29.4.10

 

A Morte é o desaparecimento de uma pessoa querida, é uma separação. E de carácter irreversível; dramática e definitiva, sem a esperança de um possível regresso. Uma mudança súbita que pode pulverizar a vida de quem fica.

São muitas as pessoas que permanecem fiéis à recordação da pessoa amada, passando o resto da sua vida como que “hibernados”, porque não conseguem fazer o luto nem aceitar a perda. Isto lembra-me um filme de Hollywood, Espírito do Amor, que aponta precisamente, de modo comovente, as etapas necessárias ao desapego. Demi Moore, depois de ter perdido o namorado num desastre, põe-se em contacto com o seu fantasma através de um médium (Whopi Goldberg), e, pouco a pouco, aprende a “deixá-lo ir”, para recomeçar a viver.

 

Um luto pode, por vezes, levar a evoluções inesperadamente positivas. Foi o que aconteceu com Mary Higgins Clark, a famosa autora americana de thrillers. Viúva aos 35 anos, com cinco filhos para criar, depois do choque inicial decidiu experimentar vender algumas novelas. Para distrair-se com a disciplina da escrita, mas também para ganhar a vida. Assim nasceram os primeiros romances. Agora tem 70 anos, é milionária e já vai no terceiro casamento.

A Morte põe, por vezes, fim a um conluio, a uma cumplicidade que havia consolidado o casal, mas bloqueado as energias dos parceiros. Bloqueio esse que impede a liberdade de cada um como pessoa, a sua autonomia, por viver apenas em relação ao outro, a pensar sempre no outro, esquecendo-se de si mesmo. Não será isso um certo tipo de Morte?

 

Sónia Moura Sequeira

 

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26.4.10

 


- “Deus morreu, Marx também e eu mesmo já não me sinto lá grande coisa.” Não me parece interessante continuar a falar de um tema que se esgota em si mesmo. Deixemos as especulações sobre a morte para os fracos e para os devaneios dos românticos decadentes.  


Álvaro procurava assim pôr termo a uma conversa na qual não via qualquer utilidade. Considerava que o tempo gasto a falar sobre a morte era tempo roubado à vida. Usava a frase de Maio de 68 como um semáforo vermelho e normalmente intimidava o interlocutor.


- Pois para mim, esse é o “tema”. - enfatizou Luís - Aquele que dá sentido à vida ou, se quiseres, a morte como princípio da verdadeira vida. Se não acreditasse nessa vida para além da morte, num propósito, num desígnio, restar-me-ia o vazio, o nada a que remetem as tuas palavras. Reduzir o sentido da vida à nossa passagem terrena, seria demasiado pouco. O Deus de que falo, ilumina a minha vida.


Álvaro pensou: “Olá, hoje temos luta, vou ter de me aplicar”.


- Não remeti para o nada. Se o nada pudesse existir, já seria alguma coisa. Remeto para o fim das nossas vidas terrenas e para a recusa de uma outra vida nascida da imaginação. O argumento que utilizas, baseado no conforto e em Pascal, não me convence. Não se acredita por decisão. E se tal fosse possível, não seria aceite pelo teu deus, que certamente preferiria o céptico verdadeiro ao utilitarismo do crente.


- Mas então, em que é que tu acreditas, se recusas Deus e o nada?


- Acredito que fazemos parte do cosmos. Acredito que as partículas de que me componho surgirão mais tarde fazendo parte de outros conjuntos. Posso imaginar-me em parte numa pedra, em parte numa árvore e ainda na unha de um orangotango e por aí fora. Mas, apesar de tudo, prefiro ver-me a integrar uma flor, a fazer parte de um lago, de uma estrela errante e, como ainda sobram bastantes partes, a completar o olhar de uma criança que, junto de um lago, contempla o firmamento.


- Um romântico, afinal! – disparou Marta com malícia.


- Assumido, mas não decadente…


- Nada do que conhecemos tem o aspecto de ter sido concebido, a menos que o tenha sido. Esta obediência a um desígnio só nos pode conduzir a Deus – apressou-se Luís, receando que os remoques desviassem a atenção do tema.


