Feliz por estar vivo. Feliz por estar eu.

 

Um mergulho no lago, nu, e o dia pode começar.

 

Vladimiro Fernandes (articulista convidado)

 

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15.12.11

 

Quando era pequena, adorava brincar à florista. O meu quarto tornava-se a minha loja, a minha cama era a minha bancada. Nela colocava os mais diversos recortes de flores com o maior cuidado, separadas por tipos e cores. Demorava horas a instalar a minha bancada, este era o propósito da minha brincadeira. Sentia-me dona do meu jardim, nada me escapava. Uma vez a minha bancada montada, já me sentia tão cansada que as minhas poucas vendas eram muito rápidas, só serviam “para picar o ponto” e de seguida arrumava tudo até uma próxima vez. As minhas brincadeiras acabavam sempre por adotar o mesmo esquema, estivesse eu a brincar à florista, às casinhas ou à cozinheira, espalhando flores, panelas ou roupas, adorava expor, organizar e arrumar, só pelo prazer de colocar tudo em ordem.

 

Hoje posso dizer que sou uma pessoa metódica mas já lá vai o prazer das arrumações. Tenho pouca paciência para dispor as coisas por cores ou tamanhos. Sou organizada porque não consigo viver de outra forma. Não posso dizer que sinta prazer em arrumar e muito menos em limpar; tornou-se um mal necessário, talvez porque o “fazer de conta” deu lugar ao “ter que ser”. A minha finalidade deixou de ser a viagem mas sim o destino, de preferência rápido, para poder fazer mais coisas, para cumular mais tarefas. Quando era pequena, brincava às arrumações porque tinha tempo, agora, faço arrumações para não perder mais tempo. Detesto procurar algo que não encontro simplesmente porque não estava arrumado. Cada segundo que perco a procurar faz nascer em mim uma fúria descomunal, prefiro mil vezes despender tempo em organizar do que em procurar aquilo que perdi; parece-me mais compensatório.

Mesmo assim, há alturas da minha vida em que o meu quarto parece um campo de batalha ou o cesto da roupa suja ameaça explodir. Há dias em que não faço nada, deixo para o dia seguinte, que vem a seguir ao seguinte. São geralmente fases que não duram muito tempo. Deixo-as vir e ir. Aos poucos, consigo recuperar alguma energia e alguma ordem na minha vida, que coincide geralmente com alguma ordem na minha cabeça. Quando tudo fica arrumado, volto a sentir-me mais segura, mais ativa e divirto-me a pensar que assim controlo melhor a minha vida.

 

Estefânia Sousa

 

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12.12.11

 

Abro a mala. Está completamente desorganizada. Peças espalhadas, misturadas entre si, numa confusão que revela o meu desleixo. Não me apetece organizar. Aliás, não me apetece. Nada! Sinto-me um caos. Olho em redor e todo o mundo parece estilhaçado. A vontade de fechar os olhos e assim permanecer, é forte em mim.

Olho-me ao espelho. Deixei-me cair nesta trapalhada. Quantas vezes a vontade de fechar os olhos, na esperança que ao abrir tudo está no seu devido lugar. Tudo está correto. Tudo está no sítio. Tudo faz sentido!

Porém, o desalento instala-se. A vontade de me organizar é nula. Quero esquecer, ou melhor, quero avançar para o futuro sem passar pelo processo intermédio. O da organização. Mental! Estalar os dedos e… voilá!

Mas não dá! Estou presa neste vício de olhar para o lado. Ignorar o caos que me rodeia, que não é mais do que um reflexo de mim. Dos meus estilhaços interiores.

 

Quem é que, em algum momento da vida, não se sentiu assim?

 

Cecília Pinto

 

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8.12.11

 

18:16.

Ok, ainda tenho tempo.

Deixa-me lá lembrar onde pus a receita para a farmácia…

 “Fogo! Que gajo doido! Passou-me cá uma tangente!” Há cada vez mais malucos na estrada. Ok, eu não sou muito melhor...

Se bem me lembro, acho que enfiei a receita naquele monte de papéis que andam na carteira há semanas. Tenho mesmo de fazer uma limpeza àquilo. Já não sei o que tenho p’ra lá. Não faz mal, quando estacionar, procuro.

Se tiver tempo, ainda passo no supermercado. Do que é que eu preciso mesmo?! Leite… água… sumos… raios! Falta-me mais qualquer coisa. Não faz mal… quando chegar lá, tento lembrar-me.

“Oh pá! Desliga-me esses máximos!” Outro maluco.

Amanhã, quando chegar ao trabalho não me posso esquecer de enviar aquele mail. Já o devia ter enviado. Como é que pude esquecer-me?! “E o trânsito que não anda!...” A culpa é minha, devia ter saído mais cedo. E o mais estúpido é que podia tê-lo feito, mas pus-me na conversa…

Por este andar, já não vou poder ir ao supermercado! Será que falta algo para o jantar? A propósito: O que vou eu fazer para o jantar? O que há no congelador? Devia ter encomendado carne no talho… Não faz mal, quando chegar a casa vejo o que há e desenrasco qualquer coisa.

