29.11.13

 

Querido amigo,

 

Escrevo porque sei que estás zangado e não queres falar comigo. De resto, ultimamente andas sempre muito zangado e sem vontade de falar. Percebo-o e respeito o teu silêncio, ainda assim, escrevo e desejo ser compreendida neste exercício de liberdade que está longe de te querer provocar algum incómodo.

A esta altura da minha carta já estarás a pensar que és livre de falar com quem e quando muito bem te apetecer. Afirmas assim a tua liberdade. Pois bem, falemos então de liberdade e de como eu a fui sentindo ao longo da minha vida.

Entrava na adolescência quando se deu o 25 de abril de 1974, que ficou conhecido para a História como, o dia da liberdade, deves lembrar-te certamente!. Fui esculpindo a minha personalidade e a minha formação pessoal no mesmo sentido em que a palavra liberdade se vulgarizava, a tal ponto, que o conceito ficou reduzido à possibilidade de se poder falar. Ouvia as pessoas opinar sobre partidos e ideologias, justiça e o que a ela faltava enquanto tal, de teorias de mercados que fazem funcionar a economia, de um Estado interventivo para acabar com as desigualdades sociais facultando o acesso ao ensino, à saúde e a melhores condições de vida, de finanças e sistemas financeiros, instrumentos de alavancagem para o desenvolvimento pessoal e das empresas. Enfim, de tudo um pouco mas com tudo a ficar na mesma.

Afinal, parece que a liberdade de expressão, só por si, não resolveu o problema das pessoas.

 

Levantam-se vozes discordantes. A família é posta em causa e o amor passa a ser livre, sem amarras nem compromissos. Os mais jovens negam as tradições, as mulheres cortam os cabelos, os homens deixam-no crescer, os concertos de rock e todo o estilo de vida associado, ganham adeptos, consomem-se drogas e estimulantes, vivem-se tempos de uma eufórica rebeldia. Muitos querem viver nessa euforia permanentemente, recusam voltar a uma realidade que lhes desagrada.

Os hábitos mudaram mas a liberdade de atitude, só por si, não fez de nós pessoas mais felizes.

 

Democratizaram-se as artes. Todos parecem ter algo a transmitir, seja na escrita, na música, na pintura ou em outras expressões culturais. Mas o talento não é democrático e à arte não basta a expressão de sentimentos mais ou menos bem articulados. Não basta descrever, é preciso escrever. O resultado foi a proliferação de publicações de livros de escritores que nunca o foram, vidas que deviam ser privadas, expostas em praça pública, música de qualidade duvidosa.

Afinal, parece que a liberdade criativa, só por si, também não nos elevou como seres humanos.

 

Sabes uma coisa, amigo, penso muito sobre estas questões e quer-me parecer que a liberdade poderá passar por um processo coletivo, mas liberdade talvez seja mais simples do que isso, talvez seja fundamentalmente um processo individual. Isto é, serei livre se me sentir livre. E sabes quando é que me sinto livre? Poderá parecer estranho mas é assim que eu sinto e, mesmo que a esta altura da carta o teu amuo ainda não se tenha rendido, vou na mesma falar-te do meu processo individual de liberdade. Sinto-me livre quando, frente a frente com a minha consciência, e só com ela, sem medos, sem pressões e tiques sociais, tomo decisões e sinto que sou capaz de responder por essas mesmas decisões. Nessa altura sim, sinto-me livre. Sinto-me bem. E é por isso, amigo, que mesmo sabendo que não queres falar comigo, tomei a liberdade de te escrever porque a minha vontade o ditou e a minha consciência o encorajou. 

Até sempre, aceita a minha amizade e fica bem.

 

Cidália Carvalho


Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:00  Comentar

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