- Não devias ter parado em Tomás de Aquino. Devias ler Darwin – replicou triunfante Álvaro, que gostava de exibir os seus conhecimentos e descobrir os nomes dos autores, em especial quando a citação não era explícita. Era uma outra forma de intimidação, mais sofisticada.


- À medida que a ciência avança, aumenta o reconhecimento de que sabemos menos do que pensávamos saber antes.


- Sabemos cada vez menos, sobre cada vez mais. E se existir um deus, mas não existir vida depois da morte? E se houver vida depois da morte mas deus não existir?


Quanto mais receamos a morte, mais difícil ela se nos afigura, já que se alimenta dos nossos medos, tornando a morte mais dolorosa do que a dos animais, que nada sabem. Do que realmente temos medo não é da morte, mas sim da vida que acaba. Mas como seria insuportável se fossemos condenados à vida eterna na terra! Vivamos a vida como uma oportunidade que não se repete. Encaremos a morte como uma dádiva para que outros possam viver. Aceitemos a morte como um sono. Um sono eterno.


- Recusas não só Deus, como toda a metafísica…


Álvaro apercebeu-se que a conversa caminhava para o fim e não resistiu:


- “Come chocolates, pequena; come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates”.


- Fica com o teu homónimo que eu fico com a fé no meu Deus, que é mais doce que o chocolate e mais belo que o teu lago.


 


José Quelhas Lima


 

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22.4.10

 


A palavra ritual, tal como está descrita no dicionário, vem da palavra rito que quer dizer, sucintamente, “ordem prescrita das cerimónias que se praticam numa religião” (in http://www.priberam.pt/DLPO/). Nesta linha de raciocínio, falar dos rituais da morte implicaria falar das celebrações levadas a cabo pelas diferentes religiões aquando da morte de alguém, como é o caso da “câmara ardente”, típica do catolicismo. Neste caso particular, a família “faz turnos” em redor do corpo, enquanto diferentes pessoas, mais ou menos próximas, vão fazendo fila para dar “os sentimentos” e oferecer flores ornamentais. O ambiente é pesado e silencioso e os olhares são de pena. A cerimónia dura o dia todo e o corpo é enterrado no dia seguinte.


 


Como não me identifico com este tipo de ritual desactualizado e penoso, e como considero que os rituais da morte vão muito além daquilo que são as celebrações religiosas logo após morte, vou abandonar a definição mais convencional.


Pensar em rituais da morte, na minha perspectiva, implica pensar em todas as celebrações/acontecimentos que mais directamente se associam à morte, quer ocorram antes, durante ou após a mesma, sejam desenvolvidos pela família, pelo próprio ou por amigos. E falar em morte implica ter em conta todas as suas formas: velhice, doença, acidente, suicídio, homicídio, etc.. Deste ponto de vista, há todo um leque de situações passíveis de serem incluídas na definição de rituais da morte.


A filha que vai todas as semanas à campa dos pais e dos sogros lavar a pedra mármore e ornamentá-la de flores, executa um ritual de morte. A viúva que veste preto anos a fio, usa as duas alianças e guarda os pertences mais significativos do marido perto da cama, executa um ritual de morte. A mãe que perdeu o filho e que, passados anos, mantém o quarto do menor intacto para manter a sua memória viva, também executa um ritual de morte. Os amigos que se reúnem para jantar no dia de aniversário do amigo falecido e relembram os momentos passados, também executam um ritual de morte.


E o doente cancerígeno, apenas com 2 meses de vida, sem hipótese de recuperação, que começa a decidir o destino dos seus bens, tenta realizar os últimos desejos e despede-se de todos os seus familiares. Ou o idoso, proprietário de um jazigo, que morre após meses na cama, porque desistiu lentamente de viver e cujo único ritual era pedir a Deus, todos os dias, que o levasse. Ou o suicida, que planeia com meses de antecedência a sua morte – a escolha do local, o método, as palavras finais num papel – celebrando-a pouco a pouco como uma conquista. Parece-me que todos estes comportamentos, cujo único motor da acção é a morte, devem ser considerados rituais de morte já que estão directamente relacionados com a mesma.