Ei… é verdade, lembrei-me agora que não deixei comida para a cadela. Será que ela ainda tinha comida na tigela? E água? Raios! Que cabeça a minha!

Espero que a caldeira hoje funcione. Ontem foi lindo, sem água quente. Esqueci-me de lembrar o João para telefonar ao técnico. Será que ele se lembrou? Por falar nisso, hoje não lhe liguei durante o dia. Espero que ele não tenha ficado chateado comigo. Não faz mal, logo dou-lhe mais miminhos para compensar.

 “Que música irritante!” Mais vale ir de rádio desligado.

 

18:35.

Boa! Já estou atrasada. Era bom que houvesse um lugar para estacionar.

”Vá lá! Saia da frente!” Que mania desta gente, parece que estão aqui a morrer na estrada. Se não têm pressa que vão a pé!

Ok carrinho, vais ficar mesmo aqui. A polícia não deve aparecer hoje.

Receita, receita, onde estás tu? Tanto papel que eu tenho p’raqui. Boa! Ainda tenho rifas para o sorteio do Natal do ano passado. Tenho mesmo de limpar isto. Ah ah! Aqui estás!

Pronto… tinha de começar a chover agora!

Eu tinha um guarda-chuva… Eh… deixei-o ontem na casa da minha mãe. Por falar nisso, não me posso esquecer que os convidei para almoçar lá em casa no dia… ah sim, dia 11. Isso é de aqui a quanto tempo? Hoje são… 7. Raios, é já no próximo domingo. Que vou eu fazer para o almoço? Tenho de pensar numa receita fixe e que não seja muito complicada. Amanhã, no trabalho, quando vier da reunião vou um bocadinho à net para me inspirar. Por falar nisso, ainda não preparei os pontos para a reunião. Penso nisso logo, enquanto estiver a fazer o jantar.

Pronto, vou sem guarda-chuva. Que se lixe! O chato é que estou a ver que já não tenho tempo de ir ao supermercado.

 

- Desculpa filhote. A aula já acabou há muito? A mãe atrasou-se…

- Não faz mal mamã. Já estou habituado…

 

Teresa Moura (articulista convidada)


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5.12.11

 

Não quero nada. Nada, ouviste bem. Estou farto de tudo que me tens dado. Se isto é tudo, não quero nada. Quero que me deixes em paz, que não me sugues mais a alma e o tutano. Desgraças-me. Destróis-me. Desorganizas-me. Raios te partam, mulher, és o tornado da minha vida. Quero odiar-te, descobrir em ti pormenores horrendos, curvas de enjoar, algo que me faça virar-te as costas e respirar de alívio. Quero gritar contigo, gritar na tua cara, encher-te de perdigotos ácidos. Gritar a sério. Quero que me odeies. E vais odiar-me quando eu gritar, para um quarteirão inteiro ouvir, que sou miserável a teu lado. Que não me fazes feliz, que me irrita profundamente essa tua maneira de ser. Imaginar-me contigo, daqui a vinte anos, dá-me vontade de chorar como um menino. Tira-me o sono. Revolve-me as entranhas. É isto que te vou dizer e tu vais odiar-me, ah vais. Como é possível ser-se assim, como tu és, esse ser irritante que defrauda o meu sonho de felicidade, sempre que respira o meu metro quadrado de oxigénio?

 

Mais ou menos aqui no meu discurso, vais sentar-te (sim, até agora estiveste de pé), com os olhos marejados e o lábio inferior a tremer, e olhar para mim como se o mundo pudesse acabar nesse instante. E achas, porventura, que isso não me preocupa? Preocupa, pois. De tal forma que ainda não consegui fazê-lo. No entanto, gosto de imaginar que acontece, tal e qual como o visualizo, e que nem chegas a percebê-lo. Sonho que te arranco o tapete debaixo dos pés e te deixo cair, desamparada. Era bem mais fácil se me desses um motivo para o fazer. Um erro teu, pequenino, uma incongruência que encobrisse a minha covardia e me deixasse escapar incólume. O José queixou-se da mulher uma noite destas, num dos nossos jantares das quintas-feiras. Pelos vistos, a Amélia tem tido mais aulas de Pilates do que as que paga. O homem não dorme, não sossega. E eu, a ouvi-lo, cheio de vontade de o abraçar e dizer: “Parabéns, amigo. Que sorte a tua! Já podes mandar essa deslavada à fava e viver à grande.” Era o que eu queria ter dito mas os olhos cheios de lágrimas do José impediram-me de abrir a boca. Quão patético consegue ser um homem destroçado pelo ciúme?