 


A morte faz parte da nossa vida. E todos nós executamos rituais de morte pois todos nós conhecemos alguém que morreu, pensamos na nossa morte e na morte daqueles que mais amamos. E os nossos rituais, tais como os rituais que descrevi, assentam fundamentalmente em um de dois conceitos opostos, o da aceitação e o da negação. Nesta linha de raciocínio, com qual dos conceitos te identificas quando lidas mais directamente com a morte?


 


Ana Gomes


 

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19.4.10



 


Sou jovem, nunca me morreu ninguém que amasse; já tive medo que isso acontecesse, mas não é a mesma coisa; a minha profissão também não me coloca em contacto com a morte. À minha volta, a morte não é um assunto presente. Parece-me que isto acontece com a generalidade das pessoas; diria que a morte é algo de que nem sequer nos lembramos no dia-a-dia, ocupados com a tarefa de viver. Por isso não diria que é um tabu - nada tem de interdito, de transgressão, de moralmente chocante; de todas as realidades, a morte, o grande destino comum, é, com certeza, uma das mais consensuais.


Ao nível macro, não é difícil falar de morte. Quase todos os dias há notícia de mortos pela guerra, danos colaterais ou mortos pela fome; mais do que a morte em si, as circunstâncias poderão chocar; os ilustres também morrem de vez em quando na televisão e facilmente a reacção a estas notícias é de algum pesar. Nos últimos tempos tem-se intensificado a discussão de questões adjacentes à morte, como a eutanásia, a distanásia, o suicídio ou a importância dos cuidados paliativos. Somos capazes de reconhecer em algumas religiões, práticas espirituais e alguma poesia, pelo menos, a recomendação da consciência de que vamos morrer um dia como essencial para uma vida melhor vivida.


 


Mas é verdade que estamos habituados a associar à morte temor e sofrimento, só mitigáveis através de uma fé. Seja pelo término da vida que se conhece e o absoluto desconhecido que se segue; seja pela dor da perda alguém querido; seja pelo receio de sofrer ou ver sofrer até à consumação da morte; seja por receio do julgamento final, o divino ou o próprio.             


O que poderá fazer da morte tabu, como assunto de que é difícil falar, não será a morte em si mas o facto de acontecer em casa - de se tratar da nossa morte, da morte de alguém que amamos, ou da morte que faz sofrer alguém que nos é querido - e de nos obrigar a abrimo-nos profundamente; é a aproximação à intensidade de sentimentos que lhe está associada, em que as referências deixam de servir e nós deixamos de estar no comando. O tabu da morte é o tabu da entrega absoluta.


 


Ana Álvares


 


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15.4.10

 


A morte bate-nos à porta todos os dias, na televisão, nos jornais, ou quando perdemos familiares, amigos ou conhecidos. Não é escondida e é muitas das vezes explorada, mas, ao mesmo tempo, é encarada com receio, com medo, como uma espécie de tabu individual.


 


Receio da incerteza? Insegurança perante o desconhecido? A morte aparece sempre mais ou menos envolvida num manto de mistério. É um acontecimento que temos como certo, que aparece de surpresa, mesmo para aqueles que esperam por ela. Uns anseiam-na como prémio esperado por um percurso de vida condicionado pelo fim da existência, outros vêem-na como solução para os seus problemas, como um fim para uma vida de sofrimento, Outros ainda, receiam-na e, inclusive, sentem terror perante o seu pensamento.


Numa tentativa para explicar esta ansiedade, entendida como um medo difuso, ou mesmo medo de algo concreto, alguns estudos referem que as pessoas com maior medo da morte tendem a vê-la de forma mais negativa e temem-na mais à medida que envelhecem. Outros estudos mencionam que o medo da morte aparece associado a três dimensões: ao próprio significado subjectivo da morte, à lamentação face ao passado do não concretizado e, finalmente, em relação ao futuro, porque a pessoa verifica que não pode atingir todos os objectivos propostos dada a finitude da sua vida. Há alguns dados que mostram correlação entre a ansiedade face à morte e a espiritualidade e religiosidade. Parece que as pessoas com elevada ansiedade face à morte vivem mais insatisfeitas em comparação com aquelas que sentem uma baixa ansiedade, o que é compreensível.


 


Claramente, a “fé”, seja ela qual for, tem um papel fundamental na forma como se encara a morte e a vida e o seu sentido.


Epicuro, filósofo grego nascido em 341 A.C., examina a morte como não sendo nada. Ele diz: “A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais.” Será o nada, o não mais ser? Ou o portal para o tão aguardado prémio ou temido castigo?


Por outro lado Immanuel Kant apresenta-nos um pensamento audaz: “Se vale a pena viver e se a morte faz parte da vida, então morrer também vale a pena…”


Será uma passagem, uma porta para outra dimensão, o acesso a outro nível de consciência, o encontro com a nossa alma, o regresso à nossa essência espiritual?


Certezas? Para poucos. Dúvidas - diria eu - são muitas e preocupam a maioria das pessoas.


 


A morte poderá ser decisiva, poderá ser o fim em si mesma, mas também pode ser compreendida, sentida, chorada. Pode ser entendida como lição de vida e de amor das pessoas que fizeram parte do nosso mundo individual, que recordamos com saudade e que deram, e dão, sentido à nossa existência fazendo parte de nós e da nossa história.


Vale a pena o atrevimento de sermos felizes, de sermos o que quisermos, de fazermos o que decidirmos e de viver intensamente cada minuto como sendo o último, e único, porque nada está garantido. E a vida? É tão frágil!


 


Ana T


 

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12.4.10


 


A morte chega cedo


 


A morte chega cedo,


Pois breve é toda vida


O instante é o arremedo


De uma coisa perdida.


O amor foi começado,


O ideal não acabou,


E quem tenha alcançado


Não sabe o que alcançou.


E tudo isto a morte


Risca por não estar certo


No caderno da sorte


Que Deus deixou aberto.


 


Fernando Pessoa


 


 


 


É breve toda a vida e longa toda a morte…


A longevidade da morte é o que nos assusta… com a morte surgem sentimentos como culpa, raiva, medo, saudades, solidão, desespero, melancolia, ansiedade, e associado surge o choro… Estes sentimentos surgem porque nos apercebemos que é o fim, o fim de uma vida, o fim de tudo e que não mais existe… A morte é uma perda… A morte faz-nos questionar o porquê de tudo… Pode também a morte ser esperada ou inesperada, ao ponto de podermos dizer “eu já o esperava” ou então “não contava que acontecesse”.


Podemos dizer que morrer significa: deixar de viver… e o deixar de viver não significa só deixar de existir pois, por vezes, pessoas que embora ainda vivam por possuírem sinais vitais não vivem, sobrevivem!… ou seja, morreram para a vida! Acarretam muitas vezes um fardo e a morte para elas seria a sorte grande, outras vêem a morte como uma saída, uma fuga… uma fuga para os problemas!


A morte pode ser vivenciada de várias formas, nem todos reagimos da mesma maneira… O afecto, a relação que temos com a pessoa vai determinar a forma como encaramos a morte, a sua previsibilidade, a própria personalidade, entre outros factores… Contudo pode concluir-se que, em quase todos os casos é difícil encarar a morte de alguém…


Com a morte surge o luto, uma dor… e este luto pode ser comum, pois é normal todos passarmos por um processo de dor que é passageira, e por outro lado pode ser patológico - o luto permanece mal resolvido ao longo do tempo!


Todos passamos por um processo de luto… que acarreta algumas fases e algumas respostas! O luto é então um processo natural de vida… e constitui uma fase transitória… mas muitas vezes não sabemos como gerir todo este cocktail de sentimentos!


Deixo então uma questão: porque é tão difícil a morte, ao ponto de não sabermos o que dizer, por exemplo, a um amigo que perdeu alguém querido?


 


Liliana Pereira


 

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8.4.10


 


Colocarei o problema de forma simples.


Todos sabem como é fácil e como é difícil viver em sociedade. Todos sabem, ou calculam, como é fácil e como é difícil viver só.