 

Quem me dera, Leonor, que fizesses algo assim. Que arranjasses um amante, um vício, uma mania, uma desculpa cómoda para eu te deixar. Insistes em ser a mulher perfeita, tudo absolutamente imaculado: a casa, as minhas roupas, as refeições. És pontualíssima. Sorridente. Competente. Bonita. Inteligente. Paciente. Irritantemente fiel. Todos te adoram. Todos me lembram o quão perfeita és e a sorte que tenho em te ter como mulher. E eu, furioso e cáustico por dentro, sorrio, simplesmente. Como lhes poderia explicar que a perfeição, afinal, não chega, se eu próprio não sei porquê? Como lhes ousaria revelar que, aquilo a que chamam perfeição, talvez não passe de total concordância, insossa e violenta? Como? Só me resta esperar de ti a falha, o erro que não vou perdoar, para me ver livre de ti. Então erra, pelo amor de Deus, erra. Faz qualquer coisa que transgrida a estrutura organizada da tua – nossa - vida. Deixa-me usar o teu erro a meu favor e sair bonito na fotografia. Deixa-me culpar-te por não te querer, assinar em baixo com letra sofrida, e abrir os braços ao mundo para que este me absolva da minha sacanice. Vá lá, Leonor, não sejas egoísta…

 

Alexandra Vaz

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1.12.11

 

Bom, agora coloco aqui este monte de papel, as esferográficas ali e aquele canto fica para os arquivos. Está impecável. Limpinha. E cheira a novo. Assim dá gosto. Vou mantê-la sempre assim. No dia seguinte, no fim do dia, verifico se está tudo no sítio, desligo o candeeiro e abalo satisfeito. Dois dias depois, no resto da semana, todo o mês, todo o ano, todo o tempo, o mesmo procedimento, a mesma energia, a mesma motivação: deixo sempre a minha secretária imaculadamente asseada. Ao meu mundo mantenho-o assim, arrumado, estável e controlado. Sou feliz assim.

 

A secretária da minha colega, por seu lado, está arrumada com a delicadeza de uma escavadora. Não sei como é que é possível! Está tudo fora do sítio. Aquela mesa envergonha os piores teatros de guerra. Por vezes nem o computador desliga. O mundo dela é um caos. Ninguém pode ser feliz assim. Ela dantes não era assim. Há muito que não nos falamos. O trabalho não deixa. E eu também não quero. Ela andava a cansar-me lá com as coisas dela.

Ela é uma besta, só pode. Quem é que consegue trabalhar naquelas condições? E aposto que aquelas gavetas estão cheias de tralhas velhas e inúteis. Se bem que raramente as abra. Provavelmente para que eu não sinta o cheiro de uma fatia de pizza por lá esquecida há dias, sei lá. Ou para que eu não veja o resto da anarquia. Ou, o mais certo, não as abre porque não cabe lá mais nada. Ah Ah!

 

As minhas não: na de cima estão as coisas de uso comum, os clipes, o agrafador e o furador, as minas, os marcadores fluorescentes e as cargas para as esferográficas, claro; na do meio, que é maior, estão as pastas dos documentos urgentes e a correspondência a expedir; na última, a maior de todas, estão as minhas coisas pessoais, postais, fotografias, recordações da minha infância, gentes da minha história, uma bola de golfe autografada, o número do jornal da empresa quando fui o funcionário do mês em 2003, o recibo do jantar com a Isab… Hum… Não! Com a Elsa (aquilo não deu em nada mas comi lagosta), o galhardete da Junta de Freguesia pela participação no torneio de xadrez do ano passado… Eu sei, eu sei: sou um pouco vaidoso.

 

Agora que penso nisto, talvez espreite as gavetas dela… Deixa-a ir-se embora… Não! É melhor não mexer. Pode notar… Notar o quê? Naquela confusão? É! Ela hoje sai mais cedo e eu vou aproveitar. Aposto que estão cheias de lixo.

Foi-se. É agora. Hum… Deixa cá ver: gaveta de cima… Tal como suspeitei: lixo. Batons, vernizes das unhas (alguns abertos e secos), escova de cabelo, uma almofada de pó-de-arroz esquecida, uns cartões de lojas, uma lima das unhas, coisas de gaja. Deixa ver a segunda: revistas, recortes de vestidos, fotografias de quintas para casamentos, um livro sobre decoração de interiores, outro sobre maternidade e este aqui, eh eh, dicas de autoajuda. Deve ser para a ajudar a arrumar a secretária. Agora estou curioso: o que é que ela terá na terceira? Hum… Está leve. Parece vazia. Está vazia! Vazia? Deixa-me espreitar. Não! Vou abri-la toda. Que é isto? Uma rosa em cima da fotografia da filha?

 

Joel Cunha

 

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