É fácil viver só porque nos teremos libertado dos inúmeros problemas que a convivência nos traz, inevitavelmente.


E é difícil viver só, porque não sabemos viver uns sem os outros (direi, sabiamente à maneira de M. de la Palisse).


Viver em sociedade é fácil - parece que é naturalmente que dependemos uns dos outros no aspecto afectivo e no material. E é difícil pelo mesmo motivo – dependemos uns dos outros se bem que não saibamos viver uns com os outros.


Se fôssemos todos iguais, é provável que não houvesse problemas de coexistência, mas somos tão diferentes que complicamos o nosso relacionamento com dificuldades que muito presumivelmente não merecem que nos ocupemos delas nem que nos preocupemos com elas. Só porque somos diferentes. E porque não aceitamos as diferenças como outras tantas possibilidades, faculdades, poderes.


Gostamos de gozar a nossa liberdade e não queremos saber de fronteiras. Mas não há forma de vivermos uns com os outros em paz e sem fronteiras que limitem a liberdade de cada um. Inventaram-se as regras e as leis para isso que por vezes é penoso – para que não colidamos. Todavia podemos e devemos interagir, nós que habitamos todos o mesmo sítio do universo por muito que o sítio se movimente em rotação e em translação num espaço infinito. E ainda temos desejo de conhecer outros sítios e conviver com habitantes de lugares, para já, desconhecidos.


 


Como proceder então sem conflito?


Considero que no meu mundo há aqueles com quem convivo e que não quero que sejam estrangeiros (a quem tenderei a culpar de todas as faltas), quero conhecê-los bem; e há todos os outros que também são meus vizinhos; há o que acontece à minha volta (e desejo interpretar correctamente); e há o desejo de ausência de sofrimento em mim (o que me permitirá ver com clareza e ajudar os outros a ver). Esquecer-me-ei um pouco de mim própria, bastante, mas aumentarei a minha capacidade de ver mais além e, do mesmo passo, ampliarei o seu, deles, e meu bem-estar.


 


“Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”, disse Jesus.


Ensinou pelo exemplo – amorosamente. A sua vida foi coerente com a doutrina que pregou, baseada em mandamentos divinos. A transcendência, acentuaram-na os discípulos.


 


Ouso considerar que a filosofia budista tem um sentido mais prático, mais dia-a-dia e talvez mais possível de conciliar com… Ou melhor usa uma linguagem e um método fácil de adoptar na vida de hoje. (Que me perdoem os seguidores, se não é assim). Um método acessível, digo. Mas, na verdade, há um longo caminho espiritual a percorrer.


 


É uma arte de viver aqui agora e pode ajudar-nos nisto que é fundamental para a nossa existência colectiva: sentirmo-nos bem a interagir com o mundo sob poucas regras e barreiras. Bastante próximos. A sentirmo-nos bem e solidários e interessados no que acontece à nossa roda e mais além.


 


Em face da realidade que temos, precisamos de mudar, sem dúvida. Mudar a visão do mundo, a maneira de estar, a maneira de pensar. Mudaremos primeiramente o jeito de pensar. Compreenderemos o que se passa connosco. Por que agimos de modo egoísta. E por que razão, isso, nos faz sofrer.


Descobriremos as causas do nosso sofrimento e do dos outros e tentaremos suprimi-lo. Dado que a ignorância das razões do sofrimento dos outros nos leva a distorcer a realidade e, ao contrário, o conhecimento das causas nos leva a uma consciência clara do que se passa… interessa-nos saber e fazer uma apreciação justa da realidade.


 


Começo por me interrogar se é a nossa natureza sermos egoístas. Se é a educação que nos leva a querer ser de outro modo e por isso sofremos. Sentimo-nos bem quando praticamos o bem. E sentimo-nos mal quando fazemos sofrer e quando vemos sofrer, é certo.


 


E acontece termos necessidade de ser altruístas por muitas razões inclusivamente económicas. Por outro lado, sabemos ser possível modificar a nossa forma de pensar, treinando a mente. Esse treino pode levar a uma alteração de funcionamento do cérebro, dizem os sábios.


 


Num momento extraordinário como o recente enorme desastre na ilha da Madeira, toda a gente se solidariza e contribui e trabalha para minimizar o sofrimento dos atingidos. As barreiras são abatidas e todos procedem de forma altruísta.


Sabemos que não é uma posição rotineira, comum.


Pensamos então que, se é possível em certas circunstâncias modificar a postura habitual, egoísta, por que não ser generoso mesmo fora de um contexto de cataclismo? É necessário transformar a nossa relação com o sofrimento, nosso e alheio, quero dizer, sermos naturalmente generosos e solidários e empenhados.


 


Uma forma de conseguir a mudança na nossa maneira de pensar é pela meditação tal como a entende a filosofia budista e de que tenho falado com frequência no meu blogue, O fio de Ariadne.


 


Meditar visa substituir a “urgência mental” em que quase sempre nos encontramos por uma paz profunda. E essa paz, que é nossa, tende a expandir-se e a tomar todo o espaço à nossa volta. E a ser passada a outras pessoas, criando um clima propício à clara compreensão dos problemas. Importa-nos esse estado de espírito, sereno, que nos levará à consciência e ao conhecimento.


 


Uma meditação de alguns minutos é a pausa que permite quebrar a cadeia dos pensamentos que provocam agitação interior e se encadeiam uns nos outros sem fim. Naturalmente, sentimo-nos mais livres e abertos nesses momentos. Com certeza, sentimo-nos em paz. E generosos.


A nossa maneira habitual de pensar é transformada, porque do emaranhado confuso que eram os nossos pensamentos antes de os disciplinarmos pela meditação, sentimos essa tentativa de silêncio como uma pacificação. Possivelmente de pronto voltamos à agitação.


 


Contudo, ficámos a saber o que é a paz e a calma interior a que aspiramos; e que nos é possível alcançá-la já que conhecemos as circunstâncias que a provocam. Talvez compreendamos a “verdadeira natureza das coisas”, isto é, o que elas são antes que as “nossas fabricações mentais” se sobreponham e as modifiquem.


 


A importância de disciplinar ou de ordenar os pensamentos, ou antes, a sua escolha (o que mais me seduz) é que, possibilitando que uns me ocupem e eliminando outros, deixo espaço na mente para desenvolver e elaborar ideias curiosas, permitir que elas me conquistem - deixo-me conquistar por elas, e trabalhar (com elas) no sentido da invenção, da descoberta, da realização da obra.


 


O meu desejo é não me deixar dominar por pensamentos que embaraçam a minha vida de forma escusada e inútil. Que se encaracolam e se colam a mim. Esses indesejáveis… devo exclui-los, se aspiro a um conforto. E fico, não apática, mas com espaço que preencho rapidamente com ideias que desejo construtivas se pretendo realizar alguma coisa que tenha importância para a minha vida, e para a vida.


Têm como referência, em geral, análises excessivas de palavras, de gestos, de entonações de outras vozes que quero a todo o custo interpretar à minha maneira. Mas, ao querer decifrá-los, estou muito provavelmente a culpar outros das minhas falhas, e logo sou levada por essa análise equivocada para situações de relacionamento muito delicadas e mesmo dramáticas, sempre infelizes. Para situações de conflito que levam a agressividade e a violência. Que noutra dimensão conduzem à guerra.


Porque as acções que empreendo, sejam quais forem, resultam dos meus pensamentos. E são proveitosas ou nocivas de acordo com esses pensamentos e com o ambiente, tranquilo ou agitado, em que nasceram.


O que significa que a importância de um acontecimento depende da minha atitude perante ele, não tanto do acontecimento em si. É possível que reaja de forma emocional, num primeiro momento mas, se em seguida for capaz de julgar tranquilamente, esmiuçando e diferenciando, encontrarei o ponto de clareza que me vai permitir actuar de forma justa. De maneira nenhuma, ficarei indiferente.


 


Afirmo de novo que a meditação me permite divisar que ideias… arriscarei excluir do meu espírito e as que devo acarinhar. Serenamente.


Continuo sem saber se somos naturalmente egoístas ou naturalmente altruístas – isso deixou de ser importante desde que acredito que é possível alterar a estrutura de pensamento.


Cultivar e desenvolver qualidades que permitam construir uma sociedade menos conflituosa, mais afectuosa, mais culta é realizável.


 


Direi que da abordagem… não ingénua mas confiante, aberta e generosa da humanidade, da realidade, da natureza das coisas… a uma sociedade menos conflituosa, é um passo de lógica ariadneana.


 


Não estou a falar de um sonho com que se ocupam meia dúzia de pessoas de boa vontade, desejosas de perceber e de melhorar o mundo. Sinto que vale a pena e é urgente estudar este pensamento e experimentar as práticas aconselhadas.


 


Zilda Cardoso


(escritora, convidada do MiL RAZõES...)


 

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5.4.10
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Aos dez anos já Eduardo sabia o que queria ser quando fosse grande. Queria ser médico e a sua escolha estava fundamentada. O médico, por um lado tinha um conhecimento vasto e científico, o que o atraía e fascinava, e por outro lado utilizava o seu conhecimento para ajudar pessoas, para salvar vidas, o que lhe dava a perspectiva de plena satisfação pessoal.


Aos onze anos já Eduardo entendera que ser médico significaria ser escravo da sua profissão, pois não seria capaz de se negar a ninguém que dele necessitasse. Escolheu então um outro caminho: ser engenheiro. Esperou que tivesse um nível equivalente de conhecimento científico. Já sabia que não teria o envolvimento humano do médico, não ajudaria directamente ninguém, não salvaria vidas. Mas poderia ter uma vida mais sua, mais livre.


E como seria se não conseguisse? E se os seus pais não tivessem como pagar-lhe o curso? Que escolhas lhe restariam?


Conseguiu. E começou a trabalhar. Ao fim de alguns anos tinha já um bom estatuto, com um bom rendimento.


 


Aos trinta e poucos anos começou a sentir a falta do lado humano, de mexer com pessoas, de tentar minorar sofrimentos. Desejou aprender coisas novas, criar, inovar, mas para aliviar as angústias e os medos dos outros.


Com mais alguns anos vividos entendeu que as pessoas eram a matéria que queria, de facto, trabalhar. Porque não percebeu isso mais cedo? Há um tempo para tudo e tudo necessita de ser amadurecido. Queria abandonar os números, as máquinas, os loucos objectivos, o efémero comercial, a falsidade dos sucessos, a mentira das excelências, o artificial do espectáculo encenado para vender um pouco mais, a qualquer preço. Queria dedicar-se às pessoas, às suas necessidades básicas: emoções, afectos, sentimentos, saúde, dignidade, relacionamento, integração.


Mas, como fazer para mudar de vida? Como perder estatuto, como perder rendimento? Como pagar as contas? Como cuidar da família? Como assegurar o futuro dos filhos?


Foi então que Eduardo percebeu que não tinha escolha. O passado definira e condicionara o seu futuro. Eduardo percebeu que se tornara, voluntariamente, num refém. Num refém em busca de liberdade.


 


FCC


 

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1.4.10

  


 


A Sr.ª Escrita convidou as outras artes para um lanche. Chegou cedo para fazer as honras, escolheu uma bonita esplanada em frente ao mar e uma mesa onde pudessem banhar-se de sol naquele final de tarde luminoso como há muito não havia, naquele Inverno que parecia não querer acabar.


Enquanto aguardava foi olhando à sua volta e cada pormenor lhe agradava mais do que o outro. O mar, de tonalidade enganadora, ora azul ora verde, salpicava de espuma branca a areia da praia que hoje estava ainda mais dourada. As gaivotas, em grupo ou isoladas, completavam este quadro de perfeita harmonia.

A Sr.ª Escrita experimentou uma suave tranquilidade e logo se encheu de vaidade por se sentir o meio preferido dos Humanos para descrever um momento assim. Com sorte, se a pessoa que a usar o fizer bem feito, provoca reacções, descobre emoções, mexe com a natureza humana. Ela, Escrita, quando usada com regras, forma uma língua que, por sua vez, pode ser identidade de uma Nação. Sentiu-se muito importante e desta conclusão deu nota à Sr.ª Música que entretanto tinha chegado.

 

A Sr.ª Música não quis ser desagradável com a amiga, mas logo ali deixou claro que a Sr.ª Escrita não tem o exclusivo de mexer com a natureza humana; ela também o faz e há muito mais tempo. Tem vindo a acompanhar o homem desde o seu início e reforçou o seu argumento:

- O som que ouve, das ondas a desmaiarem na praia, repare, ouça com atenção, não contém uma melodia? Estou em toda a parte - basta que me queiram ouvir. Tenho várias filhas, a que os humanos chamam correntes musicais; elas também são identidades dos lugares onde nasceram. Quem como eu enche estádios e movimenta massas com o único objectivo de ser ouvido? 

 

A chegada da Sr.ª Pintura e da Sr.ª Fotografia interromperam a divagação da Sr.ª Música, não sem algum desagrado desta, a qual, não querendo ser incorrecta, incentivou a Sr.ª Pintura a falar do seu papel. E ela falou. A sua principal preocupação é realçar o que há de belo nas pessoas, nas coisas, nas paisagens nas acções, etc.. E sente-se muitas vezes injustiçada por não ser verdadeiramente compreendida. Facilmente chamam horrível ao belo, tendo como único argumento o não gostarem. Mas até no horrível se pode encontrar uma parte bela.

- Reparem - chama ela a atenção – os fuzilamentos de Góia parecem horríveis, não é? Na realidade as práticas foram muito piores. Eu pego na realidade e torno-a menos agressiva.

 

A Sr.ª Fotografia, sempre tão parca em palavras, não quis terminar o lanche sem defender a sua causa:

- Pois a mim custa-me aceitar ser tão ignorada no mundo das artes. Não fosse eu e como poderiam os humanos registar cenários de guerra, acontecimentos importantes como os casamentos, os baptizados, isto para não falar da imprensa, revistas e jornais. Saiba a Sr.ª Escrita que muitas das revistas não são lidas, mas apenas vistas pelas suas fotografias. Eu, como a Sr.ª Pintura, também reproduzo uma realidade, mas ao mesmo tempo fixo o momento.

A Sr.ª Fotografia acaba a lamentar-se por já não serem os mesmos tempos, os tempos em que as famílias se engalanavam para ir ao fotógrafo e, depois de lhes chamarem a atenção para o passarinho que nunca existia, tiravam uma fotografia para a posteridade.

 

O Sr. Cinema, que nasceu mudo mas rapidamente evoluiu, pese embora ainda não ter passado de 7.ª Arte, é um verdadeiro cavalheiro. Não quis interromper as Senhoras quando chegou, mas logo que pôde entrou no diálogo e, bebericando uma bebida cor de chá mas com cheiro duvidoso, disse:

- Eu até aceito a deselegância de me pagarem o lanche se alguma das Senhoras me revelar um método mais simples de aprendizagem e indicar indústria mais rentável do que a minha. Vejam por exemplo o que acontece nos E.U.A. e na Índia! Não houve de facto argumentos e as contas acabaram à moda do Porto - cada um pagou o seu e cada um foi para seu lado cumprir a agenda.

 

Quando a Sr.ª Escrita entrou na sala de exposições foi recebida pela Sr.ª Música Ambiente. As Sr.as Fotografia e Pintura já estavam expostas nas paredes e, num lugar mais reservado da sala, já estava o Sr. Cinema - um filme sobre o autor do livro que ia ser lançado aquela noite.

Os personagens, já nossos conhecidos, entreolharam-se e respeitaram-se mutuamente. O Sr. Cinema quis divertir as Damas e piscou um olho, a imagem desapareceu do ecrã. Logo um técnico veio repô-la - pensa ele, porque o que aconteceu foi que o nosso amigo voltou a abrir o olho.

As Senhoras das artes riram muito e muito baixinho, tão baixinho que ninguém as ouviu...

 

Cidália Carvalho


 

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